Category Archives: Sem categoria

Gullar, meu professor de poesia

fp_rodrigues_vb_06_dezembro_16

Depois de uma semana fora para atividades literárias e de trabalho entre São Paulo e Mato Grosso do Sul, começava esta crônica sobre os muitos assuntos que me perpassaram ao logo desses dias, inclusive o último, decorrente do acúmulo, que é o cansaço físico e mental resultante dessa maratona. Organizava a sequência de ideias em parágrafos temáticos, na ordem cronológica inversa, mas sem hierarquia entre elas para depois mexer à vontade, porque a crônica não é relatório de empresa – já bastam os que me esperam no mundo corporativo ordinário –, e sim uma praça para descanso, com direito a parquinho que permita às palavras brincarem na gangorra.

Mas eis que minha mulher entra no escritório e me diz algo que tornou menos relevantes todos esses acontecimentos: “Morreu o Ferreira Gullar!”

Não que desconfie dela. Pelo contrário: é hoje minha fonte mais segura. Mas quase que instintivamente conferi no site do jornal. Não sabia que ele estivera internado, e nem sei se isso era fato divulgado. Fiquei alheio nesses dias, acompanhando, literalmente de passagem, o fatídico acidente com o time de Chapecó, a mudança bizarra na lei contra a corrupção e, falando no assunto, o Renan Calheiros tornado réu, ainda que presidente do Senado. A noite é veloz.

Quando esta crônica chegar à leitura, creio que já terão sido publicadas vários obituários, perfis, análises, matérias, especiais etc. Prefiro lembrar das ocasiões em que estive com ele e seus livros.

Quando estava na faculdade, conhecia poemas isolados do Gullar, como o “Dois e dois: quatro”, que tem aquele quarteto inescapável “Como dois e dois são quatro / sei que a vida vale a pena / embora no pão seja caro / e a liberdade pequena”. Esse poema é formado pelas populares redondilhas maiores, e acredito que esse tempo de cada verso tenha contribuído para que ele se tornasse tão conhecido, pois é a forma/fôrma mais fácil de se decorar – e me lembro de uma entrevista em que o Gullar disse ter sido abordado na rua por um homem que falou o poema inteiro. O poema segue com dísticos trabalhando o elemento da repetição, nas rimas, tendo no centro, entre as ideias mais líricas, aquele lembrando os anos de chumbo em que foram escritos: “como um tempo de alegria / por trás do terror me acena”.

Tenho um amigo poeta dessa época da faculdade, Célio Diniz, que é também artista plástico, e sempre nos reuníamos na casa dele em Pedra de Guaratiba. Discutíamos muito sobre esses assuntos, com aquela pretensão de genialidade típica de alunos de graduação, e me lembro de ter lido o “Breviário de Estética”, do Croce, e o “Argumentação contra a morte da arte”, do Gullar, apenas para poder debater com o meu camarada, que sabia – e ainda sabe – muito mais do que eu. Tempos depois, quando comecei a assistir ao Gullar falando sobre arte, achei-o um tanto radical demais, e voltei ao poeta.

Anos depois, tive a felicidade de tê-lo como professor em oficina literária, no ótimo programa Escritor Visitante que a universidade mantinha, permitindo que os alunos pudessem acessar os ensinamentos de grandes autores (eu já havia feito com o Sérgio Sant’Anna e o Antônio Torres, e queria fechar a tríade conto, romance e poesia). Por conta da necessidade de sair cedo para trabalhar na videolocadora, não fiz todas as aulas dele. Mas me lembro de uma em que ele se dedicou a trabalhar meu poema. Fez apontamentos técnicos excelentes, e o soneto acabaria entrando no meu primeiro livro, em 2006.

Tempos depois, quando trabalhava na PUC-Rio, ajudei na organização de um evento que o receberia (havia lançado o ótimo “Em alguma parte alguma”). Quem lida com literatura e vive no Rio de Janeiro certamente já assistiu o Gullar palestrando. Entre os causos de sempre que falou uma frase daquelas na longa birra com os paulistas: “a Poesia Concreta deveria se chamar Poesia Abstrata”. Conversando com ele depois, perguntei se aquela coisa com os irmãos Campos era um tipo de mágoa recíproca e eterna. Ele bateu o meu ombro e respondeu, rindo: “é tudo bobagem de uns velhos”.

Ferreira Gullar fará falta entre os vivos. Tenho uma estranha sensação de que esses grandes nomes da literatura – assim como na educação – que marcaram o século XX não estão sendo substituídos, talvez porque a sociedade não julgue essas áreas tão relevantes para fazer relevantes os indivíduos que atuam nelas. Mas isso é assunto para outra crônica.

