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AGENDA JUNHO

03/06 – domingo – Feira Pan-Amazônica do Livro, Belém/PA

I Seminário de Literatura Infantil e Juvenil de Santa Maria de Belém do Grão Pará

10h30 – “Ver-os-livros das vidas que passam nos prêmios, Bibliotecas e Clubes de Leitura”

Mediadores: Elizabeth Orofino Lucio / Luiz Percival

Convidados: Henrique Rodrigues(PA) / Volnei Canonica(RJ) / Guilherme Relvas (MINC-DF)

 

08/06 – sexta-feira – XII Semana Acadêmica de Pedagogia – FAG Toledo/PR

19h – Palestra de encerramento: “A leitura como arma de reconstrução do mundo”

 

10/06 – domingo – Feira do Livro de Brasília

19h – PRÊMIOS LITERÁRIOS: UM TRAMPOLIM PARA O FUTURO?

Com Cristovão Tezza, Henrique Rodrigues e Pedro de Almeida

 

28 a 30/06 – Festival “Le maraton des mots” Toulouse/França

Jeudi 28 juin – 18h00 – Médiathèque Le Grand M – Rencontre avec Henrique Rodrigues.

 

Vendredi 29 juin – 10h00 – Hôtel Dumay – Café, croissant : rencontre avec Henrique Rodrigues, Bernardo Carvalho et Guiomar de Grammont.

 

Vendredi 29 juin – 14h30 – Musée Paul Dupuy – Lecture d’ « Au suivant » de Henrique Rodrigues par Clément Carabédian, en présence de l’auteur

 

Vendredi 29 juin – 19h30 – Médiathèque Luciano Sandro, Aucamville – Lecture d’ « Au suivant » par Matthieu Sampeur, suivie d’une rencontre avec l’auteur.

 

Samedi 30 juin – 15h00 – Médiathèque José Cabanis – « Écritures du réel » : rencontre avec Delphine Coulin, Ivan Jablonka et Henrique Rodrigues.

 

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Clipping – Na França e Bélgica

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Au suivant

Edição francesa de “O próximo da fila”. Anacaona Editions. Tradução de Paula Anacaona

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Um sábado para Noel

O mundo é um samba em que eu danço
Sem nunca sair do meu trilho
Vou cantando o teu nome sem descanso
Pois do meu samba tu és o estribilho
“Até amanhã”, Noel Rosa

Sábado passado passamos por uma das experiências mais cariocas possíveis. Digo isso sem a soberba do bairrismo, sem a chalaça da autoironia, sem o saudosismo caquético de quando Rio estava na crista da onda – e mesmo quando ser escritor do Rio ou de qualquer lugar talvez significasse algo um pouco mais valorizado, pelo menos moralmente. O que fizemos no sábado foi lançar a antologia “Conversas de botequim”, composta por vinte contos inspirados nas canções do Noel Rosa. Isso tudo na querida livraria Folha Seca, lá na rua do Ouvidor, com uma roda de samba incrível do Chico Alves (homônimo do Francisco Alves, o Rei da Voz).

A história desse livro é bem engraçada e vale a pena contar novamente. Há uns anos, a prefeitura organizou num dos seus espaços um lançamento da coletânea “O livro branco”, composta por contos escritos sob a inspiração dos Beatles, que eu havia organizado. O carioquíssimo escritor Ruy Castro, sempre defensor das nossas cores, falas e sons locais, soltou na imprensa uma nota criticando o evento, pois “aqui não é Liverpool”, e que se fosse algo inspirado em Noel Rosa, daí tudo bem. De fato,   como ele provavelmente não tinha lido o livro, ignorava o fato de que era literatura brasileira, inclusive muitas das histórias produzidas soba as canções dos Fab Four eram passadas no Rio, inclusive a minha. Mas xenofobias à parte, respondi para a mesma coluna que até que ele havia nos dado uma boa ideia. Sim, Noel Rosa possui letras que renderiam bons contos!

Organizar um livro escrito por muitos autores é complicado, chato, moroso, que requer nossa capacidade de intermediar negociações com editoras e agentes, chegar a consensos de valores e contratos, compreender e moderar diferentes timings de criação literária – como se já não fosse difícil administrar os nossos próprios processos internos. Eu havia prometido não fazer tão cedo algo do tipo, e me concentrar mais nas produções literárias solo. Mas como resistir a uma provocação tão desafiadora quanto essa? Conversei rapidamente com o camarada Marcelo Moutinho, que além de ser grande escritor tem mão ótima para organizar livros coletivos, e partimos para a seleção do time.

