Na balada

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Escrevo de São Paulo, onde cheguei para participar da Balada Literária, e também onde devo ficar por alguns dias por compromissos de trabalho. Sampa tem uns prós e contras, como em qualquer lugar, mas por conta da escala da cidade os prós tendem a ser muito grandes, como é o caso da culinária, e os contras seguem o mesmo caminho. Vide os engarrafamentos. Diferente do Rio de Janeiro, quando geralmente o trânsito diminui aos domingos, aqui parece que os carros saem de casa para aproveitar a cidade, uma vez que estão liberados, enfim, do rodízio.

Mas fico com os prós. A Balada Literária é uma catarse cultural tocada pelo também catártico Marcelino Freire. O escritor e agitador pernambucano consegue a proeza de, em temos bicudos como estes, realizar um festival literário contando com a participação de dezenas de artistas de todo o país, alguns até mais do mainstream, como Ney Matogrosso. Há quem diga que essa articulação do Marcelino se dá porque ele, na verdade, tem pelo menos seis irmãos gêmeos. Simultaneamente, ele está dando uma palestra num lugar, uma oficina em outro, fazendo curadoria de outra coisa, visitando instituições e compondo banca de prêmio literário. Seus livros, naturalmente, são escritos nos salões de embarque.

Balada. Um termo com o qual os cariocas implicavam (eu incluso) há alguns anos. Designava a vida noturna da cidade. Achávamos isso muito esquisito no Rio, e por isso chamávamos, bestamente, de night, o que era pior ainda. Agora que saí desse mercado, por conta de idade (ui) e casamento (viva), não sei direito como chamam. Mas creio que aqui, pelo menos, ainda seja o mesmo. Parece que no Rio já estavam adotando também.

Mas o conceito da Balada Literária é altamente interessante. As programações, apesar do nome, acontecem ao longo do dia. E o público vai mesmo. Como hoje fosse um dia quente, imaginei que raros iriam investir seu pouco tempo de domingo para ouvir escritores, mas havia um grupo bom lá e foi uma lufada de esperança na literatura.

Balada, no Rio de Janeiro, pode ser levar uma bala perdida. Há algumas semanas, fui acompanhar a Flupp, na Cidade de Deus. É um evento literário lindo e que, pela sua natureza, de Festa Literária das Periferias, chega onde muitos os projetos culturais dizem chegar, mas apenas para conseguir patrocínio. Poucos dias após o evento, irrompeu essa guerra entre polícia, traficantes e milicianos que, até hoje, não acabou. E fico pensando que as ações culturais não fazem nem cócegas nos problemas sociais. Talvez façam. Ou diminuam. Ou não tenham que fazer, deixando em aberto, como possível consequência.

Porque, às vezes, tudo o que queremos é apenas curtir a balada.

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Assunto Sem categoria

Helicópteros

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Helicópteros passaram bem pertinho da janela onde trabalho por esses dias, quanto procuravam cerca de 50 bandidos que se escondiam no matagal.

Minha mãe diz que, quando éramos crianças, meu irmão e eu ficávamos loucos de felicidade quando víamos um helicoptêro.

Na semana anterior, um tiro de raspão havia atingido um funcionário lá da empresa.

Apesar do muro alto, parece que a bala fez uma curva, como nos filmes.

Depois dos helicópteros, ouvi tiros e saí da sala. Ao retornar, não consegui trabalhar direito e fui para o centro médico, tonto e com dores de cabeça.

Me deram um comprimido de paracetamol.

Um helicóptero caiu e morreram os quatro policiais que estavam dentro. Não sabem ainda se foi por pane ou tiros.

Três coisas param no ar: beija-flor, helicóptero e Dadá Maravilha.

Em vídeo, mães dos jovens mortos na guerra pediam autorização para procurar os corpos dos filhos no mato.

Havia aquelas séries da televisão com helicópteros: Água de Fogo e Trovão Azul. Meu irmão gostava mais do primeiro e eu do segundo, mas não brigávamos. Por isso.

O helicóptero caiu (ou foi derrubado) bem em frente ao meu trabalho, na beira do rio sujo.

Chopper Command era um jogo de Atari em que você controlava um helicóptero cuja missão era proteger uma caravana de outras aeronaves. Será que algum dos quatro policiais jogou esse game na época e recentemente pensava lá do alto “ah, se o eu moleque visse isso aqui”?