Por hora fico agradecido pelo convívio com ele. E já que falei de Pedra de Guaratiba, cito os versos finais do poema “Uma pedra é uma pedra”: “ e assim / o homem tenta / livrar-se do fim / que o atormenta // e se inventa”.

Comente

Assunto Sem categoria

Na balada

fp_rodrigues_vb_29_novembro_16

Escrevo de São Paulo, onde cheguei para participar da Balada Literária, e também onde devo ficar por alguns dias por compromissos de trabalho. Sampa tem uns prós e contras, como em qualquer lugar, mas por conta da escala da cidade os prós tendem a ser muito grandes, como é o caso da culinária, e os contras seguem o mesmo caminho. Vide os engarrafamentos. Diferente do Rio de Janeiro, quando geralmente o trânsito diminui aos domingos, aqui parece que os carros saem de casa para aproveitar a cidade, uma vez que estão liberados, enfim, do rodízio.

Mas fico com os prós. A Balada Literária é uma catarse cultural tocada pelo também catártico Marcelino Freire. O escritor e agitador pernambucano consegue a proeza de, em temos bicudos como estes, realizar um festival literário contando com a participação de dezenas de artistas de todo o país, alguns até mais do mainstream, como Ney Matogrosso. Há quem diga que essa articulação do Marcelino se dá porque ele, na verdade, tem pelo menos seis irmãos gêmeos. Simultaneamente, ele está dando uma palestra num lugar, uma oficina em outro, fazendo curadoria de outra coisa, visitando instituições e compondo banca de prêmio literário. Seus livros, naturalmente, são escritos nos salões de embarque.

Balada. Um termo com o qual os cariocas implicavam (eu incluso) há alguns anos. Designava a vida noturna da cidade. Achávamos isso muito esquisito no Rio, e por isso chamávamos, bestamente, de night, o que era pior ainda. Agora que saí desse mercado, por conta de idade (ui) e casamento (viva), não sei direito como chamam. Mas creio que aqui, pelo menos, ainda seja o mesmo. Parece que no Rio já estavam adotando também.

Mas o conceito da Balada Literária é altamente interessante. As programações, apesar do nome, acontecem ao longo do dia. E o público vai mesmo. Como hoje fosse um dia quente, imaginei que raros iriam investir seu pouco tempo de domingo para ouvir escritores, mas havia um grupo bom lá e foi uma lufada de esperança na literatura.

Balada, no Rio de Janeiro, pode ser levar uma bala perdida. Há algumas semanas, fui acompanhar a Flupp, na Cidade de Deus. É um evento literário lindo e que, pela sua natureza, de Festa Literária das Periferias, chega onde muitos os projetos culturais dizem chegar, mas apenas para conseguir patrocínio. Poucos dias após o evento, irrompeu essa guerra entre polícia, traficantes e milicianos que, até hoje, não acabou. E fico pensando que as ações culturais não fazem nem cócegas nos problemas sociais. Talvez façam. Ou diminuam. Ou não tenham que fazer, deixando em aberto, como possível consequência.

Porque, às vezes, tudo o que queremos é apenas curtir a balada.

Comente

Assunto Sem categoria

Ba dum tss – Defesa do trocadilho (parte 2)

fp_rodrigues_vb_04_outubro_16

(Ilustra FP Rodrigues)

Acredito que, a essa altura, a leitora esteja ainda sob o impacto das eleições. Após dar pequenos saltos na água dos últimos meses e por fim ter inevitavelmente afundado, o assunto ainda deixa pequenas ondas até que, sem que nos demos conta, venha a desaparecer quase completamente no lodo do dia a dia. É incrível a forma com a qual as nossas altas relevâncias migram, tornam-se um tema de atenção mediana e, por fim, desimportantes.

Tenho visto nos últimos anos, especialmente pelas facilidades de expressão das redes sociais, um aumento da postura combativa das pessoas, especialmente em prol de lutas sociais. Paralelamente, o humor encontrou na internet um terreno fértil para se manifestar. Chama a atenção a rapidez com que uma ideia se torna um meme, viraliza e desaparece com a mesma velocidade. A princípio, pareceria um contexto amplamente favorável para o ressurgimento da imprensa alternativa, aquelas publicações independentes que, especialmente durante a ditadura, tiveram papel importante para combater o sistema, sendo O Pasquim o mais importante desses jornais. Imaginei que agora sim a contestação da seriedade pelo riso se tornaria mais democrática e realizada em escala.

Só que não.

É porque vem o Camões me sobrar o seu decassílabo “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”. Fico aqui catando elementos para tentar entender porque o tipo de humor mais utilizado hoje é menos ácido e mais rasteiro.

