O papel da carne no X (de) tudo

Numa banca de jornal qualquer…

– Moço, me vê um x-tudo?

– Vai querer com que tipo de papel?

– Tem de quê?

– Um bom é o couchê, que tem uma textura boa. O mais popular é o papel jornal, que a barraca do caldo ali também usa na sopa de letrinhas e mantém a galera bem informada. Tem um reciclado, mas não recomendo porque é que nem carro usado: uma hora você descobre uma porcaria do antigo dono.

– Nuss, tô fora! Que mais?

– Chegou o pólen 90, que sai muito. Tá na quarta edição o sabor picanha.

– Uau, acho que vou querer esse.

– Calma que tem também uma novidade exclusiva aqui na região. Só comigo você encontra o aspen e o vergé. É coisa refinada. Na Zona Sul não se come outra coisa. Repara que em novela do Manoel Carlos tem sempre alguém segurando um deles nas cenas de rua.

– Poxa, mas é mais caro, e o destino é o mesmo. Faz o seguinte, me vê um de papelão mesmo, esse da promoção.

– Tá ok. Vai querer como?

– Não entendi.

– Comprei uma nova chapa digital, mas muita gente ainda prefere a qualidade da fritura offset.

– Tô com um pouco de pressa. Vai no digital mesmo. Quanto é?

– Esse sai a 6,90. Agradeço se tiver trocado.

– Opa, tenho essas moedas de salaminho aqui no bolso. Deixa eu contar que acho que dá certinho…

– Valeu, garoto! Toma aqui.

– Tem guardanapo?

– Sim, pode pegar ali no bloquinho de rosbife.

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Assunto crônica

Megafarofa de ideias para salvar o mundo

Posso estar enganado, mas me parece que todos os escritores e artistas em geral vivem sempre numa oscilação mental entre si e o mundo. Os não-artistas também, claro. Mas é que esses indivíduos portadores de habilidades estéticas costumam, propositadamente ou não, passar um pouco da fronteira, seja para colher o seu material de trabalho ou para mostrá-lo. Vão demais, para dentro ou para fora.

E ainda com um agravante: o artista tem a firme convicção de que vai mudar o mundo. Essa empreitada quixotesca cai por terra não quando ele se dá conta de que não tem força ou expressão para isso, e sim quando descobre que o mundo, o mundão mesmo, não existe de fato.

A leitora pode pensar que estou misturando um pretenso tratado de estética com uma noite mal dormida, talvez até sofrendo a influência de bebida ou remédios de tarja preta antes da escrita. Não tanto. Ansiolítico algum me daria essa certeza de que a realidade não passa de uma grande abstração criada para nos controlar ou mesmo para nos manter nos eixos, evitando uma piração geral diante da nossa incapacidade de absorver a grande verdade, seja lá qual ela for.

(Lembro de três colegas de trabalho que apelidei de rivotrio.)

O Camões disse bem nos decassílabos: todo o mundo é composto de mudanças / tomando sempre novas qualidades. Heráclito, o patrono das empresas de fretes, já havia dito isso bem antes: o mais importante na vida é a mudança. Essas citações já tão batidas que nem precisei de aspas me vieram à mente quando, semana passada, vi um monte de gente confusa sobre algo que até então parecia simples: comemorar o dia internacional das mulheres tornou-se uma gentileza ou uma ofensa? Não quero entrar nessa questão, mesmo porque essas polêmicas surgem e desaparecem mais rápido do que a crônica, pescadora do efêmero, consegue reter.

Por exemplo, enquanto escrevo estas linhas todos parecem falar de Karnal, mas sei que até eu entender do que se trata já terá passado e os trendtopics serão outros, podendo me relegar ao ridículo da notícia velha. Retomando uma metáfora da era da mídia impressa (quem se lembra dela?), os cronistas precisam ter a perspectiva do peixe de feira que era embrulhado em jornais dos dias anteriores. Os passarinhos, cujas gaiolas forradas com desatualizações servem apenas para que eles manifestem sua opinião sob a forma de uma titiquinha.

