Angústias no aquário do mundo - Modesto Carone
A tragédia brasileira: romance-teatro - Sérgio Sant’Anna
As sementes de Flowerville - Sérgio Rodrigues
Contos sobre tela - Vários autores
20 poemas para o seu walkman - Marília Garcia
A cadela sem Logos - Ricardo Domeneck
Dois que não o amor - Diana de Hollanda
Cenas de Mortes Vulgares - Érico Braga Barbosa Lima
Sinfonia em branco - Adriana Lisboa
Memória dos Barcos - Marcelo Moutinho
O cão de olhos amarelos & outros poemas inéditos - Alberto da Cunha Melo
O delicado abismo da loucura - Raimundo Carrero
O tempo além do tempo - Ivan Junqueira
Pelo fundo da agulha - Antônio Torres
A nave de Noé - Família Ramos Amado
Tarde - Paulo Henriques Britto
Faz que não vê - Altamir Tojal
O transplante é um baião-de-dois - José Maria Cançado
Veneno antimonotonia - org. Eucanaã Ferraz
Os segredos da ficção: um guia da arte de escrever narrativas - Raimundo Carrero
Apresentações - Millôr Fernandes
Angústias no aquário do mundo - Modesto Carone
Há quase 10 anos sem publicar ficção, desde o vencedor do Jabuti “Resumo de Ana”, de 1998, Modesto Carone acaba de lançar “Por trás dos vidros”. Trata-se de uma reunião de contos retirados das obras anteriores “As marcas do real” (1979), “Aos pés de Matilda” (1980) e “Dias melhores” (1984), às quais foram acrescentados textos inéditos em livros, publicados de forma esparsa em jornais, revistas. De início, não só pela qualidade do que escreve, o escritor de Sorocaba nascido em 1937 tem pelo menos uma lição aos escritores mais jovens: lidar com o tempo, sem a ânsia de publicar livro todos os anos sob um certo medo de desaparecer dos sedutores holofotes literários.
Essa paciência permitiu que o novo livro fosse montado aos poucos, conferindo-lhe antes a coesão de uma obra inédita do que uma antologia de melhores momentos. Conforme afirmou recentemente na Festa Literária de Parati (Flip), Carone retira o material dos seus contos da experiência vivida, optando pelo foco nas dimensões mais sombrias da condição humana. O texto curto comporta bem essa possibilidade de foco nas minúcias, nos detalhes, nos recortes mínimos.
É no território do mínimo, portanto, que os personagens de Carone se situam. No caso de “Por trás dos vidros”, eles estão fechados, compactados, em situações de recolhimento geralmente indicadas pelas frases iniciais das histórias, quase sempre emblemáticas, como a do primeiro conto “O Natal do viúvo”: “É tarde, a chuva bate nos vidros, ele está sentado num canto da sala. Talvez apóie o rosto numa das mãos ou cruze as pernas mas não se percebe nenhum movimento.” É dessa imobilidade – ou, ainda, a sensação de imobilidade – que tratam quase todos os contos do livro. Assassinos, suicidas, idosos obsessivos, todos os personagens acabam por fazer um movimento reflexivo diante de situações angustiantes, marcados ainda por uma cruel lucidez.
Uma vez que Carone é tradutor da obra de Franz Kafka, não é de se estranhar que algumas características do escritor tcheco sejam encontradas no livro. A própria perspectiva realista, a impotência diante de mudanças bruscas, além de um próprio ritmo de escrita são encontrados. No entanto, a prosa de Carone é madura o suficiente para se declarar autônoma. Sua voz habilidosa disseca a nossa sociedade como uma alegoria para aqueles que, reclusos na grande redoma urbana, vêem a própria limitação refletida no vidro quando tentam olhar para fora.
Embora alguns contos pudessem ser suprimidos do livro por não coadunar com o todo, como “Mabuse” e “As marcas do real”, o livro possui um conjunto realizado com coesão. O recurso da primeira pessoa – voz com que são narrados quase todos os contos – permite essa contemplação intimista das simbologias com que o autor trabalha. Esse aspecto é mais facilmente perceptível nos contos menores, que se insurgem como flashes introspectivos, ou mesmo naqueles divididos em fragmentos numerados. Convém assinalar que o caráter abstrato dos contos se dá a partir de situações absolutamente concretas, como a observação do crescimento de pêlos, a insuficiência de um cinto, as frestas de uma janela.
Nesse sentido, o último conto, “Utopia de um jardim-de-inverno”, pelas suas características, pode representar belamente o próprio livro como um todo. Nele, é descrito o cotidiano lento da natureza no interior de um jardim-de-inverno. A calmaria do ambiente funciona como um tipo de antiaquário, com uma descrição plácida de um sentimento de liberdade (por isso utópica) num espaço fechado: “Isso significa que é preciso ter um mínimo de familiaridade e traquejo para perceber o que mudou no mundo complicado de uma estufa”. Diferente dos outros contos, aqui a sensação de incômodo é substituída por um tipo de contentamento resignado diante do que seria uma limitação física.
Com “Por trás dos vidros”, Modesto Carone confirma seu lugar na literatura brasileira ao retratar a vida tentando vê-la com lentes translúcidas, porém acinzentadas.
A tragédia brasileira: romance-teatro - Sérgio Sant’Anna
Com
muita razão, a literatura de Sérgio Sant’Anna, além de seu refinamento em termos
técnicos e de exploração temática, é apontada como uma das mais instigantes que
vêm sendo produzidas. Os quatro prêmios Jabutis concedidos ao autor carioca
apenas confirmam a qualidade de seus livros, que conseguem mergulhar de forma
eficaz em questões da atualidade sem se renderem a metáforas simples ou ao
receituário da prosa convencional e mercadologicamente palpável. Pelo
contrário, o autor não faz concessões que venham a desagradar os seus poucos e
fiéis leitores – cada obra sua vende em torno de 5 mil exemplares.
Em boa hora, a Companhia das Letras reedita “A
tragédia brasileira”, livro de 1987, considerado uma das mais relevantes obras
de Sérgio. Embora a sugestão do título possa remeter à situação política
contemporânea por que passa o país (e não é de todo arbitrário que se faça essa
leitura), trata-se de um casamento de texto teatral e romance, cujo enredo de
desenrola a partir do atropelamento de Jacira, uma menina de 12 anos, em 1962.
Embora as menções diretas ao contexto sócio-histórico dessa época sejam sutis,
o período em que se passa a história traduz o tom de um conjunto de forças em
conflito fervilhando no caldeirão que viria a explodir dois anos depois.
O caldeirão do livro é mexido por um
Autor-Diretor, que orquestra uma espécie de jogo de camadas envolvendo a
montagem da peça e sua própria vida, acrescentando ainda poesia, ensaio e
roteiro de teatro. Esse bailado entre as atmosferas, conduzida habilmente por
Sérgio Sant’Anna, confere ao leitor a possibilidade de também imergir nos
ambientes descritos.
Sobressai na obra um teor humorístico, em que a
matéria literária, ao passar pelos filtros do autor, adquire um aspecto de
carnavalização, no qual a sucessão de simulacros inverte a todo tempo os papéis
duplos de pureza/pecado, inocência/culpa, sagrado/profano, como na fala de um
personagem denominado Bispo, em que explica a natureza dos milagres atribuídos
à menina morta: “Os cegos andam, os surdos vêem e os coxos escutam. Eis o
verdadeiro milagre do Senhor.”
Nas
mãos do Autor-Diretor, a própria criação artística se torna objeto sobre o qual
surgem ponderações: “Só me resta criar coisas bonitas, pois a beleza – a beleza
maldita – me redime. Sou um artista. Minhas obras são doentes e sofridas, mas
não posso parar de fazê-las, porque para mim seria a morte.” O processo da
transfiguração entre fato e literatura – outra constante na obra do autor –
está sempre em questão. “A tragédia brasileira” é, portanto, um jogo de
espelhos em que a criação vai se desdobrando a partir e em torno de si mesma.
Esse
diálogo com outras manifestações estéticas, como artes plásticas, teatro e
cinema, acaba também por abrir possibilidades de a obra literária de Sérgio
Sant’Anna ser diretamente convertida para esses meios. No caso do cinema,
apesar de a adaptação de “Senhorita Simpson” ter gerado o parco “Bossa nova”,
de Bruno Barreto, estréia nos próximos meses a esperada versão de “Um crime
delicado”, pelas mãos de Beto Brant. Pelo seu conteúdo complexo e rico e atual,
uma nova montagem de “A tragédia brasileira” seria bem-vinda para o
leitor-espectador da boa obra artística.
As
No romance “A caverna”, José Saramago desenhou um
futuro no qual as pessoas viveriam em grandes shoppings, chamados Centros, onde
moradia e consumo enfim atingiriam o mesmo nível, sem que se saiba onde termina
um e começa outro. Uma realidade que já está chegando e contra e qual é
impossível se desvencilhar sem cair na total marginalidade.
Em “As sementes de Flowerville”, primeiro romance do
jornalista e escritor Sérgio Rodrigues, o mundo está nas mãos de
megaempresários que comandam seu império da janela de um prédio, em perspectiva
panóptica. Um deles, Victorino Peçanha, é o dono do condomínio Flowerville,
cuja contraparte é o seu empreendimento fracassado chamado Nova Esplanada.
Peçanha, que em cada fala insere um termo em inglês, enriqueceu após ter
herdado um posto de gasolina e se locupletado com privilégios de militares que
em dado momento teriam exercido o poder. Deles, restou o general Boaventura,
escudeiro subserviente do empresário.
Passado o período militar, o ambiente do livro sugere
que o mundo foi regido pelas leis de consumo voltado para a classe média. Em
torno desse nivelamento é que Peçanha tem seu projeto: salvar a democracia.
Para isso, contrata o matemático Neumani (que reside em Nova Esplanada) para
encontrar um meio de conferir ao voto de cada indivíduo o peso que seja de
acordo com a sua posição social: “Tratar todo mundo como igual é uma mistura de
demagogia e preguiça, dois defeitos graves dessa democraciazinha esclerosada
que a humanidade tem praticado.” Com esse tipo de manobras é que a rede de
influências do magnata vai se aumentando, o que revela o sistema moral predominante
no universo do romance: destituído quase totalmente de escrúpulos.
Algumas pistas indicam que a história se passa num
futuro tenebroso, como a idéia de urbes decadentes e dominadas por
megacorporações, além de características do aparato tecnológico (celulares que
comprovadamente causam câncer, e por isso são proibidos), imagens já tão
disseminadas pela ficção científica. Outros elementos sugerem que tudo se passa
num período antes do nosso (um personagem era da turma de Direito em 1949; a
data da solução do Teorema de Fermat). Essa indefinição pode dar a entender que
tudo não passa de uma crítica direta aos nossos dias, ou apenas confundir o
leitor que queira se situar num tempo cronológico mais específico.
Esse e outros pontos podem ser visto como negativos. O
livro não se define nem como uma obra de ficção científica de crítica social,
como um mero entretenimento, tampouco se assume como um romance policial leve e
sarcástico. A linguagem coloquial não esconde que há variações de tom
narrativo, que em certos momentos dança em maneirismos e noutros resvala numa
reflexão mais formal e séria. Esses aspectos, no entanto, não impedem que “As
sementes de Flowerville” seja uma leitura divertida.
Flowerville poderia ser facilmente plantada na Barra da
Tijuca, com seus condomínios auto-suficientes onde se fala cada vez mais um
inglês forçado, assim como Victorino Peçanha e seus of courses. As sementes
mencionadas no título, além do que é revelado somente no final do livro, podem
ser também o resultado estéril do sexo oral que as prostitutas adolescentes
aplicam no empresário sobre a sua poltrona mole da grife Sérgio Rodrigues, como
é mostrado ironicamente no trecho inicial do romance.
Uma vez que Baudelaire tenha afirmado que o poeta é o
herói da modernidade por sobreviver num mundo em que o lirismo se tornou
desnecessário, a discussão sobre a (in)utilidade da poesia – e do fazer poético
– se tornou uma constante nos estudos literários. Quem é esse que ousa provocar
o inusitado nessa realidade de palavras e pessoas cimentadas? Se tal arte tem
se revelado dispensável para a existência contemporânea, por que se insiste
nela? É possível ser poeta sem se submeter aos aplausos pequeno-burgueses nos
eventos em bares e centros culturais, muitas vezes realizados pelo modismo de
um suposto renascimento da poesia?
Muitas dessas respostas podem ser encontradas em
“Guesas de Eros” (Maricá/RJ: Blocos, 2000. 680 págs.), do carioca Paulo Bauler.
Grandioso em qualidade e extensão, o volume é dividido em cinco partes, que
isoladamente já dariam excelentes livros: “O caminho de São Eros”, “Guesas de
Eros”, Bocagianas brasileiras”, “Beautiful Maíra” e “Delírio Antropofágico”.
Este último, como afirmou Gilberto Mendonça Teles na orelha, pode ser visto
como “um dos mais ecléticos manifestos literários para o novo milênio”, uma vez
que se trata não de poemas, e sim de fragmentos em prosa, à melhor maneira de
Oswald de Andrade – como está subentendido no título –, impregnados de humor instigante e fino.
Uma leitura ingênua e desatenta pode encontrar nos
poemas apenas traços descritivos de pornografia. Na verdade, o que é oferecido
em “Guesas de Eros” é a relação do amor carnal humano com a elevação divina: “Feliz
daquele que cumpre o que Deus deu (...)/ Feliz daquele que se aceita o próprio
deus// Saber do amor as réguas e os compassos/ E caminhar de mão dadas/ assim
na terra como nos céus.” Porque se é pelo amor que o homem se dignifica, que
seja pela sua manifestação real, e não por divagações idealizadas que se
encerram nas palavras. As quatro primeiras partes do livro, cuja temática forma
uma unidade seqüencial do indescritível átimo amoroso, sugerem uma possibilidade de se atingir uma
sublimação (humana e, ipso facto, divina) através da consciência plena do
outro. Desponta, assim, a religiosidade no sentido original do termo, que
significava a “re-união” de elementos separados, mas que outrora formavam um
ser uno.
Apesar das quase setecentas páginas, que inicialmente
podem assustar o leitor, “Guesas de Eros” tem uma linguagem absolutamente fácil
de ser entendida, e por isso a leitura é bastante agradável. Isso não significa
que seja banal, mas inteligível, inclusive porque trata de um tema
universalmente reconhecível. Há, porém, uma série de referências históricas,
religiosas e literárias que soam como um deleite para o leitor mais erudito.
Embora estejam em forma livre, os poemas possuem uma musicalidade pulsante, num
ritmo que por si só já é um convite a permanecer com o livro aberto.