A primeira hipótese é de que as publicações alternativas não chegavam a tanta gente assim, comparando com a internet hoje. Pelo que me lembro, no auge do Pasquim a maior tiragem foi de 300 mil exemplares, o que é imenso, mesmo porque os índices de alfabetização eram bem menores na época. Mas hoje, por outro lado, temos ainda uma situação de 75% das pessoas economicamente ativas como analfabetas funcionais no país. Pode ser estranho constatar isso, mas se tanta gente não consegue entender textos simples, como compreender uma ironia? Ainda que possa ser verdade, essa hipótese não me convence totalmente, porque o mesmo tipo de humor é praticado em países com melhores indicadores de educação.

Parto para a segunda hipótese. Tal como no filme Matrix, a galera tende a projetar no mundo virtual uma persona do que gostaria de ser aqui na realidade de carne e osso. O politicamente correto chegou chegando, e talvez com uma pitada do parágrafo anterior, sobre a dificuldade de se entenderem ironias, o pensamento malemolente do humor pode se tornar menos flexível. Daí que soa bonito – especialmente porque postar uma ideia no conforto virtual não requer nenhuma ação real – apregoar um bom-mocismo com pompa e virtuosidade do que ser mais sardônico sobre o mesmo assunto. Assim, é facilmente possível ser um bravo militante virtual para causas nobres mesmo que não exista a menor equivalência na vida. E para manter a aparência dessa empreitada digital, ai de quem meter a mão na cumbuca do politicamente correto. Nelson Rodrigues, hoje, seria inviável.

Acho que foi o Millôr (sempre ele) que antecipou numa constatação: a língua deveria ter um sinal para a ironia. Quem nunca escreveu algo que foi levado ao pé da letra, tendo que explicar uma piada?

Nessa carona, uma nova hipótese, e não sou o primeiro a levantá-la, é a de que a liberdade total não é tão propícia ao humor combativo. Quando acabou a censura prévia ao Pasquim, o Millôr disse: “Ser livre, é bom notar, não é ser libertado. ‘Eu te dou toda a liberdade’ é a restrição suprema”. Há uns dois anos, quando o Casseta & Planeta encerrava seu programa na TV, mediei um debate sobre humor com o Tutty Vasquez e o Marcelo Madureira, e não pude deixar de perguntar sobre o fim do programa, considerando que o grupo tinha começado lá atrás, na imprensa alternativa, com a junção dos jornalecos hilários Casseta Popular e Planeta Diário. Sem pestanejar, ele revelou que os anunciantes de lojas populares pressionavam para que as piadas fossem cada vez mais tolas e superficiais porque o seu público assim exigia. E como não dava pra baixar mais o nível do trabalho, o programa foi pro saco. A percepção humorística do consumidor das Casas Bahia pode ser um sintoma de algo maior, não sei.

Mas o humor persiste. Ao longo de todo o dia, cada pessoa entra em contato com cenas, situações, textos orais ou escritos que favorecem a subversão pelo riso. A realidade está impregnada de outra realidade, que corre ao lado, não paralela, mas às vezes perto e às vezes mais distante. Diferente do politicamente correto, que se arma das virtudes, o humor desnuda os nossos defeitos, como um tipo de água benta do capeta que dissolve aquilo que atinge, podendo revelar, sim, a nudez do rei. Na tal modernidade líquida, o humor é chuva ácida.

Peço licença à leitora para citar Vladimir Propp, formalista russo que escreveu um livro interessante pacas chamado “Comicidade e riso”: “se o riso é uma reação aos defeitoshumanos, pode-se suporque o riso de umhumorista seja contínuo, na medidaemqueelevê na vidaapenas mesquinhez e abjeção e, porisso, o risível”. E já que estou citando, vale lembrar do Aristóteles: a tragédia mostra os homens melhores do que são; a comédia, piores. Abraçar os defeitos humanos e colocá-los em pauta pelo ridículo pode ser mais eficaz do que os cobrir com um manto bonitinho de aparências.

Depois de tanto falar pensamento humorístico, não cheguei a conclusão alguma. Estudei essa questão no mestrado e doutorado (ouço sempre que sou doutor em piada, mas rebato que meus trocadilhos têm o certificado RISO 9002) e anda estou cheio de dúvidas. Para testar na prática, camarada escriba Leo Cunha e eu criamos uma coisa chamada Trocadilhos de Quinta. Mas sobre isso falemos semana que vem. Até.

