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Retratos VGA de uns amigos Full HD – parte 1

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(crônica publicada no site Vida Breve)

Outro dia estava me lembrando de uma série de textos do Millôr Fernandes intitulada “Retratos 3×4 de alguns amigos 6×9”. São perfis muito interessantes de artistas como Fernanda Montenegro, Paulo Francis, Henfil, Jaguar e Paulo Francis. Daí outra gaveta da cuca se entreabriu e me lembrou de uma resenha que fiz sobre livro dele chamado Apresentações, há uns 10 anos, para o finado Caderno Ideias do idem Jornal do Brasil. Nesse volume, o Guru do Meyer revela um traço marcante que teve a vida inteira: a generosidade. Em certo momento, diz: “a gente, queira ou não, vai deixando pedaços com os amigos, pedaços que nos ligam e interligam”. É isso.

Sortudo que sou, recebi uma pitada dessa generosidade. Há uns anos, o Millôr me enviou um longo e-mail após ler a minha dissertação de mestrado sobre o humor dele versus a política. E me caiu a ficha de que hoje, em tempos de linchamentos reais e virtuais, quase sempre por nada, pode ser uma boa reforçar a celebração do próximo. E, como disse, sortudo que sou, tenho o privilégio de lidar com figuras muito dignas de nota.

– Carlos Henrique Schroeder – catarinense de nascença, sem fronteira por vocação. E por isso mesmo é que o Carlos está o tempo inteiro de olho no local que existe em cada todo, e assim se faz global no bom sentido. Antenadíssimo, mesmo sem cabelo, revisita clássicos o tempo todo, mesmo os que ainda não foram escritos. Escreve prosa, dá aulas, edita livros e coordena eventos. Frutífero que só, ainda assim sobra tempo para manter a média de um filho por ano. Frequentemente confundido com o nadador Xuxa, vai mais longe, porque sobrenada as ideias, sempre em nado peito.

– Lucia Bettencourt – Ingressou na literatura já adulta, e por isso o tempo para ela corre ao contrário. Por isso sabe tudo de Proust, que oferece como um banquete aos seus alunos. Ganha todos os prêmios que existem, da ABL ao do condomínio, sem pestanejar. Ou melhor, a cada piscadela. Pesquisadora e erudita, está além da universidade, e por isso o campus é ao seu redor, onde quer que esteja. É tímida feito um caramujo, e não tirou a nota mínima no teste de ego. Vida que segue, passo por passo, vai continuar provocando Chronos até receber o prêmio De Plá de revelação do ano.

– Ronaldo Bressane – jornalista nas horas vagas de escritor, e vice-verso. Cria apenas quando está dormindo, e no resto do tempo apenas sonha. Escreve de um tudo, mete o dedo nas feridas e, se te fecham porta, vai logo descendo pela chaminé, sai pela porta e diz que foi engano. Sem papas, cardeais ou bispos na língua, diz o que deve ser dito, paga o preço e dá o troco, à guisa de gorjeta. Impostor autoproclamado em eu-lírico fingidor, está em busca não das meias verdades, mas das penumbras que rondam as meias mentiras.

– Luisa Geisler – precoce desde os 45 anos, a Luisa sempre foi nova demais para a sua idade. Despertou para a literatura antes que o galo cantasse, e ao começar a votar já estava consolidada como escritora mais famosa do seu prédio. E daí para além. Nada disso a impediu de dialogar abertamente com a própria geração, que não está nem aí para o lance da idade, coisa para caquéticos. Escreve fácil, mas pensa difícil e ninguém percebe esse intervalo. Cansada do hoje, busca sempre o amanhã de ontem, e assim que acha, sem sair do lugar, o reinventa.

– Alvaro Costa e Silva, o Marechal – o Marechal é o último dos mitos da imprensa brasileira. Inventor da dança do siri patola, que muitos acreditam nem existir, Alvinho escreve com a mesma maestria com que circula entre os bares cariocas: dose após dose, com conhecimento de causa. Enciclopédico de havaianas e boêmio, o Marechal bebe até o seu limite, amplo, geral e irrestrito, sem nunca perder o tom da conversa. Jornalista cultural acima de tudo, já discutiu sobre A Odisseiacom um ladrão, que desistiu da carteira e levou apenas o estímulo à leitura.