Paulo Bauler não se enquadra na categoria dos poetas de
câmeras e cambalhotas que proliferam nos saraus da Zona Sul do Rio. Sabe que a
poesia nasce do silêncio e no silêncio deve ser absorvida. “Guesas de Eros” é o
seu presente para os ainda (e sempre) leitores de poesia, num texto que
transcende com magnificência do material ao etéreo, fazendo da religião das
palavras a brasa alentadora dos estímulos.
A recente valorização das correspondências emitidas e
recebidas por escritores vem ao encontro de dois pontos identificáveis na
literatura e cultura contemporâneas. O primeiro, fomentado pelos meios
acadêmicos como nova e profícua linha de pesquisa, consiste nas possibilidades
de investigação da obra de determinado autor a partir de seus rastros – e,
muitas vezes, suas raspas e restos -, os quais adquirem vida paralela à obra
principal ou, poderíamos dizer, canônica. Incluam-se nesse conjunto não só as
cartas, mas também textos incompletos, entrevistas, crônicas deixadas em
jornais e revistas e até obras renegadas pelo próprio escritor. O segundo ponto
diz respeito ao público leitor/consumidor e está ligado ao crescente interesse
pela figura do artista, cuja essência poderia ser desvendada a partir dos
diálogos pessoais com os seus contemporâneos. Sem serem necessariamente
tendenciosas, ambas as vertentes podem contribuir para o enriquecimento da
leitura literária.
O volume das cartas de Caio Fernando Abreu, lançado em
2002, concentra-se mais no primeiro aspecto. Organizado pelo professor Ítalo
Moriconi, o livro fornece um retrato da vida social e literária das três
últimas décadas do século XX. No estudo introdutório apresentado por Ítalo, a
obra do autor de “Morangos mofados” é situada contemplando todas as esferas
estéticas e culturais desse período, perpassando pela cultura marginal dos anos
70 até a exaltação do misticismo dos 90. As cartas foram divididas em duas
partes. A primeira, intitulada “Todas as horas do fim”, cobre o período de 1980
até a morte do escritor, em 1996; já “Começo: o escritor” abarca o intervalo de
1965 a 1979. Essa inversão cronológica traz um benefício à leitura, pois o
livro começa e termina justamente quando o escritor atingia a sua maturidade
artística.
Em algumas cartas é possível, ao leitor, captar
inusitados sentidos literários coerentes com o universo de Caio Fernando. Como
em uma de 1980, em que num P.S. solicita ao pai que lhe envie determinada marca
de erva-mate, visto que a sua havia acabado: “O senhor podia me mandar um ou
dois pacotes de Madrugada Amarga?”.
Muitas das cartas narram a árdua luta de Caio para
conciliar as atividades jornalísticas com a produção literária, como numa ao
escritor gaúcho Charles Kiefer: “É que nossa ‘profissão’ (aspas intencionais
& irônicas) não tem muitas vantagens objetivas. Até hoje, cinco livros
publicados, 34 anos, me debato todos os dias para sobreviver e para não
desistir. Nélida Piñon costuma dizer que, de alguma forma, todos os dias alguém
bate à nossa porta e nos convida a desistir. Não desistimos de teima quem sabe
até meio burra.” A condição homossexual, na época ainda não tão bem aceita na
sociedade, convive com a ameaça da AIDS (que acabou sendo a causa da morte do
escritor). Em missiva ao teatrólogo Luiz Arthur Nunes, em 1984, o autor já
demonstra preocupação: “Como anda a história da AIDS por aí? Aqui acalmou, mas
correm uns horrores vezenquando, há duas semanas foi um amigo-de-um-amigo, quer
dizer, foi-se.” Ao se inserir Caio no mesmo grupo de Renato Russo e Cazuza, a
doença pode ser vista como um mal-do-século, equivalente ao que foi a
tuberculose no século XIX, que atingia determinada categoria de artistas
entregues à vida desregrada e, quando não, libertina.
Já se fala no caráter
datado da obra de Caio Fernando Abreu, cuja obra, tal como nas
correspondências, poderia ser tão marcadamente um retrato de uma época que
teria dificuldade de transcender os muros cronológicos em função de uma
universalidade. Isso só o tempo dirá. Por outro lado, essas Cartas mapeiam um
período histórico de maneira às vezes bem-humorada, outras trágica, mas sempre
permeadas por um imenso afeto.
Coleção Canto do
Bem-Te-Vi
Ante-sala - Astrid Cabral
A estalagem do som - Elisabeth Veiga
Tempo inteiro - Paula Padilha
Tectônicas - Solange Casotti
Ao léu - André Luiz Pinto
A pequena editora Bem-te-vi acaba de lançar uma segunda
série de livros de poemas. Diferentemente da leva anterior, voltada para autores
até então inéditos, desta vez foram selecionados poetas já publicados, ainda
que pertençam a diferentes faixas etárias e cada um deles possua uma voz
peculiar.
Seguindo a ordem cronológica decrescente, figuram na
coleção Canto do Bem-Te-Vi “Ante-sala”, de Astrid Cabral, autora de 12 títulos;
“A estalagem do som”, quarto livro de Elisabeth Veiga; já Paula Padilha, com
“Tempo inteiro”, e Solange Casotti, com "Tectônicas", lançam seus
segundos livros; “Ao léu” é quinta coletânea do caçula da fornada, André Luiz
Pinto, nascido em 1975. Com tiragem de mil exemplares cada, essa leva passou
pela peneira de uma comissão formada por profissionais reconhecidos na área,
como o poeta Armando Freitas Filho e o crítico Silviano Santiago.
Em “A estalagem do som”, a carioca Elisabeth Veiga
consegue uma simplicidade cada vez mais rara na poesia contemporânea, assumindo
a postura de se embrenhar sem culpa ou angústia no mundo das palavras: “eu
sou um parafuso a menos/ da máquina do
mundo”; sua voz atinge um lirismo suave e burlesco, afirmando “meio meu jeito
esquerdo/ neste mundo tão destro”. A essa fluência marcadamente drummondiana se
soma uma voz feminina (não feminista, entenda-se bem) cujo resultado apenas
acrescenta mais densidade à escrita. Destacam-se também as brincadeiras que a
autora faz com as palavras, em neologismos que sutilmente brotam nos poemas,
como “vida-game” ou “alternurando”.
Apesar de
possuírem um mesmo projeto gráfico – simples e bonito -, “Tectônicas”, de
Solange Casotti, é o único que possui ilustrações. Os desenhos do artista
plástico Guilherme Secchin foram feitos especialmente para o livro, que é
dividido em três partes: “Do tempo ou Dentadas de Saturno”, voltada para a
reflexão acerca da condição humana e contendo os poemas mais realizados do
livro: “Fotografaram a mim,/ a cor que vi/ eternizava/ o cheiro do tempo/ que o
instantâneo/ havia revelado.”; a segunda, “Do Ritmo ou Tectônicas”, trata da
solidão urbana e a observação da natureza; na última, os poemas buscam um tom
mais humorístico. Vários possuem citações entre aspas com as referências no fim
da obra, recurso desnecessário nesse tipo de texto.
Paula Padilha consegue um equilíbrio de técnica quase
perfeito em “Tempo inteiro”. Com versos enxutos e bem elaborados, a carioca
consegue eficazmente transcender a duração cronológica, capturando aquele
momento que Gaston Bachelard, no seu “A intuição do instante”, afirmou ser a
essência da realização poética. A realidade burilada se desdobra ao “instante/
que por um fio/ impõe-se ao movimento/ perpassa o espaço/ inteiro do tempo”. O
livro é dividido em três partes, “fio”, “dentro” e “vidro”, que se complementam
num todo, com remissões ao tempo e ao ato da escrita.
Numa outra
vertente, André Luiz Pinto opta por poemas mais longos em “Ao léu”. Essa
narratividade se aplica bem ao conteúdo dos textos, em cuja temática prevalece
um tom de insatisfação social, porém sem cair na armadilha do panfletário. O
recurso do enjambement, em que uma idéia termina e outra começa no mesmo verso,
gerando um tipo de transbordamento, confere ao texto uma outra velocidade de
pulsação: “o casal de namorados/ persiste no amor/ doídos de prazer/ aliás,
diria, dane-se;/ meu silêncio é meu guia,/ não escrevo, nem/ respiro/
paralítico/ no tempo, casal/ de vagabundos.” Em meio ao caos inevitável do
mundo, o livro sugere uma posição resignada do poeta diante da vida, na qual “a
alma finalmente entende,/ em solitude,
que a melhor/ ternura é morrer.”
A perda, aliás, é
o tema de “Ante-sala”, da amazonense Astrid Cabral, viúva do poeta Afonso Félix
de Souza, com quem foi casada por 45 anos, e que agora se encontra “em plena
sala”, como consta na dedicatória. A metafísica em torno da idéia de fim gerou
alguns dos poemas mais pungentes sobre o assunto, como o belo “Passagem”:
“Atravessar o mar/ a vela, a nado.// Atravessar a terra/ a pé, de carro.//
Atravessar a cor/ às cegas, em claro.// Atravessar a dor/ a ópio, a espasmos.//
Atravessar o entrave/ a treva, a carne.// Atravessar o ser./ Dar na outra
margem.” Com extrema habilidade, Astrid consegue transcender a metáfora e dar
nome ao inexplicável, fazendo dos poemas um tipo de matéria, sobretudo, viva.
Publicar cinco livros de uma só tacada pode chamar a
atenção pela demonstração de fôlego editorial, mas causa pelo menos um prejuízo
às obras: na divulgação, são apresentados no seu conjunto, de modo que a
unidade estética de cada um fica prejudicada pela inevitável comparação,
algumas vezes até injusta. Embora num mesmo projeto gráfico, cada título
constitui um universo poético único, que inevitavelmente acaba fazendo sombra
ao irmão recém-lançado.
Caberá ao público, portanto, a seleção do que lhe é
mais prazeroso e apetecível dentre a diversidade dos cinco livros. Mesmo porque
é ele, afinal, que conjuga as notas e entoa o canto na ocasião íntima da
leitura.
Uma guinada do
real ao fictício – Cecília Vasconcellos
O crítico norte-americano Harold Bloom, no seu livro “O
cânone ocidental”, afirma que a literatura não funciona como um elemento de
elevação das pessoas. Que nas páginas dos clássicos há violência, ganância,
transgressões, excessos, enfim, todo tipo de estímulos contrários às convenções
estabelecidas para que haja uma harmonia social, e que por isso devem ser
observados predominantemente pela via estética.
Tais considerações podem não ser suficientes para
abarcar o papel que a literatura vem exercendo nos últimos tempos. A ficção tem
se alimentado não só do fato histórico, mas também dos pequenos acontecimentos
que permeiam o cotidiano, que por sua vez contêm uma rede de possibilidades de
leituras. É o que a carioca Cecilia Vasconcellos faz em “Guinada” (Rio de
Janeiro: Record, 2001. 256 págs.), seu primeiro romance. A autora, talvez por
possuir experiência em literatura infanto-juvenil, consegue habilmente
trabalhar com o poder que os livros exercem nos leitores, principalmente os
ainda em formação.
A história se ambienta numa fazenda, onde a
protagonista Sylvia foi terminar um livro e acaba se envolvendo com varias
pessoas, especialmente o dono da propriedade, com quem tem um romance, e
Valnice, uma menina tímida que guarda um segredo. A chegada da escritora, uma
figura estranha ao meio rural, caracterizada principalmente pela curiosidade,
faz com que a vida de todos os personagens dê reviravoltas, ou guinadas, como
sugere o titulo.
Na capa é
possível visualizar uma presença de olhar cético e protetor, num contexto que
sugere ao mesmo tempo tragédia, fantasmagoria e redenção. A escolha pela
narrativa em primeira pessoa dá a protagonista uma posição de catalisador da
guinada por que passa cada personagem, realizando em parte o desejo que todos
têm de tornar o mundo mais digno. Assim, a narradora se converte em heroína,
mas sempre consciente de que tem como armas as palavras, como no auxílio que
ela presta à menina Valnice, cuja descoberta da literatura acaba assumindo uma
dimensão de conquista da própria realidade.
Sendo a protagonista também uma escritora, não deixa de
refletir sobre as questões que envolvem o seu ofício, como o isolamento
necessário: “O silêncio e a imobilidade, tão aprazíveis na solidão, tornam-se
insuportáveis na presença de estranhos, e estranhos há por toda parte, até
dentro de nós.” Daí que em várias ocasiões a narradora tenha se desdobrado em
personagens que se misturam com as pessoas reais. Tem-se, portanto, um romance
em três camadas: a nossa, a de Sylvia, e a que ela cria. Há explicitamente uma
comunhão entre Cecilia e a narradora. Ambas escreveram seus livros numa
fazenda, dando a impressão de que “Guinada” foi o livro escrito por Sylvia,
estabelecendo um jogo entre o real e o ficticio. Deve-se, poreém, ter o cuidado
de não se ler o livro como uma obra autobiográfica, pois embora alguns fatos
sempre sejam tranferidos da experiência pessoal para a criação literária, o
livro emerge como autêntica ficção. Aliás, é nesse entrelugar, nesse embate,
que reside a sua grandeza.
Este livro de Cecilia Vasconcellos e também um romance
que denuncia vários problemas da classe agrícola: invasões dos sem-terra,
politicalhas, carência de recursos, desmatamento e violência. É sobretudo uma
visão de quem não se conforma, e que no fundo busca fazer a sua parte para que
o país tambem dê uma guinada.
Contos sobre tela
- Vários autores
No romance de
José Saramago “Manual de pintura e caligrafia”, o narrador-personagem transita
do mundo da pintura para o literário, relatando algumas fronteiras marcadas pelas diferentes necessidades de representação.
Ao refletir sobre essa transcendência, afirma: “Brinco com a as palavras como
se usasse as cores e as misturasse ainda na paleta. Mas em verdade direi que
nenhum desenho ou pintura teria dito, por obras de minhas mãos, o que até este
preciso instante fui capaz de escrever, e atrever”. A comparação indica que a
pintura pode, ainda que com suas limitações diante da escrita, sugerir uma
história – ou mais de uma -, como o instantâneo de uma linha contínua que o
observador pode, a partir de seu conjunto internalizado de narrativas, puxar e
reconstruir.
E quando quem observa é um escritor, essas
possibilidades tendem a ser exploradas das formas mais inusitadas. É o caso da
coletânea “Contos sobre tela”, que acaba de sair pelas Edições Pinakotheke. O
escritor carioca Marcelo Moutinho convidou outros quinze autores de diversas
partes do país com o desafio de escreverem um conto baseado numa pintura ou
escultura de um artista plástico brasileiro. Como em toda antologia desse tipo,
são fornecidas amostras da literatura que vem sendo produzida pela geração
atual, ainda que dentro dos limites de uma temática pré-estabelecida.