Foram encontrados 7 corpos na localidade chamada Brejo. Mortos com tiros.

Nos 4 mortos no helicóptero não havia perfurações de balas. No entanto, leio na notícia sobre o enterro: “os policiais foram homenageados com honras militares, o que inclui uma salva de tiros.”

Não se sabe ainda o que derrubou esse helicóptero, mas uma coisa é certa: não havia rico dentro e fora dele. Há alguns anos, 450 quilos de cocaína não foram suficientes para evitar que uma aeronave levasse nenhum dos poderosos envolvidos ao chão.

Não faz muito tempo que um acidente de helicóptero matou pessoas ricas e evidenciou as relações de corrupção do então governador com empreiteiro. Esse político está agora no presídio de Bangu, aqui na mesma Zona Oeste carioca.

Ouço agora o som de mais helicópteros sobre as nossas cabeças, indo na direção da Cidade de Deus. Na infância, gostávamos de amarrar libélulas com um pedaço de linha, e elas iam voando, voando, voando…

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Assunto crônica

Histórias da FLUPP

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Ilustra: FP Rodrigues

Na última semana, estive pela Festa Literária das Periferias – Flupp. O evento aconteceu aqui na Cidade de Deus, perto da minha casa. A Zona Oeste carioca não recebe tantos investimentos culturais – não pega o capital concentrado na Zona Sul nem tem a mística suburbana na Zona Norte –, daí foi um privilégio esse tipo de acontecimento nestas plagas.

Neste ano, a Flupp recebeu o prêmio de melhor festival literário do mundo, batendo a própria Flip que lhe dera a inspiração para o nome e o conceito inicial de colocar o escritor em evidência. Se um lado a Flip modificou profundamente os formatos de eventos literários no país inteiro, sendo matriz para dezenas de projetos com as iniciais F e L, a Flupp foi a que mais conseguiu dar um salto de ousadia. Isso porque a literatura, seja na produção como no seu consumo, está historicamente associada a um tipo de público mais iniciado, que se concentra nas localidades acessíveis aos ricos (não aos maiores ricos que, em geral, são estúpidos e não leem nada). Então a turma decidiu fazer a festa literária justamente dentro das comunidades, inicialmente associadas às Unidades de Polícia Pacificadoras. Pelo que a leitora deve acompanhar pelo noticiário, as UPPs não deram certo, mas a Flupp sim.

Participei da primeira edição do evento, em 2012, no Morro dos Prazeres, comunidade carioca colada ao bairro de Santa Teresa. O homenageado, convém lembrar, era o escritor carioca Lima Barreto. Segundo acaba de ser divulgado, será o homenageado da Flip em 2017.

Uma vez que frequento projetos literários de todos os portes, fico sempre preparado para encarar qualquer tipo e volume de público. Chovia naquele sábado e tive uma grande surpresa ao me deparar não só com uma estrutura imensa para os padrões cariocas, como também ao ver que o espaço estava lotado. Era dentro da Flupp Parque, braço do evento mais voltado para o público juvenil, mas havia famílias inteiras lá, e tivemos uma tarde maravilhosa. Aqueles moradores não precisariam mais ir aos lugares chiques para tentar entrar nos eventos culturais onde, tradicionalmente, não se sentiriam bem-vindos. Agora havia um festival literário de primeira feito para eles.

Desde então, em todo evento de que participo, seja como autor ou do lado de dentro do balcão, penso sempre na metodologia e visão da Flupp. Reclamamos sempre da falta de leitores, de consumidores de bens culturais que não sejam aqueles mais populescos. Mas numa olhada rápida, por exemplo, nos projetos aprovados pelas leis de incentivo, como a Rouanet ou a de ISS, para vermos que os proponentes são, em sua maioria, as elites de sempre. E para justificar o uso de dinheiro público inserem umas cotas de distribuição de ingressos ou livros ou quaisquer produtos para escolas públicas ou “crianças carentes” que nunca irão conhecer. A Flupp faz exatamente o inverso: a periferia é o centro da coisa.

Neste ano, me escalaram para entrevistar jovens que participaram de um game de perguntas e respostas para celular envolvendo o autor homenageado, Caio Fernando Abreu, além de questões sobre literatura carioca de periferia. Novamente fiquei surpreso, pois descobri serem alunos da escola pública onde estudei no Ensino Médio (quando ainda era Segundo Grau, ó tempus fugit).