– Antônio Torres – Quando criança na cidadezinha chamada Junco, interior da Bahia, Torres era apenas um garoto querendo contar histórias. O que continua até hoje, felizmente. Não fez o sertão virar mar, mas fez a cidade caber na bagagem de volta. Publicitário até certo ponto, bandeou-se de vez para as letras, mas sem precisar de plano de endomarketing, nome atual para prática antiga. Autor de clássicos, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras por ser autor de literatura, causando espécie por ser coisa rara lá. Para os mais novos, dá dica de como escrever: ouvir jazz e apurar os ouvidos para o vão de cada incerteza.

 

 

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Assunto crônica

Notas sobre a suspensão da descrença

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(Crônica publicada no site Vida Breve)

Prometo à leitora que esta será a última crônica sobre a Festa Literária de Paraty neste ano. Tendo passado a semana numa complexa imersão laboriosa, fazendo as vezes de curador, office boy, mediador, auxiliar de serviços gerais, escritor, assistente de produção, palestrante, boêmio e concierge, não sobrou muito tempo para pescar outros assuntos que pudessem ser explorados neste petardo hebdomadário.

Desta feita, resta-me colher, entre os quilos de livros e roupas sujas que trouxe, algumas impressões de mais uma Flip. A memória já deixa os lampejos tão irregulares, fragmentados e escorregadios quanto o chão das ruas de Paraty. Por isso, alerto à leitora que não caminhe os olhos aqui usando salto alto, a fim de não levar um tombo. Na Flip e na crônica, é preciso andar de tênis. No caso da crônica, o ideal seria descalço.

1 – Em treze passagens pelo evento, foi a primeira vez em que não esbarrei com o escritor e designer Delfin. É um amigo que vejo apenas nessa ocasião, pois vive em Campinas, e parece que sempre continuamos uma conversa que ficou pausada durante um ano. Acabo de saber o motivo: tendo acabado de perder um ente familiar, ele não pôde ir. A Flip, pelo menos a minha, não é a mesma sem encontrar esse camarada e ano que vem ele precisa estar lá para dar prosseguimento ao nosso papo.

2 – Também fez falta o amigo Marcelo Moutinho, com quem fiquei bebendo na primeira Flip até as tantas, e os funcionários do bar se mandaram pela porta lateral, deixando a gente na mesinha do lado de fora sem nem cobrar a conta. Era a Flip várzea, a Flip moleque…

3 – O senhor cheio de borboletas que fica parado na rua do Centro Histórico, misto de Inri Cristo e Nosso Lar, estava deveras estressado neste ano. Provocava os passantes, implicando até com a cor da bolsa de uma mulher.

4 – Pela primeira vez não vi nada das mesas principais. E não senti falta. Ouvi nas ruas que as programações paralelas estavam mais legais. Confirmei a tese da semana passada. Segundo uns depoimentos, autores da Flipona que eram muito esperados nas casas menores em que também falariam, onde seria possível ter um contato mais próximo.

5 – A pergunta dos poetas de rua deixou de ser “você gosta de poesia?” e passou a ser “aprecias poesias?”. Assim, rimadim.

6 – Foi a segunda Flip sem frio. Só fez nos dois últimos dias, mas não foi o suficiente. Por outro lado, a chuva prevista também não causou grandes estragos.

7 – Comentou-se que o público diminuiu. Não tive essa impressão, mas creio que seria algo bom. Depois da terceira edição, se bem me lembro, o evento se tornou grande demais, com gente em excesso para uma cidade que não comportava tanta muvuca. Almoçar ainda é um tipo de gincana que requer muita paciência.

8 – A alma encantadora das ruas de pedras continua sendo o melhor da Flip. É nelas que se encontram os colegas de profissão, gente que partilha das mesmas angústias e esperanças. As ruas de Paraty são o verdadeiro ambiente de trocas.

9 – Ganhei muitos livros de autores que só conhecia por redes sociais. Espero lê-los antes da próxima. Nesses anos descobri grandes leituras em Flips e festivais similares, mais que nas bienais, claro.