Comente

Assunto Sem categoria

Retratos 3X4 da leitura no Brasil

fp_rodrigues_vb_13_setembro_16

 

Acordo num sábado preguiçoso e constato que estamos sem internet. Não há previsão para retorno, o que deixa o meu caçula frustrado porque desejava muito jogar Counter Strike no meu computador enquanto eu ficaria lendo na varanda, como sempre faço aos sábados. Em vez de jogar, fui ler com ele um livro infantil de um amigo. Alternamos as estrofes rimadas, ele ficou feliz, fui ler na varanda e depois vi que o moleque estava no meu computador. É possível jogar contra bots, mesmo sem internet. “Amanhã vamos ler aquele seu livro inclinado?”, ele pergunta enquanto detona os bots com head-shots.

***

Um primo mais novo, que nunca vi com livro algum, posta no Facebook várias fotos da capa de “Cinquenta tons de cinza”, acompanhadas de uns trechos mais picantes. Acho engraçado, cogito se não é a mulher dele quem está lendo e postando, mas não curto nem compartilho. Não quero saber o motivo, por fim imagino se não é o primeiro livro que ele lê fora da escola e qual foi o trajeto até um encontrar o outro.

***

Uma senhora, acompanhada de uma jovem, toca a campainha de casa e me oferece a revista “A Sentinela – anunciando o Reino de Jeová”. Diz que é uma campanha especial do mês para o assunto da edição: “Quem pode nos dar verdadeiro consolo?”. Sinto-me com uma pitada de culpa pelo quase inevitável duplo sentido que atribuo ao termo, o mesmo que tive ao reler outro dia o belo poema “Consolo na praia”, do Drummond. Olho para a rua e vejo que há outras duplas atendendo nas casas vizinhas, num pequeno mutirão. A senhora abre as páginas da revista e me explica que todos os textos são fundamentados na Bíblia, com as devidas indicações. Lembro-me de uma frase que acho ser do Millôr, como todas as boas frases devem ser: “Se Jeová fosse isso tudo não precisava de testemunha”. Diferente de outros que nos batem à porta, a senhora não pede nada e se despede. Antes de ir, dou um beijo na sua mão.

***

Uma amiga escritora comenta nas redes sociais uma notícia da Superinteressante, na qual são listados os livros mais vendidos no Brasil e Estados Unidos nos últimos anos. Aponta para o fato de que, dos anos 1990 para cá, nenhum livro de literatura brasileira figura na lista. Nos comentários, várias teses surgem para esse fato, inclusive algumas minhas. Volto uma semana no tempo, quando falava na Bienal sobre prêmios literários (os grandes prêmios, ui, ui) e seu (difícil) papel para formar leitores. Éramos interrompidos a todo tempo pelos gritos de jovens no evento do espaço ao lado. Gritavam feliz e histericamente porque estava lá um youtuber famoso, que estava lá para lançar um livro. “Nossa função deveria ser o de construir uma ponte entre esses dois mundos”, falei, meio sem eco porque talvez haja um oceano no meio.

***

Meu moleque mais velho lê o meu exemplar de “O Hobbit”, que agora é nosso desde que ele conserve. Enquanto almoçamos os hambúrgueres que fritei na pressa, comenta que o Gollum não é um cara ruim, coitado. No jogo da leitura, ele parece fingir que não viu os filmes, esperando que as próximas páginas tragam surpresas.

***

Jogo sinuca com dois camaradas que também atuam atrás do balcão da literatura, cada um num segmento diferente. Falamos, com a sinceridade única que apenas um ambiente de bar permite, de todos os assuntos intra, inter e extraliterários. Não jogo sinuca direito mas, depois de umas e outras, por algum motivo, começo a acertar melhor as caçapas. Enquanto isso, descobrimos e detalhamos todas as soluções para melhorar a leitura no Brasil. Agora que as esqueci totalmente, não sei por que tomamos apenas cervejas e não notas.

Comente

Assunto Sem categoria

Os três porquinhos caçadores de pokémon

FP_Rodrigues_VB_26_julho_16

 

Um conto proativo

Era uma vez três moleques, dois dos quais eram bem gordinhos. Sua adiposidade exagerada não era decorrente do fato de serem jovens suínos, como a leitora pode esperar por conta do título apelativo desta história, mas porque viviam sob a tranquilidade do sedentarismo contumaz. E se eram porquinhos, isso se dava apenas pelo relaxamento com que deixavam pratos, copos e caixas de pizza ao redor, com a preguiça típica dos adolescentes que evitam qualquer esforço físico por conta dos hormônios em profusão galopante.