Esse sintoma e sentimento de anacronia aguda – ou anagudeza crônica – que a lentidão nos confere tem apenas um lado bom, que é não se deixar tomar pela fúria instantânea e virtual que parece assolar tanta gente. Creio que a culpa deve ser dos logaritmos das redes sociais, que impelem as pessoas a ler e comentar determinados assuntos propositadamente direcionados para disseminar a cólera do dia, que será trocada por outra rapidamente. Essa técnica não é novidade, apenas tomou uma escala maior e veloz.

Nesses dias estive em Paraty a trabalho e, conversando sobre isso, concluí que a locomotiva de palavras que ordenam os logaritmos deve se retroalimentar num sistema virtual programado para a manutenção de um suposto estado de guerrilha que mantém as pessoas interessadas e democraticamente expressivas. Expressão e democracia são termos que traduzem conquistas, que de fato são. Mas desconfio que há um tipo de matrix nos controlando, ou pelo menos tentando.

Depois de umas e outras (sempre elas), cheguei a uma possibilidade efetiva para uma revolução libertária no mundo – e daí talvez minha maior contribuição para a missão quixotesca lá do início: se todos os bilhões de pessoas escreverem trocadilhos ao mesmo tempo, o sistema entraria em pane que faria caírem as cortinas que escondem o Mágico de Oz.

Já se disse, creio que o Millôr (sempre ele): um ditador pode evitar uma fotografia, não uma caricatura. Ou seja, não valem os memes, esses saborosos pitacos de humor que também têm o fluxo controlado. Minha proposta é de uma postagem maciça feito uma grande farofa, poética, dadaísta, em que os duplos, triplos sentidos vão bagunçar os anúncios, provocar colisões de interesses, distanciar e aproximar indivíduos de maneira randômica, redirecionar postagens aos abismos do inusitado. Depois do cataclisma virtual haverá um risonho e novo despertar da humanidade.

Dei a ideia e, antes que ela desapareça, grito como se pintasse num quadro de gelo: só a megafarofa de ideias salvará o nosso mundo!

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Assunto crônica

Réquiem para os orelhões

Dependendo da idade, a leitora (e veja bem, não quero aqui apontar, de forma deselegante, para a sua faixa etária específica, mas sim evocar o tempo passado de cada para as lembranças boas e doces da vida) pode ter vivido uma época em que todos os aparelhos, em vez de ficarem concentrados num celular que cabe na palma da mão, estavam espalhados pela casa, pela rua e pelo mundo.

(Não quero aqui entrar no rol dos saudosistas casimirodeabreus, aqueles que olham para trás com uma lente ajustada para ocultar todos os perrengues de então para entoar o “ai que saudades que eu tenho / da aurora da minha vida / da minha infância querida / que os anos não trazem mais”. Bem, considerando que Casimiro morreu de tuberculose (a coqueluche da época) aos 21 anos, creio que o poeta não teve muito tempo para deixar a nuvem da memória encobrir parcialmente as experiências de moleque, de maneira que a adolescência e o início da vida adulta dele devem ter sido realmente sofridas.)

Voltando dessa digressão enrolesca, esse nariz de cera pinoquiano que só a crônica permite, diferente dos textos acadêmicos e da “alta ficção” (olha só o cronista querendo entrar novamente em outra viela e correr do assunto principal) digo à leitora que, há um tempo, venho sentindo pena dos orelhões.

Assim como boa parte dos brasileiros, nas modestas casas onde morei (ai que saudades não tenho) não tinha telefone, que era realmente um bem muito caro – dependendo do lugar, chegava ao preço de um automóvel. Até o início dos anos 2000 os telefones públicos eram a única forma de muita gente falar com o parente, o amigo, a paquera (nota para um termo que está caindo em desuso; hoje em dia falam crush, e o mais interessante e curioso é que ambos eram nomes de refrigerantes que desapareceram, perdendo o gás na pequena história dos encantamentos).