10 – Foram-se os tempos das grandes festas da Flip durante a noite. A pergunta “onde é a festa?” ficava sempre sem respostas, seguida de um muxoxo triste e decepcionado. Sem a Lei Seca, também me senti órfão no fim do expediente.

11 – O raio gourmetizador bateu na Flip que nem maré, como diria o Jorge Vercilo, que foi confirmado para fazer o próximo show de abertura. SQN.

12 – A Flipinha e Flipzona, voltadas para crianças e jovens, fazem um trabalho que aparece pouco e rende muito. Merecem mais holofotes pois elas é que atendem mais a garotada da cidade e pode transformar Paraty numa Passo Fundo. O que seria bom, contanto que não se cancele o evento depois disso tudo, como aconteceu com a Jornada.

13 – O escritor italiano Roberto Saviano, maior nome desta Flip e jurado de morte pela máfia (de lá, não daqui), cancelou a vinda às vésperas, por questões de segurança. Há pouco tempo o prefeito de Paraty levou um tiro na cuca e só não morreu porque foi de raspão. Não tá fácil pra ninguém.

14 – Apesar dos pesares, do cansaço imenso, da crise e das crases, é um privilégio estar em Paraty durante uns dias lidando com leitura.

15 – E sim, nossa camiseta boba e divertida, escrito LITERATURA É A MINHA CACHAÇA, fez sucesso entre o pessoal. Acho que se tivéssemos levado umas para vender, renderia até um cascalho.

 

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Assunto crônica

A Flip e o artigo da cachaça

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(Crônica publicada no site Vida Breve)

Eis que me preparo para mais uma Festa Literária de Paraty. Com essa, serão 13 de 13 edições. Embora boa parte delas tenha sido a trabalho – e ano passado o trampo foi tão pesado que tombei com estafa –, não posso deixar de reconhecer que é um prazer estar naquela cidadezinha nesses cinco dias de suspensão da descrença.

No geral, o evento em si não me surpreende mais há algumas edições. Parte disso talvez seja pela sensação de que alguns dos meus autores preferidos já (se) foram, como o Millôr Fernandes, Moacyr Scliar e outros mais jovens, ou porque o foco parece ter mudado um pouco da literatura para áreas correlatas, e o filé da coisa começou a virar acompanhamento. Tive sensação parecida na universidade, incluindo mestrado e doutorado, vendo os “estudos culturais” ampliarem tanto as perspectivas que às vezes até se falava de literatura. Mas isso é assunto para outra crônica. (Mentira. O estudos culturais, data venia, dificilmente seriam assunto para uma crônica.) Por último, acho que a Flip principal não me causa mais entusiasmo porque estou nela a trabalho.

Isso me faz lembrar da adolescência, quando trabalhei no McDonald’s: depois de certo tempo lá dentro, não se sente mais aquele cheiro misto da gordura e dos condimentos. O aroma típico que provoca o apetite se transforma em algo normal, estandardizado, e o próprio gosto dos sandubas não desperta tanto as papilas gustativas. Creio que, com a repetição, os nossos sentidos anulem o sentido de novidade.

Algum amigo gaiato me diria: sei como é, você acabou de dar a definição de casamento. Poxa, amigo!

Pelo sim, pelo não, eis que lá se foi mais uma digressão. Mas vamos lá: se por um lado a Flip entrou no calendário de atividades do trabalho, outro aspecto do evento se mantém inalterado. Encontrar e reencontrar amigos por aquelas ruas de pedra é algo que espero o ano inteiro. Apesar do trabalho pesado, sempre sobra um tempo para papear num café ou numa pinga. Creio que esse tempo que aparece é aquele que costumamos perder nos engarrafamentos. Na Flip só se anda a pé, por isso ela é, para a turma que trabalha ou curte literatura, uma pausa na vida conturbada das duas metrópoles que ladeiam Paraty. Nesses dias, a única chance de ser rebocado é caso se beba demais, conduzido até a pousada por amigos um pouco menos tortos e muito compreensivos.

Já escrevi a respeito da amizade flipesca aqui no Vida Breve (http://www.vidabreve.com/a-festa-literaria-do-delfim/#.VY8toXpVhBc), numa crônica sobre o escritor e designer Delfin, camarada que só encontro lá, uma vez por ano, há mais de uma década.