Diferente da minha época (que dor nas costas!), esses alunos têm mais contato com os livros, ainda que se orgulhando de ler mais autores estrangeiros do que nacionais. A ideia de leitura não é mais associada a coisa de nerd ou de alguém deslocado. Lembro-me de uma vez em que, como não queria jogar futebol ou qualquer outra coisa no tempo vago, fui para a biblioteca e me aplicaram um belo bullying (o termo não existia, mas a prática sim) porque estava lendo “Eram os deuses astronautas?”, do Erick non Däniken. Tempos depois descobri que de fato as teorias desse autor são uma grande picaretagem, mas duvido que foi por causa disso que os colegas me trollavam.

De todo modo, já marquei de visitar a minha escola e conversar com os jovens alunos sobre leituras. Só um projeto como a Flupp, aqui nas periferias cariocas, permite que a gente (re)encontre e dialogue com quem somos em essência.

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Assunto crônica

Das pequenas e grandes resistências

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Semana passada visitei uma escola pública para conversar com alunos na sala de leitura. Sempre tento conseguir tempo para esse tipo de atividade, que é das experiências mais maravilhosas para quem trabalha no ramo das ideias. Mais do que nunca, ceder nosso tempo ao encontro com os jovens não é caridade ou favor a conhecidos que trabalham nas redes de ensino, mas mergulhar na fonte mais importante que constitui o caldo social.

(Pobres dos meus colegas de escrita que, na sua segurança de classe média, torcem o nariz para esse tipo de público, enquanto aguardam convites para eventos literários chiques.)

Quando fui aluno da rede pública, praticamente durante toda a vida de estudante, não havia muito espaço para que expressássemos opinião de forma séria. O jovem pobre era um potencial bandido e, além de não ser ouvido, sofria um bullying constante até fora dos muros da escola. Lembro-me de um episódio, da época do Ciep, quando fomos dar um passeio (rolezinho?) lá pelo calçadão de Madureira depois das aulas. O segurança das Lojas Americanas nos acusou de estar roubando doces, levando-nos para um canto da loja. Em seguida, com outro sujeito que estava sem uniforme, nos mostrou um martelo de alho, com que ameaçou esmagar as nossas mãos caso voltássemos à loja. Amedrontado, não entrei mais lá de uniforme, ainda que nunca mais o nosso grupo de colegas tenha falado sobre o assunto, dada a então normalidade daquele tipo de cena.

Hoje é possível que esse tipo de situação aconteça. Mas um aparelho celular com câmera poderia filmar toda a ação dentro da loja, que poderia se espalhar nas redes sociais até que a rede de lojas se desculpasse publicamente. O preconceito existe e, pelo cenário político em torno das áreas de Educação e Cultura, infelizmente não deve sair de cena tão cedo. No entanto, me parece que temos uma geração de jovens mais atenta, com acesso a informação e direito a voz.

O fenômeno das ocupações das escolas é um plot point histórico. Aprendemos que matar aula era uma coisa boa, evitando o máximo possível a permanência no espaço escolar. E agora vem a garotada promovendo justamente o contrário. Precisamos urgentemente encontrar um antônimo para matar aula – viver aula?

(Acabo de ler que duas escolas ocupadas têm desempenho acima da média no ENEM.)

Penso isso tudo e volto ao papo na Escola Municipal D. João VI. Trata-se de uma unidade de integração, em que alguns alunos com diferentes deficiências convivem com os demais. Enquanto eu falava com a galera, um aluno fez várias perguntas a respeito de literatura, quadrinhos e mercado de trabalho. Esse jovem, Lucas, é autista.

São dessas pequenas resistências que se formam as maiores, e nos dão esperança de que nossa sociedade saia dessa barbárie cyberpunk para a qual ensaia caminhar.

Leio o comovente e duro livro “Poemas do povo da noite”, do tocantinense Pedro Tierra. Foi escrito enquanto o autor estava preso, no regime ditatorial, quando tinha seus vinte e poucos anos. E no primeiro verso do primeiro poema, diz: “Perdemos a noção do tempo”. Quarenta anos e duas gerações depois, acho que poderemos ressignificar essa matéria chamada tempo com aqueles que ainda os têm nas mãos. Esses alunos, para mim, representam essa resistência: à opressão do mundo, da política, de um futuro míope.