“Conversas de botequim” driblou as dificuldades listadas, além de uma crise no mercado editorial sem precedentes no país, e nasceu suave. A diversidade de vozes literárias relendo Noel é uma riqueza imensa para o livro, sentimento que se tornou evidente quando nos juntamos para a foto dos autores presentes.

A literatura, seja no isolamento da pesquisa e da escritura, seja no silêncio da leitura, é uma arte das mais solitárias, todos sabem disso. Por isso esses momentos de festa são importantes, quando justamente as solidões se misturam. E então nos damos conta de que o verdadeiro poder das grandes realizações só se dá quando as ideias se convertem em ações compartilhadas.

Sabemos que a rua do Ouvidor foi a principal rua do Rio de Janeiro – e por extensão, do país, especialmente na segunda metade do século XIX. Não por acaso é cenário dos principais romances e de vários contos e crônicas do nosso Machado de Assis. Talvez por isso ele tenha se juntado com Noel Rosa para convencer São Pedro a não fazer chover e melar o evento, dado que a previsão de aguaceiros era de 80%. De líquido lá havia umas boas cervejas.

E é esse espírito carioca, bem no sentido de mistura e farofa, que celebramos Noel Rosa. Ele nos deixou aos 26 anos, cedo demais, assim como vários dos grandes poetas da nossa literatura – inclusive vitimado pela tuberculose, o mal-do-século que tanto vitimava os artistas de então. Mas talvez por conta disso também tenha permanecido jovial para sempre. Recriar suas canções pela via narrativa é uma forma de atestar sua genial perenidade.

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As cartas das nossas ferrugens

Aproveito o fim das férias lá do meu emprego ordinário para realizar uma das atividades mais cansativas e prazerosas de que se tem notícia: arrumar estantes de livros e escrivaninha de trabalho. Diferente dos pequenos afazeres domésticos e das missões que cumprimos às carreiras – nesses dias consertei dois ventiladores de teto, o computador dos meninos e, parcialmente, a máquina de lavar roupas –, arrumar livros e tralhas antigas requer concentração, silêncio e tempo de sobra. Por isso é que deixo esse feito para quando posso me dedicar, de maneira que batizei o evento de GABE – Grande Arrumação Bienal do Escritório.

Enquanto mexo (uso o verbo no presente porque não terminei a tarefa; o local está lá com vários itens espalhados aguardando análise, limpeza e nova organização, sob o olhar inefável da minha mulher, que parece observar um cômodo recém-explodido por uma granada) nas caixas, o convite às inevitáveis paradas me traz várias reflexões de acordo com o que encontro. Fotografias de família, de viagens, de eventos. Alguns ali já se foram, e permanecem tanto que um tipo de trapaça neurológica provoca pequenas viagens sinestésicas, nas quais consigo ouvir o parabéns cantado, o cheiro da comida e o abraço retratado no clique de um filme daqueles de 12 poses.

Recortes de jornal falando de nossos lançamentos antigos, filipetas de projetos antigos ou propagandas que, à época, julguei erroneamente úteis, apenas se misturam com cartas de crianças de uma escola pública no Rio das Pedras que visitei há tantos anos. Ainda que tivessem escrito por orientação da professora, são agradecimentos sinceros, que me trazem a última cena de quando fui lá. Falava ao microfone no pátio, onde os responsáveis chegavam para pegar as crianças, e reforçava o recado para que elas nunca deixassem de contar histórias para os seus pais.

Fico bastante comovido ao abrir um caderno da faculdade, e descubro por que o afeto me impede de jogá-lo fora: dentro estão cartas de amigos, rabiscos de poemas, paródias de clássicos (a gente se divertia cantando o “Rap do Fernando Pessoa”). Releio as cartas e vejo que essa geração que tinha seus vinte e poucos anos no fim da década de 1990 foi de transição: os primeiros trabalhos de faculdade eram feitos nas máquinas de escrever, e os últimos já digitados em Word. Mas a prática tão comum de enviar missivas pelos correios para pessoas que víamos todos os dias, algo que pode parecer ridículo em tempos de Whatsapp, tinha um sentido que só agora floresce de verdade: permaneceram.