Para esta edição, um grupo de amigos escribas decidiu fazer uma camiseta com a frase A LITERATURA É A MINHA CACHAÇA. Algo tão ridículo quanto legal, por isso entrei na onda. Ok, na verdade eu dei a ideia, um pouco movido pela recusa que a proposta teve no trabalho quando a apresentei como lema para a equipe usar estampada nas camisetas durante a Flip. Acreditaram que associar a instituição a uma bebida alcoólica poderia ferir os bons costumes… Bem, hoje em dia está difícil julgar a flexibilidade alheia diante de metáforas, ainda mais quando é nosso feijão com arroz que está em jogo. De todo modo, como não uso mais uniforme (no McDonald´s tinha, com listras vermelhas e brancas, que chamávamos de zebrão), poderei usar a camisa como pessoa física sem problema.

Mas eis que todo texto pode ser mexido e melhorado. Fred Girauta, poeta de boa cepa e meu parceiro de pingue-pongue, acreditou que os artigos estavam sobrando. “Parecem muletas!”, vociferou, defendendo que LITERATURA É MINHA CACHAÇA soaria mais direto. Tenho alguma implicância com advérbios, mas nada tenho contra artigos, ainda mais os definidos, que fecham o seu substantivo na ideia que se pretende dar a eles. Como tenho andado mais prosador que poeta, reforcei a ideia de que estamos dizendo uma frase, não falando de literatura, no geral, mas daliteratura, no particular, na intimidade que temos com ela. Fred então propôs LITERATURA É CACHAÇA, assim mesmo, pá-pum. Sim, sobraria apenas a metáfora, mas sem subjetividade que o pronome possessivo concedia. Por isso não gostei tanto, voltando ao início. O amigo poeta entrou em modo odara, procurando joia rara, e radicalizou dizendo que todas as letras A estavam sobrando: LITERTUR É MINH CCHÇ, seria para ele uma versão mais contemporânea e instigante ao leitor. Tá legal, camarada.

Nisso os demais escritores entraram na discussão. Rafael Gallo, sensível prosador, apresentou um poema visual em que cachaça e a literatura trocavam de lugar o tempo todo. O Marcos Peres, borgeano espelhadoso, alegou que tanto faz, a cachaça que nos esperava seria a mesma. Pelo adiantado da hora, precisávamos de consenso e decidiu-se utilizar apenas um artigo da frase original. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra – ou nem chus nem bus, adágio que quase ninguém conhece.

E chegamos a LITERATURA É A MINHA CACHAÇA. Essa frase me satisfaz, rende um gole e umas gargalhadas sem moderação entre os amigos. Talvez o melhor da Flip – e vá lá, da vida mesmo – seja isso: encontrar os mais chegados, discutir banalidades e no fim rir disso tudo.

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Sobre as religiões

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(crônica publicada no site Vida Breve)

Por esses dias, a menina Kailane Santos, de 11 anos, levou uma pedrada quando saía de um ritual de candomblé. Por uma coincidência infeliz, o líder de um famoso centro espírita, o Lar de Frei Luiz, que fica aqui no meu bairro, foi assassinado brutalmente. No rádio e Twitter, um divertido e preocupante bate-boca entre o jornalista Boechat e o controverso Malafaia. Em qualquer debate sobre o assunto, semelhante a política e futebol, parece que todos estão tanto cheios de certeza quanto de fúria.

Abro a nova edição, bem bonita, do clássico “As religiões do Rio”, que ganhei recentemente. O João do Rio fez uma longa reportagem sobre o assunto, e no início do século XX já percebia que a cidade era um celeiro da salada religiosa: “O Rio, como todas as cidades nestes tempos de irreverência, tem em cada rua um templo e em cada homem uma crença diversa.” E destrincha a convivência de católicos, pagãos, fisiólatras, judeus, satanistas, evangélicos, espíritas e por aí vai. Mas um dado interessante é que não parece que uma se impunha contra as outras, por conta da nossa origem plural: “O Brasil sempre foi um centro de reunião de colônias diversas praticando as suas crenças com a mais inteira liberdade”, diz o grande cronista.