Uma das perguntas que me fizeram era sobre de onde vêm as ideias para se escrever. Comentei com os alunos: estar aqui com vocês é uma grande motivação e me enche de ideias. Por isso esta crônica é dedicada aos alunos e professores da Escola Municipal D. João VI, de Higienópolis, Rio de Janeiro.

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Assunto crônica

A escrita contra o esquecimento

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Nesta semana, uma jovem booktuber postou um vídeo em que comentou sobre o meu romance. Venho acompanhando de perto esse movimento interessante e potente dos jovens em torno da leitura. Enquanto há algumas gerações a literatura dependia de alguns canais oficiais para ser divulgada e debatida, como os suplementos literários dos jornais, hoje temos uma situação diferente. Qualquer pessoa pode abrir um canal na internet e comentar seus livros preferidos, promover debates e fazer as ideias circularem.

Claro que isso não resolve o problema da leitura. É meio triste que, enquanto os booktubers se tornam as pessoas que mais influenciam leituras espontâneas no país (no mundo não sei dizer), esses meios tradicionais estejam desaparecendo. Porque com eles alguns profissionais com mais preparação técnica e mesmo com maior bagagem de leitura, como críticos e jornalistas literários, vão ficando cada vez mais relegados ao cantinho dos seus nichos. E muitas vezes os booktubers, por serem em sua maioria bem recrutas, acabam tratando de apenas alguns segmentos mais popoulescos para a sua faixa etária, como os de fantasia e chicklits.

Tento olhar positivamente para essa questão toda, entendendo que talvez estejamos vivendo uma transição nesse modelo, e que indivíduos como os booktubers venham a se profissionalizar cada vez mais, ampliando os seus raios de cobertura para a diversidade literária que vem sendo produzida. As grandes editoras já estão fazendo as chamadas “parceiras”, enviando exemplares diretamente para esses blogs e canais, considerando que eles são bons canais de divulgação.

Mas considere, cara leitora, tudo acima um grande nariz de cera pinoquiano. Porque o que vim contar mesmo foi o resultado do vídeo da jovem. Após assisti-lo, ouvindo os comentários, especialmente no ponto em que ela tratava do ambiente de pobreza carioca na década de 1990, um colega do meu trabalho veio me procurar. Disse que aquilo o fez se lembrar da sua adolescência e de um grande amigo que teve entre a infância e adolescência. Era o seu melhor amigo, com quem compartilhava os sonhos de “ser alguém na vida”. O amigo almejava entrar para o BOPE, correu atrás e conseguiu. Mas logo em seguida saiu, fez uma série de escolhas erradas na vida, ate que desapareceu. Depois de um tempo, foi encontrado vivendo acuado num quarto, de favor, doente. Conseguiram leva-lo para um hospital, onde morreria logo em seguida.

Omiti detalhes que me foram narrados, para resguardar a memória do amigo do meu amigo, pois não são necessários aqui. Mas depois desse relato – e a essa altura já o tinha chamado para um café na copa, pois ele estava muito emocionado enquanto me contava –, meu camarada me fez a pergunta que me tocou profundamente:

– E aí, você acha que vale uma história?

Meu colega me procurou, abrindo a gaveta de suas memórias, na esperança de que eu pudesse transformar a jornada do amigo em literatura. Quem escreve cansa-se de ouvir coisas como “minha vida daria um livro”, ou “um dia vou te contar minha história”. Mas no caso houve apenas uma esperança de que, ao investigar e verter em ficção, o amigo iria permanecer. Essa constatação me comoveu na hora, e ainda estou comovido, pois sem querer meu camarada tocou num dos pontos mais importantes da literatura. Escrevemos para não esquecer. Para não nos esquecermos. Tanto no nível individual e subjetivo quanto no coletivo e social.

Lidamos com símbolos, metáforas, máscaras de estilos que dão formas a ideias. São processos técnicos. Mas da ficção científica à chicklit, da poesia ao realismo fantástico, do livro infantil ao policial, estamos sempre, de formas diferentes, mergulhando na experiência humana versus o esquecimento.

Há menos de um mês, um infarto fulminante levou o Teixeira, que era um dos gerentes da lanchonete onde trabalhei. Ele foi um dos mais empolgados quando soube que eu faria um livro passado num fast-food, com algumas pitadas daquelas nossas vivências. De certo modo, para mim, o Teixeira agora se transportou para o livro.

