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Entrevista para o programa GloboNews Literatura, com Edney Silvestre

Entrevista para o programa Rio Cidade de Leitores, com Leila Richers

Programa Papo Cabeça

Entrevista sobre “O próximo da fila” para blog da editora Record.

Por Juliana Krapp

Poeta, cronista, contista, organizador de antologias, autor de livros infantis e gestor de projetos de leitura. Há mais de uma década, o carioca Henrique Rodrigues tem atuado em diversas frentes do meio literário. Porém só agora estreia no romance, com O próximo da fila, obra de contornos autobiográficos na qual acompanha a história de um adolescente da classe C, morador da periferia, que recorre ao emprego numa rede de fast food para aliviar o arrocho financeiro da família.

foto henrique rodrigues

 

Enquanto desvenda o microcosmo no interior da lanchonete — com seus tipos humanos, hierarquia, padrões próprios, contradições e afetos —, o livro elabora um retrato ao mesmo tempo mordaz e lírico do Rio de Janeiro dos anos 1990. Época de hiperinflação e de incerteza econômica, mas também de rap, de criatividade, de rebeldia. E, para os personagens desta história, de descobertas, amores, reviravoltas. Ao focar sua narrativa num jovem suburbano e pobre, atado ao itinerário escola-trabalho-casa, O próximo da fila se arrisca num percurso original, muito diferente do que tem aparecido no quadro da literatura brasileira contemporânea. O pobre, aqui, não está à margem, mas sim no centro da trama, elaborando uma trajetória vigorosa e singular, desconcertante e irresistível.

Durante bastante tempo você costumava dizer aos amigos, de forma bem-humorada, que estava ‘escrevendo um romance sobre um cara que passa esfregão numa lanchonete’. Com a obra já publicada, como você a definiria, em poucas palavras?

Trata-se de uma visita aos primeiros anos da década de 1990, um período difícil da nossa história recente, sob a perspectiva de um jovem pobre. Passados mais de 20 anos, achei que o balcão de uma lanchonete seria um belo lugar a partir do qual poderia contar a trajetória de um personagem que, como muitos brasileiros, tinha que se virar para sobreviver numa época em que tudo era muito complicado para as chamadas classes C e D.

Assim como o protagonista, você também trabalhou, quando adolescente, numa rede defast food — a mais famosa de todas. Também esfregou o chão seguindo a técnica do oito, fritou hambúrgueres e serviu ao caixa. Evidentemente, há muito de memória em O próximo da fila. Assim como de ficção. É um ‘cabo de guerra’, como você mesmo define. Como lidou, na escrita, com essa tensão permanente entre memória e invenção?  

Com o tempo, a memória prega peças e vai se tornando difusa, ainda mais quando voltamos para um período específico, como os nossos anos de formação. E por isso mesmo, sendo matéria difusa e fluida, é que a memória pode ser inventada, para usar o termo do poeta Manoel de Barros. Revisitei algumas sensações, cheiros, pessoas, frases e ideias que há tempos estavam numa gaveta das lembranças. Naturalmente, ter vivido por três anos numa lanchonete me deu mais experiências e vivências sobre esse ambiente, o que tornou o processo de escrita até divertido. Mas seria bobo apontar no livro o que é ficção ou aconteceu, mesmo porque para o leitor não faz diferença, pois ele quer é uma boa história. E tem outra coisa: escritor de ficção não é fonte confiável sobre fatos reais, especialmente sobre si mesmo. Por isso, creio que toda obra de ficção seja autobiográfica em alguma medida. Aprendi isso depois de anos de estudo, prática e muita leitura, pois às vezes é preciso se distanciar um pouco do texto, e outras vezes é preciso saber se aproximar. No fim das contas, a memória, assim como a invenção, constituem dois elementos, sobretudo técnicos, para a construção do romance, então esse cabo de guerra gera uma energia que deve servir unicamente ao propósito da narrativa.

Quando você trabalhava na lanchonete, poderia imaginar que escreveria um romance sobre isso, publicado por uma grande editora? Como decidiu ser escritor?    

Quando estava lá, virando carnes na chapa ou catando guimbas no estacionamento, eu fazia letras de rap mentalmente sobre qualquer coisa, e me divertia pacas. Um trabalho mecânico deixa a cuca livre para criar, e sempre tive muita imaginação. Mas jamais poderia imaginar que aquela coisa simples de um adolescente viraria matéria para esse mesmo cara, quando ficasse mais velho, escrever num livro. Por isso é que esse romance é algo emocionante para mim, e gostaria muito de poder viajar no tempo, chegar para aquele garoto de 16 anos e dizer: ‘Segue em frente e captura tudo o que está no seu entorno, pois essa vai ser a sua matéria de trabalho’. Não tive muitos brinquedos na infância, então a realidade era uma coisa toda aberta, sendo possível recriar o mundo inteiro na cuca. Quando descobri os livros, na escola pública, foi uma maravilha, pois eles davam uma forma para as coisas imaginadas. Decidi ser escritor aos 13 anos, quando ganhei um concurso de frases na escola. E ouvi muitos risos, claro, porque um garoto pobre dizer que quer ser escritor é tão crível quanto dizer que quer ser astronauta. E claro que é possível ser astronauta! Depois comecei a ler mais do que pediam, e fui em frente. Por exemplo, decorava poemas e depois escrevia para as garotas dizendo que eu tinha feito, e mesmo se na maioria das vezes não conseguisse nada, foi um aprendizado de escrita. Desisti da carreira militar, que sempre diziam ser a única solução para o pobre, quando passei no vestibular de Letras para a Uerj. Lá também encontrei um arsenal de leitura que me ajudou muito nesse meu objetivo.

A autoficção é um traço muito marcante na literatura brasileira contemporânea. Seu livro, porém, tem ao menos uma característica que o distingue de seus pares: a classe C está no centro da trama. E não aparece mediada pela estética da violência. O que tem prevalecido na ficção atual são ou protagonistas de classe média alta, ou uma periferia muito marcada pelo ‘estar à margem’. Por que é tão raro encontrar livros sobre a classe C que não se enquadrem na chamada ‘literatura de periferia’? Por que você assumiu esse outro caminho?

Acho que eu talvez fosse um escritor mais conhecido se ouvisse o que me disseram na Academia certa vez: ‘Por que faz sonetos? Vai fazer hip hop para representar sua classe.’ Mas por quê? Acho que sempre tentam colocar rótulos, especialmente na tentativa de não cruzarmos certas fronteiras bem delimitadas. Seria como dizer para um cara mais pobre que quer dançar que só pode se expressar na Batalha do Passinho, ou o que quer cantar se for funk, pintar só se for grafiteiro, e por aí vai. Tudo isso é legal, mas e se o indivíduo quiser conhecer outras coisas? Diversidade é a gente fazer o que gosta, sem rótulo ou cota artística. Vejo que boa parte da literatura, talvez a maioria, seja produzida por e para uma classe média ou média alta. Talvez só recentemente os espaços tenham se democratizado um pouco mais, e mesmo assim é preciso entrar na categoria meio estereotipada do ‘escritor da margem’, mas aí é um tipo de margem padronizada, já com alguns estereótipos construídos por um ponto de vista que vem muitas vezes de fora. A classe C, sendo maioria, é tão diversa, tão cheia de matizes, que permite outros olhares sobre ela.