O fanzine que escrevia com amigos apenas revela um fato que percebo hoje nos autores que têm os seus vinte anos e é algo bastante comum: com essa idade, aspirantes entusiasmados se julgam geniais e estão prestes a revolucionar a cultura do mundo. Um resumo desse pensamento, essa Síndrome de Rimbaud, está numa carta que o Fernando Sabino escreveu para a Clarice Lispector: “Vomitar o que, se não comemos?”.

Li por esses dias o último romance do Daniel Galera, “Meia-noite e vinte”. Trata de um grupo de amigos que fazia uma revista online nessa época. Eles se reencontram décadas depois, após a morte de um deles, o único que havia seguido firme na literatura. Aqueles jovens que surfavam nas primeiras ondas da web tomaram um grande caixote da vida.

Falando em livros, meu amigo Marcelo Moutinho lança hoje seu novo livro de contos, que se chama “Ferrugem”. Em literatura, o meu camarada se expressa unicamente em dois formatos: a crônica e o conto. Ambos dialogam, se abraçam, dançam às vezes, e a primeira muitas vezes ensaia uma atemporalidade do segundo. Isso quando o conto também não olha para a janela e põe seu foco nos detalhes das coisas que apenas passam. O Marcelo sabe muito bem fazer esse jogo de mão dupla e, assim, consegue justamente capturar o tempo perdido para a maioria das pessoas. E acredito que, por conta da aceleração do efêmero, nunca se perdeu tanto tempo como nesta época em que vivemos.

Por isso não perco tempo aqui no GABE, uma faxina lenta, oriental, quase terapêutica. Estou ganhando, recuperando, recordando o que realmente importa em meio à poeira dos nossos dias.

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Churchill e o pintor

 

Tal como boa parte da população, estou de férias em janeiro. E assim como tanta gente, vejo-me encurralado entre as despesas de fim de ano e aquelas que surgem nesta época, com o agravante da temperatura carioca. Os que conseguem dormir com ar-condicionado, muitas vezes, têm pesadelos com as contas de luz, de maneira que é quase possível ouvir durante o sono, a cada dez minutos, aquele barulhinho característico do Super Mario quando pega uma moeda.

Desta feita, e considerando que pôr o pé fora de casa significa uma despesa quase sempre inevitável, recorro às soluções como o Netflix. Entre Star Treks, filmes geeks (não nerds!) e pipocões, não resisti a “The Crown”. Essas séries britânicas são inescapáveis. Não sei se é porque estamos acostumados ao sotaque norte-americano na maioria das produções e o inglês parece novidade, ou mesmo porque são de fato realizações esmeradas na qualidade. Mas é coisa de primeira mesmo.

A coroa britânica exerce fascínio no mundo inteiro. Enquanto na maior parte do mundo há uma defesa da separação clara entre religião e política – na cidade do Rio vivemos um alerta –, no Reino Unido esses dois pilares sustentam toda a estrutura do país. E como Elizabeth II está com a coroa desde 1952, esses primeiros anos rendem uma série de época excelente.

De todos os personagens da série, o seu Primeiro Ministro Winston Churchill é um dos meus preferidos. O nacionalismo conservador e a sanha por se manter no poder renderam uma grande figura. Apesar de inicialmente parecer estranho, a escalação de um autor de comédia para o papel (John Litgow) foi certeira. Mesmo porque o famoso humour inglês, do qual Churchill era um dos grandes mestres, requisitaria alguém que pudesse transitar facilmente entre o humorístico e o dramático. O primeiro contém o segundo. Ou, já disse o Millôr: entre o riso e o choro só existe o nariz.

Ao completar 80 anos, os membros do Parlamento encomendaram uma pintura do Primeiro Ministro. O artista contratado, Graham Sutherland, retratou exatamente o que via: um senhor cujo peso da idade e bagagem de vida não poderiam ser escondidos. A cena em que os dois conversam enquanto tentam entender o motivo pelo qual Churchill sempre pintava o lago de sua residência é primorosa, pois colocou em cheque as ideias de novo e velho, passado e futuro, de certas dores submersas que, por conta da estampa de força e resistência a que nos submetemos ao longo da vida, preferimos omitir. Eis a arte, para revelar essas zonas de sombra, mesmo quando não as esperamos.