Como já afirma José Castello no prefácio, os contos são
acima de tudo um exercício dos jovens autores. Ao associar esses textos às
imagens do início do livro, o leitor recria uma parte desse mesmo exercício. Os
diferentes modos de escrita – pois estamos falando de uma geração cuja
peculiaridade é o desprendimento de um todo, seja cronológico, seja de estilo,
seja de temática – permitem uma leitura também diversificada no que se refere
ao estabelecimento de relações entre o conto e o respectivo quadro.
Desse modo, alguns contos têm um fio sutil e alegórico
que os liga à obra de arte correspondente, como no poético “A sala dos
pássaros”, de João Paulo Cuenca, numa narrativa docemente trágica acerca da
morte, a partir da obra do pintor cearense Leonilson. Em outros casos, como no
ótimo “Enquadramento”, de Adriana Lunardi, a tela de Pedro Weigärtner funciona
apenas como o retrato de uma situação narrada. Já em “A carioca”, de Antônio
Mariano, a história é justamente sobre a suposta modelo que posou para o quadro
homônimo de Pedro Américo, em 1882. Esse tipo de relação, na qual a descrição
das imagens se integra à narrativa, ocorre em boa parte dos contos. Desse
grupo, merece destaque “A muda carne das coisas”, de Luciano Trigo, que criou a
partir de “Azulejaria em carne viva”, da carioca Adriana Varejão, uma narrativa
na qual a carne, numa representação dos conflitos humanos, salta por detrás dos
das calmarias ilusórias: “Mas de dentro vem o cheiro das tripas do azulejo: a
carne, o sangue que palpita por trás das cerâmicas impolutas, que se racham e
deixam ver a vida, o esforço, a dor”. O texto de Marcelo Moutinho, baseado em
“Tudo te é falso e inútil”, de Iberê Camargo, apresenta uma história na qual
todos os objetos desaparecem diante dos olhos do protagonista: “Porque o
precário é escuro, e B. cismou que precisava do escuro para, por contraste, ter
luz própria.” Ao lançar mão desse
recurso, a narrativa se converte num tipo inverso de simulação, da qual a
perspectiva da realidade é revelada – no sentido de ser descoberta e velada
novamente.
O conto de Flavio Izhaki, “Apenas eco”, escrito a
partir do quadro “Moças”, de Di Cavalcanti, é o que encontra a mais equilibrada
realização da proposta do livro, ao estabelecer uma dança imagético-textual ao
longo da narrativa sobre as reminiscências sexuais da vida de uma mulher:
“Crescer foi borrar-me aos poucos, desatar o laço que as mãos fazem com os
joelhos, desapegar de mim para outro, para outros. Romper os limites negros da
fronteira com o mundo, inundar de vermelho o branco enevoado da vida adulta”. O
início da história, em que o desassombro da narradora é transmitido a partir
das suas sensações cromáticas, pode representar, por metonímia, a idéia de toda
a coletânea.
É muito comum encontrar personagens de ficção recriados
em quadros, esculturas ou em instalações. Mas o oposto também é possível.
“Contos sobre tela” é um exemplo de que a arte da escrita pode beber de outras
fontes, sobre as quais repousa ou se esconde uma história a ser narrada.
Trata-se, portanto, de uma possibilidade de transfiguração de manifestações
artísticas em que a que a literatura, com sua concisão e abertura simultâneas,
estabelece com o leitor uma espécie de jogo de imagens e palavras.
20 poemas para o
seu walkman - Marília Garcia
A cadela sem
Logos - Ricardo Domeneck
Em meio à variedade de caminhos da poesia nesses
chamados anos 00, um dos pontos a serem salientados é a ausência de uma
trajetória do texto escrito para além do círculo de indivíduos que o produzem.
Há quem defenda como algo natural o fato de aqueles que escrevem e consomem
poesia serem a mesma pessoa. Porém, ao leitor desarmado, o afastamento dos
textos em verso está se tornando também algo natural.
Em geral, para o leitor encarar odisséia intelectual de
signos, composta por um sem-numero de referências lítero-músico-estético-filosóficas
da poesia contemporânea, terá feito um esforço tamanho que, mesmo depreendendo
algum sentido, poderá dominar o poema, mas estará longe de algum estado poético
que não o de ordem conceitual. Nesse sentido, poetas têm escrito apenas para
poetas, de modo que oferecer algo que possa ser compreendido por não-iniciados
soa como herético ou facilitador da leitura de poesia, caminho que deveria ser
cruzado a duras penas.
Grosso modo, à propensão do texto em prosa com feições
de roteiro de Tarantino equiparam-se os versos como batidas de música techno.
Não por acaso, em recente evento sobre manifestações artísticas contemporâneas
realizado no Rio de Janeiro, os poemas eram projetados nas paredes e
trabalhados por VJs. Essa imersão do texto poético ao ambiente
plástico-sonoro-cinético lhe conferiria um caráter "moderno", ou
multimídia - para usar o termo que, ironicamente, já está em desuso. Deve-se
atentar para todas as vertentes de expressão poética, de maneira que o
intercâmbio das diferentes linguagens não relegue a potência da palavra a um
segundo plano, ou um mero subterfúgio para algo que seja visualmente
movimentado ou mais impactante.
Em meio a esse quadro, novos autores se expressam. As
editoras 7Letras e Cosac Naify estão lançando mais três livros da “série
bolso”, voltada principalmente para a divulgação de poetas mais jovens. “Rilk
shake”, de Angélica Freitas; “20 poemas para o seu walkman”, de Marília Garcia
e “a cadela sem Logos”, de Ricardo Domeneck, completam a coleção, que conta com
um projeto gráfico simpático e agradável. Poemas dos três livros foram
publicados no penúltimo número da Inimigo Rumor, hoje considerada uma das mais
importantes revistas de poesia em língua portuguesa, também editada pela
7Letras e Cosac.
Em “a cadela sem Logos”, a primeira parte possui o
aspecto de um longo poema, constituído
por textos de aspiração filosófica dispostos em versos curtos: “o real é a/
decoração do momento/ & a cidade não é o/ mapa mas o mapa/ está correto/
pois entre os sujeitos/ que o/ parto consagra estão/ apenas os sujeitos com/
corpo/ de centro da fertilidade/ da mãe do acaso”. A noção de verso como
unidade rítmica do poema, se considerarmos a definição de Manuel Bandeira, aqui
se apresenta de forma irregular, sugerindo antes uma asfixia taquicárdica do
que a absorção convencional do verso. Desse modo, ler seqüencialmente essa
parte do livro pode não ser uma experiência das mais agradáveis, cabendo,
porém, a leitura randômica e eventual.
A segunda parte do livro é formada por 11 poemas cujos
títulos são denominados “faixas”, inclusive com a sugestão do tempo que se
levaria para lê-los. Já a terceira, “Composição como contexto”, é uma espécie
de ensaio sobre as opções e perspectivas artísticas do autor, permeadas com
frases como “cada momento sabe exatamente do que precisa para ser precisamente
o que já é”. Poderia ser suprimida do livro, visto que Domeneck envereda por
esse tipo de texto com mais eficácia num interessante ensaio sobre o panorama
poético atual, publicado na Inimigo Rumor supracitada.
Com “20 poemas para o seu walkman”, Marilia Garcia
apresenta poemas contendo um tipo esquivo de narratividade, sugerindo recortes
de imagens recorrentes: “o quarto é um aquário/ com setas submersas de/ sol e
seu corpo filtrado/ pela luz do insulfilm/ tem o contorno/ de um magnetismo/
inverso (...)”. A autora opta por uma dicção em que freqüentemente outras vozes
surgem e dialogam com o eu-lírico principal, às vezes apenas para marcar, em
itálico, o que seria uma fala de personagem ou pensamento suspenso no poema:
“uma cidade ausente ocupada/ por enguias atlânticas pode ser uma forma/ de
ficar entre mas não posso fazer/ isso se convence. (traziam armas/ brancas para
o duelo)”. A parte “Encontro às cegas” é composta por pequenas prosas
descritivas de cenas curtas, sem pontuação, como se fossem poemas encaixotados
e comprimidos. Em alguns textos do livro, as referências caem de maneira
excessivamente arbitrária, sem deixar muita margem para que o leitor construa
algum sentido.
Nesse aspecto, “Rilke shake” é, dos três, o livro mais
realizado, uma vez que assume o jogo intertextual com os recursos da paródia, e
o leva até o fim de maneira humorística e despretensiosa. A autora mostra que
se apropriou das referências, fez o seu mix e as bebeu, trocando qualquer
angústia de influência por uma experiência lúdica de malabares: “salta um rilke
shake/ com amor & ovomaltine/ quando passo a noite insone/ e não há nada
que ilumine/ eu peço um rilke shake/ e como um toasted blake/ sunny side para
cima”. Ao afirmar que não consegue ler “Os Cantos”, de Ezra Pound, ou mesmo no
divertido poema em que põe à venda a família, Angélica transcende um certo peso
hermético presente na poesia contemporânea. Arrisca, inclusive, lançar mão de
rimas, recurso simples e praticamente abandonado, talvez como marca de um tempo
que se julgue ultrapassado. Em “Rilke Shake” não se vê a construção de um
discurso hermético e com ares de sofisticação temático-formal, que muitas vezes
se caracteriza pelo resultado ininteligível aos não-iniciados, ou apenas
enfadonho aos iniciados.
Essas três vozes, com suas semelhanças e diferenças,
compõem o retrato aparentemente paradoxal da poesia contemporânea, em que a
pluralidade de caminhos, a segmentação de
grupos e a auto-referência se apresentam para um número ainda restrito de
leitores.
Dois que não o
amor - Diana de Hollanda
Nestes últimos anos da primeira década do novo milênio,
a literatura já parece entender e dar corpo a algumas das marcas dos dias
atuais, como a impossibilidade de diálogo causada pelo vazio agônico entre os
indivíduos. A despeito do rótulo generalizante e esquivo de se apontar a
diversidade como principal marca da produção contemporânea, alguns escritores
tentam compreender e dar sentido a essa temática. Esse retrato é engendrado
pelo conjunto de artistas que tentam costurar os silêncios - ironicamente, os
que vêm sendo chamados de “Geração 00”.
Entenda-se bem: não se trata de uma geração vazia, mas
de uma geração que trabalha os vazios, tenta lhes dar forma e, no espaço da
literatura, dar carne ao verbo rarefeito e diluído. Um desses exemplos está no
livro de poemas “Dois que não o amor”, da jovem Diana de Hollanda. A autora,
carioca de 22 anos, publicou um texto na edição de 2005 do concurso Contos do
Rio, promovido pelo O GLOBO, além de ter participado na coletânea “Contos sobre
tela”, editada pela Pinakotheke em 2005.
Com projeto gráfico simples e belo, próprio das últimas
publicações da 7 Letras, “Dois que não o amor” é dividido em duas partes. Na
primeira, “dois que não”, os poemas tratam das necessidades e dificuldades
entre o ser e o mundo, embrenhando-se na conscientização do humano perante os
descaminhos da sociedade. Já na segunda parte, “o amor”, as questões envolvem
as relações lírico-amorosas, com acentuado teor erótico.
Com uma dicção voraz e sarcástica, a primeira metade
parece carregar a porção teatral da autora, com versos que sugerem uma ação
declamatória para apreciação pública. Esse aspecto, no entanto, não limita os
poemas à vertente mais performática ou simplesmente da poesia falada, uma vez
que a voz carrega “uma consciência insone, bêbada/ como um mar de ressaca
gargalhando”, denotando uma perspectiva de distanciamento crítico em relação à
realidade. Um afastamento do que seria convencional permite à poeta delinear a
angústia que os versos podem comportar: “a palavra é da ânsia./ do carente que
se proclama suicida”. As dificuldades de enquadramento numa questionável coletividade
conduzem a fala a uma perspectiva desdenhosa, quando afirma: “talvez eu viva
por preguiça, amigos./ talvez eu tenha amigos por preguiça”. Nota-se, ainda, um
certo tom adolescente de revolta com as regras do mundo, naquela natural
atitude de se auto-afirmar negando tudo e todos. Considerando a idade da
autora, é uma lacuna aceitável e que tende a se dissipar nas produções futuras.
É na segunda parte, porém, que os versos de Diana
encontram uma voz mais firme, talvez pelo caráter próprio da subjetividade
poética, em que se permite um mergulho mais denso e sensorial. O aparentemente
paradoxal movimento de aproximação e distanciamento do outro gera uma
alteridade marcada pela vertigem e autodesdobramentos, nos quais a poeta se
revela “quando souber de mim mesma novamente souber-me a mesma eu somente”.
Alguns poemas (nenhum deles possui título) são verdadeiras realizações de fusão
do sujeito com seu objeto, que Pessoa tão bem assinalou em “Eros e Psiquê”, ou
Camões no famoso decassílabo “transforma-se o amador na cousa amada”. Dentre
esse grupo, vale a citação integral de pelo menos um: “quando você afunda tão
mais fundo/ que coisa qualquer você profundo/ cai em mim e desmaia inunda/
tendo-me crua voz sequer eu/ fundo profundo afundo sobre você.”
“Dois que não o amor” é uma tentativa de catar lirismo
num mundo pragmático, inclusive pela demonstração de que o olhar mesmo se
tornou desconfiado, com um pé atrás, sem saber ao certo onde situar seu foco.
Nesse ambiente de indecisão, Diana arremata dizendo que “a voz é um fio”: no
âmbito da poesia, aquilo que constitui um tipo de malha íntima que tenta
costurar suavemente a humanidade e os seus vazios.
Cenas de Mortes
Vulgares - Érico Braga Barbosa Lima
A idéia de caos, tão difundida e até venerada na
contemporaneidade, pode se manifestar de forma grandiosa nas expressões
artísticas de um modo geral. A literatura, na concepção de instrumento
reordenador do mundo, traz para si a função de retratar – não refletir, pois
que não é representação, mas simulação – as pulsões sócio-históricas que se
apresentem nessa faceta desordenada.
O espaço poético, sendo encarnação máxima da
condensação estética da linguagem, traduz a vivência do homem nesse início de
milênio caracterizando-se fundamentalmente pela noção clara de lacunas
dispersas a serem preenchidas – e a conseqüente necessidade de se criarem novas
lacunas. É o que se percebe na leitura de “Cenas de Mortes Vulgares”, do
carioca Érico Braga Barbosa Lima. O primeiro livro desse professor que desistiu
da Engenharia e optou pela Literatura traz à superfície da página um conjunto
de poemas carregados de vigor.