Não sei se um dia vou transformar em ficção o relato do meu colega do trabalho. Mas ele me atentou para essa responsabilidade da literatura, que é guardar, bem no sentido daquele belo poema do Antonio Cicero: “por guardar-se o que se quer guardar”.

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Assunto crônica

Leituras de Parnaíba

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Semana passada estive em Parnaíba, onde fica um pedaço do já pequeno litoral piauiense. Trabalhei num centro cultural, protegido pela comodidade do ar-condicionado, mas o que gostei mesmo foi de sair, no almoço e depois do expediente, para olhar as ruas, praças e interagir com a gente de lá. Nessas viagens, o paradidático é tão importante quanto o didático.

Não foi minha primeira vez na cidade. Estive lá no ano passado, mas foi mais corrido e fiquei feliz de poder voltar para acompanhar os frutos que havíamos plantado. Também já estive noutro canto do estado, Valença, para participar de um evento literário há uns anos. Aliás, parece que nas cidades menores esses acontecimentos em torno do livro se tornam relativamente maiores, pois a população aparece em peso. Nas capitais, talvez pela correria e oferta desses serviços, o público é muitas vezes bem escasso.

Mas voltemos a Parnaíba. Diferente do calor absurdamente inumano de Teresina, essa pequena cidade do Delta recebe um constante vento litorâneo que diminui a sensação térmica, tornando agradável e possível uma suave flânerie.

(Em tempo: durante a mesma semana o escritor Carlos Henrique Schroeder chegava para ministrar uma oficina literária em Teresina. Eu o havia advertido sobre o calor intenso, pois se trata de um sujeito brancão de quase dois metros e careca. A surpresa foi ter caído um temporal com direito a granizo naquela capital, algo raríssimo. E o último romance dele se chama “História da chuva”. Coisas que só a literatura faz.)

Andando nas ruas parnaibanas descobre-se que o povo da cidade tem um orgulho tremendo das suas histórias, da sua urbanidade mais tranquila, do seu sotaque. Isso eu descobri porque zombaram do meu (pois quem tem sotaque é sempre o outro) ao dizerem que não tenho o sotaque típico carioca. Acho que a referência é o modo de falar praiano-zona-sul das telenovelas. Eu já adoro o uso e abuso que os nordestinos fazem da segunda pessoa. É bom demais, como dizem.

Bom demais mesmo é comer uma corda de caranguejo na beira do rio. O chamado caranguejo toc-toc leva o nome porque vem com um martelinho e uma pedra para quebrar o bicho e escarafunchar os pedaços em busca da carne deliciosa, acompanhado de baião de dois, farofa e molho. Após uma hora comendo as cordas (medida para quatro unidades), o caranguejo toc-toc é um prato que deixa o cliente todo respingado de caldo, com a boca e língua feridas, prostrado como se tivesse acabado de sair de uma batalha. Diz-se que o caranguejo é um alimento pouco calórico, mas acredito que isso se dê porque, depois dessa luta toda, o volume de carne que se retira de cada um é bem pequeno.

Apesar de cidade pequena, existe uma cena cultural bem efervescente em Parnaíba. Muita poesia e prosa sendo lida, escrita e discutida. A maioria dos brasileiros desconhece a vida cultural fora dos grandes centros urbanos, mas isso é assunto para outra crônica. Ou melhor, para outro tipo de texto. (Mas fico me perguntado quantos leitores da intelectualizada revista Piauí já foram àquele estado ou mesmo procuram conhecer a vida intelectual de lá.)

Porque em Parnaíba, em vez de nos afastar do nosso caminho, parece que o vento vai o tempo todo nos conduzindo para frente.

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Assunto crônica

Fiz um trocadilho e me lembrei de você

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Nas três últimas semanas, fiz aqui uma sequência de crônicas a respeito da importância do humor em geral e dos trocadilhos para a vida em sociedade. É, de fato, um assunto sério. Ou, pelo menos, que se coloca como oposto ao sério, e talvez daí se torne relevante. Essa volta ao pensamento teórico e prático do trocadilho me fez revisitar o assunto. E por isso quero dedicar esta crônica aos que não resistem em trocadilhar.

Não adianta tentar mudar os fatos. Quem faz trocadilhos possui um tipo de compulsão que se torna uma característica indelével. Naturalmente, não devemos tratar todos os trocadilhistas como indivíduos que sofrem de um transtorno. Existe uma patologia chamada de witzelsucht, causada por um problema neurológico, em que a pessoa não consegue parar de falar piadas ruins durante um tempão. Mas isso é exceção, não a regra. Os adeptos do trocadilho são em geral pessoas sociáveis, trazem alegria para as conversas e rejuvenescem os grupos de que fazem parte. São moderados e não atiram pra matar.