Churchill esperava que seu retrato fizesse jus ao grande estadista que liderou a Inglaterra durante a Segunda Guerra, o político influente a quem o público prestava reverência, tão famoso quanto os próprios reis. Mas o que viu foi um idoso, decrépito e caturro. Ao mostrar a obra ao público durante a cerimônia, disse que se tratava de um “notável exemplo de arte moderna”, em tom irônico, arrancando risadas da plateia.

Dois anos depois, o quadro seria destruído pela sua esposa, Clementine Churchill. Ao revelar o que de fato existia ali, a obra foi velada outra vez. Que inconveniente, a arte! Para o pintor, foi um ato de vandalismo.

Tudo isso para vermos hoje, em pleno 2017, o prefeito de São Paulo apagar com um obtuso tom de cinza os grafites da avenida 23 de maio.

E João Doria, sabemos, está muito longe de ser um Winston Churchill.

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Livros que me leram em 2016

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Tive um ano bem agitado como autor e leitor. Corri bastante estrada por conta do primeiro romance, o que me fez entender na prática em como esse tipo de livro tem um grande peso na balança literária. Mesmo porque no meio disso lancei um novo infantil, que me trouxe e traz muitas alegrias, mas no fim das contas o epíteto que fica para o sujeito é Fulano, autor do romance X. Mas isso é assunto para ensaios, críticas e teorias literárias, categorias que me trazem certa preguiça quando estou a escrever crônica.

Por essas e outras que prefiro fazer um balanço do ano como leitor de literatura. Todos repetimos que é preciso ter mais leitores, e parece que o fluxo de ideias está cada vez mais corrido no mundo. Estão aí as redes sociais com suas realidades instantâneas que surgem e desaparecem a cada momento, o que dificultaria o lance da leitura, atividade que, pela sua natureza, requer um ritmo mais lento. E por isso mesmo é que talvez ler literatura seja uma das grandes (re)descobertas dos novos tempos.

Sem mais delongas, segue a lista de uns livros que me disseram coisas ao longo do ano. Não sei dizer se são os melhores livros, mas são aqueles que li em contextos favoráveis para tê-los guardado. E, por isso mesmo, foram os livros que melhor leram a mim mesmo em 2016:

Céus e terra, de Franklin Carvalho – esse romance que li eletronicamente por trabalho me pescou de início. O narrador é um moleque, que é decapitado logo no início e, como um tipo de Brás Cubinhas do sertão, vai retratar os costumes da sua cidade. Logo que morre não vai procurar o paraíso, e sim o pai que nunca teve. O final é de uma beleza comovente.

Sem vista para o mar, de Carol Rodrigues – Só agora consegui ler esse livro, cujo estilo que bebe na oralidade dá uma potência tremenda aos contos. O manejo técnico na prosa curta (não sei se daria certo numa prosa longa) faz com que a narração exponha determinadas crueldades na hora certa. Lembro de ter lido de dia, com luz natural, e cada conto parecia gritar para o céu.

Os contos completos, de Alberto Mussa – O Mussa é um dos melhores contadores de histórias em atividade. E tudo o que ele publica é acima da média. Seus mergulhos na carioquice ancestral e as narrativas orientais são grandes leituras para qualquer hora.

Receita para se fazer um monstro, de Mário Rodrigues – também li primeiro no leitor eletrônico. É um livro de contos de uma crueldade imensa, porque bebe na infância de um mesmo narrador que, já adulto, seria um criminoso. O autor é um estilista, usando recursos interessantes – por exemplo, não tem vírgula no livro todo. Pode ser lido até como um romance.

Liturgia do sangue, de ReNato Bittencourt Gomes – outro livro de contos que pode ser lido como romance. E que também mergulha na violência com uma prosa exata e direta. É dos livros que deveriam aparecer mais.

Onça preta, de Lucrecia Zappi – a autora também está ligada às artes visuais, por isso não sei se ela capricha tanto nas descrições de lugares. A paisagem é tão personagem quanto a protagonista, e isso faz do livro uma viagem dupla para fora e para dentro da trama.