Érico é um dos fundadores do grupo “Poesia
Simplesmente”, que há cerca de oito anos vem produzindo e apresentando espetáculos
e festivais de poesia em diversas cidades fluminenses. Essa militância poética,
que promove a verbalização do texto para públicos diversificados, parece ter
exercido influência nos versos de Érico, uma vez que se percebe nos poemas uma
forte vertente declamatória. Como já disse Heloisa Buarque de Hollanda,
trata-se de uma geração que vem buscando ampliar o consumo de poesia por meio
de apresentações em espaços formais ou alternativos, democratizando as
possibilidades de experimentação da poesia falada.
Diferente da geração marginal, que passava ao largo do
establishment, negando-o e atacando seus meios de produção, hoje é como se
esses questionamentos viessem de dentro do próprio sistema, visto que os poetas
atuam profissionalmente nos ambientes acadêmicos e jornalísticos, vivendo em
horário comercial experiências que serão transfiguradas no exercício crítico da
escrita literária. A consciência de ser parte do jogo confere ao poeta uma
espécie de missão libertadora das (o)pressões diárias.
Esse veio libertador está presente em “Cenas de Mortes
Vulgares”. O belo projeto gráfico confere à obra, já na capa, um sentido
vulcânico que irá irromper ao longo de todo o texto. A partir da (des)estrutura
das partes apresentada no sumário, supõe-se que a leitura seja feita sem
quaisquer critérios de linearidade. De fato, o afastamento de regras parece ser
o élan da obra, cujo movimento de desconstrução das formas fixas se alia aos
questionamentos das tradições autorais e institucionais: “E o que é Academia/ senão
o que se esgota/ e somente pra si se basta/ bastando a bênção da idéia gasta?”
O autor estabelece, a todo tempo, relações entre a
poesia e a vida diária, especialmente no que se refere àqueles indivíduos que
exercem influência na constituição do poeta: “Gosto dos meus/ que não falam
poesia, que não/ gostam de poesia, que não entendem/ nada da minha ou de
qualquer poesia,/ mas fazem em mim a poesia/ não transubstanciada em qualquer
lauda conhecida”. O sentido de despojamento, porém, não exime a obra de uma
profunda erudição e apuro no trabalho com a palavra. Nota-se um parentesco
temático – e mesmo léxico – de Augusto dos Anjos, poeta no qual Érico é
especialista, mas sem apresentar a consagrada angústia da influência, como já
aponta Roberto Pontes na orelha. As cenas de morte a que se refere o título
transcendem o sentido telúrico rumo à possibilidade de renascimentos.
E por ser poesia viva, clara e esfuziante, “Cenas de
Mortes Vulgares” é leitura recomendável para aqueles que vêem na literatura uma
das formas de manifestação libertadora. E a voz expressiva, seja na leitura
falada, seja na silenciosa, tem papel fundamental nesse processo, como atesta o
poema “O Louco do Hortifrutigranjeiro”: “por um e noventa e nóvi tudo se vendi
no mundo/ sem essesssão ou contratempu Mais êxxxte microfone não/ esse eu num
vêndu// e ninguém me tira da mão!”
O poeta catarinense Denniz Radünz compõe o imenso time
de bons artistas que, menos conhecidos
no país do que deveriam, conseguem construir a sua trajetória lenta e
criteriosamente. Cronista do Diário Catarinense, o jovem atua em tempo integral
na cena literária do estado, seja na organização de debates e cafés literários,
seja ministrando oficinas ou mesmo na própria observação de novos nomes e da
crítica cultural nas mídias a que tem acesso. Com a atual multiplicação de
eventos em torno da literatura, Dennis é o exemplo de um novo tipo de
profissional das artes, cujas ações com caráter educativo, estético e social
lhe poderiam conferir a denominação de “homem de letras”, com uma acepção mais
voltada para as diversas práticas literárias do que para um beletrismo em torre
de marfim.
Após a estréia com o premiado “Exeus”, em 1996, e
“Livro de Mercúrio”, de 2001, o escritor blumenauense acaba de lançar
“Extraviário”, em bem cuidada edição da Letradágua. São 25 poemas em formatos
que variam de versos eneassílabos até experimentações mais lúdicas com as
palavras. Livre de constâncias nas formas, abre-se a liberdade para o conteúdo.
Já no próprio título, sugere-se que o poema constitui uma instância de algo que
pode ser perdido, que não vai para o caminho esperado a priori. E, por isso
mesmo, é que ele pode ser a via do extraordinário, dando espaço ao que não está
na pauta do dia, além das palavras em estado de dicionário a que Drummond se
refere em “Procura da poesia”.
Há nove epígrafes em “Extraviário”, cuja quantidade e
disposição seqüencial se justificam pelo tema do livro, o qual aponta para a
ausência (ou excesso) de rumos no mundo atual, como na citação do Talmude: “Se
não sabes para onde vais, qualquer caminho te levará lá.” O poema, então, segue
por um caminho atemporal, que é a
essência mesma da matéria lírica, suspensa e diluída pelos descaminhos do
verbo. A dispersão, conduzida no livro pelo elemento água, sugere que a própria
vida comum seja levada nessa via em que continuidade/descontiduidade estão
sempre em conflito, como no poema “História Liquefeita”: “o rio é o rebento
dessa margem/ a bordo de um resto de ribeiras:/ baldio ao desandar torrentes/
sobradas no barral da enchente:/ num rio de ires sonorosos: rim”.
Nessa zona de embate entre texto e fato histórico,
merecem destaque dois poemas que abordam os atentados de 11 de setembro de 2001.
O soneto “À Inconstância das Coisas desse Mundo” trata ironicamente das formas
fixas e do quão frágil é a idéia do verso represado, pois “antes nasce do que o
Sol e para sempre/ com sua forma fixa e rara, na certeza/ da firmeza desse
World Trade Center.” Já no eufônico “Última Epístola ao Império”, assinala a
representatividade do evento: “e a víbora da raiva – rápida – vibra em toda a
relva/ (...) arrasta pelo ermo o turismo de desastres/ nessa indústria dos
destroço, no rastilho sem a órbita/ a serpe do império – talvez o império
serpe”.
Assim, como dizia Ezra Pound, o poeta é a antena da
raça, tanto na propriedade captadora das muitas vozes que ressoam no mundo, mas
também como o emissor invisível de algum tipo de recado. Essa freqüência dupla
traduz uma experiência íntima da leitura e ao mesmo tempo mais geral,
vislumbrando revelar os enigmas dos caminhos da sociedade.
Como nos livros anteriores, “Extraviário” apresenta uma
dicção burilada, como se por um processo de decantação os recursos de criação
poética emergissem no texto, trazendo à tona um sentido mais profundo,
escondido – ou mesmo esquecido – que as palavras guardam. Um dos grandes
problemas da literatura em geral está justamente na difícil relação dialógica
do artista contemporâneo com as referências clássicas, os momentos datados de
experimentações, as vanguardas e seus manifestos revolucionários. Dennis Radünz
escapa a essas armadilhas. Sem qualquer presunção, o poeta estabelece diálogo
com o passado a serviço do presente, acrescentando sutilmente a sua marca, a
qual seria, inicialmente, a coragem de lidar com diferentes referenciais da
literatura a serviço da unidade da obra, gerando um resultado de rara qualidade
e beleza. Como o próprio autor define perto do fim do livro, em “Ghost-writer”,
a leitura constitui “o lugar erradio em que o leitor se desorbita entre dois
seres: o si mesmo e o ser no qual tornou-se, atravessado pelo texto”.
Sinfonia em
branco – Adriana Lisboa
Quando se fala da atual produção romanesca brasileira,
geralmente vem logo à baila a consagrada obra de Rubem Fonseca ou de seus
clones. Por questões que vão desde o coleguismo empurrista até o marketing
vaidoso de alguns autores (quem produz literatura precisa mesmo de assessoria
de imprensa?), está se moldando lentamente uma pequena esfera diante da qual
giram os satélites formadores das práticas leitoras. E assim o já minguado
público consumidor de livros tende a restringir suas preferências a um mínimo conjunto
de títulos pré-estabelecidos como um novo cânone, em detrimento da variedade de
boas opções que têm saído das editoras.
E é desse grupo, livre de maneirismos e out-doors, que
desponta uma pérola intitulada “Sinfonia em branco” (Rio de Janeiro: Rocco,
2001. 224 págs.), segundo romance da carioca Adriana Lisboa. Apesar de ter
apenas 31 anos, a autora conta com uma bagagem de vida bem profícua para a
atividade de compor narrativas: foi cantora, flautista e professora. As
reminiscências da infância na fazenda, o Mestrado em literatura brasileira e o
trabalho de tradutora também contribuíram para o resultado do novo livro.
Ao longo da leitura é possível retirar sentido da capa
escolhida, que transmite a idéia de uma porosidade quase indelével, sugerindo
ainda a imagem de um abismo feito de pedra que, de fato, percorrerá toda a
obra. A foto do português Henrique Dinis da Gama, na verdade, é um detalhe de
uma rua, assim como todo o romance se constrói pela observação minuciosa de
pequenas coisas e dos significados que elas ofertam. O título faz referência a
um quadro do pintor inglês Whistler contendo uma mulher vestida de branco,
mesclando som, imagem e palavra numa mesma metáfora.
A trama tem como centro as duas irmãs Clarice e Maria
Inês. Em torno de ambas giram segredos, confissões, arrependimentos, e
sobretudo uma cumplicidade muda. E também paixões e ódios que, de tão bem
descritos nos seus efeitos sofridos pelo tempo, em alguns momentos fazem
lembrar a força de “O morro dos ventos uivantes”, de Emily Brontë, romance que,
segundo Raquel de Queiroz, é “talvez o maior livro de ficção escrito por mulher
desde que no mundo se conhece a arte de escrever”. A comparação é justa.
Mas o que faz de “Sinfonia em branco” um grande romance
não é a história que ele conta, e sim o modo como as personagens atuam. Com
extrema delicadeza e até uma certa ternura, nota-se sempre uma evasão para um
micromundo contido num detalhe do ambiente, num som distante ou mesmo na
suprema grandeza de um silêncio. Desse modo, a prosa vai oscilando entre os
fatos ocorridos e as pulsões interiores provocadas por eles, revelando a
densidade psicológica que existe por trás de situações aparentemente simples.
O livro chama a atenção pela boa capacidade de conduzir
o leitor. A todo momento são fornecidas informações que vão seduzindo e criando
expectativas, reveladas total ou parcialmente de acordo com o ritmo que a
narradora-regente impõe, inclusive pela contenção presente em praticamente
todas as personagens: “Maria Inês fez uma pausa, avaliou o silêncio na ponta da
língua e sentiu seu gosto doce-azedo, como o das balas de tamarindo.” O que não
se diz passa a ter uma crescente relevância.
“Sinfonia em branco” deve ser lido devagar. Saboreado e
apreciado como se fosse uma bebida rara. Adriana Lisboa conseguiu eficazmente
captar o poético que reside nos detalhes cotidianos, costurando com palavras
uma sinfonia de silêncios.
Na escrita de João Gilberto Noll, revelada em “O cego e
a bailarina” (1980) e recentemente consagrada com o premiado “Mínimos,
múltiplos, comuns” (2003), uma das principais marcas é a presença de indivíduos
que buscam a identidade a partir de uma decomposição no contexto social. Ou
seja, rumam errantes para uma instância onde a própria noção de identidade só
existe como algo naturalmente diluído.
Essa faceta está presente em “Lorde”, seu primeiro
romance publicado pelo selo Francis. O texto trata de um escritor que, aos 50
anos, chega a Londres para executar uma tarefa até então enigmática, contratado
por um inglês sobre quem, da mesma forma, pouca informação é fornecida.
A despeito desse mote, em seguida o personagem vai se
desvencilhando do caminho principal e inicia um processo de desfiguração – à
primeira vista material, mas sobretudo psicológica. Sua memória vai
gradativamente sofrendo uma volatização, a partir da qual se erige o impulso de
se recaracterizar em um outro: “Tudo se fundia em minha cabeça, feito a tintura
e a maquiagem que escorriam pelo meu rosto patético no espelho. Tinha para mim
que os meus passos se mostravam mais ágeis, irmanados de uma forma estranha ao
ritmo veloz da multidão”.
O objeto espelho surge como elemento recorrente, cujas propriedades
conferem ao personagem, em vez de reconhecimento de si mesmo, a possibilidade
de realizar o exercício de alteridade em busca do seu duplo: “A sós, mirei a
nudez que cabia toda no cristal, cercada de uma moldura dourada, coberta de
relevos.” Por meio da pulsão erótica, corpo e alma atravessam os limites de um
ser único para a dissolução nas outras figuras que emergem ao longo da
história.
A tentação de ler o romance a partir dos vários traços
autobiográficos contidos nele acaba sendo uma excelente armadilha para o
leitor. Em vez de apresentar cada vez mais o autor nas páginas, a leitura é
conduzida por uma sucessão de imagens sem amarras que adquirem a dimensão das
incertezas literárias. Ao se metamorfosear em imensos vazios, o personagem não
deixa de representar o momento sócio-histórico atual, em que a dispersão é já
um traço celebrado, muitas vezes de maneira equivocada.
Nesse ponto, o romance de Noll vai além dos modismos
literários das narrativas seriais e cíclicas, as quais, a partir do pressuposto
das fragmentações, aplicam-na com excessos de formalismo em torno de pequenos
eixos estilísticos. O autor de “Hotel Atlântico” não cede às facilidades das
seduções formais que levam as novas gerações, por exemplo, a produzir textos
com frases curtas e incessantes repetições de imagens entrecortadas, cujo
resultado é cada vez mais palatável comercialmente.
A partir da leitura de “Lorde”, percebe-se que o
sujeito estilhaçado, rumo à pulverização, é antes um problema e alerta para o
campo das idéias do que apenas mais um fenômeno a ser explorado pelo mercado.
“Mare Nostrum” é o primeiro romance do caratinense
Salim Miguel publicado pela Record. O autor, que recebeu o Troféu Juca Pato
como intelectual do ano em 2002 e recebeu o título de doutor honoris causa pela
UFSC, venceu em 2001 o Prêmio Zaffari & Bourbon da Jornada Nacional de
Literatura de Passo Fundo, com o romance “Nur na escuridão”.
Aos 80 anos e com 25 livros publicados, Salim é um
autor – infelizmente –pouco conhecido fora dos estados do Sul. Ou, pelo menos,
ainda não lido nacionalmente na proporção em que deveria, face à sua
trajetória. O escritor participou do Grupo Sul, (relevante movimento que
congregava a produção regional durante as décadas de 40 e 50) cuja revista foi
recentemente relançada em edição especial. Foi um dos editores da revista
carioca Ficção, além de ter dirigido a Editora da UFSC e a Fundação Cultural
Franklin Cascaes, em Florianópolis.