Grande parte do romance se passa dentro de uma loja de fast food, num cenário permeado por hambúrgueres e símbolos americanos, onde todos precisam atender ao ‘Padrão’. Mas é um romance brasileiríssimo, que retrata de forma muito vigorosa a cultura carioca dos anos 90. Como extrair tanta vida de um ambiente tão asséptico? 

O próximo da fila é um romance sobre a minha aldeia. Quando se começava a falar da tal globalização, ela já nos entrava narina adentro, pois importamos sempre hábitos que parecem ser melhores, não só na comida, mas nos filmes, no vestuário, na sede de consumo desenfreado. O fast food acabou sendo um símbolo disso. Mas dentro de cada coisa globalizada existe uma alma local. No nosso caso, mesmo com o Padrão descrito no livro, acredito que em cada lugar do mundo os garotos da rede de lanchonete tenham uma história diferente para ser contada.

Podemos dizer que parte de sua verve de escritor aflorou no contato com os personagens e situações que vivenciou nessa época da lanchonete? Acredita, como alguns autores, que a experiência de vida é primordial para o fazer literário? 

Não creio na primeira hipótese. Depois da lanchonete, quando fui para a faculdade, trabalhei seis anos como balconista numa locadora de filmes e games. Acho que ali sim encontrei material que me ajudou a construir uma voz literária, pois games e filmes são grandes manifestações de criatividade e narratividade. Em geral a pesquisa e o exercício técnico são mais fundamentais para a produção literária. Mas acredito que, para determinados livros de ficção, a experiência vivida é um fator importante. Não por acaso escolhi uma epígrafe do Émile Zola. Para escrever o Germinal, ele passou dois meses vivendo entre os mineiros retratados no romance.

Você iniciou a carreira literária como poeta, depois se tornou contista, cronista e autor de livros infantis. Só agora, quase uma década após a estreia com A Musa Diluída (Record), se aventurou pelo romance. Por que decidiu investir numa narrativa de mais fôlego? Qual sua relação com o gênero romance? 

Gosto de passear por diferente categorias literárias. Sempre gostei de estudar técnicas e praticar até cansar. Acho estranho prosadores que não leem poesia e vice-versa, autores de livros infantis que não dialogam com os demais etc. Na faculdade, um professor disse que determinada forma poética (sextina) era dificílima de se fazer e que só meia dúzia de poetas haviam escrito. E lá fui eu passar o fim de semana inteiro trancado, escrevendo o poema de forma obcecada. O professor, que aliás é um bom poeta, me obrigou a ler em sala, quase me matando de vergonha. Depois participei de vários eventos de poesia e fui perdendo a timidez. Então aos 30 anos eis que foi publicado A musa diluída, meu primeiro livro, depois de 12 anos de prática. Depois parti para contos, infantis, juvenis. E agora, beirando os 40, nel mezzo del camin, achei por bem escrever um texto mais longo. O romance é um espaço de excelência da literatura, pois exige tempo e disciplina. Só não concordo que seja o maior, como se fosse o topo da hierarquia literária, algo que só existe para o mercado, não para a arte literária si. Todo tipo de texto literário tem o seu valor e sua marca distinta.

Além de atuar como escritor, você trabalha com gestão de projetos de leitura. É uma forma de, ainda, transitar entre os dois lados do balcão?

Sim, tenho sempre essa sensação ainda. Estou sempre transitando entre as duas posições, com o cuidado também de não misturá-las. Mas essa posição permite um olhar duplo sobre o meu objeto de trabalho e, sobretudo, respeito ao outro, a quem está do outro lado.

Você tem o hábito de visitar escolas e eventos literários, mantendo interlocução sobretudo com crianças e jovens. Acredita que o escritor pode ser mais atuante na formação de novos leitores?    

Nesses últimos anos, com a proliferação de eventos literários, o escritor saiu da toca e passou a fazer parte do processo da leitura. Nas redes sociais é possível estabelecer uma relação fácil e direta entre autor e leitor, o que também permite um contato com autores mais tímidos, pois o sujeito que escreve não necessariamente precisa ser um palestrante hábil. Mas no meu caso tem sido importante manter esse elo com os leitores. Quando vou numa escola pública conversar com a garotada, por exemplo, sinto que estou devolvendo algo que me foi dado, é o mínimo que posso fazer para ajudar a formar leitores e cidadãos mais conscientes. Ninguém ainda encontrou um modelo definitivo para formar leitores em larga escala, mas nos melhores exemplos, como a Jornada de Passo Fundo, o escritor foi um elemento sempre presente.

Quais são seus projetos atuais? Há algum novo livro ou coletânea à vista?

Sim, estou organizando com o Marcelo Moutinho uma antologia de contos inspirados nas canções do Noel Rosa. E tenho dois infantis novos a caminho também. E no meio disso devo trabalhar em um novo romance. E continuar com minhas crônicas semanais no site Vida Breve. A ideia é não deixar de passear pelos muitos modos de escrever.

 

Entrevista para o programa Papo Cabeça, da UTV.

Imagem de Amostra do You Tube

Entrevista para o Leituras, da TV Senado, pode ser vista aqui.

CBN – Blog Tempo de Letras – Simone Magno

O quadro desta semana é com o escritor Henrique Rodrigues, autor de Machado de Assis: o Rio de Janeiro de seus personagens (Pinakotheke), que está lançando dois livros infantis: O segredo da gravata mágica e O segredo da bolsa mágica. Nos livros, editados pela Memória Visual, os acessórios utilizados pelas pessoas no dia-a-dia podem revelar um segredo sobre elas.

TL – Qual o primeiro livro que marcou sua vida?

HR – A leitura de O cachorrinho samba, da Maria José Dupré, foi uma das experiências mais incríveis pelas quais já passei. Eu tinha uns sete anos e morava numa casa que não tinha luz elétrica, de modo que à noite eu ficava bem perto da vela para poder ler, e era como se as aventuras do cachorrinho adquirissem uma aura de mistério e grandeza. Ler esse livro no silêncio e com uma pequena chama embalando as páginas foi algo mágico. Bem, por conta da sua pergunta peguei ele ali na estante agora – e foi como reencontrar um amigo de infância.

TL – Qual o livro que mais mexeu com você?

HR – Pelo que me lembro, o romance Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago, foi como um soco no estômago. Aquele confinamento das pessoas, com aquele tipo de cegueira branca, mais da razão do que física. Além de ser uma grande alegoria sobre o mundo em que vivemos, que é mais de aparência do que de essência, esse livro revela o que temos, nós humanos, de melhor e de pior.

TL – O que você está lendo agora?

HR – Estou lendo a ótima biografia do Renato Russo, escrita pelo jornalista Carlos Marcelo. O livro dá um panorama histórico e cultural o período em que o líder da Legião Urbana atuou. Creio que essa contextualização clara e precisa é importante para os fãs mais jovens da Legião Urbana compreenderem parte da nossa história recente. Aliás, organizo e sou coautor de uma antologia de contos sobre as letras da Legião, que deve sair em março de 2010.

Sobre Machado de Assis: O Rio de Janeiro de seus personagens. Para o site Conexão Professor:

 

Conexão Professor (CP) – Por conta da comemoração este ano do centenário da morte de Machado de Assis, qual seria o principal legado da obra machadiana para a cultura brasileira?