“Não lavam um copo”, reclamava o terceiro irmão, com Índice de Massa Corporal dentro dos limites e adepto da culinária vegana. Mas a mãe protetora não criticava os outros dois balofos, redistribuindo igualmente eventuais esporros pelos três, mas sem resolver a causa do problema, numa vista grossa que irritava ainda mais o irmão esguio.

Até que um dia a pensão do ex-marido deixou de cair na conta, em virtude de uma onda de desemprego que varreu todo o ecossistema local. Daí que a mãe caiu em si e reparou que era hora de colocar os filhos para contribuírem na composição da renda familiar. Digo, os três não, apenas o mais prestativo, pois os outros dois, coitadinhos, não podiam sair muito de casa.

Sabendo que muito em breve iria se tornar arrimo de família, e ciente da vida molezinha que os irmãos levavam, o filho fitness resolveu se igualar a eles. Simulava indisposição, passou a comer gordura trans em quantidades absurdas e, em pouco tempo, estava prostrado com os outros, numa tríade descomunal e improdutiva.

“Assim não dá”, disse a mãe, que na hora matriculou os três filhos num curso do Sebrae para jovens empreendedores. Com muito esforço, os três se moveram e decidiram criar, via incubadora de empresa júnior, um projeto de micro-habitações para que cada pessoa pudesse se afastar do mundo e apenas ficar morgado. O nome gourmetizado OINC (Observatório Individual de Noções Criativas) vendia melhor para futuros investidores, que esperavam um protótipo para, na sequência, despejarem grana a fim de lucrar com aplicações em escala.

Mas os irmãos não entravam num consenso sobre como desenvolver o primeiro OINC. Dos três gordinhos, o mais devagar queria construir uma cabine de palha:

“Tipo uma oca dos índios, só de boas com a natureza, poxa.”

O segundo, descansado porém malandro, queria mostrar serviço, se preocupando em apresentar algo que estivesse na moda com o ecologicamente correto, mesmo sabendo que não seria capaz de pôr em prática:

“Proponho uma solução sustentável a base de garrafa pet e telhado verde com captação de energia solar, eólica e de água das chuvas. E também um sistema pra reaproveitamento de urina. A fan page do projeto está no ar e tem mil curtidas!”

Já o terceiro, agora adequado ao modo de trabalhar dos dois irmãos, ficou apenas no feijão com arroz:

“Um puxadinho resolve.”

Os investidores, vendo que não havia alinhamento nenhum entre os brothers, decidiram dar corda aos três projetos, para ao fim decidir pelo melhor, num sistema meritocrático e motivador.

Um mês depois, no dia da apresentação, bateu uma chuva de vento que destruiu logo a casinha de palha, que tinha sido construída às pressas na véspera. O segundo não fez a casa, mas mandou uma apresentação em Prezi e outra em Power Point cheia de gráficos coloridos. Já a meia-água do terceiro, apesar de tosca, estava lá, firme e forte. Para provar que funcionava, o novo gordinho ficou dentro da construção, e com o barulhinho da chuva pegou no sono. E assim teve o projeto descartado por ser, segundo a banca, simplista, nada inovador e sem o protagonismo, empoderamento ou pertencimento mínimos numa sociedade plural contemporânea.

Por fim, o projeto escolhido foi o das apresentações coloridas, que bombou em replicações na internet. O porquinho até hoje faz palestras corporativas com títulos como “The OINC Project – um case de sucesso”, sem nunca ter precisado construir uma casa sequer.

Moral: Ter focinho de porco não garante uma tomada de posição.

Moral 2: Você só clicou no texto por causa da palavra pokemón do título? Então eu é que te capturei.

Comente

Assunto Sem categoria

João e Maria Empowered Youth

FP_Rodrigues_VB_19_julho_16

 

Era uma vez uma periferia urbana no meio da floresta.[1] Nela vivia uma família feliz na maior parte do tempo, exceto quando chovia, ocasião na qual as goteiras tipo chão de estrelas[2] se mesclavam às enchentes[3]. Mas contanto que não cortasse o wi-fi, todo contratempo era passível de superação imediata.

Pai, mãe e dois filhos, que se chamavam João e Maria[4], compartilhavam a rede tranquilamente, sem nenhum comprometer a largura de banda para o outro, até que veio a crise. Que crise?, perguntavam-se, até que sentiram na própria carne quando foi necessário diminuir a quantidade de MB da conexão.

À noite, os pais conversavam enquanto faziam contas e gráficos de risco SWOT:

– Já não são grandinhos demais para ficar em casa? Não é hora de saírem em busca de um sistema meritocrático?, argumentou a mãe empreendedora.

– Sim, essa geração quer moleza. Com a idade deles eu mesmo já tinha o meu 3G próprio!, sustentou o pai, com autoestima elevada.