Sempre achei que a fé é algo da ordem do indivíduo, não de uma coletividade. É um lance mais subjetivo, íntimo, que apenas cada um sabe mensurar, como a paixão. Por isso sempre desconfiei, dentro das minhas limitações, de multidões religiosas, cuja perspectiva de mundo, em muitos casos, tende a se fechar em dogmas. Quando me perguntam, digo que não tenho religião, mas acho que todas têm uma importância fundamental, e no fundo quem diz que não tem é porque não tem ou não quer dar um nome para a sua crença particular. A realidade é mais complexa do que a nossa capacidade de compreendê-la, então somos levados a voltar para uma origem comum (o tal re-ligare). Por isso acho que todas têm um mesmo sentido.

Lembro-me de umas experiências (re)ligadas a religiões diferentes.

Uma tia era da umbanda e, quando me levava, eu morria de medo dos cultos, caboclos, mas adorava a feijoada, de quem me tornei devoto. Em Cosme e Damião, os melhores saquinhos de doce vinham “da macumba”. Que saudade… Uma regra de respeito era, ao passar por um despacho na rua, pedirmos licença para o número de pessoas do grupo. E todos respeitávamos.

Outra tia, católica e depois kardecista, me levou ao Lar de Frei Luiz, e acho que era meio médium. Dizia que eu tinha um espírito irrequieto. Foi na casa dela que descobri uns livros de certo autor espírita chamado prof. Henrique Rodrigues, e eu brincava dizendo que tinha escrito aqueles volumes. A ideia de ter o nome na capa de livro permaneceu comigo e sou profundamente grato a essa tia. Aliás, acho fantástico o trabalho de caridade que eles fazem.

Depois, em alguns carnavais, fui com amigos da Igreja Batista para retiro espiritual. No meio da turma tinha um franciscano, com aquele cordão de madeira em formato de T, que apelidei de Frei Dimão. As gincanas eram divertidas pacas e eu gostava de fazer paródias de músicas conhecidas, que a galera tocava com os instrumentos da igreja. O pastor, gente finíssima, mas que infelizmente faleceu posteriormente em acidente de carro, dizia que eu estava em retiro espirituoso.

Na época do 11 de setembro, eu estava nos EUA fazendo intercâmbio, e deixei um cavanhaque crescer, pois gostava de cofiá-lo enquanto estudava. Quando identificaram o Bin Laden como culpado pelos atentados e começaram a bater nos muçulmanos nas ruas, notei que passaram a me olhar feio, pois eu parecia um árabe. Tratei logo de raspar, voltando a ter a cara de mexicano de sempre. E me deixaram em paz.

Por isso ler “As religiões do Rio” faz tanto sentido para mim, especialmente hoje. E esta crônica é, sobretudo, uma dica de leitura.  O livro do João do Rio é literatura de primeira e, para as nossas cabeças, a boa leitura é o extremo oposto de uma pedrada.

 

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Recusados pela Flip (parte 2)

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(crônica publicada no site Vida Breve)

Na semana passada, este cronista que vos tecla, num exercício onanírico de investigação e jogos sombrios de influência, teve acesso exclusivo à lista de autores rejeitados pela Festa Literária de Paraty – Flip para os íntimos. Pelas respostas obtidas, parece que muitos se identificaram.

Com a divulgação do primeiro rol de autores que ficaram de fora, nossa redação recebeu mais uma série de depoimentos, nos quais os escribas explicam os motivos pelos quais foram recusados. Sob autorização expressa dos autores, reproduzimos alguns:

Sammy Vasconcellos, DJ e agitadora cultural de Ouro Preto/MG: “O fato de eu nunca ter escrito um livro é um tremendo preconceito desses caras. Nem responderam meu e-mail em que me ofereci para elevar a Flip a um novo patamar, mais contemporâneo e diversificado. Gente, eu combino, seleciono, compilo diferentes sons numa sequência arrasadora, que mantém a galera da cidade vidrada por horas. Não consideram isso um tipo de texto, não é poesia escolher e encadear? Pode só quem escreve livrinho impressinho bonitinho? Música é vida, é arte, é o que respiramos. Eu faço projeções, chamo convidados para tocar, alguns bem conhecidos, até ex-BBBs. Já organizei nflashmobs, e quem perde são eles. Elitismo de gente que se acha. Caretas do inferno!”