O romance tem o mar como protagonista, ou seja, não se
obriga a ter a estrutura convencional romanesca centrada na figura de um herói.
Pode-se dizer que o herói é a própria atmosfera litorânea, sobre as qual as
histórias se espalham. Alguns personagens recebem nomes que remetem a esse eixo
temático (Amaro, Altimar), e as situações rústicas e comezinhas ratificam o
ambiente criado.
No ato da leitura é que a obra revela seu aspecto
lúdico, transformando “Mare Nostrum” numa obra que se enquadra nas categorias
ditas pós-modernas, o que se evidencia pelo subtítulo “romance desmontável”.
Uma leitura pouco atenta poderia dar a impressão de que o livro se trata de uma
coletânea de contos, visto que os capítulos irregulares em tamanho e estilo –
propositadamente – são ligados por filetes narrativos: um personagem, uma
imagem, uma frase podem remeter a um capítulo já lido.
Daí o caráter “desmontável” do romance, cuja
não-linearidade permite que o leitor escolha a ordem de leitura. A
interferência do leitor nesse processo, remexendo as histórias previamente
montadas pelo autor, torna a leitura mais rica e imersiva. Embora atualmente
muitos escritores lancem mão do texto fragmentado pela incapacidade de narrar
com simples coesão – o que parece estar virando moda –, o romance em questão é
uma obra sofisticada e aberta – porém não escancarada – para a recriação
literária.
Escrito durante 20 anos, “Mare Nostrum” vem coroar a
obra do autor catarinense. Boa parte do livro se passa na pequena cidade de
Biguaçu, onde Salim viveu durante a juventude após vir do Líbano, onde nasceu.
Mas também há passagens na Bahia, África, Europa e, marcando as origens do
autor, no Oriente Médio. São vários rios narrativos que Salim Miguel oferece
para desembocarem no vasto mar das boas leituras.
Memórias dos Barcos – Marcelo Moutinho
A alegoria das embarcações é interessante para tratar
do novo livro do jornalista Marcelo Moutinho. Os dez contos de Memória dos
barcos (Rio de Janeiro: 7Letras, 2001. 72 págs.) singram por uma prosa fluida e
sofisticada, oscilando entre a narrativa intimista e a prosa poética, como
anota Antônio Torres na orelha. A bela capa de Marcus de Moraes, uma imagem ofuscada
de barcos repousando sobre uma água azul tranqüila, transmite eficazmente a
idéia do conteúdo onírico-reminiscente da obra.
Assim como no seu livro anterior, Um certo medo da
noite, Marcelo lança mão da linguagem poética, convertendo o narrador em eu-lírico.
Isso pela influência de autores como Caio Fernando Abreu e Fernando Pessoa.
Embora caminhando para “matar os pais” e
adquirir autonomia narrativa, ainda é perceptível uma bússola de Clarice
Lispector, não só pelas epígrafe e citação no conto “Flores de inverno”, como
também pela maneira introspectiva de apresentar ambientes e personagens. Além
de uma tendência em alternar frases longas e curtas, estas às vezes isoladas –
mas nunca à deriva – num só parágrafo.
O conto que dá título à obra estabelece uma relação
metonímica com todo o livro, uma vez que reúne os elementos presentes em cada
um dos outros textos. Retornando à pequena cidade onde crescera, o narrador
observa a mudança que a paisagem sofreu com o tempo: “Do outro lado do rio,
desfez-se a linha horizontal e ergueram-se prédios, edificações imensas que
contrastam e constatam, imenso monitor cardíaco, o pulso disforme da cidade que
um dia fora a vida.” As lembranças saltam como matéria da construção textual,
tal como ocorre no ótimo romance Quase-memória, de Carlos Heitor Cony, em que
cada fio contido em uma imagem simples (no nosso caso, os barcos azuis) pode
ser puxado, revelando uma pequena história.
Cada conto é uma recordação (no sentido original de
“trazer de volta ao coração”) que devolve ao leitor algo que nunca lhe foi
tirado. Porque o lirismo permite um eterno rejuvenescimento do tempo presente,
o que se evidencia quando o autor fecha o livro com o dístico de Mário
Quintana: “O passado nunca conhece o seu lugar./ O passado está sempre no
presente.” Esse deslocamento atemporal se dá pela evocação de imagens que, além
de conferirem uma plasticidade quase cinematográfica ao texto, são também o
mote para a expressão da carga íntima acumulada pelo narrador, como se percebe
no conto “Sentimentos expressos”: “Já sentada dentro do vagão do metrô, tentava
montar o quebra-cabeça daquele reflexo, enquanto as estações se sucediam. Os
carros esvaziados, as plataformas desertas davam a dimensão dos seus vazios.”
Outra temática comum a todos os contos é a solidão,
irmã da memória. A solidão urbana, a que assola a multidão aglomerada. A
solidão dos casais juntos e dos separados, das crianças, dos seres que
momentaneamente se encontram movidos pelo acaso, a solidão dos palhaços, a dos
barcos ancorados. Mas em cada texto sobrepõe-se um movimento de reaproximação,
às vezes contida porém esperançosa: “Ela trazia uma lua amarelada no lugar dos
olhos, uns olhos mendigos, de quem quer salvação sem ter pecado.”
Longe de ser um derramamento sentimental autobiográfico,
como ocorre a muitos que se arriscam a escrever de maneira subjetiva, Memória
dos barcos é um convite para que o leitor sorva as narrativas cuidadosamente
destiladas. E se ao fim da leitura ficar alguma mensagem, que seja a de uma nau
retornando à costa: navegar é preciso; viver mais ainda.
Se na vasta produção literária contemporânea a prosa
vem se diluindo numa profusão de temas, vozes e meios de distribuição, que
dizer da poesia? Bem antes que os adventos editoriais permitissem impressões
por demanda, favorecendo os escritores com edições menores a preços acessíveis,
poetas de várias tendências já tentavam escoar de mão em mão a sua produção
artesanal, gerada desde em mimeógrafos até nas reproduções de fotocópias
reduzidas. Vanguarda por excelência, na acuidade das pontas de lança, o verso
geralmente precede a prosa nos movimentos literários, ou se apropria com mais
rapidez de novos recursos e suportes, como a Internet.
Há pelo menos um aspecto negativo nesse processo. Como
vem acontecendo nos dias atuais, a facilidade de publicação torna cada vez mais
difícil identificar a qualidade literária no imenso volume de obras que vêm
circulando. As publicações independentes têm adquirido tal dimensão que em meio
aos inúmeros lançamentos despontam livros de qualidade surpreendente, como a
coletânea de poemas “Microafetos”, do pernambucano Wladimir Cazé.
Com o suporte da bem aplicada arte gráfica de Iansã
Negrão, boa parte dos 44 poemas atribui sentimentos aos seres diminutos da
natureza. Formigas, borboletas, abelhas e caramujos simulam angústias, medos e
paixões, traduzindo na personificação uma espécie de refúgio das sensações
humanas. O recurso da prosopopéia, entretanto, funciona apenas como suporte
para o projeto poético do livro. Já no poema de abertura, “Geração”, o leitor
pode constatar a noção do lugar do poeta: “Descansa o incêndio/ dentro do ovo./
Uma fênix em repouso. (...) Raiz de proveta./ A planta ainda/ está na pétala.”
As quatro partes do livro (“Caterva”, “Fauna miúda”,
“Microafetos” e “Ocasiões”) oferecem uma profusão de aliterações, eufonias e
ritmos cadenciados. O autor, já experiente na publicação de cordel, lança mão
de uma eficiente habilidade melopéica, sem necessariamente deixar os poemas à
mercê de formas fixas. A opção favorece uma leitura imagética e sobretudo
lúdica dos textos, como no dístico “Malandra”: “Salamandra se dissimula/ apta a
uma samambaia.” Ou mesmo na série de quartetos que intitula o livro: “No calor
de uma tarde ecossistêmica,/ a química da abelha esquizofrênica/ desregula o
amor clínico:/ clima idílico num país caótico.” Residente em São Paulo desde
2003, Cazé situa também as mazelas urbanas no movimento da miniaturização: “Da
capa de uma revista,/ escapa um capitalista,/ entra num frasco sem rótulo/ ou
numa caixa de fósforos.”
A circulação de “Microafetos” tem ocorrido nos eventos
que vêm surgindo na cena literária contemporânea. A Edições K, lançada em 2004
na FLIP (Festa Literária de Parati), é na verdade uma cooperativa de autores
que, em diferentes pontos do país, organizam circuitos de lançamentos em
livrarias, sebos, bares, bibliotecas ou quaisquer outros espaços que permitam o
contato direto autor-leitor. Em meio à prolífera quantidade de lançamentos,
temos aqui um belo exemplar de poesia com valor literário.
O cão de olhos
amarelos & outros poemas inéditos - Alberto da Cunha Melo
Em termos de reconhecimento do público, a obra de
Alberto da Cunha Melo passa por caso semelhante ao que ocorreu com a de Dante
Milano: apesar de muito admirados por grandes poetas e críticos, seus livros
não são lidos na mesma proporção. A esse fato soma-se a relativa baixa procura
que uma poesia mais formal tem recebido, em função de uma tendência à – já
claudicante – supervalorização da performance em detrimento da técnica e da
profundidade.
Como uma forma autêntica de resistência, acaba de ser
lançado O cão de olhos amarelos & outros poemas inéditos. Resistência em
vários sentidos, se considerarmos também as temáticas abordadas pelo poeta, que
atravessam as situações mais comezinhas rumo ao questionamento da existência
humana. Melhor dizendo, o cotidiano povoado de cenas cruas é usado como ponte
para uma transcendência das idéias, parentesco que situa Alberto da Cunha Melo
com seus conterrâneos Manuel Bandeira e João Cabral de Melo Neto. Aliás, o
apuro técnico aplicado aos temas simples segue, de certa forma, a linha mais
tradicional da poesia cantada do Nordeste.
A primeira parte do livro é composta por renkas, uma
forma extinta de poesia japonesa que precedeu o hai-kai. Cada estrofe é
composta por cinco versos, dos quais os dois últimos irão se repetir no início
da estrofe seguinte, como no poema “Balança”: “Mudar de cruz e não de ombro/
deveria ser um descanso,// Mudar de cruz e não de ombro/ deveria ser um
descanso,/ mas, há um risco: a nova cruz,/ feito pijama de hospital,/ poderia
não ter seu número.// feito pijama de hospital,/ poderia não ter seu número./
Nessa alta idade você pode/ roubar no jogo e, até mesmo,/ furar a fila da
indulgência.”
Essa disposição dos versos evoca um paralelismo de
idéias que, aliado à rima (esta nada menos que o recurso mais prazeroso da
repetição poética), constitui o fundamento da própria poesia. O recurso do
paralelismo, aliás, remonta às formas ancestrais das formas poéticas, quando a
palavra se submetia à música e à dança, associada aos ritos, mitos e magias dos
povos primitivos. No caso da poesia escrita, ao se ler por duas vezes as
sentenças, as imagens e idéias são recriadas e reforçadas no novo conjunto. O
que à primeira vista poderia soar como redundante acaba por suscitar uma
experiência tão agradável quanto ler/ouvir as trovas medievais ou um cordel.
No restante do livro, são apresentados poemas esparsos,
em muitos dos quais o poeta cria novas formas fixas, estabelecendo uma relação
com as vanguardas literárias - às quais não aderiu, salienta numa nota, porém
respeitando-as. Cunha Melo parece realizar suas experiências do verso para
dentro, e não o contrário. Isso pode afastar o leitor que espera da literatura
uma parafernália visual (em formato de roda reinventada), mas oferta um tipo de
poesia essencial baseada na palavra.
A poesia é a mais aguda forma de manifestação da
palavra escrita. Por meio da desordenação - e a possível conseqüente
reordenação - da perspectiva íntima da vida, o poder silencioso dos versos
“(...) nesta casa,/ ninguém pode morrer dormindo,/ tem de acordar para morrer,/
que agonizar é seu destino;// ouçam os pássaros, lá fora/ eles cantam o aqui e
o agora.” A agonia humana diante da placidez inexpugnável da natureza parece
ser uma temática recorrente no livro, como se filtrasse a vivência árida e
cáustica da realidade social nordestina – e, por extensão, brasileira. O cão de
olhos amarelos & outros poemas inéditos retrata, como aponta a cor
explicitada no titulo, a dor como etapa necessária para a vida: “Pra cantar o
desconhecido/ é preciso dormir/ com as fêmeas feridas,/ e ensiná-las, de novo,
o caminho da volta.”
Numa época na qual, em meio à diversidade formal e
temática, sobressaem-se manifestações poéticas voltadas para uma prática
circense e pirotécnica, merece atenção a resistência de artistas como Cunha
Melo, que se preocupam mais com dificuldade técnica de uma escrita simples.
O delicado abismo
da loucura - Raimundo Carrero
Na comemoração dos 30 anos de atividade literária do
premiado Raimundo Carrero, foram produzidos o documentário O caçador de
assombrações, e uma fotobiografia, com entrevista, ensaio e fortuna crítica, a
ser lançada neste ano. Dentro deste projeto, a Iluminuras está relançando, num
único volume, os três primeiros livros autor de “Somos pedras que se consomem”.
A reunião é composta por “A história de Bernarda Soledade”, “As sementes do
sol” e “As duas faces do baralho”.
A primeira novela trata da luta de Bernarda Soledade
para administrar a fazenda da família, ao lado da mãe e a irmã caçula. Escrita
aos 23 anos, foi definida por Ariano Suassuna como segunda representação
literária do Movimento Armorial – tendo a primeira sido o seu clássico “Romance
d’A Pedra do Reino”, reeditado recentemente pela José Olympio -, devido ao
caráter intimamente ligado às origens do romanceiro popular nordestino, em que
uma pulsão medieval e de rústica nobreza se ergue perante um ambiente marcado
por diferentes níveis de conflito.
No caso da protagonista, a luta para manter as terras de
Puchinãnã é cercada pela necessidade de proteção diante da ameaça masculina,
marcada pela inexpressiva atuação de seu pai e pela presença insidiosa e ao
mesmo tempo sedutora do tio Anrique – forma ancestral de “Henrique”, num
cuidado da aplicação de nomenclatura em prol do ambiente medieval. Essa ameaça,
por vezes, vacila perante o desejo, e torna a sublinhar um emblema da força das personagens. Tais
características do Movimento Armorial, explicitadas em cenas de impacto
imagético, como as batalhas pelo domínio das terras e as referências de uma
heráldica nordestina, permitem que a narrativa seja carregada de descrições.