Ficaram para trás as conversas que todos eram obrigados a ouvir na fila, durante o tempo de incômodo a que todos deveriam se submeter. O nível de aborrecimento aumentava à medida que o ocupante, em vez de se despedir, se acomodava e punha mais fichas, demonstrando a total falta de pressa.

Minha mulher conta que, na adolescência, participou de uma pegadinha da extinta TV Manchete: um anão pedia ajuda para alcançar o telefone. Ele então fazia a ligação e supostamente começava a conversar sem pressa, enquanto ela o erguia com grande esforço. Eis: o orelhão é resquício de um tempo sem pressa. Porque à medida que o orelhão diminuiu de tamanho, o tempo é que se tornou um anão em todos nós.

Por hora, esses objetos de fibra acumulam poeira ou, nos grandes centros, servem de locais para anúncios de serviços sexuais dos mais variados. E me vem a curiosidade para saber se alguém liga direto do orelhão para responder o pequeno fôlder colado: “Olha, estou vendo aqui o seu anúncio e fiquei em dúvida numa foto…”

Provavelmente as próximas gerações vão olhar para esses objetos bizarros e estranhos como peças de arte, uma vez que, em não muito tempo, as empresas vão desistir deles e retirá-los de vez das ruas.

Ou então irão voltar como algo cult, da modinha hipster, grupo que, há pouco tempo, passava a levar máquinas de escrever para cafés, a fim de chamar a atenção para si como descolados. De repente até o orelhão volta como vinil, e especialistas vão dizer o quanto aquela acústica era perfeita e pura, diferente dos ruídos vulgares que chegam pelo celular.

E talvez, assim como acontece com tantas pessoas, só depois do abandono é que serão valorizados: agora sim, caiu a ficha.

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Assunto crônica

No jornal Extra

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Assunto Gerais

Agenda: no Salão do Livro de Paris

Dia 26/03 – 12h – Salão do Livro de Paris

L’aventure des mots

Rencontre avec les écrivains Nilma Lacerda, Henrique Rodrigues et Renata Bueno

Modération par Leonardo Tonus

Activité en français – Jeunesse

12h20

Dédicace avec les écrivains Nilma Lacerda, Henrique Rodrigues et Renata Bueno

15h

Lancement de l’anthologie « Escrever Berlim »

Avec Leonardo Tonus, Simone Paulino, Roberto Parmeggiani, Henrique Rodrigues, Godofredo de Oliveira Neto

Activité en français – Littérature, romans, fictions

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Assunto Gerais

A aula de Sérgio sobre Raduan

Na época da faculdade, havia um programa chamado Escritor Visitante, em que um grande autor oferecia uma oficina literária para os alunos. Recém-chegado àquele universo acadêmico, tudo era novo, ainda mais porque ninguém da minha família, até então, tinha entrado para o chamado ensino superior. Era negodi rico; ao pobre só restava a possibilidade de ser militar caso quisesse ser “alguém na vida”, era o mantra que ouvi durante toda a infância e adolescência, com evidentes ecos das verdades oriundas da ditadura. Sair disso era ser metido, achar-se melhor que os outros: ficar com rei na barriga. E como adolescente gosta de transgredir, essa foi a escolha que contrariava a regra, de modo que cometi uma pequena contravenção para me livrar da aeronáutica e entrar para Letras na Uerj. Aliás, a universidade hoje ameaça virar um grande esqueleto de elefante, e temo que em breve terei o mesmo sentimento quando passo em frente a um Ciep, de ver apenas uma carcaça do que um dia foi algo majestoso e belo.