Rodrigues – Machado nos legou uma herança literária das mais ricas no conjunto da sua obra, abarcando poesia, conto, romance, crônica, teatro e crítica. Sua trajetória singular na nossa cultura, especialmente por ultrapassar barreiras que inicialmente o relegariam a uma condição pouco expressiva, como o fato de ser mulato e pobre, também constitui um exemplo de superação de obstáculos, mesmo porque na época o estrato social era muito definidor para o indivíduo – como é, aliás, até hoje. Então Machado furou esse bloqueio e nos deixou também o legado de que a genialidade não tem classe social, mas aflora quando há oportunidade de expressão e empenho.

CP – A obra de Machado de Assis se mantém atual? O que podemos “linkar” com os dias de hoje?

Rodrigues – Obviamente, hoje não se fala como no século XIX e início do XX, período em que se passam as histórias de Machado, mas a literatura tem essa capacidade de transcender os registros do tempo. Em termos de conteúdo, a obra machadiana trata de questões humanas que são bem atuais, nos seus conflitos, escolhas e crueldades. A observação da vida cotidiana que ele fazia nas suas crônicas também é muito parecida com as situações pelas quais a nossa sociedade ainda passa, como se fosse escrita para os nossos dias.

CP – Como o senhor percebe a influência da obra de Machado de Assis na literatura brasileira contemporânea?

Rodrigues – Como todo cânone, Machado se tornou uma referência praticamente unânime na formação leitora dos escritores que o sucederam. Mas acredito que a influência dele não gere nenhuma angústia, para usar o termo de Harold Bloom. As relações intertextuais que alguns escritores estabelecem hoje com a obra machadiana quase nunca são inocentes: quando aparece faz parte de um jogo articulado, como é a própria obra do Bruxo.

CP – Por que Machado de Assis não é considerado um escritor popular, e o que pode ser feito para popularizar a sua obra no Brasil? Como os professores deveriam trabalhar as obras do escritor em sala de aula?

Rodrigues – Acredito que Machado seja bastante popular sim. Talvez não seja populesco, inserido no conjunto dos “fenômenos” de vendas típicos da literatura de massa. Um dos problemas para a leitura da obra machadiana tem sido o modo como ela é apresentada nas escolas, especialmente por ser enfiada goela abaixo de crianças de 12 ou 13 anos. Machado não escreveu para crianças. Deve começar a ser lido por jovens, com estratégias de aproximação muito lúdicas, utilizando-se outros recursos como filmes, peças, pinturas e o que mais possa auxiliar, de modo que a leitura seja uma experiência estética prazerosa e não uma obrigação maçante que só afasta a leitura espontânea. O método de leitura obrigatória e o famoso “o que o autor quis dizer” têm traumatizado gerações em relação à literatura.

CP – A obra do escritor pode ser dividida em duas fases, romantismo e realismo?

Rodrigues – Essa é uma divisão feita pelos livros didáticos e pode ser um tanto quanto simplificadora. Memórias Póstumas de Brás Cubas foi de fato um divisor de águas dentro da obra de Machado, mas é preferível observar a trajetória da obra de Machado mais como um todo que gradativamente vai evoluindo do que necessariamente adequá-lo aos chamados estilos de épocas.

CP – A qualidade dos contos e crônicas de Machado de Assis equivale à dos seus romances (mais conhecidos pelos leitores e mais trabalhados nas escolas)?

Rodrigues – Sim. Machado foi um mestre do conto, categoria que tratava com muito cuidado e respeito, especialmente pela aparente facilidade de se escrever pelo tamanho reduzido. Suas crônicas também conseguiram ultrapassar o próprio caráter efêmero desse tipo de texto, geralmente datado e com características do jornal, e têm sido cada vez mais lidas e estudadas. Machado escreveu crônicas durante décadas, tendo nelas refletido como poucos sobre a sua sociedade e seu tempo.

 CP – Como Machado de Assis se posicionava em relação às questões políticas de sua época, principalmente a escravidão, o Império e a formação da República? Ele pode ser considerado um nacionalista?

Rodrigues – Essas questões aparecem muito na obra de Machado, mas nunca de forma direta. O conto “Pai contra mãe”, por exemplo, apresenta uma instigante visão sobre a escravidão. E foi com muita ironia que tratou da transição do Império para a República em crônicas e no romance Esaú e Jacó, a passagem em que o personagem hesita em trocar o nome do estabelecimento, de “Confeitaria do Império” para “Confeitaria da República” e por fim acredita que o melhor seja inserir o próprio nome (“Confeitaria do Custódio”), evitando assim confundir os fregueses ou demonstrar explicitamente uma posição política. Talvez este trecho seja bem simbólico em relação ao que Machado fez: preocupou-se mais com seus fregueses (os leitores) do que com as mudanças das placas indicativas do poder. Assim, considero Machado de Assis antes um humanista do que nacionalista.

CP – Que livro pode ser considerado a obra-prima de Machado? Ele pode ser considerado o melhor escritor brasileiro de todos os tempos?

Rodrigues – A crítica vem apontando os romances e contos pós-Brás Cubas, incluindo este, como as obras-primas de Machado. A dúvida gerada sobre a suposta traição de Capitu fez com que Dom Casmurro fosse também considerado um dos mais importantes romances de língua portuguesa. Pessoalmente, aprecio muito Memórias Póstumas de Brás Cubas, sobretudo pelo alto teor humorístico do livro. Talvez seja um tanto quanto arriscado dizer que Machado é o melhor escritor brasileiro de todos os tempos, mas certamente ele é um dos nossos grandes gênios.

CP – Quais seriam as principais referências do Machado leitor, seus autores preferidos?

Rodrigues – Sabe-se que Machado leu muito desde cedo, dos clássicos aos seus contemporâneos. Os ingleses, franceses e alemães foram decisivos na formação da escrita machadiana. Como exemplos, podemos citar Sterne, Rochefoucauld e Schopenhauer, respectivamente.

CP – Há muito ainda a se conhecer da obra de Machado?

Rodrigues – Um teste interessante para uma obra literária é lê-la em diferentes momentos da vida. Ler e reler Machado aos 20, 30 ou 40 anos (ainda não cheguei nessa terceira fase) proporciona diferentes experiências. Desse modo, podemos dizer que haverá ainda muito a se descobrir na obra machadiana.

CP – Qual a importância do Rio de Janeiro na obra machadiana?

Rodrigues – Machado quase nunca saiu do Rio de Janeiro. Foi algumas vezes a Petrópolis e uma a Friburgo tratar de um problema de visão (onde ditou para sua mulher Carolina o Memórias Póstumas...), de modo que conseguiu construir uma obra universal sem sair do lugar. A cidade é recorrente em quase todos os principais contos e romances, e se mescla aos enredos muitas vezes, de modo que podemos apontar o Rio de Janeiro como um dos protagonistas da obra de Machado de Assis.

A musa diluída – entrevista para divulgação – Jaime Gonçalves Filho

JGF – Para você, qual o sentido da poesia hoje, num mundo cada vez mais apressado e interessado em coisas práticas?