De vez em quando reencontro pessoas de empregos antigos, faculdade ou vida literária. E em dado momento da conversa alguém sempre diz “ah, Henrique, nesses dias fiz um trocadilho e me lembrei de você”. Há um tempo eu achava isso esquisito: pô, a gente estuda e trabalha pacas, escreve livros e a maior referência que deixamos para trás entre os nossos camaradas são os trocadilhos? Será esse o legado maldito de quem apenas é adepto do calembur suave, só porque não hesita em juntar lé com cré?

Pensando bem acho que já seria sim uma boa. Veja só. Deveria haver grupos de autoajuda para pessoas que falam piadas, deixam a seriedade pra lá e mergulham na prática de falar todo tipo de bobagem sobre quaisquer assuntos, sem superego ou gueriguéri. Pensando bem, esse lugar já existe e se chama bar. Então se as pessoas se lembram de nós por conta dos trocadilhos, tá de muito bom tamanho.

Porque seria estranho mesmo se dissessem “fiz uma planilha de custos e me lembrei de você”.

“Fiz um power point e me lembrei de você. Fritei um ovo e me lembrei de você. Ofendi Fulano e me lembrei de você.”

Daí que se torne relevante a presença e função social de pelo menos um trocadilhista em cada. A realidade tem sido chapada e denotativa demais, inflexível demais. Então você aí, quando fizer um daqueles bem infames, e do seu lado soltarem um daqueles “não, não acredito que você disse isso”, não esmoreça. Mantenha-se firme na sua capacidade de troça e siga em frente, pois essa é, na verdade, uma crítica positiva, porque o trocadilho, cachaça que é, precisa descer queimando.

PS: Minha intenção como romancista não era de produzir essa frase, mas é legal quando me dizem com olhar sacana “Não li seu livro ainda, mas ele é o próximo da fila” Ba dum tss.

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Assunto crônica

Resenha Literatorios

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Assunto Gerais

Ba dum tss – Defesa do trocadilho (parte 3)

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(ilustra FP Rodrigues)

Previously…

Nas duas últimas semanas, tratei aqui nestas crônicas da necessidade e importância (ou desimportância) do humor na vida cotidiana, bem como a prática dos trocadilhos como potenciais pílulas de transgressão ao costume e a ideias sedimentadas. Confesso à leitora que, ao puxar um assunto que me é tão importante, uma vez que me dediquei a ele em pesquisas durante tantos anos, tive certo receio de escorregar para o acadêmico chato, o rebarbativo do argumento, o adiposo das ideias. O Vida Breve não é pra isso.

Aliás, para quem não sabe, o título deste site de crônicas não é inspirado na música do Cazuza, pelo menos primeiramente. A referência é um aforismo atribuído ao médico e arquiteto grego Hipócrates, mas que nos chegou via latim: vita brevis, ars longa. A vida é breve, a arte é longa. E a crônica é, sem pretensão, como quem não quer nada, um lance voltado para a primeira parte. E não por acaso a crônica, sendo também um texto breve, é um espaço muito adequado para o riso, que é também, pela sua natureza, rápido e rasteiro.

O tempo, matéria de chrónos, é também o material do trocadilho, do humor em geral. O pensamento ágil, comprimido, que dá saltos abruptos de sentido e de entendimento da realidade, otiming, são típicos do humor.

Por isso é que, a meu ver, é possível defender até uma poética do trocadilho. Sei que a leitora, assim como muitas pessoas, tem a reação inicial de torcer o nariz diante de uma piada involuntária e inesperada, especialmente se ela surge no meio de um contexto “sério” – e coloquem aspas nesse termo. “Oh, não, lá vem o mané dos trocadilhos de novo”, reagem rapidamente com a mão sobre o fígado. Mal sabem que essa forma de resposta indica o sucesso de uma zombaria, que o recado foi dado, porque internamente houve, em meio àquela situação cheia de ideias denotativas e rígidas, um deslocamento morfológico, sintático ou, melhor ainda, semântico. A reação ao se ouvir um trocadilho é uma pequena vitória do humor sobre a ditadura da seriedade.