(Mas isso tudo foi antes de cotas, da ascensão dos mais pobres a bens e serviços, incluindo a universidade, e lembrar pode me colocar no rol dos saudosistas caquéticos. E a vida é breve e o nosso material “é o agora / que mal chegou e já evapora”, como já bem disse o… Mentira, acabei de inventar por preguiça de caçar citação.)

Dizia que nesse programa de escritores da faculdade, me vi fazendo aulas com um escritor de que nunca havia ouvido falar mas que alguns colegas já cultuavam, o grande Sérgio Sant’Anna. Como boa parte dos alunos de graduação saídos de um Ensino Médio (ainda Segundo Grau) deficitário, nossa bagagem de leitura era muito restrita. E vejo que isso não mudou muito, já que muitas redes escolares ainda mantém a ideia de que a literatura começou no Barroco e acabou no Tropicalismo.

Mesmo sem saber que tinha aulas com um dos maiores autores brasileiros, ouvia atento as dicas, seu modo de ler e escrever, aquela caligrafia dele com letras diminutas, aparentando a preocupação com que fosse compreendido – pensava que um escritor de verdade deveria ter letras de médico. E uma frase do grande Sérgio (cujo filho André é hoje um grande camarada) ficou guardada: “Lavoura arcaica, por exemplo, é um livro tecnicamente perfeito”.

Acompanhei o trabalho do Sérgio, que se tornou um dos meus autores preferidos. Resenhei livro dele para o finado JB, fiz um ensaio sobre o seu primeiro romance no mestrado, sempre com o orgulho de ter sido aluno. Em meio a isso, li duas vezes seguidas o Lavoura arcaica, além do volume de contos Menina a caminho, deixando para depois Um copo de cólera, que apenas folheei e ficou como uma daquelas lacunas pessoais.

Sérgio tinha razão. Cada palavra é colocada ali como algo explosivo, e o protagonista André um dos personagens mais marcantes da nossa literatura. Os diálogos, especialmente na parte da família à mesa, de um poder que nunca vi igual nas nossas letras. Confesso que a mística em torno da reclusão do autor não me influenciou em nada nas leituras. Assim como provavelmente aconteceu com o Salinger e o Dalton Trevisan, acho que a ideia de não fazer parte do mundo diretamente, olhá-lo com certo distanciamento é, sobretudo, um recurso estético, cujo resultado pode ser tanto uma escrita mais pungente ou um silêncio que diz muito.

Por isso é que fiquei surpreso quando Raduan resolveu aparecer nos últimos anos, primeiro na Balada Literária, depois para uma fala política. Mas confesso que me causou constrangimento ao vê-lo, semana passada, no meio de um bate-boca na cerimônia de entrega do Prêmio Camões. Não creio que a literatura esteja acima das questões mundanas relacionadas a dinheiro, jogadas sujas de governos e posições políticas de jornalistas, militantes ou quem quer que seja – incluindo a do próprio autor. Porque a literatura bebe da vida mesmo, também do que ela tem de sórdido e sujo. Mas me pareceu que, por mais que tenha parecido um evento contendo elementos que o tornariam digno de entrar para a história, por conta das posições de todos os envolvidos, já evaporou, como mais um escandalozinho efêmero de redes sociais. O vídeo que circula e já será esquecido até sexta não condiz com o sentimento de ler o Raduan.

Por isso é que, de todo modo, prefiro voltar ao livro. E talvez a terceira leitura do Lavoura arcaica me faça entender um pouco mais sobre isso tudo. Ou então complique mais.

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Assunto crônica

Em Paquetá com Dona Therezinha

Já se foram exatas três décadas desde que fui a Paquetá. A pequena ilha ao fundo da Baía de Guanabara oscila entre um rápido destino idílico para uns e um tremendo programa furado para outros. Como fui ainda bem garoto com meu pai, irmão e um primo que desde então não vi mais, minhas lembranças são compostas por charretes, pedalinhos, uma praia com água escura e uma bicicleta alugada, cujo guidão estava torto e me obrigava a virar para esquerda caso quisesse andar para frente, num simbolismo literalmente sinistro que me acompanhou por toda a vida.