A poesia é um tempo/espaço necessário, justamente porque não está na ordem do dia, em que o aspecto utilitarista é privilegiado em vários níveis, inclusive (e infelizmente) no da própria noção de leitura literária. Além da cultura de best-sellers, tem se espalhado a idéia de que, ao ler um texto, o indivíduo adquire informações que lhe permitirão atingir determinado objetivo prático ou mensurável. A poesia é o espaço da liberdade e, como toda manifestação artística, trabalha com o não-convencional, com o a transcendência dos limites. Além, é claro, da necessidade humana de beleza.

JGF – E como um não-leitor de poesia pode ser conquistado por essa beleza? Qual seria (ou poderia ser) o papel da poesia no incentivo à leitura, por exemplo?

Nesse caso, a ordem seria inversa, pois é necessário pensar em como, por meio de ações de incentivo à leitura, o indivíduo letrado e com potencial para se tornar um leitor de poesia possa desenvolver essa prática. Inicialmente, esse leitor precisa manter um tipo de olhar muito comum na infância, que é o da surpresa, da capacidade de se espantar diante do texto. Deveriam ser abolidas todas as formas de se querer tirar algo prático do poema, como interpretações para provas e concursos, pois vão contra tudo o que a poesia apregoa. Ler poesia é um exercício de se desacostumar.
JGF – Qual seria o seu leitor ideal?

Não creio que haja um leitor ideal. Mas busco escrever de modo que o texto não seja hermético nem escancaradamente banal, que são, a meu ver, os dois extremos onde se encontram os textos ruins. Mas o importante é que o leitor esteja aberto para o poema, não tão armado com artifícios teóricos que o impeçam de pensar e sentir o que o texto sugere.
JGF – Quais são suas influências mais diretas na poesia?

Como minha formação de escritor foi na universidade, a leitura orientada de Drummond, Bandeira, Pessoa e João Cabral foi essencial para que eu aprendesse a escrever e a buscar a minha própria voz. Não posso deixar de mencionar que estar cercado de bons leitores (professores e amigos) também é uma grande influência. Nesse aspecto, fui e sou privilegiado.

JGF – É quase mítica a questão de relações conturbadas entre os poetas. Qual sua relação com seus pares, no caso, os jovens poetas? Há uma troca de idéias mais constante?

Creio que essas relações já foram mais apimentadas, quando cada movimento queria suceder o anterior como se houvesse um processo evolutivo na poesia. Não acho que hoje exista uma grande dicotomia ou polêmica entre escritores. Mas há pelo menos um lado bom, pois se abre espaço para a diversidade de formas e temas.

Desde a década de 90 houve uma retomada de eventos voltados para a poesia, principalmente no Rio de Janeiro. Esses espaços permitem uma boa troca e diálogos. Curiosamente, tenho mais contato com prosadores do que com poetas, mas acredito que seja mais por afinidades pessoais do que propriamente por um projeto estético.

JGF – Para você, que faz tanto prosa quanto poesia, qual a dificuldade no processo de construção de cada um dos estilos?

Cada gênero (se é possível ainda usar esse termo) tem sua peculiaridade, seu ritmo, sua respiração. A escrita de poesia requer uma concentração maior, uma vez que a economia de palavras requer que cada uma valha realmente a pensa estar ali. Geralmente, a potência da palavra se realiza de forma mais aguda no verso.

JGF – Por que a opção por usar tanto formas fixas quanto versos livres?

 Geralmente quem escreve forma fixa não gosta muito de verso livre e vice-versa. Mas são duas vertentes complementares. Acredito que o poeta deva saber usar o verso, as palavras, que são o seu material, e da forma que desejar. No caso do livro, a proposta de usar essa variedade está de acordo com a idéia de diluição das formas, já sugerida no título.


JGF – E esse título, A musa diluída, como surgiu?

Na verdade esse título me persegue há alguns anos. Talvez seja a minha perspectiva do mundo, em vários sentidos. Vemos as relações humanas se fragmentando, os ideais políticos se esfacelando, e talvez o ponto de vista poético seja uma forma de se procurar, em meio a toda essa diluição, algo que foi perdido.

Jornal do Brasil – Caderno IdeiasAline Nascimento

 A fragmentação das relações humanas e dos ideais políticos e as lembranças da infância são alguns dos temas presentes nos poemas de Henrique Rodrigues em A musa diluída, editado pela Record. Também prosador, Henrique tem por característica mesclar as formas contemporâneas de escrita com versos clássicos, num caminho semelhante ao de Vinicius de Moraes.

Cada formato de texto respira de uma forma, e por isso exige que você também amplie sua capacidade de conduzir o texto – diz o autor.

Carlos Drummond de Andrade, Fernando Pessoa, João Cabral e, sobretudo, Manuel Bandeira – a quem dedica um poema – foram algumas das influências do autor, que trocou a carreira militar para estudar letras.

Henrique Rodrigues mostra-se um escritor que parece encontrar na poesia algo que foi perdido com a fragmentação do mundo. Mas prefere deixar para o leitor as possíveis interpretações de seus versos e até do título do livro. Não à toa se reconhece um poeta que ainda não descobriu uma voz própria.

 – Creio que hoje temos um ambiente de certa liberdade criativa, em que você pode optar escrever com a forma que quiser – explica.

 AN – Como surgiu o interesse pela literatura e mais especificamente pela poesia?

Não cresci cercado de livros ou influências que me estimulassem a ler ou escrever literatura. Lembro que, na oitava série, ganhei um concurso de frases na escola (o Ciep Carlos Drummond de Andrade, na Praça Seca – por coincidência um nome de poeta), e notei que tinha alguma facilidade para escrever. Facilidade que depois veio se revelar vocação. Daí, numa decisão que soou estranha para a minha família, troquei o serviço militar pela faculdade de Letras da Uerj, onde se abriu um novo universo de aprendizagem e exercício de leitura.

AN – Por que a escolha por escrever tanto prosa quanto poesia?

A literatura é uma arte complexa, de muitos caminhos para serem explorados. Acredito que o escritor deve dominar a palavra, que é o seu material básico de trabalho, em todas as suas possibilidades. Daí a necessidade, pelo menos para mim, de experimentar os diferentes formatos e gêneros literários (se é que ainda podemos usar esse termo), mesmo que em determinado momento venha a optar por escrever apenas poesia, romance, conto, teatro etc. É interessante ter essa perspectiva, porque cada formato de texto respira de uma forma, e por isso exige que você também amplie sua capacidade de conduzir o texto.

AN – O que ou quem é a “musa”? E por que “A musa diluída”?

 Essa pergunta é interessante. Tenho ouvido as mais diferentes interpretações para o título, desde que eu sou mulherengo até que ele representa uma postura cética diante de um mundo disperso e fragmentado. Bem, esse título me persegue há uns seis anos, só posso dizer isso. Acho que é melhor deixar ao leitor essa tarefa, mesmo porque a Regina Ferraz fez uma coisa bacana no projeto gráfico: depois de ler o título, o leitor vê a si mesmo refletido. Como diz um dos poemas, “não sei toda a lavoura, deixo-te os grãos”.

AN – Você fez um poema em homenagem a Manuel Bandeira. Ele teve influência na sua formação poética? Quais foram as suas influências?