Tentativas de capturar o ar, de Flávio Izhaki – toda vez que digo não ter mais paciência para livros que tratem de livros, aparece um que me derruba. O romance novo do Flávio nos conduz para um interessante jogo de sombras, mas do meio para a frente vamos sentindo que há uma carga emotiva por trás.

Entropia, de Alexandre Marques Rodrigues – o esse primeiro romance é uma sinfonia complexa do autor que, acredito, melhor vem trabalhando a questão do sexo na literatura. O Alexandre é outro mestre do estilo que merece ser estudado cuidadosa e longamente pela crítica.

Poemas do povo da noite, de Pedro Tierra – O único livro de poemas da lista mostra que li menos poesia do que nos outros anos. (Será a influência do romance?) Mas do pouco que li, o livro esse tocantinense me tocou (sem trocadilho) mais. O livro foi escrito durante a ditadura, dentro de uma cela, e o verso “vivo num país de silêncio e gritos” me ficou para sempre.

O metal de que somos feitos, de Walther Moreira Santos – outro bom livro de contos que retrata a infância e a adolescência. Será tendência ou a temática me interessou por eu ter passado o ano falando do assunto, decorrente do romance? (já me assombrando?) De todo modo, imagino um papo entre o autor e o Mário Rodrigues, ambos pernambucanos e afiados.

Outros cantos, de Maria Valéria Rezende – de início fiquei espantado com a precisão com a qual são usados os adjetivos. A jornada para o sertão da protagonista coloca a ditadura numa perspectiva que ainda não tinha visto na literatura, onde quase sempre a ação acontece nos grandes centros urbanos. Um livraço.

Uma selfie com Lênin, do Fernando Molica – o tom epistolar e confessional desse romance mergulha na corrupção e na intimidade do narrador. Muito boa a alegoria da ruína, que é costurada entre o eu e o mundo.

Nihonjin, de Oscar Nakasato – li num voo esse romance, e a concentração permitiu saborear cada frase bem colocada, de forma metódica e cruel, simbolicamente representando a postura nipônica do narrador. A imigração japonesa com todas as suas dores e superações está ali.

A imensidão íntima dos carneiros, de Marcelo Maluf – no voo de volta li esse, e por isso aconteceu o mesmo: a tradição árabe de narrar uma história com toques do maravilhoso fez desse livro uma belezura que não canso de indicar aos amigos, e é com ela que encerro a lista.

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Quase-crônicas de fim de ano

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Nesta época, sou daqueles que começam a ter uma ponta de melancolia ao ouvir as musiquinhas natalinas, com destaques para aquela da Leader Magazine e a constante ameaça da Simone. Isso me faz lembrar do.

Talvez se some o fato de eu fazer aniversário próximo ao Natal, o que me faz lembrar de uma vida inteira ganhando apenas um presente, economia que os mais próximos tendem a manter até hoje, sempre com o argumento irrefreável da crise. Quando não estivemos em crise, ora bolas? Sempre fingi irritação com isso, transformando em piada, ainda mais que.

E como gira o mundo, tenho uma sobrinha pequena que também nasceu por esses dias, e agora é minha vez de ensinar à nova geração os princípios básicos da austeridade. Malu, você precisa entender que nós.

Vão chegando também os balanços de fim de ano e o volume de promessas não cumpridas, quase sempre de maior peso na nossa balança psicológica do que as realizações. Poderia listar aqui somente os originais e livros impressos de amigos e conhecidos que não tive tempo de ler – o que, aliás.

Velhinho, Gripado, Helicóptero, Caju, Missa, Caranguejo, Campari, Boca Mole, Todo Feio. Os apelidos dos políticos na lista da Odrebrecht são hilários, num tempo em que rir para não chorar parece ser a única saída para o povão, já que sair para as ruas num tipo tardio de tomada da Bastilha está fora de cogitação. Repare no.

Porque deveria haver uma campanha: Mais Brecht, menos Odebrecht. Em vez de Bastilha, temos Bangu, onde a maioria não quer ir, e as figuras que estão indo para lá e Curitiba mereciam ser.

Porque, assim como muita gente no país, comecei a contribuir para a Previdência cedo, aos 15 anos. Segundo as novas regras, preciso contribuir exatos 15 anos a mais. Não entendo de contas públicas, mas sei calcular o meu tempo, especialmente o que, por necessidade, parece tempo perdido. Isso só vai mudar quando.