– Peraí, mas na sua idade o advento da revolução digital nem existia ainda!, lembrou-se a mãe, acusando o pai de superestimar um reles pager que, de fato, o patriarca teve à época[5].

Mal sabia o casal que os dois jovens, apesar de cada um com seu fone de ouvido e aparentemente focado nos canais de vídeo que assinavam, na verdade lançavam mão das propriedades multitarefas da qual a geração Z[6] era dotada. Daí que os moleques ouviram tudo e resolveram problematizar:

– Esses velhos querem roubar o nosso empoderamento!, Maria enviou zap.

– Sim, o nosso protagonismo!, respondeu João pela mesma comunicação expressa.

Em sistema cooperativo, imbuídos de pertencimento e perspectiva de reconstrução do real enquanto sujeitos num mundo pós-moderno e fragmentado, os dois acordaram mais cedo e decidiram, eles mesmos, tomar uma atitude antes proativa do que reativa: preencheram formulário online de intercâmbio numa startup e partiram rumo ao business do negócio[7] que é o mundo corporativo. Quando os pais acordaram, já não havia nenhum feedback da prole e ficaram em dúvida se a iniciativa dos jovens configurava um statement.

Na floresta, João e Maria se guiavam pelo roteiro de captura de pokémons no aplicativo de realidade aumentada que haviam instalado recentemente. Entre pikachus e bubassauros, eis que João avistou logo perto um monstrinho raro:

– Olha, Maria, um guéri-guéri[8] lendário!

O spot em que a trilha os indicava era nada menos que uma lan house totalmente coberta de roteadores wi-fi, mas de sinal fechado, cuja senha era conhecida apenas pela proprietária, uma senhorinha cheia de pertencimento com legging de academia. Ao avistar os dois jovens que já tentava hackear o sistema, a mulher na melhor idade bradou:

– Parem já com isso, que eu domino esse gap geracional!

– Corre, João, que ela é toda vitage!, ordenou Maria, já em dúvida se o choque se tratava de uma vivência ou experiência[9].

Uma vez que não foram bem-sucedidos na empreitada de curto prazo, os dois concluíram que o melhor por hora era voltar para a segurança dos pais, até que outra janela de possibilidades se lhes fosse aberta rumo à conquista da autonomia e liberdade individual enquanto sujeitos subjetivos cientes e conscientes da sua existência em si mesmos e no auto-horizonte de perspectivas e releituras de mundo.

Mas como tivessem capturado todos os pokémons da trilha, não era mais possível encontrar o caminho para casa. E João e Maria foram freelas para sempre.

Moral: A única coisa analógica e digital ao mesmo tempo ainda é o exame de próstata.

Moral 2: Se você é jovem ainda, jovem ainda, amanhã velho será, será.

__________
[1] Não pode seee, bradaria um urbanista tradicional, que postaria logo um textão com indiretas, mas ignorando que as noções de espaço e território transbordam de uma geografia limítrofe e classista em prol de uma noção subjetiva do locus identitário.

[2] Tu pisavas no meu calo, sua distraída!

[3] Note aí, no esquema água de cima e água de baixo, uma aplicação tipo práxis do conceito de modernidade líquida.

[4] Criatividade nos nomes não era o forte dos pais.

[5] O pai fazia estágio na Teletrim e havia sugerido contratar o Papa-Léguas como pássaro propaganda fazendo beep-beep, ideia logo descartada por copyrights e bom senso.

[6] Os mais velhos trollam tal geração como Z de zumbi, na verdade para ocultar o desespero para nomear a geração seguinte, uma vez que acabaram as letras do alfabeto.

[7] Ou o negócio do business?

[8] A evolução do lero-lero.

[9] Cf “Tratado Geral do Oco Exterior”, de Walter Celli.

Comente

Assunto Sem categoria

Chapeuzinhx Vermelhx

FP_Rodrigues_VB_12_julho_16

Outro dia, observando umas discussões acirradas e virulentas nas redes sociais por algo que, no mundo de carne e osso, se resolveria com uma interjeição ou frase nominal, me lembrei de uma série chamada “Contos de fadas politicamente corretos”, do norte-americano James Finn Garner. Nesses meados dos anos 1990, o termo começava se popularizar mundialmente, e os livros se tornaram um grande sucesso.

Essa onda do que hoje se chama “reconto”, categoria específica na literatura para crianças, não é novidade. O nosso grande Millôr Fernandes já fazia isso desde a década de 1940, quando reescreveu, genial como sempre, Chapeuzinho Vermelho simulando a voz de outros escritores, como Rachel de Queiroz e Guimarães Rosa. O próprio Rosa tem sua versão no conto “Fita verde no cabelo”, e o Chico Buarque com o infantil “Chapeuzinho Amarelo”. Poucos leram (e fica a dica) a paródia da Hilda Hilst, no poema “A chapéu”, do livro politicamente incorretíssimo “Bufólicas”.