Bandeira é, a meu ver, o nosso grande poeta da intertextualidade e da exploração das diferentes formas de escrita em verso. Lançou mão de formas fixas, versos brancos, toda a diversidade poética disponível, de maneira que acredito ter sido uma das realizações mais felizes do Modernismo brasileiro, mesmo porque sobreviveu ao Movimento: não se datou. Daí a homenagem com o “Gazal para Bandeira”, baseado no “Gazal em louvor de Hafiz”, em que ele homenageia o poeta persa.

Como minha formação de escritor foi na universidade, a leitura orientada de Drummond, Pessoa, João Cabral e o próprio Bandeira foi essencial para que eu aprendesse a escrever e a buscar a minha própria voz – que, convém dizer, ainda estou procurando. Não posso deixar de mencionar que estar cercado de bons leitores (professores e amigos) também é uma grande influência. Nesse aspecto, fui e sou privilegiado.

AN – Mesmo fazendo parte da nova geração de poetas você opta por utilizar versos clássicos, como os sonetos.

Se considerarmos que versos clássicos são aqueles praticados desde determinada época, não vejo porque não possam fazer parte dos nossos dias. Creio que hoje temos um ambiente de certa liberdade criativa, em que você pode optar por escrever com a fôrma que quiser. Assim, a musa está diluída também nas formas de se fazer poesia (e aí, de certa forma, volto para a terceira pergunta). Então a forma vai ser apenas conseqüência da idéia, deve estar a serviço dela, e não o contrário.

AN – Há muitas tendências na atual poesia brasileira, e um certo antagonismo entre elas. Você se filia a qual delas?

Isso acontece em todas as manifestações – artísticas ou não. Existe essa necessidade do outro, o que de certa forma é até saudável. Acho que essas relações já foram mais apimentadas, quando cada movimento queria suceder o anterior como se houvesse um processo evolutivo na poesia. Não acho que hoje exista uma grande dicotomia ou polêmica entre escritores. Pelo contrário, há um certo isolamento entre diferentes grupos de poetas, o que é meio prejudicial para o público leitor, que fica sem ter contato com a diversidade do que se tem feito.

Não sou filiado a nenhum grupo. Mas posso dizer que não me identifico com poetas mais performáticos, cambalhotescos. Representam, claro, um tipo de expressão, mas geralmente não lêem poesia e o texto, se você for ver mesmo, é quase sempre bem ruim. Prefiro escrever para ser lido do que para ser visto.

Portal Literal – entrevista para Bruno Dorigatti

Do coletivo para o vôo solo

Dois anos depois de publicarem contos em antologia reunindo a nova prosa carioca, três jovens autores lançam livros de três gêneros diferentes ao mesmo tempo.

14 / 12 / 2006

Em 2004, três novos autores se reuniram no projeto Prosas cariocas. Dois anos depois, coincidências os reúnem novamente, agora com o lançamento de três livros individuais. O Portal Literal reuniu Ana Beatriz Guerra, Henrique Rodrigues e Marcelo Moutinho para um papo sobre literatura, discutir o acesso ao mercado editorial para novos autores, traçar um panorama dessa gente nova que vem fazendo literatura no país. Ana Beatriz estréia com o livro de contos (e quase contos) Amor em pílulas (Íbis Libris). Henrique Rodrigues é autor do livro de poemas A musa diluída (Record) e Marcelo Moutinho lança Somos todos iguais nesta noite (Rocco). Leia ainda trechos de seus livros.

Como vocês chegaram à literatura?

 Ana Beatriz Guerra. Para mim, começou em 2003. Sempre escrevi, mas você nunca pára pra pensar “ah, posso escolher isso, posso tentar viver disso”. Me formei  em jornalismo, mas nunca cheguei a trabalhar em redação, escolhi trabalhar em editoras. Faço revisão há muito tempo, sobretudo de livros técnicos. Aí começou a bater uma vontade de escrever as minhas coisas. E comecei a fazer cursos, como os da Casa da Gávea, até tomar coragem e assumir que eu queria escrever. E uma coisa foi levando a outra. Comecei com um blog, conhecendo outras pessoas que também escreviam, e foi se formando essa comunidade. O Paralelos surgiu nessa época, e também teve muita importância, deu mais visibilidade para esses novos autores. Cheguei a eles através da Rosana Caiado, fazíamos um curso de romance juntas, no fim de 2003. E ela me apresentou ao Augusto Sales, editor do Paralelos, comecei a enviar uns contos para ele, que publicou. A partir daí comecei a publicar em outros sites, alguns que nem existem mais, como o Patife, Bestiário. Tem que dar o pontapé inicial. Depois que a pessoas passam a te conhecer, te ler, fica mais fácil.

E por que você falou em coragem para assumir? Dúvidas se era ou não a hora de publicar?

 Ana Beatriz. Exatamente. Achava que não era a hora, que de repente não estava madura o suficiente. Tudo bobagem. Medo puro, de ouvir o que os outros vão achar. Mas o mais legal é o que os outros acham, porque aí você tem visões totalmente diferentes. Depois de escrita a história não é mais sua. E cheguei à Ibis Libris através do Paralelos, me chamaram para resenhar um livro publicado por eles, do Fernando Paiva. Adorei o livro, uma novela, fui entrevistar o Fernando e resolvi entrar em contato com editora. E eles toparam. No início, apresentei um romance, que está engavetado. Depois pensei que seria melhor começar com os contos. Tem contos mais antigos e também mais recentes. O pior momento foi escolher o que entraria ou não.

E você, Henrique?

Henrique Rodrigues. Aos 17 anos eu desisti do serviço militar para estudar literatura. Eu optei por estudar Letras porque queria aprender as técnicas de escrita às quais eu não tinha acesso. Como toda família menos aquinhoada, eu não cresci cercado de livros, com essas leituras iniciais que as pessoas têm. Na faculdade, fui alfabetizado para a literatura. Foi onde tive contato com excelentes professores, como o Ítalo Moriconi, e grandes amigos, com quem aprendi a compartilhar leituras e escritas. Desse modo, aprendi que o texto literário é para ser lido. Não consigo então guardar texto, escrever e pôr na gaveta. A não ser que seja um processo consciente de que aquele texto vai ser trabalhado daqui a tanto tempo. Não sei escrever para não ser lido. A partir dessa minha formação, que depois emendou em um mestrado em literatura também e uma pós em jornalismo cultural, onde conheci o Marcelo [Moutinho], as possibilidades foram se abrindo lentamente, com a publicação em periódicos, como a Poesia Sempre, e daí veio a internet depois, tudo isso foi contribuindo até chegar nesse ponto em que a gente está hoje, com o lançamento desse livro de poemas.

Mas antes desse livro, li um conto seu na antologia Prosas cariocas. Como é essa relação da prosa e da poesia, você sempre produziu em ambos os gêneros?

Henrique. Uma decisão muito consciente na minha formação universitária foi dominar todo tipo de texto escrito, seja de ficção, seja ensaístico, de prosa ou verso. Então experimentei textos de teatro, experimentei roteiro de televisão. Acho que as diferentes formas de escrita são muito interessantes de você poder dominar e brincar com elas. No meu blog, na verdade, me divirto escrevendo paródias, imito o estilo de alguns escritores, Raduan Nassar, Graciliano, Guimarães Rosa. É um exercício complementar para mim. A partir dessa imitação consciente de outros estilos, a gente vai, mesmo que lentamente, buscando a nossa própria voz. Participei do Prosas cariocas, uma coisa muito bem-vinda, um privilégio participar, porque ali eu consegui me ver como parte de um grupo, de um conjunto de escritores de uma cidade, mesmo que cada um com o seu estilo, cada um com a sua linha, mas pertencendo ao mesmo tempo.