Há uns anos, publiquei o primeiro livro infantil, quer era composto por poemas a partir de pinturas do Rio de Janeiro de antigamente. Uma delas, um óleo sobre tela de Giovanni Battista Castagneto, era de uma Paquetá de 1898, que gerou esses versinhos:

Na ilha de Paquetá,
Onde hoje se vai de barca,
Ficou registrada a marca
Do que então havia lá.
O local, quase deserto,
Com raras casas por perto,
Deixa um recado certo:
Convida a visitar.

Apesar do convite para a criançada, eu mesmo não voltei mais lá, mais por falta de tempo que de vontade. Mas eis que a avó da minha mulher se mudou para lá recentemente. Esperava há umas semanas a visita dos bisnetos, e aproveitei para ir também.

Tentei esquecer por hora um daqueles ensinamentos do Millôr Fernandes: rever é perder o encanto. E não perdeu. As charretes foram substituídas por aqueles carrinhos elétricos, e os pedalinhos, veículo que voltou à tona (opa!) com o episódio do Lula, continuam como uma das principais atrações naquelas praias de águas escuras.

Tive um dia tranquilo de turista abobado com a paisagem, o papo com pescadores e o fato de estar num bairro carioca onde não existe engarrafamento, visto que não existem carros lá. No entanto, o que mais me surpreendeu foi a minha anfitriã. Não sei como se chama a mãe da sogra nas nomenclaturas de parentes, mas a Dona Therezinha é uma figuraça.

Aos 80 anos, não parece ter mais de 60. Gosta de demonstrar as séries de exercícios que faz antes de dormir e ao acordar. Tentei imitar mas não cheguei à metade.

Já foi cantora de rádio, e fez questão de me mostrar a carteira da Ordem dos Músicos do Brasil, emitida em 1962. A foto mostra com olhar questionador, instigante e ousado, e pelos causos era realmente avançada para a época. Depois que o primeiro casamento acabou, foi namorada de pessoas como Darcy Ribeiro e Cauby Peixoto, que causou um tremendo alvoroço ao chegar à casa da família no Grajaú para pedi-la em namoro. Na época, ter uma relação estável com uma mulher separada e com duas filhas era algo polêmico.

Depois entrou para a política, filiada ao MDB, trabalhou com o então governador Negrão de Lima, viajou pelo mundo inteiro. Mas nunca deixou uma atividade: a umbanda. Desde 1951, Dona Therezinha organizava um centro em Padre Miguel, Zona Oeste da cidade. Foi lá que organizava festas beneficentes para a população pobre da região. E mesmo se aposentando da umbanda (sim, ela conseguiu essa proeza) no ano 2000, mantém o trabalho voluntário regularmente. Mal chegou a Paquetá e já tem turmas de tapeçaria em tecido, cuja produção ajuda os alunos a vender para que complementem renda.

Dona Therezinha não olha para o passado com choramingos saudosistas, mas como quem apenas guarda a alegria do vivido. Acha que já viveu o bastante, não precisa de mais nada – a não ser uma viagem que pretende fazer ao Canadá, dos poucos países que não conheceu. Afirma, rindo, ter um kit velório, com as roupas já escolhidas e orientações a todos: “Não quero ninguém chorando; mas podem bater palmas, porque eu fiz tudo o que queria”. Com toda aquela disposição, esse tal kit não deve ter usado tão cedo.

A energia e a sabedoria dessa senhora me contagiaram de tal forma que tomei coragem e aluguei bicicletas com os meus moleques. Apesar de me sentir enferrujado, consegui dar uma volta inteira da ilha com eles, parando uma uma vez para apostar corrida, a qual perdi por pouco. (O guidão não estava torto, mas eu é venho ficando.) E por isso vou desde já fazer os exercícios da Dona Therezinha, que é toda fitness de corpo, mente e espírito.