Há uns tempos decidi fazer alguns experimentos no dia a dia. A primeira foi publicar um livro para crianças só com trocadilhos. Nasceu o “Alho por alho, dente por dente”, escrito com o camarada André Moura. Trabalhávamos juntos na universidade e, entre os e-mails ordinários, trocávamos poemas com piadas rimadas, como essa do título. Quando visito escolas onde o livro é trabalhado, comprovo uma tese: as crianças adoram trocadilhos (assim como gostam de poesia) e os adultos, com algum constrangimento, tentam esconder que também curtem. Então parti para observar mais acuradamente a reação dos adultos diante do fenômeno.

Recentemente, criei uma fan page chamada Trocadilhos de Quinta. Isso porque notei que, em conversas de Facebook com meu amigo Leo Cunha, que também escreve livros infantis e também não resiste a uma transgressão pelo riso, iniciávamos um tipo de peleja. Todas as quintas postamos uma foto ou notícia geradora de duplos, triplos ou quádruplos sentidos, abrindo os comentários para que os leitores façam seus trocadilhos, que muitas vezes passam dos cem num mesmo dia. Acredito que haja uma demanda reprimida pelo riso entre todos os adultos, talvez uma pequena revolta contra a estupidez do mundo.

Lembro de uma citação do filósofo francês Henri Bergson, que escreveu “O riso”, um dos principais livros sobre o assunto: numa sociedade só de inteligências puras talvez não houvesse pessoas chorando, mas talvez rindo. Acredito que, quem oprime o riso, situando-o num lugar inferior, na verdade está se borrando de medo de ver a sua estrutura ruir com a fragilidade de um castelo de areia.

Para pagar o feijão com arroz, trabalho numa empresa grande, bato ponto em horário comercial, lido com papéis a todo tipo de seriedade, ainda que meu setor específico seja relacionado a ações culturais. Assim como os demais colegas, tento manter algum equilíbrio entre lidar com a densa estrutura administrativa que nos sustenta e o conteúdo transgressor e, muitas vezes, corrosivo dos projetos. Por esses dias, numa reunião que estava pesada demais, mencionaram uma pessoa de outro setor, cujo sobrenome, Singer, me fez perguntar se ela costurava propostas da instituição, ou se havia cantado a pedra para determinado fato. Já conhecia a pessoa em questão, muito simpática, aliás, mas não resisti em fazer o comentário jocoso. Após algumas risadas, voltamos para a reunião, um tanto mais leves.

E assim encerro essa sequência de crônicas sobre a importância do trocadilho na nossa sociedade. O humor é uma arma que não atira para matar, mas corrói pelas bordas. Ao permitir que as cucas se tornem mais flexíveis para as ideias e coisas, pode ainda ter um grande papel nesses tempos tão estranhos, como teve em tantos momentos ao longo da história.

Vita brevis, humor aeternum.

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Assunto crônica

Ba dum tss – Defesa do trocadilho (parte 2)

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(Ilustra FP Rodrigues)

Acredito que, a essa altura, a leitora esteja ainda sob o impacto das eleições. Após dar pequenos saltos na água dos últimos meses e por fim ter inevitavelmente afundado, o assunto ainda deixa pequenas ondas até que, sem que nos demos conta, venha a desaparecer quase completamente no lodo do dia a dia. É incrível a forma com a qual as nossas altas relevâncias migram, tornam-se um tema de atenção mediana e, por fim, desimportantes.

Tenho visto nos últimos anos, especialmente pelas facilidades de expressão das redes sociais, um aumento da postura combativa das pessoas, especialmente em prol de lutas sociais. Paralelamente, o humor encontrou na internet um terreno fértil para se manifestar. Chama a atenção a rapidez com que uma ideia se torna um meme, viraliza e desaparece com a mesma velocidade. A princípio, pareceria um contexto amplamente favorável para o ressurgimento da imprensa alternativa, aquelas publicações independentes que, especialmente durante a ditadura, tiveram papel importante para combater o sistema, sendo O Pasquim o mais importante desses jornais. Imaginei que agora sim a contestação da seriedade pelo riso se tornaria mais democrática e realizada em escala.

Só que não.

É porque vem o Camões me sobrar o seu decassílabo “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”. Fico aqui catando elementos para tentar entender porque o tipo de humor mais utilizado hoje é menos ácido e mais rasteiro.