Ana Beatriz. O mais curioso do Prosas é que a gente escreveu sob encomenda, cada um no seu quarto fazendo o seu processo, e o livro tem uma cara. Por exemplo, o conto do Henrique, sobre Jacarepaguá, é antes do meu, que é sobre a Barra [da Tijuca]. É como se a gente traçasse um mapa.

Marcelo Moutinho. Não tínhamos uma rota prévia, sair daqui para chegar ali. A idéia era liberdade total para os autores. O que mais discutimos foi isso, que rota fazer, porque tem que ser uma rota possível para o leitor, uma viagem possível. E termina no Cosme Velho por causa do Corcovado. Óbvio que não se sai direto do Leblon direto para Copacabana, tem Ipanema no meio. Mas Ipanema não entrou, paciência. Foi o que mais perguntaram na época, como fazer um livro sem Ipanema?

Como se partiu para esse livro?

Marcelo. Partimos dos autores para então decidirmos os bairros. O Flávio Izhaki [que organizou o livro junto com Marcelo] tinha um conto sobre o Catete, e conversando vimos que isso dava um livro. Mas para onde a gente vai?, ele me perguntou. Eu disse para levarmos o projeto para uma editora, e levamos na Casa da Palavra, que aprovou. Aí começamos a procurar na internet, no Paralelos e outros blogs, e demos dois meses pro pessoal entregar os contos, quem não cumprisse esse prazo estava fora. Era uma encomenda.

Henrique.  Isso é interessante – o prazo de criação –, demonstra certa postura profissional, não precisa ficar na dependência de inspiração. Isso é uma coisa já bastante ultrapassada, e você tem uma perspectiva séria diante da literatura, da criação.

Marcelo. O Millôr fala uma coisa parecida, prazo é a maior musa inspiradora. Tem que entregar, você faz coisas inimaginavelmente boas.

Henrique. O Henfil falava que a inspiração é um doberman atrás de você. Isso é inspiração.

Marcelo. Todo escritor contemporâneo tem seu trabalho, sua outra ocupação. Muitas vezes, é difícil você sentar a bunda na cadeira para escrever. São horas roubadas do cotidiano, do que faz você pagar as contas etc. Uma encomenda faz você roubar mais horas. Meu livro anterior Memória dos barcos já tem um tempo que saiu, em 2001. Tinha dado uma desanimada. Estava falando com a Adriana Lisboa, que havia gostado dele, vou fazer o que gosto, continuar fazendo resenhas, porque nada acontece. Existia uma desmobilização no Rio, que não repetia o que estava acontecendo em São Paulo, nos anos 1990, em relação aos novos autores. E isso é desestimulante, se você não tem “vida literária”, de convivência, de troca, de sentar no bar e conversar sobre literatura, mandar e-mail com contos, leia o meu que eu leio o seu. Ela é fundamental, um combustível para a própria criação. Estava todo mundo escrevendo em suas casas – eu, o Henrique, a Ana, o [João Paulo] Cuenca –, mas o grau de desânimo era crescente. Porque não quero ser lido postumamente. Quero ser lido hoje, agora. Escrevo para ser lido. Por ser jornalista, ter uma produção textual constante, eu só guardo o que acho relevante. Se alguém me pedir um conto para alguma publicação, vou sentar e escrever, não tenho material de sobra, zero guardado. Esse livro novo Somos todos iguais nesta noite tem apenas dois contos que já haviam sido publicados, um na revista Ficções, duas encomendas. Pensei nesse livro de contos como quase um romance, que tivesse um clima, uma característica ligando todos os contos, que poderia ser lido cada conto separado, mas também dentro de uma lógica. Por exemplo, tem um conto sobre um telefonema que nunca aconteceu, e o anterior fala da secretária eletrônica, de um telefonema que não é atendido. Outro fala de uma pessoa que morreu e o outro, de uma pessoa que foi embora e se transformou em um fantasma na vida de outra. Tem uma ambiência que está no livro, que dá uma identidade que procurei a priori.

E o começo, como se descobriu escrevendo?

Marcelo. Comecei escrevendo adolescente, cometendo poesias horríveis, horríveis. Daí um amigo meu publicou pela 7Letras um livro. E perguntei como era essa brincadeira. Ele disse que a editora entra com metade, você com a outra metade e a editora tem que aprovar o teu texto. Eu procurei a 7Letras, eles aprovaram e publiquei [em 1998], mas o livro é uma merda, muito ruim, de contos. Mas que nada se aproveita, com exceção de um, que reescrevi e está nesse novo. Foi algo sem maturidade para publicar, mas acho que não tem que censurar. Acho ruim o livro, mas acho bom eu ter lançado. O fato de eu ter lançado me deu critério maior. A covardia não é um refúgio bacana para você se esconder de si mesmo. Curiosamente, o livro chama-se Um certo medo da noite, e tem uma relação com este, que chama-se Somos todos iguais nesta noite, tem uma brincadeira aí. Em 2001, lancei o Memória dos barcos, aí bastante empolgado, estava na pós de jornalismo cultural, conversávamos bastante sobre literatura.

Henrique. O diálogo é fundamental, você estar entre iguais, ter um interlocutor.

Marcelo. Eu, Flávio Izhaki, Cuenca, Francisco Bosco, sempre mostramos muito um para o outro, pedimos opinião. Porque quando você acaba de escrever, na quentura ali, você acha aquilo genial. A gaveta é um filtro interessante, nessa dormida na gaveta o conto se revela ou não.

Henrique. E tem que ter intimidade o suficiente para ser sincero.

Marcelo. No livro, agradeço ao Henrique, ao Flávio e ao Chico, que leram o livro enquanto ele era gerado. Claro, você nem sempre concorda com tudo, mas essa troca é fundamental. O que acontece no Rio hoje, quando o Paralelos surgiu – porque havia um vazio literário na cidade, mais de publicação que de produção, os autores chamados contemporâneos eram Sergio Sant’anna, Rubem Fonseca, autores dos anos 1970 –, esse movimento teve uma importância para o escritor daqui. É óbvio que nem todo mundo é genial, nem todo mundo é bom, não. Mas o fato de estarem escrevendo para ser publicado é fundamental. Depois tem a seleção natural, alguns ficam, outros não. Porque até hoje há um julgamento, sobretudo da imprensa do Rio, de um sentimento de inferioridade. Talvez pelo fato de o Rio ter sido a capital cultural por muito tempo, o jornalismo cultural carioca vestiu a fantasia da inferioridade. Há um julgamento do Rio por tudo o que se faz fora, como se fosse cabotino olhar para o próprio umbigo. Claro que olhar para o próprio umbigo demais é algo escroto, mas o contrário, que está acontecendo agora, também não serve. O fato de nós sermos criadores não pode diminuir o tamanho e nem o valor da nossa crítica. Não se pode achar que toda a crítica tem um segundo interesse. É uma confusão que se faz. Já ouvi isso, que seria ressentimento, pelo fato de autores daqui do Rio não serem capa do caderno tal. Não se trata disso. E é evidente que tem mudanças.