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Assunto crônica

As férias e o micro system perdido

Voltar de férias é um exercício anual de estranhamento. Para a maioria – que sai nesse período não por conta do alto verão, mas pelo intervalo escolar –, trata-se de uma amostra desgracenta de que a vida não era nada daquilo que os primeiros dias do ano mostraram. Sorte dos que podem sair em baixa temporada, quando tudo é mais calmo e barato, quando se pretende dar uns passeios.

Naturalmente, pior que voltar das férias é nunca voltar delas, algo que ocorre frequentemente nos Estados Unidos. Com leis trabalhistas diferentes e mais pragmáticas, ausentar-se por trinta dias da empresa é um grande risco de emitir um atestado de inutilidade. Por isso, muitos temem ficar longe da cadeira por muito tempo, a fim de não ter o posto ocupado pelo colega concorrente.

Como mencionei escola, solidarizo-me com a criançada que precisa fazer aquela famigerada redação inicial cujo título é “Minhas férias”. O que se espera é um relato simples em duas dezenas de linhas, que servirá de base para que o novo professor trace um panorama do nível de escrita da turma. Mas ao pobre aluno, ainda se adaptando (como se o jovem já não estivesse se adaptando o tempo todo à vida) a novos horários de dormir e acordar, rostos e pesos de mochilas, se torna uma pequena tortura.

Isso porque, tirando um ou outro grande passeio que pode se converter num registro de felicidade familiar, na maioria do tempo de descanso fazemos apenas isso: descansar. Daí que o professor deve bocejar enquanto lê dezenas ou centenas de textos com as sequências “fomos passear no shopping por causa do ar-condicionado, estava cheio e meu irmão idiota derramou o milk-shake de novo”, “vi uma série nova toda de uma vez, e depois descansei”, “fiquei emborcado no sofá jogando o game X, mas não consegui passar daquela fase e isso me deixou triste”, “meus pais me largaram de novo na casa da minha avó e foram viajar; fiquei vendo televisão o tempo todo”, “não fiz nada de importante e não sei o sentido de escrever isso”.

Lembro-me dessa época quando aluno. Na época havia ainda menos coisas para se contar, fora as visitas a primos ou a algum parente com situação financeira um pouco melhor, mas que logo se tornavam pequenas deprês ao voltarmos para a realidade. Daí que eu achava melhor não escrever as férias que existiram, mas as que poderiam ter existido, de modo que em vez de relatos eu escrevia pequenas narrativas, mas os professores não ligavam. A ficção ainda me serve para reinventar o real.

De volta ao trabalho, nesse estranho jet lag, tudo parece estranho e novo. Enquanto estou me inteirando de processos, documentos, e-mails e tento fazer uma lista do que é mais urgente, o pessoal da área de patrimônio passa por mim três vezes no mesmo dia: procuram um micro system desaparecido. E não deixo de voltar no tempo e pensar como era estranho ver aquelas pessoas que colocavam um rádio imenso no ombro para sair na rua dançando. Se eu já achava o batidão alto demais, como não seria para elas, que tinham as caixas de som explodindo no ouvido?

Em meio a tantas coisas sérias acontecendo no trabalho e no mundo (a repercussão nas redes sociais da morte da ex-primeira dama D. Marisa, por exemplo), minha mente se ocupou do micro system, como um caso policial. Até o fim do dia, soube que haviam encontrado num canto do almoxarifado apenas um pedaço do aparelho, mas as investigações continuariam até que o mistério fosse totalmente solucionado. Eles riscaram algo em folhas, como listas de suspeitos, e seguiram impávidos pelos corredores.

E assim, dessas desimportâncias, é tocada a vida fora das férias. Mas assim como meus colegas estão empenhados em achar o restante do micro system, hei de continuar investigando o que vale a pena dentro dessa realidade tão ordinária.