Logo no início, o ambiente conflituoso é apresentado: “Os cavalos brabos,
indomáveis, coiceiam o vendo dentro do curral. Amontoam-se, relincham num
tropel medonho. (...) Tão valente e brabo, igual aos animais, é o vento que
sopra agora açoitando a mata, assustando os fantasmas”. Fosse em outro tipo de
narrativa, o excesso de descrições ao longo da história soaria anacrônico,
porém aqui é parte de uma necessidade visual intrínseca à narrativa proposta,
fazendo da novela um dos principais textos dentro da obra de Carrero.
Já “As sementes do sol” conduz o leitor para a
reordenação – ou desordenação, pois que trata, como a novela anterior, da
angústia inevitável – da família de Davino após a morte de sua mulher. De forma
análoga à posição antagônica de Anrique na primeira história, aqui é irmão do
protagonista que exerce a função de provocador na trama, exercendo influência
sarcástica, quase mefistofélica junto aos sobrinhos. O recurso de alternar
avanços e flashbacks na história já indica maior esmero de construção do texto,
engrandecendo as relações entre os personagens.
A última novela, “A dupla face do baralho” é a única
das três narrada em primeira pessoa, o que contribui para o caráter verossímil
das confissões do velho policial Félix Gurgel. As lembranças da vida cercada
por tipos marginais, como bêbados prostitutas e ladrões, leva o personagem a
uma espera amargurada do próprio fim: “Ultimamente, em todos os fins de tarde,
(...) sento-me na cadeira de balanço aqui da calçada da minha casa, esperando a
morte. Desde criança imaginei-me morrendo num fim de tarde”.
Embora as três novelas ainda não apresentem os avanços
formais conquistados na maturidade, como em “Ao redor do escorpião... Uma
tarântula?”, já se percebem as linhas temáticas preferenciais da narrativa de
Raimundo Carrero: a angústia das relações humanas, a solidão e um sentido
agônico que permeia tudo e todos. Uma vez que se passam no agreste, soma-se
ainda uma ambientação mítica que resvala, em alguns momentos, no realismo
mágico. Nota-se também o apuro no desenho equilibrado de cada personagem, o
qual é, conforme Carrero apontou no seu guia “Os segredos da ficção”, o elemento
principal de toda narrativa.
Desse modo, “O delicado abismo da loucura” apresenta
novelas que asseguram a qualidade do autor pernambucano, conforme assinala o
crítico José Castello, ao afirmar que “não é comum que um escritor inicie seu
percurso literário remexendo com tanto desassombro, em universos arcaicos e
dúvidas primordiais”.
O tempo além do
tempo - Ivan Junqueira
Escritor de reconhecida atividade envolvendo poesia,
crítica e tradução, além de alguns dos prêmios literários mais importantes,
Ivan Junqueira tem a capacidade rara de se reinventar a cada livro, ainda que
se mantenha firme na sua trajetória poética, em que o texto não se submete a
modismos e facilidades técnico-formais. Desde a estréia como poeta em 1964, a
opção pela densidade tem significado ir de encontro a uma certa tradição da
ruptura resultante das experimentações pós-modernistas, negando ainda uma
tendência declamatória e performática que acabou relegando o texto a um segundo
plano nas realizações poéticas.
Pela casa editorial portuguesa Quasi Edições, acaba de
sair “O tempo além do tempo”, antologia organizada por Arnaldo Saraiva. No
excelente prefácio, o crítico lusitano apresenta uma sucinta exegese da obra de
Ivan Junqueira, situando-o no retrato da poesia produzida a partir da segunda
metade do século XX. Na reunião, é possível observar a fidelidade com que o
poeta se mantém dentro de um projeto literário. A preferência pela métrica, o
verso curto como suporte para uma narratividade em textos mais longos, a
evocação de autores da Antigüidade e a obstinação pelos mesmos temas são
aspectos que perpassam todas as obras, abrangendo desde a estréia com “Os
mortos” a poemas até então inéditos. Para quem nunca leu um livro inteiro do
autor, a antologia constitui não apenas uma amostragem, mas um conjunto
homogêneo.
Alguns poemas de “O tempo além do tempo” também
aparecem no volume “O outro lado”, cuja produção abrange o período de 1998 a
2006. Desde 1994, com o vencedor do Jabuti “A sagração dos ossos”, o autor não
publica um livro apenas com novos poemas, de maneira que esse assume lugar
marcante na fortuna de Ivan Junqueira. Dado o intervalo da passagem entre os
milênios em que foi escrito, não por acaso a temática da transição surge a todo
tempo, condensada numa das idéias recorrentes em toda a obra do autor: a morte.
Convém apontar para um aspecto dessa temática: não se
trata de uma celebração do nefasto, tampouco um réquiem poético entoando a
eminência de uma despedida. No livro, o olhar que mira o outro lado muitas
vezes também se volta para fazer uma espécie de balanço do próprio legado
poético de Ivan, como em “O mesmo: o terceiro”: “O que escrevi foi sempre o
mesmo/ poema, e os mesmos são os dedos/ que nele enrolaram o novelo/ dos muitos
eus em destempero/ que ali convivem e se odeiam/ à sombra de um só parentesco.”
No lugar de assombro, a morte assume o ar da “indesejada das gentes” de Manuel
Bandeira, em cuja poética a figura da morte se espraia como uma companheira
eivada de mistério e portadora da inexpugnável beleza a que todos os homens se
destinam.
Em meio a esse ambiente, insurgem ainda poemas de
conteúdo lírico-amoroso. O amor está presente no rondó “São duas ou três
coisas” e no soneto “Eu te amo tanto” com um teor tão suave que se aproximaria
do limite da pieguice, se ambos não estivessem imersos no conjunto do livro,
atribuindo-lhes um sentido mais amplo, nos quais a beleza se evidencia pela
claridade contrastante com a idéia de fim – dualidade sugerida na própria capa.
Ivan Junqueira é uma das grandes vozes da literatura
contemporânea, tendo optado pelo caminho mais difícil e exigente dentre os
poetas, aquele do rigor técnico associado a uma necessidade de reflexão, sem perder
em nenhum momento o veio da beleza. Poeta que nesses dois livros se confirma
como “sendo esse leque/ de coisas fluidas e inquietas”.
Pelo fundo da agulha – Antonio Torres
Antônio
Torres escreve musicalmente. Em palestras e oficinas que ministra pelo país,
deixa clara essa associação no seu processo criativo. O resultado é uma prosa
que traz o embalo do jazz e a melodia na leitura. Diferente de várias
tendências da moda nas literatices, Torres não tem intenção de asfixiar o
leitor: antes, convida-o para dançar.
O lançamento de “Essa Terra”, em 1976, trouxe novo
fôlego ao debate acerca do dualismo sertão/cidade. O romance, hoje na 21ª
edição, narra o fracasso diante da migração nordestina para locais com promessa
de vida melhor. Totonhim assiste à desintegração das suas referências
familiares quando os pais e irmãos se mudam de Junco (hoje chamada de Sátiro
Dias) para Feira de Santana, outra cidade do interior da Bahia, e acabam por
mergulhar ainda mais na pobreza. Lá, o banco emprestara dinheiro ao pai sob a
condição de que plantasse sisal, uma cultura que não vingara, deixando-o
endividado; sem perspectiva, os irmãos fogem de casa tão logo estejam
crescidos. E a tragédia mais lancinante: o suicídio do irmão mais velho Nelo
que, após fracassar em São Paulo, não encontrou mais referências na cidade que
deixara para trás. O personagem se tornou, na literatura brasileira, um símbolo
da perda da dignidade humana perante as sucessivas derrotas sociais. Enforcado
num gancho de rede, Nelo sequer teve o direito a se pendurar num lugar mais
alto para dar cabo da própria vida.
Diante desse quadro, restou a Totonhim seguir o
caminho do irmão, rumo a São Paulo, para tentar superar o atraso em que a
família se encontrava. Ainda que lutando com a possibilidade de repetir a
história de Nelo, vinte anos depois Totonhim retorna à cidade natal, onde, tal
como acontecera ao outro, já era um estranho. Esse regresso é narrado em “O
cachorro e o lobo”, lançado em 1997. Ali, a memória constitui o caldo grosso
onde flutuam, em permanente conflito, as expectativas e frustrações dos seus
personagens, em especial no embate de Totonhim com o pai: “Como se algum
filósofo lhe tivesse soprado ao pé do ouvido que não é a fé que remove montanhas,
mas o complexo de culpa.” Revisitar o passado não o leva ao suicídio, mas o
aglomerado de perdas – da topografia às pessoas próximas – endossa a perda da
sua identidade. Espaço e tempo lhe escapam pelos dedos, construindo para o
personagem um ambiente físico e psicológico segundo o qual a realidade é um
imenso e, paradoxalmente, exteriorizado oco.
E a consciência desse vazio imenso está em “Pelo fundo
da agulha”. No desfecho da trilogia, Totonhim se vê no seu quarto, em São
Paulo, abandonado pela mulher e filhos, na primeira noite após se aposentar.
Financeiramente, sua jornada não foi desfavorável. No entanto, a solidão lhe
preenche como a um aquário com peixes moribundos, num delírio formado por
lembranças que desfilam pelas quatro paredes. Entre o sono e a vigília, o
protagonista olha o próprio passado como se fosse pelo buraco de uma agulha, na
qual sua mãe, idosa porém com mão firme, passava a linha.
Dentre as recordações, percebe-se um tom de
auto-ironia, manejado com destreza pelo uso recorrente do discurso indireto
livre, no qual a narrativa se desdobra em si mesma, dando lugar a uma segunda
voz: “Agora ele avistava um sinal amarelo. Esperar. Mas atenção! Olho vivo nos
semáforos. Cuidado para não ser atropelado. Como entrar na cidade e integrar-se
nela? Com a ajuda de um, a mão de outro e empurrões da sorte. E prestando muita
atenção aos seus sinais. Avante, camarada!”. O riso de agonia é, ainda que de
forma resignada, um viés possível de compreensão que o personagem tem de si
mesmo.
“Rever é perder o encanto”, já arrematou Millôr
Fernandes. Na trilogia de Antônio Torres, rever significa trocar um desencanto
por outro. A angústia se torna o território inexorável, onde irremediavelmente
vai aportar a trajetória humana. Totonhim parece lembrar a famosa trova de
Francisco Sá de Miranda: “Comigo me desavim,/ Sou posto em todo perigo;/ Não
posso ficar comigo/ Nem posso fugir de mim.” Sua jornada é, então, cerzida pelo
olhar que passa pela lupa mínima do buraco de uma agulha, capaz apenas de
vislumbrar as ausências acumuladas.
Com “Pelo fundo da agulha”, Antônio Torres convida o
leitor para dançar, susurrando-lhe no ouvido a dissolução por que passamos. A
saga de Totonhim, de certa forma, traduz a própria curva de desencanto da
sociedade brasileira nos últimos 30 anos, representada no cidadão cujas raízes
se fragmentam, cada vez mais destituídas de som e fúria.
A arca da escrita
desenhada a cem dedos – Família Ramos Amado
Mesmo com poucos anos de existência, já é possível
afirmar que o surgimento do e-mail foi um dos maiores avanços dos meios de
comunicação. Situado entre a carta e a ligação telefônica, é mais livre que a
primeira, porém não chega a ter a fugacidade da segunda. O correio eletrônico
é, portanto, um modo perfeito de se transmitir e receber uma mensagem de
conteúdo informal mas que não se evapore (a sentença verba volant, scripta
manent se mostra mais uma vez aplicável).
As manifestações literárias, naturalmente, não poderiam
– nem deveriam – fechar os olhos para esse novo modo de expressão escrita. Na
ficção já fez muito sucesso o romance epistolar, no qual toda a narração é
disposta em forma de cartas, como em Drácula, de Bram Stoker, ou Lucíola, de
José de Alencar. Ou simplesmente eram reunidas em volume as correspondências de
autores consagrados, de teor geralmente familiar, estético ou amoroso – aqui
serve como exemplo a publicação das cartas trocadas entre Simone de Beauvoir e
Sartre. Com toda essa tradição do gênero, somada ainda à difusão da escrita
proporcionada pelos computadores, não tardaria a surgir um livro composto
apenas por e-mails. E feito por jovens, certamente os que dominam com mais
eficácia a nova prática de mensagens instantâneas.
Escrito por garotos, e direcionado a jovens de corpo
e/ou espírito, vale como sugestão o livro A Nave de Noé (Rio de Janeiro:
Record, 2000. 256 págs.), dos primos Ramos Amado. Luiza, filha de Graciliano,
casou-se com James, irmão de Jorge, e assim as duas famílias se misturaram. Não
se deve esperar, contudo, que os dez meninos e meninas tenham se preocupado em
dar prosseguimento à “alta literatura” dos antepassados. Antes, escrevem
informalmente, já que se trata de correio eletrônico.
Essa espontaneidade das mensagens gera uma boa sensação
durante a leitura, principalmente pela exposição das intimidades dos primos,
com as quais o leitor facilmente se identifica por estar vivendo ou ter vivido
várias das situações narradas. Segredos familiares são compartilhados com o
leitor (às vezes acrescidos com cinismos leves: “espero que minha mãe não leia
isso” ou “primos, não contem isso a ninguém”), tornando-o cúmplice das
peripécias adolescentes, uma espécie de voyeur que se apraz da mera observação
do sigilo alheio.
O fio condutor da história são as especulações sobre o
motivo pelo qual outros dois primos, os irmãos Juca e Pedro, nunca se falaram.
Em torno giram a ascensão da TPM (uma banda só de meninas), os novos casamentos
dos pais separados, o suposto fim do mundo na virada do milênio, além de todo
um universo de fatos característicos da faixa etária dos autores – de treze a
dezesseis anos. Tudo isso escrito com muita graça e despojamento.
Alguns momentos são especialmente divertidos, como as
mensagens de Bel, cujo computador não possui acentos nem cedilha, falha que ela
mesma converte em elemento construtor do texto: “Mas aih jah viu, neh?”; “Ve se
voces me dao uma forca – se for sem cedilha, pode ser para a minha mae”. Ou as
reflexões criativas de Caco: “No Brasil, ninguém se preocupa com uma grande
banda feminina. O povo tá ligado é numa grande bunda feminina. (...) Incrível
como uma simples letrinha faz tanta diferença.”
“O humor nos fez mais jovens, com vontade de brincar e
fazer arte”, afirma um dos primos na apresentação, revelando que o livro é
antes de tudo uma aventura lúdica da linguagem. Escrito a distância por dez
cabeças e cem dedos, A Nave de Noé vem alegremente nos lembrar de que a
literatura estará sempre conjugada com os novos meios, já que o avanço
tecnológico é só mais um suporte das experiências humanas.
Tarde - Paulo
Henriques Britto
Com “Macau”, de 2003, Paulo Henriques Britto arrebatou
o Prêmio Portugal Telecom de melhor livro escrito em língua portuguesa.