Todas as narrativas que atravessaram os tempos via oralidade sofreram alterações, contos com pontos aumentados, mas os pastiches intencionais são outro parangolé e ficam mais divertidos. Enfim, mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, como disse o vate caolho, e por isso fica aqui a minha marota contribuição do conto:

Chapeuzinhx começava a compartilhar um post estilo textão sobre a dissolução das representações de gênero além do discurso acerca do pertencimento e territorialidade quando a mãe lhe transmitiu a demanda:

– Leva esses tupperware tudo pra tua vó que ela comprou.

Como não tivesse havido qualquer feedback, foco na telinha, a mãe descansou a mão no pé do ouvido dx filhx com ênfase, ratificando o job:

– Desgruda desse celular, que vou te enfiar orelha adentro pra ver se me escuta. Estopô!

Contrariadx nas suas prioridades individuais, Chapeuzinhx saiu num resmungo a fim de cumprir a campanha. No ponto de ônibus, ficou na dúvida se pegava o expresso, que cortava no zoom pela comunidade do pipoco, ou o parador, que demorava mas dava a volta por fora do risco. Mal sabia que era observadx pelo sujeito peludo e grotesco, cuja camisa tinha uma estampa “vid@ bandid@”.

Como quisesse voltar logo para casa, Peuzim, como era chamadx pela galera, optou pelo trajeto mais rápido, seguidx de pronto pelo outro coletivo adentro.

Entediadx sem o celular e longe do seu mundo, x jovem levantou o capuz vermelho do casaco para não ter que encarar os demais, ainda que a maioria estivesse concentrada no respectivos zaps. Nisso o peludo lhe chega junto:

– Que tem dentro desse monte de pote aí, garotinhx?

– Não é pote, é tupperware, seu desavisado, respondeu Peuzim, notando logo que falava com alguém de extrema direita por conta de tanta ignorância. – E tá tudo vazio. Minha avó, que mora lá pro outro lado, encomendou na revista. Mas isso não é da sua conta.

Hmm, tá beleza, disse o tonyramesco, se afastando e começando a pensar que uma depilação a base de cera talvez o ajudasse.

Desceram no mesmo ponto e cada um seguiu para um lado.

Ao chegar na casa da avó, Peuzim jogou o fardo sobre a mesa e viu que a idosa estava estranha sobre a cama. Ao se chegar perto, indagou:

– O que tá rolando, vó? Caiu o wi-fi? Tá magra, hein. E essas butuca aí?

– Ah, criança, é o Estado que não paga o benefício…

– E esse buço aí, vó? Nunca tinha notado…

– Ah, coisa pequena de vó, é que tenho parente em Portugal…

– Tanto faz. Mas peraí, que dente grande é esse, pô?

– Ah, inocência, fiz dentadura nova. Ainda tô me acostumando com essa canjicada… Mas desde quando você liga pra superficialidade da aparência?

Mas Peuzim deu um salto pra trás, desmascarando a farsa:

– Não rola. Minha avó não liga pra essas frescuras, ela é toda empreendedora. Eu sei quem você é, seu sexista limitado, neocoxinha que não curte nem compartilha! Quer roubar o meu protagonismo, o meu empoderamento!

– Ahh, eu só queria os tupperwares, gritou o Lobão, todo materialista mas nada dialético. Pegou o conjunto de potes de grife e desapareceu feliz correndo pelas ruas.

A avó chegou da excursão a Conservartória e, vendo x netx cabisbaixx, consolou:

– Chapeuzinhx, desapega. Vai arrumar namoradx.

– Vovó, eu gosto é de pessoas, sou todx alteridade… Mas a revista vai virar o mês e eu é que vou ter que pagar. O negócio tá osso.

E saiu atrás de uma lan house onde pudesse postar o ocorrido, visto que ficaria sem o celular por semanas.

Moral: o meio não é mais a mensagem.

Moral 2: olha bem: / a esquerda de quem vai / é a direita de quem vem.

Comente

Assunto Sem categoria

Correndo na Flip

FP_Rodrigues_VB_05_julho_16

Há quem não curta a Festa Literária de Paraty, por diversos motivos que não vou listar aqui, mas que a leitora pode encontrar facilmente no google, caso queira perder tempo com isso. Eu não perderia. Mesmo porque quase sempre que ouço ou leio críticas ao evento observo nas entrelinhas um tipo de efeito plunct-plact-zum: o que eu queria mesmo era ir com vocês… Inclusive é curioso ver autores que tanto criticavam a “micareta de intelectuais” de repente circulando pela cidade e registrando a presença com as inevitáveis selfies. Acho que todo mundo que tem alguma ligação com livros, no fundo, gostaria de estar por lá.