Ganhei presente antecipado. Meu irmão me deu um teclado gamer, pois sabe que esse é um dos meus passatempos preferidos, ainda que não tenha tempo para nada. Digitar nele ainda é um desafio, uma vez que as letrinhas ficam mais altas, fazem barulho diferente, condindo a erros, deslizes, falhas morfológicas involuntárias que geram vocábulos bizarros e apressados. Penso que.

Daí que, nesse estranhamento (Brecht?), no teclado gamer que volto a usar máquina de escrever. Olhando esse periférico que acende, robusto para matar com mais eficácia inimigos digitais, penso em cada palavra, reflito um pouco mais mais antes de.

Claro, leitora, esta não é a primeira crônica que escrevem assim, abortando as frases e encerrando o parágrafo antes de a ideia ser concluída. Roubei essa ideia do grande.

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Gullar, meu professor de poesia

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Depois de uma semana fora para atividades literárias e de trabalho entre São Paulo e Mato Grosso do Sul, começava esta crônica sobre os muitos assuntos que me perpassaram ao logo desses dias, inclusive o último, decorrente do acúmulo, que é o cansaço físico e mental resultante dessa maratona. Organizava a sequência de ideias em parágrafos temáticos, na ordem cronológica inversa, mas sem hierarquia entre elas para depois mexer à vontade, porque a crônica não é relatório de empresa – já bastam os que me esperam no mundo corporativo ordinário –, e sim uma praça para descanso, com direito a parquinho que permita às palavras brincarem na gangorra.

Mas eis que minha mulher entra no escritório e me diz algo que tornou menos relevantes todos esses acontecimentos: “Morreu o Ferreira Gullar!”

Não que desconfie dela. Pelo contrário: é hoje minha fonte mais segura. Mas quase que instintivamente conferi no site do jornal. Não sabia que ele estivera internado, e nem sei se isso era fato divulgado. Fiquei alheio nesses dias, acompanhando, literalmente de passagem, o fatídico acidente com o time de Chapecó, a mudança bizarra na lei contra a corrupção e, falando no assunto, o Renan Calheiros tornado réu, ainda que presidente do Senado. A noite é veloz.

Quando esta crônica chegar à leitura, creio que já terão sido publicadas vários obituários, perfis, análises, matérias, especiais etc. Prefiro lembrar das ocasiões em que estive com ele e seus livros.

Quando estava na faculdade, conhecia poemas isolados do Gullar, como o “Dois e dois: quatro”, que tem aquele quarteto inescapável “Como dois e dois são quatro / sei que a vida vale a pena / embora no pão seja caro / e a liberdade pequena”. Esse poema é formado pelas populares redondilhas maiores, e acredito que esse tempo de cada verso tenha contribuído para que ele se tornasse tão conhecido, pois é a forma/fôrma mais fácil de se decorar – e me lembro de uma entrevista em que o Gullar disse ter sido abordado na rua por um homem que falou o poema inteiro. O poema segue com dísticos trabalhando o elemento da repetição, nas rimas, tendo no centro, entre as ideias mais líricas, aquele lembrando os anos de chumbo em que foram escritos: “como um tempo de alegria / por trás do terror me acena”.

Tenho um amigo poeta dessa época da faculdade, Célio Diniz, que é também artista plástico, e sempre nos reuníamos na casa dele em Pedra de Guaratiba. Discutíamos muito sobre esses assuntos, com aquela pretensão de genialidade típica de alunos de graduação, e me lembro de ter lido o “Breviário de Estética”, do Croce, e o “Argumentação contra a morte da arte”, do Gullar, apenas para poder debater com o meu camarada, que sabia – e ainda sabe – muito mais do que eu. Tempos depois, quando comecei a assistir ao Gullar falando sobre arte, achei-o um tanto radical demais, e voltei ao poeta.

Anos depois, tive a felicidade de tê-lo como professor em oficina literária, no ótimo programa Escritor Visitante que a universidade mantinha, permitindo que os alunos pudessem acessar os ensinamentos de grandes autores (eu já havia feito com o Sérgio Sant’Anna e o Antônio Torres, e queria fechar a tríade conto, romance e poesia). Por conta da necessidade de sair cedo para trabalhar na videolocadora, não fiz todas as aulas dele. Mas me lembro de uma em que ele se dedicou a trabalhar meu poema. Fez apontamentos técnicos excelentes, e o soneto acabaria entrando no meu primeiro livro, em 2006.