Prof. Dr. Mamede Alcântara, coordenador do Departamento de Letras do Centro Universitário Emílio de Menezes, de Paranavaí/PR: “Nossa missiva não encontrou eco junto aos representantes do evento. A bem da verdade, recebemos algo que, após análise dos meus orientandos, revelou-se a chamada ‘resposta automática’. Ser tratado por um robô nos fez lembrar de meu livroEstruturalismo Reborn, que trata especificamente de pesquisas sobre estudos de análises reflexivas e recortes acerca de Barthes, Todorov e Jackobson. A nova edição, com o termo anglicano, foi ideia genial de nossa companheira de departamento, professora recente e ex-aluna Amância Peres, ela mesma um estímulo ao nosso trabalho. Se o livro é sempre adotado em nossos cursos como leitura obrigatória, não entendemos como pôde ser recusado por um evento desta monta, como a Flip.”

P. V. Cirilo, ex-estrela literária da geração 00, de São Paulo/SP. “Cara, quando participei doreality show ‘Cirilo dei bai dei’, pareceu que minha carreira passaria por um reboot. Mostrei para a galera meu processo criativo, compartilhei com geral minhas angústias e o que gosto de fazer no tempo livre, os games e filmes que curto e tal. Acho que ficaram com raivinha de mim por conta da influência que tenho na mídia, que, aliás, eu controlo. Véi, na boa, eles me construíram e agora eles me destroem, dá pra entender? Eu, que fui o arauto de uma nova geração de autores, agora nem consigo editora para o meu novo romance, que vai se chamar Cirilo sou eu: uma egotripa visceral. Mal perdem por esperar, pois estou cultivando cavanhaque e em breve vou renascer na cena literária, fênix essa que sou.”

Eustáquio Rosa, autor tímido mas em franca ascensão de Florianópolis/SC: “Agradeço pelo espaço e reproduzo a justificativa que me deram: ‘Olá, Rosa. Tudo bem? Saiba que somos seus fãs e que seu livro Regalo e confluência, altamente cerebral e complexo, figura entre os preferidos aqui na equipe. No entanto, é sabido por todos que você não demonstra proficiência mínima ao falar em público. Circula pelo Youtube o vídeo com o seu ataque de algo que pareceu afasia na Bienal do Livro, quando você congelou diante da plateia até sair correndo pedindo um iogurte. Entende a nossa posição? Como te colocar na tenda e correr esse risco surgir um constrangimento para todos nós? Se ao menos você conseguisse apenas ler, como fez o Coetzee, vá lá, mas também sabemos que, ao tentar isso, você ficou muito vermelho e desmaiou num congresso recentemente. Ficamos honrados com a sua oferta, Rosa, mas seus livros falam mais que você, de cuja presença, infelizmente, podemos e preferimos abrir mão.’”

Rodrigo Johnson, blogueiro adolescente de extrema direita, de Ribeirão Preto/SP: “Cara, essa esquerdinha caviar que domina o evento não me dá espaço, têm medo de quê? Eu viralizo, vou no ponto, conheço história, da recente e até mais antiga, que já pesquisei na wikipedia. Hauhauah Meu pai falou que banca a minha ida pra Paraty (teria que falar antes das 20h porque durmo cedo), então nem precisavam gastar. Com e economia, dava até pra levar mais um marxista da PUC. Hauahuahahuaha Quero ver me colocarem cara a cara com esses bosta, novos ricos tirando onda de pobre, querendo o nosso lugar de comando. Eu quero é isso, discutir política, falar da volta dos militares pra pôr ordem nessa zona toda. Eu iria de farda e coturno, só de onda. Uhahauhauaha

Rafael Sampaio, blogueiro adolescente de extrema esquerda, do Rio de Janeiro/RJ: “Aqui na Gávea não é lugar para coxinha. A gente questiona o discurso das elites, sedimentado há gerações, e tá a fim de quebrar os paradigmas. A Flip me recusou por bairrismo, porque é um evento cultural mais de São Paulo que do Rio. Não entendem o que é ser do contra, o que é defender as minorias, a diversidade. É o capital internacional, o imperialismo que sufoca a gente há gerações, esse capitalismo opressor. Na chopada da sexta a gente combinou de abraçar a Lagoa, todo mundo de vermelho. Meu pai ameaçou não me dar carro novo se eu continuar com esse papo, mas tenho princípios e ele sempre arrega.”