O que levou a essa mudança de cenário?

Marcelo. A internet tem um papel macro nisso, não só por expor os textos, mas também por aproximar os autores. Dificilmente de outra maneira se chegaria a isso.

Ana Beatriz. Sem essa efervescência proporcionada pela internet, de um círculo de pessoas escrevendo, que trocam experiências, opiniões, dificilmente teríamos esse renascimento da literatura carioca.

Marcelo. O Paralelos surgiu como uma reação à uma apatia completa, de um estado importante historicamente na formação cultural do país, que estava meio isolado em um segmento fundamental da cultura, que é a literatura. E não que estivessem calados, mas não havia ressonância. E no processo da gente chegar às editoras, as antologias tiveram um papel importante nisso. Claro que hoje há um exagero de antologias, mas nunca seria possível a gente ter lançado tantos nomes de outra maneira. E essas pessoas estão chegando aos seus livros solo agora.

Henrique. Esse momento de efervescência é nacional. Por conta do meu trabalho, tenho acompanhado um pouco a produção de vários pontos do país. Estamos num momento muito feliz de produção. Infelizmente, a gente não está num momento muito feliz de número de leitores, de consumidores de literatura. Ele não tem crescido na mesma proporção do número de autores e das facilidades editoriais, que é um outro ponto que vem facilitando a divulgação de novos autores. Esse momento se deve a um natural processo histórico de levantada da literatura depois de um tempo de sono. Na segunda metade da década de 1980 e na década de 1990, a produção foi bem tímida.

Marcelo. Houve uma ressaca da ditadura. Teve uma produção forte ainda, com Sérgio Sant’anna, Rubem Fonseca nos anos 1970, uma reação frontal à ditadura. Depois, no meio dos anos 1980, tivemos Caio Fernando de Abreu e outros autores, mas também uma ressaca das utopias, tudo aquilo que a gente esperava, onde é que vai dar?, e não deu em nada. E essa ressaca, depois que os grandes temas nacionais se diluem, parece uma total falta de assunto.

Henrique. Talvez a repressão tenha sido uma grande musa que tenha se pulverizado, se esfacelado, e agora talvez as pessoas estejam encontrando outros motivos.

Marcelo. Acho que hoje os olhares são mais singulares e objetivos, não existe mais a grande característica da literatura dos anos 00. Isso é uma coisa que não existe. Acho que o que tem são leves, suabilíssimas nuances. Por exemplo, vejo na literatura do pessoal que mora, vive em São Paulo, uma relação com uma literatura mais realista e urbana, e transitando entre uma chamada vanguarda literária. E no Rio, vejo uma literatura muito simbólica, existe uma relação que passa por um lirismo, uma delicadeza. Não é uma avaliação qualitativa, mas estética mesmo. São nuances, não há um grande tema a mobilizar uma geração, e acho bom que não haja. A literatura tem que fazer por si, não tem que ficar em defesa de idéias e ideologias. A literatura perde muito quando está ao lado da ideologia. Existe um deslumbramento esquerdista – e posso falar, pois fiz parte do movimento estudantil – por uma literatura que trate de determinados temas, e muitas vezes ela trata destes temas de uma forma que você concorda no âmbito da idéia, mas ela empobrece a partir do momento em que ela se pretende te convencer de alguma coisa.

Henrique. O utilitarismo, ou é muito eficaz, ou uma metáfora boba. Hoje é perigoso você trabalhar com as alegorias, você se torna panfletário, tendencioso, você entra em algum “ismo”, e os “ismos” são perigosos, bem limitadores para a produção artística.

Há uma diferença no mercado editorial para absorver essas literaturas díspares?

Marcelo. De uma forma geral, as editoras têm aberto espaço, temos chamado alguma atenção, sejam médias ou grandes editoras. A nossa literatura, de nós três, não transa com essa literatura dos autores da hora. É ruim de eu citar nomes, hahahahaha. Não qualificando, dizendo que são maus autores, longe disso. Mas é curioso, difícil e interessante, nesta ordem, fazer uma literatura que não está na crista da onda. Por mais que digam “Adriana Lisboa ganhou o Prêmio José Saramago”. Ganhou, lá em Portugal. Outro autor que adoro é o João Anzanello Carrascoza, de São Paulo, pouquíssimo conhecido, que escreve uma literatura burguesa, sim, do casamento, separação, do filho, é o tema dele. Então estamos na contramão desse momento, do que interessa como pauta. Essa pauta que você está fazendo aqui está na contramão do momento, pode ter absoluta certeza disso. E é muito curioso estarmos os três lançando seus livros juntos.

Mas o que movimenta essa pauta?

Henrique. O privilégio do personagem do autor sobre a obra dele.

Marcelo. Na Flip, 90% dos autores [nacionais] tomavam tarja preta. Eu não tomo. E não vou dizer que tomo.

Ana Beatriz. Ainda aquele mito do autor autodestrutivo. O maluquito que futuramente vai se suicidar.

Não é uma característica dos tempos em que a gente vive, de uma literatura muito autobiográfica como reflexo dos tempos de superexposição? Muitos fazem isso de forma consciente, outros nem tanto, talvez.

Marcelo. Muitos nem tanto. O problema não são os autores. Muitos destes são autores bons. O problema é que o holofote não pode ficar só sobre isso. Isso não é o central, ou não deveria ser o central.

Henrique. Chama a atenção, você num evento de grande porte dizer “eu não sei escrever, faço isso que está aí”. Uma atitude meio blasé com relação ao próprio esforço que existe na literatura, que não é uma arte fácil, não é uma coisa que cai feito chuva. São polêmicas muitas vezes dissonantes da própria produção escrita. Eu faço questão de não me encaixar nesse tipo. A gente está indo na contramão, por não querermos ser reconhecidos pelo personagem que somos, pelo que fazemos ou deixamos de fazer.

Marcelo. A Adélia Prado, por exemplo, fala a partir da sua experiência de vida, das emoções que passou, divide com o leitor estas emoções, sentimentos. Para mim, é isso, quero que as pessoas se emocionem quando lêem um conto meu, que nem seja o mesmo motivo, mas é isso que busco. Não me interessa questionar as estruturas sociais.

Ana Beatriz. Ninguém aqui quer ser imortal. Perguntam-me muito duas coisas, se vou ser imortal e se vou virar tema de tese. Não me interessa isso. O que temos em comum é não estarmos atrelados ao real, como aqueles atrelados à imagem, que querem vender a imagem antes de vender o texto. Mas podemos usar o real como ferramenta para escrever.

Marcelo. Não vejo a literatura fora disso: narrar uma boa história, suscitar sentimentos, raiva, ódio, compaixão, é isso que interessa.

Vamos falar um pouco sobre os livros que estão sendo lançados. Ana, no próprio título e nas primeiras histórias, o tema é o amor, mas tratado de uma maneira que não estamos acostumados a percebê-lo. O improvável do cotidiano, algo de tragicomédia, ceticismo e ironia permeiam o livro.