Não há como negar que a Flip apenas trouxe contribuições para a cultura brasileira ao longo desses 14 anos. Inspirou dezenas, talvez centenas de eventos de menor porte no país, tendo como marca a ideia de festa, como diz o nome, e colocando o autor como protagonista. Creio que contribuiu para alterar inclusive as mastodônticas bienais do livro, tradicionalmente compostas pelo enfileiramento de estandes, e que hoje exigem cada vez mais uma programação que permita o encontro entre autores e leitores.

Mas isto aqui é uma crônica, oras. E quando o cronista passa vários parágrafos falando de coisas gerais, entrega que está praticando um tipo de psitacismo enquanto não chegam as particulares, assuntos que realmente nos interessam aqui. Estatísticas e estudos muito intelecutalizados sobre o assunto a leitora pode encontrar nas melhores casas do ramo.

Por isso, enquanto ainda retomo o fôlego depois da minha 14ª visita ao evento, solto um rol de breves registros do que foi a minha Flip em 2016:

1 – Enquanto entrava na mesa de abertura, a única que consegui assistir, encontrei o cronista Humberto Werneck. Ele me olhou e perguntou: “Você não é o Josenildo?” Só um grande cronista começaria um papo com esse nome. Após me identificar como colega de Vida Breve (“sou o das terças, você das sextas; não me reconheceu de imediato por conta dos dois dias do meio”), sentamos juntos e papeamos. Quando o curador da Flip entrou no palco para abrir o evento, ele disse todo orgulhoso ao ver o filho: olha lá, meu parceirão.

2 – No restante dos dias fiquei praticamente de 10 às 22h no espaço do Sesc, onde fiz parte da curadoria, termo que está na moda e parece legal para quem está de fora, mas que na prática significa estar sorrindo todo o tempo para público e artistas enquanto a mente se preocupa incansavelmente com inúmeros detalhes de bastidores.

3 – Ou seja, mal consegui sorver a própria programação que ajudei a organizar. Do céu não se vê o céu, como dizia, se não me engano, o Paulo Mendes Campos. Mas reclamar disso seria uma grande injustiça.

4 – Participei de um papo na programação paralela com o meu amigo e também vida-brevesco Marcelo Moutinho, que a leitora encontra aqui aos sábados. Foi emocionante lembrar em público da nossa primeira Flip, quando só dividíamos mesa de bar. E foi numa mesa de bar, o Coupé, onde fomos comemorar depois. Tradição não se discute.

5 – Ouvi que a Flip diminuiu, mas a minha parece que apenas aumentou.

6 – O evento, mais que uma sequência de palestras, é uma sucessão de encontros. É mais um acontecimento das ruas do que de palcos.

7 – Por isso é que entre ir do ponto A ao ponto B paramos várias vezes ao esbarrar com um conhecido, que nos apresenta outros, comenta-se tal assunto e está iniciada uma pequena reunião, da qual devemos sair correndo tão logo nos lembremos do ponto B. E um trajeto de 300 metros pode levar 20 minutos e 5 rodas de conversa para ser percorrido.

8 – E ao fim de cada encontro dizemos: “vamos marcar um café com calma amanhã”, na vã esperança de que isso aconteça.

9 – Senti falta de encontrar o meu amigo Delfin, escritor e designer paulista que encontro todos os anos por lá. Escrevi uma crônica sobre ele aqui (http://www.henriquerodrigues.net/archives/429). A Flip sem o Delfin pode ser o fim de uma era.

10 – Fala-se em crise. E ela vemos aqui no mundo real. E talvez por isso mesmo é que a Flip e a literatura como um todo são cada vez mais fundamentais para mantermos a sanidade. Ou a insanidade necessária para sobreviver neste mundo doido. Até 2017!

Comente

Assunto Sem categoria

Em Paris

Na próxima semana irei lançar “O próximo da fila” no Salão do Livro de Paris, e na sequência vou participar do Printemps Littéraire Brésilien 2016, na Sorbonne.

Em meio a isso ainda vou visitar o Liceu Sophie Germain para conversar com os jovens alunos!

 

salondulivreprix sesc
Sorbonne

Comente

Assunto Sem categoria

Convite lcto e bate-papo em Floripa

o proximo da fila.cdr

Comente

Assunto Sem categoria