Considerando que a poesia geralmente fica em segundo plano nos grandes
acontecimentos literários, além de ser menos divulgada e – talvez por isso
mesmo - vendida se comparada à prosa, o fato causou surpresa. Desde o título,
em que a região chinesa onde se fala português serve como símbolo do poeta
cercado por uma multidão para quem é ininteligível, o livro consolidou a
produção em versos de Paulo Henriques, já reconhecido pela competente atividade
de tradução, especialmente da complexa obra do romancista norte-americano
Thomas Pynchon.
Depois de “Macau” e da ótima coletânea de contos
“Paraísos artificiais”, foi lançado recentemente “Tarde”, o seu quinto livro de
poemas. Sob vários aspectos, o novo trabalho guarda semelhanças com a obra
premiada, como a manutenção da temperada mistura de auto-ironias, o domínio das
formas fixas em prol de um conteúdo leve e a consciente situação da poesia na
contemporaneidade.
No último século, um dos assuntos recorrentes da poesia
é discussão em torno do próprio fazer poético. Apesar de muitas vezes cair num
tipo de eco ressoando numa casa de espelhos, a metalinguagem nos poemas de
Paulo Henriques está a serviço de um projeto de
questionamento crítico em torno da construção literária: “(...) quem
garante/ que este modo de atrelar pensamentos/ seja pior que outro qualquer?
que o antes/ não possa vir depois? que o encadeamento/ tenha que obedecer a
algum sistema?” O recurso do humor, com a inserção de termos coloquiais em
versos habilmente metrificados, ressalta esse aspecto insubmisso do livro.
Sim, porque o autor lança mão de todo um arsenal de
formas e recursos técnicos utilizados na complexa arte de escrever poemas:
terza rima, rimas raras, sonetos e suas variações, enjambement e mais tantos
elementos. (Convém mencionar que, hoje, boa parte dos poetas dispensa o uso da
técnica, menos por proposta estética do que por necessidade de estudo e
prática.) Paulo Henriques domina os versos como um malabarista rigoroso que se
finge distraído, cuja precisão formal se disfarça sob uma fluência de idéias:
“Difícil, sim. E é por isso que encanta. / Há que sentir – e aí está o fascínio
- / com a rima atravessada na garganta.”
Todos esses aspectos, reunidos, geram o fator que situa
“Tarde” entre as grandes realizações poéticas dos últimos anos: o espaço onde o
poema se assume no mundo. Alheio a quaisquer utopias salvadoras, o eu-lírico é
consciente da sua limitação. “Como
tentar se é tão fácil/ conformar-se de saída/ com a idéia de fracasso?” Certo
de que o poema não irromperá como salvação idílica do real, resta-lhe a
realização discreta nas fissuras entre o texto e a vida.
Desse modo, o fazer poético está circunscrito a um
perímetro, inicialmente, restrito ao paradoxal reflexo das opacidades: “Um
escrever que é verbo intransitivo/ que se conjuga numa só pessoa”. No caso, a
idéia remeteria a um tipo de aceitação ou reconhecimento de que, realmente, a
poesia hoje é feita para um grupo limitado de apreciadores, quase todos também
poetas insulados nas suas vozes. Idéia que, numa leitura mais apurada, logo se
desfaz. Isso porque o poema, de fato, não dá conta da vida, não se pretende uma
pulsão de transcendência lírica, tampouco qualquer experimentação visceral com
máscara de vanguarda. Em “Tarde”, os versos não querem ser a representação de
um pássaro, mas se sabem alpiste: “Mas não há um lugar/ onde se possa estar,/
mesmo que ausente?”
A poética de Paulo Henriques Britto, portanto, está
liberta do fardo das tradições e das rupturas, e é a partir dessa consciência que
os poemas trafegam livres e suaves na leitura. O tom bem humorado e arisco,
porém, é apenas mais uma camada sutil, dentre tantas outras. A literatura nasce
exatamente na existência múltipla dessas camadas, e tão melhor é o livro quanto
menos visíveis elas sejam, como ocorre em “Tarde”.
Faz que não vê -
Altamir Tojal
O jornalista Altamir Tojal militou na resistência à
ditadura e hoje atua como consultor de comunicação corporativa. Alguns
elementos da sua trajetória pessoal foram utilizados para a construção do
thriller político “Faz que não vê”, sua estréia no romance. Já decorrido algum
tempo entre os anos de chumbo, o ressurgimento claudicante da democracia e os
dias atuais, é possível pensar mais criticamente a relação entre esses
períodos, de modo a se compreender melhor o cenário brasileiro contemporâneo. O
livro narra esse processo de escoamento das utopias pelo ralo do pragmatismo
destituído de ética.
Na Era Collor, Delano tem a função de intermediar uma negociação
para um investimento milionário na Zona Portuária do Rio de Janeiro,
envolvendo-se num emaranhado de interesses de políticos, empresários,
sindicatos, além do crime organizado. Como resultado da tramóia, o protagonista
é ameaçado de morte, simula o próprio seqüestro e se refugia em Ponta da
Esmeralda, um vilarejo isolado no Nordeste, de onde conta a sua história.
No romance, as tentações e os vícios do mundo
corporativo fagocitam os ideais de resistência e justiça, como se naturalmente
o processo histórico se encarregasse de suprimi-los. De forma rápida e
vertiginosa – e eis que a narrativa de frases curtas se mostra eficaz -, o
militante Delano se converte num yuppie gomado e financeiramente bem-sucedido.
Como bem afirma Antônio Torres na orelha, o romance tem ritmo ágil, quase
telegráfico, descritos como um roteiro de filme de suspense.
De fato, o aspecto formal das frases curtas, que em
muitos livros soam gratuitamente a serviço de um modismo fragmentário, aqui
casa bem com a idéia do romance. Durante o diálogo de Delano com uma deputada,
enumeram-se os assuntos testemunhados pelo sofá do gabinete: “Do contrabando e
do tráfico à receptação e à lavagem de dinheiro. Proteção da polícia. Queima de
arquivos. Ah, as licenças que o álcool dá! Línguas soltas. A conversa virou
sussurro sobre fiscais da alfândega, delegados, juízes, jornalistas e até donos
de depósitos de mercadorias, frotas de caminhões, postos de gasolina, casas de
câmbio. Doleiros.” As mudanças de cena, ocorridas rapidamente, sugerem um clima
de cinismo nas relações humanas, atropeladas por um mal imenso e abstrato chamado mercado, que justificaria
toda a pulverização por que passam os personagens.
A morte simulada de Delano não sugere arrependimento ou
tentativa de redenção. É apenas uma fuga, de cujo relato as revelações e
denúncias são apenas conseqüências. Cabe a Cecília, ex-amante de Delano,
procurá-lo e tentar desvendar o desaparecimento, num dos sutis e, por isso
mesmo, valorosos movimentos de lirismo do romance, quando as seqüências de
maracutaias cedem espaço a algo que não esteja ligado à busca por dinheiro e
poder.
A trajetória declinante do protagonista, na qual a
liberdade se converte em oportunismo inescrupuloso, não parece surpreender o
leitor. Mas também não é essa a intenção, num tempo em que histórias de
corrupção já não chocam mais ninguém. Segundo o próprio autor, inclusive
justificando o título do livro, trata-se de uma realidade que “todos
conhecemos, mas, muitas vezes, tentamos não ver e esquecer”.
O transplante é
um baião-de-dois - José Maria Cançado
O coração é, sem dúvida, a parte do corpo mais
explorada simbolicamente. As civilizações antigas conferiam ao órgão a função
de origem da inteligência e pensamento. Na cultura ocidental, recai sobre ele a
fonte de todo o sentimento humano.
Complementares, ambos os aspectos atribuem ao órgão a idéia de ser o
centro do corpo. De fato, do latim cor, cordis, chegaram-nos também os termos
correlatos “recordar” (com o belo e sugestivo significado de “trazer de volta
ao coração”), “decorar” (guardar no coração) ou mesmo concordar (partir do
mesmo coração) e “coragem” (próprio do coração).
Essa pluralidade semântica e etimológica do termo, que
transcende sua função concreta para abstrata, é recorrente em praticamente
todas as culturas, de maneira que,
naturalmente, o coração constitui uma das temáticas mais utilizadas na
literatura. Ainda que pareça, sob o olhar de hoje, ter sido abordado à
exaustão, não é raro que a potência de uma palavra ou idéia seja renascida na
literatura com sincera autenticidade.
Em 2004, o escritor, jornalista e professor mineiro
José Maria Cançado foi submetido a um transplante de coração. Ainda na UTI do
SUS, escreveu o livro de poemas “O transplante é um baião-de-dois”, lançado em
2005 pela editora Scriptum. Trata-se de um único e longo poema, subdividido em
dias e horários específicos, como um diário escrito com ritmo irregular, em
diferentes batidas, com aliterações, rimas, eufonias, e versos de tamanhos
diversificados. Já no início, situa o palco onde serão travadas as batalhas e o
diálogo com o novo órgão: “esse coração, seu navegar de capitão pelicano/ de
quem viu seu navio a pique,/ faz desse puxado SUS da UTI/ um aberto anti-salão
Titanic”.
Longe de ser uma obra que desperte ou busque compaixão,
ou mesmo que constitua um livro-denúncia sobre a situação da saúde pública
brasileira, temos aqui um momento raro de criação literária que se eleva sobre
a condição humana e sua relação com o outro, em nível mais que sentimental ou
existencial, mas no limite da própria sobrevivência. A presença de uma parte de
outro constituindo e habitando o seu próprio corpo, um novo motor, traz à luz a
experiência-limite da interdependência, personificada no enigma da doação. O
livro trata, portanto, da relação de oferta única e essencial para a
permanência no mundo. Para que esse processo se dê, o eu-lírico se funde com o
homem que escreve o poema, que o recebe assim como recebeu o novo coração. Em
vez de morte, verbo; no lugar do trauma, poesia.
Nesse sentido, “O transplante é um baião-de-dois”
estabelece uma relação metalingüística com o próprio movimento do poema para o
leitor. O coração sem nome recebido por Cançado foi replicado no próprio livro,
que por sua vez tem a chance de ser recordado – com a acepção mencionada no
início – na ocasião da leitura.
O caminho da fusão íntima e sua conseqüente dispersão
no humano se dá no ato de reconhecimento do que é alheio: “Conhecemos as palmas
que dois corações batem/ em dueto, o mesmo padrão de coração no meio// ?As que
bate um só coração, com uma única mão,/ para o coração que ele será do outro
lado do espelho?” Desdobrar-se, no livro, é tornar-se um. Numa época em que a
auto-suficiência vem prevalecendo nas relações humanas, “O transplante é um
baião-de-dois” pode ser traduzido como um tipo de manifesto questionador e
inquietante.
José Maria Cançado faleceu em 2006, aos 54 anos, após
complicações cardíacas e problemas de rejeição decorrentes do transplante. O
poema permanece público, como lhe havia sugerido o coração anônimo. Ao fim do
livro, o autor explicita numa nota que não pretendeu escrever o relato de uma
superação de obstáculo, tampouco algo que se aproximasse de auto-ajuda, mas
“talvez hetero-ajuda, essa que se constitui na alteridade, não no ganho e
apropriação mas no jogo e mistério identitário”. Esse duplo deslocamento revela
que a poesia, para estar em si, precisa buscar sobretudo o outro.
Veneno antimonotonia – org. Eucanaã Ferraz
“Tu pisavas nos astros distraída”, verso de Orestes
Barbosa para a música “Chão de Estrelas”, é considerado por muitos o mais
bonito da língua portuguesa. Poetas como Manuel Bandeira e Guilherme de Almeida
já o exaltavam, sendo que este sugeriu a gravação em ouro do decassílabo na
Academia Brasileira de Letras.
Nas últimas décadas,
o excesso de depuração acadêmica criou um mito separatista entre poesia e
música, como se fossem artes que se excluiriam. Parecem esquecer que durante
séculos foram a mesma coisa, antes de a vulgarização da leitura silenciosa
permitir autonomia estética de cada uma dessas manifestações. Atualmente a
poesia vem dialogando, ou melhor casando, com outras artes e formatos,
explorando os suportes fornecidos pelas artes plásticas, performances,
ambientes virtuais e, obviamente, a música. Esse retorno das letras lidas com
as cantadas está oportunamente marcado na antologia “Veneno antimonotonia”, organizada
pelo poeta Eucanaã Ferraz.
O livro reúne obras
de vinte autores: dez poetas (Ana Cristina Cesar, Armando Freitas Filho, Carlos
Drummond de Andrade, Ferreira Gullar, Francisco Alvim, João Cabral de Melo
Neto, Manuel Bandeira, Mário Quintana, Murilo Mendes e Oswald de Andrade), sete
compositores (Adriana Calcanhotto, Aldir Blanc, Caetano Veloso, Cazuza, Chico
Buarque, Gilberto Gil e Noel Rosa), e três que transitam entre os dois mundos
(Antonio Cícero, Wally Salomão e Vinicius de Moraes). Qualquer que fosse a
seleção, estaria aberta a discussão acerca das ausências e presenças de nomes,
privilégios de uns em detrimento de outros. Seria possível reclamar a falta de
um Renato Russo, Leminski ou poetas mais jovens. A leitura, no entanto, revela
que a obra é coerente dentro do que se propõe, se considerarmos, mais que o seu
recorte, a sua costura.
Os textos estão
dispostos em quatorze capítulos, agrupados por afinidade temática, como “Lições
de partir”, “Lançar mundos no mundo”, “Eu vos incito a lutardes” e “Todo o amor
que houver nessa vida”. Daí o tom agradável da leitura, que promove um sentido
de felicidade que muitas vezes é afastado da poesia por conta de
auto-referências e outros hermetismos acessíveis ao gueto dos próprios poetas.
O senso comum, aliás, não deixa de atribuir ao poema a representação romântica
de um tísico lamurioso, o que não condiz com a variedade do que se produz
atualmente.
Isso não significa,
no entanto, que a coletânea tenha lições utilitaristas. Como o próprio Eucanaã
explica na apresentação, o livro é uma espécie de auto-ajuda ao contrário.
Busca não o equilíbrio e regulação da vida por meio de receitas - que
constituem eles mesmos um tipo de monotonia -, mas o pensamento irrequieto
fornecido pela fruição poética. Se entendermos a monotonia como aquilo de
apenas um tom, repetido e destituído de novidades, a seqüência de poemas gera
um tipo inelutável de arrebatamento. Mesmo porque não há um nivelamento dos
textos de modo a produzir uma leitura fácil ou difícil. Prevalece a surpresa.