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Assunto crônica

As cartas das nossas ferrugens

Aproveito o fim das férias lá do meu emprego ordinário para realizar uma das atividades mais cansativas e prazerosas de que se tem notícia: arrumar estantes de livros e escrivaninha de trabalho. Diferente dos pequenos afazeres domésticos e das missões que cumprimos às carreiras – nesses dias consertei dois ventiladores de teto, o computador dos meninos e, parcialmente, a máquina de lavar roupas –, arrumar livros e tralhas antigas requer concentração, silêncio e tempo de sobra. Por isso é que deixo esse feito para quando posso me dedicar, de maneira que batizei o evento de GABE – Grande Arrumação Bienal do Escritório.

Enquanto mexo (uso o verbo no presente porque não terminei a tarefa; o local está lá com vários itens espalhados aguardando análise, limpeza e nova organização, sob o olhar inefável da minha mulher, que parece observar um cômodo recém-explodido por uma granada) nas caixas, o convite às inevitáveis paradas me traz várias reflexões de acordo com o que encontro. Fotografias de família, de viagens, de eventos. Alguns ali já se foram, e permanecem tanto que um tipo de trapaça neurológica provoca pequenas viagens sinestésicas, nas quais consigo ouvir o parabéns cantado, o cheiro da comida e o abraço retratado no clique de um filme daqueles de 12 poses.

Recortes de jornal falando de nossos lançamentos antigos, filipetas de projetos antigos ou propagandas que, à época, julguei erroneamente úteis, apenas se misturam com cartas de crianças de uma escola pública no Rio das Pedras que visitei há tantos anos. Ainda que tivessem escrito por orientação da professora, são agradecimentos sinceros, que me trazem a última cena de quando fui lá. Falava ao microfone no pátio, onde os responsáveis chegavam para pegar as crianças, e reforçava o recado para que elas nunca deixassem de contar histórias para os seus pais.

Fico bastante comovido ao abrir um caderno da faculdade, e descubro por que o afeto me impede de jogá-lo fora: dentro estão cartas de amigos, rabiscos de poemas, paródias de clássicos (a gente se divertia cantando o “Rap do Fernando Pessoa”). Releio as cartas e vejo que essa geração que tinha seus vinte e poucos anos no fim da década de 1990 foi de transição: os primeiros trabalhos de faculdade eram feitos nas máquinas de escrever, e os últimos já digitados em Word. Mas a prática tão comum de enviar missivas pelos correios para pessoas que víamos todos os dias, algo que pode parecer ridículo em tempos de Whatsapp, tinha um sentido que só agora floresce de verdade: permaneceram.

O fanzine que escrevia com amigos apenas revela um fato que percebo hoje nos autores que têm os seus vinte anos e é algo bastante comum: com essa idade, aspirantes entusiasmados se julgam geniais e estão prestes a revolucionar a cultura do mundo. Um resumo desse pensamento, essa Síndrome de Rimbaud, está numa carta que o Fernando Sabino escreveu para a Clarice Lispector: “Vomitar o que, se não comemos?”.

Li por esses dias o último romance do Daniel Galera, “Meia-noite e vinte”. Trata de um grupo de amigos que fazia uma revista online nessa época. Eles se reencontram décadas depois, após a morte de um deles, o único que havia seguido firme na literatura. Aqueles jovens que surfavam nas primeiras ondas da web tomaram um grande caixote da vida.

Falando em livros, meu amigo Marcelo Moutinho lança hoje seu novo livro de contos, que se chama “Ferrugem”. Em literatura, o meu camarada se expressa unicamente em dois formatos: a crônica e o conto. Ambos dialogam, se abraçam, dançam às vezes, e a primeira muitas vezes ensaia uma atemporalidade do segundo. Isso quando o conto também não olha para a janela e põe seu foco nos detalhes das coisas que apenas passam. O Marcelo sabe muito bem fazer esse jogo de mão dupla e, assim, consegue justamente capturar o tempo perdido para a maioria das pessoas. E acredito que, por conta da aceleração do efêmero, nunca se perdeu tanto tempo como nesta época em que vivemos.