Tempos depois, quando trabalhava na PUC-Rio, ajudei na organização de um evento que o receberia (havia lançado o ótimo “Em alguma parte alguma”). Quem lida com literatura e vive no Rio de Janeiro certamente já assistiu o Gullar palestrando. Entre os causos de sempre que falou uma frase daquelas na longa birra com os paulistas: “a Poesia Concreta deveria se chamar Poesia Abstrata”. Conversando com ele depois, perguntei se aquela coisa com os irmãos Campos era um tipo de mágoa recíproca e eterna. Ele bateu o meu ombro e respondeu, rindo: “é tudo bobagem de uns velhos”.

Ferreira Gullar fará falta entre os vivos. Tenho uma estranha sensação de que esses grandes nomes da literatura – assim como na educação – que marcaram o século XX não estão sendo substituídos, talvez porque a sociedade não julgue essas áreas tão relevantes para fazer relevantes os indivíduos que atuam nelas. Mas isso é assunto para outra crônica.

Por hora fico agradecido pelo convívio com ele. E já que falei de Pedra de Guaratiba, cito os versos finais do poema “Uma pedra é uma pedra”: “ e assim / o homem tenta / livrar-se do fim / que o atormenta // e se inventa”.

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Na balada

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Escrevo de São Paulo, onde cheguei para participar da Balada Literária, e também onde devo ficar por alguns dias por compromissos de trabalho. Sampa tem uns prós e contras, como em qualquer lugar, mas por conta da escala da cidade os prós tendem a ser muito grandes, como é o caso da culinária, e os contras seguem o mesmo caminho. Vide os engarrafamentos. Diferente do Rio de Janeiro, quando geralmente o trânsito diminui aos domingos, aqui parece que os carros saem de casa para aproveitar a cidade, uma vez que estão liberados, enfim, do rodízio.

Mas fico com os prós. A Balada Literária é uma catarse cultural tocada pelo também catártico Marcelino Freire. O escritor e agitador pernambucano consegue a proeza de, em temos bicudos como estes, realizar um festival literário contando com a participação de dezenas de artistas de todo o país, alguns até mais do mainstream, como Ney Matogrosso. Há quem diga que essa articulação do Marcelino se dá porque ele, na verdade, tem pelo menos seis irmãos gêmeos. Simultaneamente, ele está dando uma palestra num lugar, uma oficina em outro, fazendo curadoria de outra coisa, visitando instituições e compondo banca de prêmio literário. Seus livros, naturalmente, são escritos nos salões de embarque.

Balada. Um termo com o qual os cariocas implicavam (eu incluso) há alguns anos. Designava a vida noturna da cidade. Achávamos isso muito esquisito no Rio, e por isso chamávamos, bestamente, de night, o que era pior ainda. Agora que saí desse mercado, por conta de idade (ui) e casamento (viva), não sei direito como chamam. Mas creio que aqui, pelo menos, ainda seja o mesmo. Parece que no Rio já estavam adotando também.

Mas o conceito da Balada Literária é altamente interessante. As programações, apesar do nome, acontecem ao longo do dia. E o público vai mesmo. Como hoje fosse um dia quente, imaginei que raros iriam investir seu pouco tempo de domingo para ouvir escritores, mas havia um grupo bom lá e foi uma lufada de esperança na literatura.

Balada, no Rio de Janeiro, pode ser levar uma bala perdida. Há algumas semanas, fui acompanhar a Flupp, na Cidade de Deus. É um evento literário lindo e que, pela sua natureza, de Festa Literária das Periferias, chega onde muitos os projetos culturais dizem chegar, mas apenas para conseguir patrocínio. Poucos dias após o evento, irrompeu essa guerra entre polícia, traficantes e milicianos que, até hoje, não acabou. E fico pensando que as ações culturais não fazem nem cócegas nos problemas sociais. Talvez façam. Ou diminuam. Ou não tenham que fazer, deixando em aberto, como possível consequência.

Porque, às vezes, tudo o que queremos é apenas curtir a balada.

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