A primeira hipótese é de que as publicações alternativas não chegavam a tanta gente assim, comparando com a internet hoje. Pelo que me lembro, no auge do Pasquim a maior tiragem foi de 300 mil exemplares, o que é imenso, mesmo porque os índices de alfabetização eram bem menores na época. Mas hoje, por outro lado, temos ainda uma situação de 75% das pessoas economicamente ativas como analfabetas funcionais no país. Pode ser estranho constatar isso, mas se tanta gente não consegue entender textos simples, como compreender uma ironia? Ainda que possa ser verdade, essa hipótese não me convence totalmente, porque o mesmo tipo de humor é praticado em países com melhores indicadores de educação.

Parto para a segunda hipótese. Tal como no filme Matrix, a galera tende a projetar no mundo virtual uma persona do que gostaria de ser aqui na realidade de carne e osso. O politicamente correto chegou chegando, e talvez com uma pitada do parágrafo anterior, sobre a dificuldade de se entenderem ironias, o pensamento malemolente do humor pode se tornar menos flexível. Daí que soa bonito – especialmente porque postar uma ideia no conforto virtual não requer nenhuma ação real – apregoar um bom-mocismo com pompa e virtuosidade do que ser mais sardônico sobre o mesmo assunto. Assim, é facilmente possível ser um bravo militante virtual para causas nobres mesmo que não exista a menor equivalência na vida. E para manter a aparência dessa empreitada digital, ai de quem meter a mão na cumbuca do politicamente correto. Nelson Rodrigues, hoje, seria inviável.

Acho que foi o Millôr (sempre ele) que antecipou numa constatação: a língua deveria ter um sinal para a ironia. Quem nunca escreveu algo que foi levado ao pé da letra, tendo que explicar uma piada?

Nessa carona, uma nova hipótese, e não sou o primeiro a levantá-la, é a de que a liberdade total não é tão propícia ao humor combativo. Quando acabou a censura prévia ao Pasquim, o Millôr disse: “Ser livre, é bom notar, não é ser libertado. ‘Eu te dou toda a liberdade’ é a restrição suprema”. Há uns dois anos, quando o Casseta & Planeta encerrava seu programa na TV, mediei um debate sobre humor com o Tutty Vasquez e o Marcelo Madureira, e não pude deixar de perguntar sobre o fim do programa, considerando que o grupo tinha começado lá atrás, na imprensa alternativa, com a junção dos jornalecos hilários Casseta Popular e Planeta Diário. Sem pestanejar, ele revelou que os anunciantes de lojas populares pressionavam para que as piadas fossem cada vez mais tolas e superficiais porque o seu público assim exigia. E como não dava pra baixar mais o nível do trabalho, o programa foi pro saco. A percepção humorística do consumidor das Casas Bahia pode ser um sintoma de algo maior, não sei.

Mas o humor persiste. Ao longo de todo o dia, cada pessoa entra em contato com cenas, situações, textos orais ou escritos que favorecem a subversão pelo riso. A realidade está impregnada de outra realidade, que corre ao lado, não paralela, mas às vezes perto e às vezes mais distante. Diferente do politicamente correto, que se arma das virtudes, o humor desnuda os nossos defeitos, como um tipo de água benta do capeta que dissolve aquilo que atinge, podendo revelar, sim, a nudez do rei. Na tal modernidade líquida, o humor é chuva ácida.

Peço licença à leitora para citar Vladimir Propp, formalista russo que escreveu um livro interessante pacas chamado “Comicidade e riso”: “se o riso é uma reação aos defeitoshumanos, pode-se suporque o riso de umhumorista seja contínuo, na medidaemqueelevê na vidaapenas mesquinhez e abjeção e, porisso, o risível”. E já que estou citando, vale lembrar do Aristóteles: a tragédia mostra os homens melhores do que são; a comédia, piores. Abraçar os defeitos humanos e colocá-los em pauta pelo ridículo pode ser mais eficaz do que os cobrir com um manto bonitinho de aparências.

Depois de tanto falar pensamento humorístico, não cheguei a conclusão alguma. Estudei essa questão no mestrado e doutorado (ouço sempre que sou doutor em piada, mas rebato que meus trocadilhos têm o certificado RISO 9002) e anda estou cheio de dúvidas. Para testar na prática, camarada escriba Leo Cunha e eu criamos uma coisa chamada Trocadilhos de Quinta. Mas sobre isso falemos semana que vem. Até.

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