Ana. Na minha idéia, a pessoa vai olhar para capa, com bolinhas, coração, ler o título, Amor em pílulas, e vai achar que tem aquela idéia do amor romântico, fofinho, aquela coisa Júlia, Sabrina, e não é por aí. Na minha cabeça, são todos contos de amor. O primeiro, “Amor em pílulas”, é sobre uma relação que termina e vira outra coisa, um discurso sobre o amor que está virando uma coisa diferente. Mas há também um conto, “Compro, vendo, troco, financio”, que fala do amor na ausência dele. O cara se encontra numa encruzilhada e não vê outra solução para vida dele a não ser vender a alma, ele que não sabe se ela existe ou não. Todos eles – inclusive os quase contos, umas brincadeiras com as palavras – estão falando sobre o amor, até os mais violentos, e aí é fisicamente a ausência do amor. Então ele tem uma lógica, mas não é de jeito nenhum romântico. Romântico é, mas não do ponto de vista tradicional. Fala de quem tem e de quem não tem amor, como o cara que o procura numa boneca inflável.

Henrique, em seu livro de poemas você retoma o verso clássico, mas o título, A musa diluída, e o poema em que trata dela, fala da inspiração, que pode ser buscada em lugares onde não era comumente encontrada. Percebi também um ceticismo e uma ironia.

Henrique. Existe uma relação muito clara de aproximação e distanciamento entre estes três livros. Acho que a gente vive um tempo de grande tensão entre aproximação e distanciamento, isso em todas as esferas, artística, amorosa, social. No meu livro isso se aplica como uma busca a um elemento líquido, evocado justamente porque a água tem essa metáfora de poder transitar entre todas as formas. E numa brincadeira formal, tentei trabalhar os diferentes formatos literários. Busquei trabalhar os versos clássicos, sonetos de formas fixas, que hoje muita gente associa a um passado já remoto, o que é uma bobagem. Essas formas fixas sempre tiveram e sempre vão estar na literatura. E, ao mesmo tempo, brincando com a transição e diluição do próprio poema. E daí que você encontra versos livres também, poemas que vão ser colocados ali junto com sonetos, barcarolas, sextinas, poemas pequenos, quase hai-cais. A idéia foi fazer essa transição entre diferentes formatos, com a intenção de marcar um sentimento que tenho diante do mundo, de que as coisas são diluídas, mas ainda são vislumbradas. Talvez seja uma tentativa de vislumbrar ainda algo que poderia, que pode estar se perdendo.

Gostei muito do poema em homenagem ao Manuel Bandeira, “Gazal para Bandeira”. Não conhecia o gazal [ou gazel, gênero de poesia amorosa dos persas e dos árabes, estruturado em dísticos, com a mesma rima funcionando para os dois versos do primeiro dístico e para o segundo verso dos demais].

Henrique. É exatamente o mesmo número de versos, redondilhas, dísticos, sempre com a mesma rima. Nesse poema, é uma estilização homenageando o poeta que faz um poema que é antigo também, um jogo de espelhos. Esse poema passa bem a idéia de remissão a outros poetas. Manuel Bandeira, que é uma grande influência para mim, foi um grande poeta da intertextualidade, talvez o nosso grande poeta da intertextualidade do século XX, aquele que dialogou com vários formatos, vários autores, várias épocas, e com isso ele se valeu de paródia, de paráfrase, de pastiche, de estilização, todos elementos da poesia moderna e contemporânea. E o Hafiz [do poema de Bandeira, “Gazal em louvor de Hafiz”] era um poeta persa, rejeitado pelas mulheres. Ele até termina o poema dizendo: “As bem-amadas ingratas/ são pó; tu vives, Hafiz!”. Presta uma homenagem. E o próprio Bandeira teve uma trajetória similar. Ficou doente muito cedo, achou que fosse morrer, e achei interessante fazer essa brincadeira.

Já o seu livro, Marcelo, volta-se mais para a infância, a memória, a melancolia. Mas você joga com o samba, no conto da costureira, com a própria literatura, no conto “Dedicatórias”, e também no “Menino no escuro”, com um estilo meio Cortázar.

Marcelo. “Menino no escuro” foi inspirado num quadro do Iberê Camargo. Essa coisa da infância, o livro tem muitos elementos suburbanos, que remete a uma infância vivida no subúrbio, que acho importante registrar, pois está havendo uma perda. E tem uma frase que todo o livro se constrói sobre ela, do [Italo] Calvino, que está no final de As cidades invisíveis: “O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos”. O que a gente precisa é, no meio do inferno, achar o que não é inferno e preservar, abrir espaço. Essa a metáfora de Somos todos iguais nesta noite. A noite é a mesma, o que dentro dessa noite não é inferno? É buscar o sublime, a epifania no banal, no aparentemente banal, no cotidiano. O conto que dá título ao livro é inspirado no Carlinhos de Oliveira, tinha acabado de ler as crônicas dele, e estava de fato num balcão de bar, vendo as pessoas que chegavam, e quis falar dessa figura emblemática, do cara que vai pro bar beber. Essa figura está de forma implícita no livro todo, está na escola de samba, está no travesti da Glória que vai tomar uma cerveja no meio da noite. A melancolia é uma característica da minha literatura, influência direta dos meus pais literários, Clarice Lispector e Caio Fernando Abreu, um traço autoral. E o livro tem a pretensão de ser mais que uma coletânea de contos, mas um retrato possível do que não é inferno, dentro daquela visão do Calvino. É isso.

E a partir de agora?

Ana Beatriz. É um privilégio e uma maldição. Porque a gente quer ver no que vai dar, mas ao mesmo tempo quer continuar escrevendo. Então não importa se fica no ostracismo ou vai pra capa da revista, o que pode ser uma conseqüência, não que a gente vá procurar. O mais interessante é você fazer o exercício, ser vanguarda para você mesmo, evoluir através das suas palavras. Daqui a dois, três anos ter a capacidade de colocar outro na rua, ver os erros que ele tem e tentar superar.

Marcelo. A gente está diante de um nó maior que todos os outros, que é levar o leitor contemporâneo a ler os seus pares. Esse é o grande nó da chamada nova literatura brasileira.

Essa é a questão: o brasileiro não lê ficção brasileira.

Marcelo. Pois é, mesmo os medalhões têm dificuldades. Mas nisso a crítica cultural também tem culpa. Na última Flip, por exemplo, os destaques [na imprensa] eram somente os estrangeiros. Mas aí dizem que a novidade para a imprensa era o acesso aos estrangeiros, que dificilmente aparecem ou concedem entrevistas, e que os brasileiros são mais acessíveis. Tudo bem, mas a lógica não pode ser o de que é mais importante do ponto de vista da dificuldade de você conseguir falar com a pessoa. Se for por essa lógica, uma palestra arrebatadora, como foi a da Adélia Prado em Parati [na Flip], vai ter que receber menos espaço que, por exemplo, a do mexicano, David Toscana, criador de grandes enredos, mas que na palestra não foi isso tudo. Na da Adélia, vi pessoas saindo chorando. E um dos grandes jornais brasileiros não tinha mandado repórter para cobrir. E aí quatro, cinco dias depois, fez uma matéria por insistência dos leitores, de ouvir dizer. Porque Adélia Prado não importa, importa menos que um autor estrangeiro. Isso é uma visão colonizada. Esse é um ponto. O segundo ponto é que as editoras investem um dinheiro razoável em determinados autores de fora – o que não é o caso de autores brasileiros –, fazem estratégias de marketing, então é claro que vai vender mais que os autores nacionais.

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