Durante o festival
de poesia Folia das Falas, realizado recentemente em Florianópolis, uma
pergunta da platéia a Antônio Cícero iniciou um pequeno debate acerca das
semelhanças e diferenças entre o processo de criação para poemas ou letras de
música. O poeta respondeu com a clareza semelhante aos seus versos que, embora
os modos de produção sejam diferentes, há certas letras que podem se sustentar
na leitura, da mesma forma que alguns poemas podem se transformar em algo
aprazível quando musicados. De fato, é bom lembrar que o refinamento e a
diversidade da música brasileira a transforma num eficiente canal de
transmissão dessa vertente poética. Há quem se volte contra essa possibilidade
de leitura, ignorando que letras de música circulam bastante pelo ambiente
impresso, por exemplo na prática da reescritura nas agendas e blogs dos
adolescentes.
Essa, talvez, seja a
maior virtude de “Veneno antimonotonia”: permitir uma aproximação agradável da
poesia escrita para o público que está mais acostumado em ouvir música. Ainda
mais que em nenhuma rádio, hoje, é possível ouvir Bandeira nos aconselhando,
como faz na primeira estrofe do poema “À sombra das araucárias”: “Não
aprofundes o teu tédio./ Não te entregues à mágoa vã./ O próprio tempo é o bom
remédio:/ bebe a delícia da manhã.”
Os segredos da ficção:
um guia da arte de escrever narrativas – Raimundo Carrero
É comum que boa parte dos leitores, ao se deparar com um
belo texto literário, pense que ele surgiu num momento de rara epifania, no
qual um lampejo irrompeu do mundo imaterial sobre a mente de um ser iluminado,
o escritor. Este, eivado pelo toque da Musa, derramaria as palavras sobre o
papel de maneira precisa, tomado por um estado de entusiasmo e inspiração
profunda.
Essa impressão pode
– e deve – cair por terra tão logo esses mesmos leitores, interessados em saber
como nascem as narrativas, se deparem com “Os segredos da ficção”, livro recém
lançado pelo escritor pernambucano Raimundo Carrero. Na própria capa da obra,
elaborada por Bruno Porto, misturam-se rabiscos, rasuras, idéias modificadas em
busca de um formato melhor para serem apresentadas. Tal sensação de esforço
contínuo é recorrente em todo o guia, conferindo ao título, inclusive, um
aspecto irônico, haja vista que não há segredos na criação narrativa, e sim um
conjunto de empenho, domínio de técnica e disciplina.
Raimundo Carrero tem
lastro suficiente para apresentar os caminhos da construção literária a
qualquer aspirante a escritor. Venceu os Prêmios APCA e Machado de Assis em
1999 com o romance “Somos pedras que se consomem” e o Jabuti em 2000 com “As
sombrias ruínas da alma”. Além de ter sido escrito por um prosador consagrado,
o que confere legitimidade ao guia é o fato de o seu autor vir ministrando
oficinas literárias desde 1988. Assim, “Os segredos da ficção” é também o
resultado de muitos anos de trabalho de leitura e escrita com autores
iniciantes, o que lhe assegura refinamento metodológico e uma consistente base
prática.
O autor de “Ao redor
do escorpião... Uma tarântula?” dividiu o livro em três partes: “A voz
narrativa”, em que são definidas minuciosamente as funções de autor, narrador e
personagem, bem como o modo correto de serem utilizados recursos de escrita
básicos de maneira coesa e coerente com a história contada; o segundo, “O
processo criador”, é voltado para a quebra do mito da inspiração e da obra
literária como algo construído a partir de fórmulas pré-fabricadas, em que pesem
os recursos de intuição, técnica, pulsação narrativa e organização; e no que
seria o capítulo principal, “A construção do personagem”, Carrero esmiúça todas
as facetas desse elemento, em torno do qual toda a narrativa se desenvolve.
“Precisamos compreender que o problema central da ficção é o personagem”,
afirma, contrapondo essa perspectiva com outra linha segundo a qual as
narrativas literárias são prioritariamente espaços para experiências de
linguagem. De fato, ao se observar a narrativa literária na perspectiva do
autor, o personagem adquire função primordial, cuja gênese – incluindo desde as
características do nome até seus atributos físicos – já traz consigo a essência
do que será contado.
Livros como “Madame Bovary”, de Gustave Flaubert,
“Essa Terra”, de Antônio Torres ou mesmo obras do próprio Carrero são modelos a
partir dos quais são estudadas as técnicas de disposição de diálogos, uso de
pontuação, elementos gramaticais e todos os demais recursos que devem ser
manejados de forma hábil na escrita. De forma análoga ao que fez Autran Dourado
em “Uma poética de romance: matéria de carpintaria”, pode ser desenhada uma
espécie de planta baixa de um livro, em que a arquitetura literária fica à
disposição para ser manipulada pelo leitor-escritor.
“Os segredos da ficção” surge como oportuna ferramenta
de reflexão e prática literárias, num momento marcado pela pluralidade
temático-formal e relativa facilidade em termos de veiculação do que tem sido
produzido. Nesse contexto, a preocupação com um método de criação literária e a
leitura dos mestres é uma demanda bastante necessária. Inclusive porque,
erroneamente, alguns novos autores apregoam uma espécie de auto-suficiência
literária, ou seja, bastam-se como fonte natural e original de histórias e freqüentemente
se declaram inventores da roda e das vanguardas, caminho pouco recomendável
para quem está aprendendo, quando humildade, paciência e trabalho são
fundamentais.
Daí a importância de se ler a excelente bibliografia
comentada no fim da última parte, o que permite ao leitor conferir de forma
mais aprofundada os problemas levantados ao longo do guia.
Com todo esse conteúdo, “Os segredos da ficção” não é
um livro de receitas. Antes, aponta caminhos com base na experiência. A
qualidade do resultado ficará por conta da vontade e persistência de quem o
ler.
Entrevista com Raimundo Carrero
Raimundo Carrero foi convidado para ministrar uma
oficina literária na Flip. Os mais de 50 alunos foram selecionados pela equipe
do blog Paralelos.org, especializado
em divulgar novos escritores.
Fica claro,
logo no início de “Os segredos da ficção”, que a leitura analítica e criteriosa
dos mestres, somada ao trabalho árduo, são o caminho mais eficaz para a criação
literária. Como os seus alunos recebem essa idéia?
Sempre que realizo oficinas, faço leituras analíticas
de vários textos, como “Abril Despedaçado”, de Ismail Kadaré, “Pedro Páramo”,
de Juan Rulfo e “Ana Não”, do Agostinho Gómez Arcos. Procuramos ler para
interpretar cada parágrafo, palavra, cena, diálogo, sentir que essas peças não
foram colocadas ali por acaso. Essa análise de pianista, criteriosa e lenta
apaixona os alunos. Buscamos fazer esse mesmo tipo de leitura nos textos produzidos
nas oficinas.
Muitas pessoas
acham que a literatura é produto de uma inspiração profunda, quase divina. De
onde vem essa concepção?
Vem de Platão. Somos saudosistas de um mundo
paradisíaco perdido. Após a descoberta da psicanálise, não há porque desconhecer
e explorar o inconsciente. Assim, sabe-se perfeitamente que a criação, mais que
uma libertação, é um duelo entre o homem e a realidade, produzido na seqüência
pacificação/interação.
Seu livro situa
alguns elementos fundamentais da narrativa (tempo, espaço e enredo) girando em
torno do personagem. Por quê?
Porque o escritor não tem estilo, quem tem estilo é o
personagem.
Universidades e
outras instituições vêm cada vez mais oferecendo cursos específicos para a
formação do escritor. Qual a importância
das oficinas literárias para os escritores potenciais?
É importante que eles descubram que são escritores. E
que também não existe essa distância extraordinária entre seres mitológicos
inspirados por musas e aqueles mais humildes que apenas se propõem a estudar e
escrever literatura.
E para o autor
que ministra essas oficinas?
Para mim, a oficina é uma grande oportunidade para
exercitar e revelar aquilo que venho aprendendo na solidão e no silêncio, ao
longo de muitos anos de trabalho com a palavra.
Adriana Lisboa é uma das mais proeminentes narradoras
brasileiras dos nossos dias. Com apenas três livros publicados, dentre os quais
o primoroso “Sinfonia em branco” (não por acaso vencedor do Prêmio José
Saramago em 2003 como melhor romance escrito em língua portuguesa), a escritora
vem se firmando como um nome consistente e respeitado no vasto mundo literário
contemporâneo.
O recém-lançado
“Caligrafias” reúne pequenas narrativas produzidas entre 1996 e 2004. Alguns
desses textos, com o mesmo título, foram inseridos na coletânea “25 mulheres
que estão fazendo a nova literatura brasileira”, organizada por Luiz Ruffato.
Se ali a sucessão de textos curtos pareceu diluída no emaranhado da diversidade
formal, a oportunidade de lê-los numa obra autônoma lhes dá uma outra
perspectiva literária.
Inicialmente
pensados como exercícios de escrita, os textos passaram por uma seleção e passaram
por tratamento gráfico simples e eficaz, que se engrandece com os desenhos do
artista plástico Gianguido Bonfanti. Seus desenhos sugerem uma movimentação de
corpos, conferindo ao livro uma dinâmica à parte, embora a maioria esteja
atrelada a um dos fragmentos.
Os pequenos
textos partem de situações que à primeira vista seriam banais. Uma viagem de
ônibus, um sonho antigo, um cachorro atropelado ou mesmo um menino pedindo
esmola são o mote dos retratos delicados e de singular qualidade descritiva,
como no intitulado “Quintal”: “Cinco minutos de chuva. Ninguém tirou as roupas
do varal. (...) O sol voltou a brilhar e as palmeiras projetam sombras
aveludadas sobre a grama brilhante. O muro está sujo de terra na parte mais
baixa. Uma pilha de tijolos e três estacas de madeira onde crescem os pepinos.
As colchas brancas cintilam, no varal, e o verão nasce na voz das cigarras.”
O caráter
descritivo e condensado do livro, em que a força imagética se mescla à sutileza
dos instantes, possibilita ao leitor vislumbrar uma espécie de hai-kais
narrativos, em cujo processo de absorção se somam as propriedades dinâmicas dos
desenhos.
Uma das maiores
características de Adriana Lisboa obviamente não está presente em “Caligrafias”
(a refinada capacidade – infelizmente não tão comum na produção atual – de
costurar uma história e gerar unidade narrativa). É uma obra assumidamente
menor que os romances, pois consiste naquilo que o meio acadêmico vem estudando
como rastros ou arestas que os autores vão deixando paralelos à sua obra, sendo
que, na maior parte dos casos, a publicação é póstuma, muitas vezes
contrariando a vontade deixada pelo autor. A diferença é que aqui houve uma
intenção de reunir esses elementos e apresentá-los num conjunto.
Se tivessem sido
escritos em blogs, os textos desse belo livro representariam a transposição
entre os diferentes suportes (Internet e livro), seguindo o caminho já quase
natural de muitos autores. A proposta de Adriana Lisboa, em viés similar,
revela que mesmo os exercícios do escritor podem render bons momentos de
leitura quando os fragmentos de textos são organizados de maneira coesa.
Apresentações – Millôr
Fernandes
Millôr Fernandes, antes de tudo, dispensa
apresentações. Esguio a quaisquer rótulos ou definições que se lhe imponham –
desde o equívoco no seu registro oficial, quando, em vez de escrever Milton, o
tabelião fez o traço do “t” sobre o “o” e não concluiu o “r” –, Millôr vem
contribuindo há mais de sessenta anos, ininterruptamente, para a disseminação
daquilo que, segundo ele, constitui um dos traços mais importantes da sua obra:
a vitalidade. Essa característica é notada também na maneira como o guru
aprecia a arte e os artistas que o circundam.
O livro
“Apresentações”, não tão por acaso lançado no período em que o autor completa
80 anos, vem oferecer a perspectiva sobre cerca de 70 personalidades para quem
ele fez textos introdutórios, indicações ou apreciações críticas ao longo dos
anos.
Uma vez que
Millôr atua com extrema desenvoltura nas mais variadas manifestações artísticas
– das quais se destacam poesia, teatro, crônica, tradução, desenho e pintura –,
suas opiniões sobre a produção alheia são carregadas de um olhar empático, tal
como ocorre na apresentação de um grupo de humoristas cariocas: “Parecerá ao
leigo (nome com que os educados tratam o imbecil) que é muita ambição para
pouca exposição. Mas cada desenho aqui exposto corresponde a dez mil ações de
cada um de nós, pois o que menos fazemos, nós, os humoristas, é humorismo, o
que menos praticamos, nós, os desenhistas, é desenhismo.”
Embora o autor trate de si (há algumas apresentações de
suas próprias obras, como ocorre no rico prefácio da peça “Um elefante no
caos”) e dos seus, o conjunto de textos não consiste num apanhado de
apadrinhamentos, e sim apreciações feitas com precisão crítica. Esse olhar se
mostra sempre agudo e amplo, a partir do qual, muitas vezes, Millôr aproveita
para lançar mão da sua iconoclastia incomparável, questionando o establishment.
O humor sem plumas de Millôr dá o tom de
“Apresentações”, conferindo ao texto uma boa carga de ludicidade. Considerando
que muitos dos apresentados são humoristas da palavra e/ou do traço, a temática
sobressai e revela, em vários momentos, as definições millorianas sobre a
atividade, principalmente para negar uma visão banalizadora que o humor possa
receber. No texto de apresentação do livro “As 13 pragas do século XX”, do hoje
(infelizmente) pouco lido JAAB, Millôr afirma que humor “não é ser engraçadinho,
não é ser a vida da festa, o contador bem-sucedido de piadas em cadeia
(ocasionalmente isso vale, mas só ocasionalmente); humor é, sobretudo, mau
humor.” O fato de o humor ser mostrado como “a quintessência da seriedade” em
vez de uma promoção da campanha do “sorria sempre” assegura, assim, o seu papel
ideológico e profissional.
A generosidade do
autor tem sido retribuída pelo público a quem a obra dos apresentados se
destina, visto que Millôr não perde tempo com quem julga medíocre (a não que
seja um medíocre célebre, que pode se converter em objeto do seu humor
sardônico). Numa carta a Paulo Francis, afirma que “a gente, queira ou não, vai
deixando pedaços com os amigos, pedaços que nos ligam e interligam.” Ao fim de
“Apresentações”, é Francis quem apresenta Millôr, retribuindo na mesma moeda o
que poderia ser uma resposta de todos os demais citados no livro: “Não há
ninguém entre nossos profissionais que não reconheça em Millôr uma constância
de qualidade quase sobre-humana. (...) Melhora, como os melhores vinhos, com o
tempo. Não decai ou tem lapsos. É tinhoso e furioso. Já me irritou quando
discordamos à latência homicida. Sempre o admirei e admiro.”