Por isso não perco tempo aqui no GABE, uma faxina lenta, oriental, quase terapêutica. Estou ganhando, recuperando, recordando o que realmente importa em meio à poeira dos nossos dias.

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Churchill e o pintor

 

Tal como boa parte da população, estou de férias em janeiro. E assim como tanta gente, vejo-me encurralado entre as despesas de fim de ano e aquelas que surgem nesta época, com o agravante da temperatura carioca. Os que conseguem dormir com ar-condicionado, muitas vezes, têm pesadelos com as contas de luz, de maneira que é quase possível ouvir durante o sono, a cada dez minutos, aquele barulhinho característico do Super Mario quando pega uma moeda.

Desta feita, e considerando que pôr o pé fora de casa significa uma despesa quase sempre inevitável, recorro às soluções como o Netflix. Entre Star Treks, filmes geeks (não nerds!) e pipocões, não resisti a “The Crown”. Essas séries britânicas são inescapáveis. Não sei se é porque estamos acostumados ao sotaque norte-americano na maioria das produções e o inglês parece novidade, ou mesmo porque são de fato realizações esmeradas na qualidade. Mas é coisa de primeira mesmo.

A coroa britânica exerce fascínio no mundo inteiro. Enquanto na maior parte do mundo há uma defesa da separação clara entre religião e política – na cidade do Rio vivemos um alerta –, no Reino Unido esses dois pilares sustentam toda a estrutura do país. E como Elizabeth II está com a coroa desde 1952, esses primeiros anos rendem uma série de época excelente.

De todos os personagens da série, o seu Primeiro Ministro Winston Churchill é um dos meus preferidos. O nacionalismo conservador e a sanha por se manter no poder renderam uma grande figura. Apesar de inicialmente parecer estranho, a escalação de um autor de comédia para o papel (John Litgow) foi certeira. Mesmo porque o famoso humour inglês, do qual Churchill era um dos grandes mestres, requisitaria alguém que pudesse transitar facilmente entre o humorístico e o dramático. O primeiro contém o segundo. Ou, já disse o Millôr: entre o riso e o choro só existe o nariz.

Ao completar 80 anos, os membros do Parlamento encomendaram uma pintura do Primeiro Ministro. O artista contratado, Graham Sutherland, retratou exatamente o que via: um senhor cujo peso da idade e bagagem de vida não poderiam ser escondidos. A cena em que os dois conversam enquanto tentam entender o motivo pelo qual Churchill sempre pintava o lago de sua residência é primorosa, pois colocou em cheque as ideias de novo e velho, passado e futuro, de certas dores submersas que, por conta da estampa de força e resistência a que nos submetemos ao longo da vida, preferimos omitir. Eis a arte, para revelar essas zonas de sombra, mesmo quando não as esperamos.

Churchill esperava que seu retrato fizesse jus ao grande estadista que liderou a Inglaterra durante a Segunda Guerra, o político influente a quem o público prestava reverência, tão famoso quanto os próprios reis. Mas o que viu foi um idoso, decrépito e caturro. Ao mostrar a obra ao público durante a cerimônia, disse que se tratava de um “notável exemplo de arte moderna”, em tom irônico, arrancando risadas da plateia.

Dois anos depois, o quadro seria destruído pela sua esposa, Clementine Churchill. Ao revelar o que de fato existia ali, a obra foi velada outra vez. Que inconveniente, a arte! Para o pintor, foi um ato de vandalismo.

Tudo isso para vermos hoje, em pleno 2017, o prefeito de São Paulo apagar com um obtuso tom de cinza os grafites da avenida 23 de maio.

E João Doria, sabemos, está muito longe de ser um Winston Churchill.

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