Palmirinha de Alencar & Silva – Presidente da Academia de Letras de São Pedro dos Crentes/MA: “Menina, somos vítima de um sistema centralizado no Sul, mas aqui a coisa ferve, veja só. Os poetas marginais da cidade me criticam por ser mulher do prefeito, que também é empresário, dono de terras e outras coisas que nem sei. Mas é tudo infundado, de um pessoal baixo nível, sabe? Não dou ouvido para essa laia. Mesmo porque sempre fui engajada nas causas sociais, e a gente se reúne na Academia todas as terças para nosso chá, quando então falamos de vários assuntos de cultura, moda e culinária. Minhas queridas Tetê Alvarenga e Jana Pedrosa, finíssimas, estão organizando nossa tertúlia. Vai ser um must. A Flip seria uma chance de levar São Pedro para brilhar no mundo, né?”

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Recusados pela Flip

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(Crônica publicada no site Vida Breve)

Como vem acontecendo em todo meado de ano, por esses dias a grande notícia que causa comoção não é o balanço de vendas do Dia dos Namorados, mas a lista de autores selecionados para a Festa Literária de Paraty. O festival literário regado a pinga, tertúlias e tropeções, realizado na cidade histórica situada no Sul Fluminense, se consolidou no calendário brasileiro, e é certamente o evento cultural mais legal de São Paulo.

Tive a oportunidade de ir a todas as edições. Mas calma lá, a maioria a trabalho, pois não disponho de fundos suficientes para um pacote de hospedagem nesse período, em que um dormitório compartilhado de albergue precisa ser parcelado em várias vezes no cartão, à la Casas Bahia. E o dormitório é realmente compartilhado, pois na Flip se dorme de coxinha. (Ainda que o menu seja caríssimo, e a fila para comprar um pastel de 30cm recheado de um sinistro caviar seja deveras longa e lenta.)

Chegou às minhas mãos, em superoff, a lista dos piores candidatos às disputadas mesas principais, acompanhada de pareceres com as justificativas pelas quais os escribas não puderam ser contemplados na grade. Divulgo, com exclusividade, parte do material recebido:

– Silvio Black – escritor daltônico de Campinas, autor de “Persplexivas: livro de colorir”. Parecer: A obra de Black, apesar de vir obtendo relativo sucesso de vendas, não pode ser considerada de qualidade, pois além de não ser um livro, o volume tem desenhos que parecem ter sido feitos por crianças de 6 anos. Comenta-se que o autor enviou, por engano, o caderno de atividades do filho, e os editores viram ali uma renovação nesse segmento que já demonstra sinais de saturação, sem trocadilho. Não recomendamos, portanto, essa participação, a não ser que vingue aquele patrocínio da Faber-Castell.

– Katarynna Joinha – e-writer feminista de Novo Hamburgo. Parecer: Joinha é extremamente popular, lida e replicada, mas nunca publicou nada a não ser postagens no Facebook. Insufladora de polêmicas, transforma qualquer notícia em ofensa às mulheres, e rapidamente seus comentários se virilizam… Digo, viralizam. Um porém, constatado na sua timeline: homens são proibidos de comentar qualquer coisa, de modo que, na resposta ao nosso convite, apresentou como condição do aceite a participação exclusiva de mulheres na tenda dos autores, na sua mesa e em todas as demais. Recomenda-se cortar a gaúcha, sem trocaudilho.

– Dragoberto O’Connor – autor de livros de fantasia do Rio de Janeiro, como “Draga como eu Drago”. Parecer: nascido Dagoberto Oliveira, teve o insight de escrever histórias inspiradas nos games e filmes que tanto curtia na adolescência – “que ainda não acabou”, afirma nos lançamentos sempre lotados, nos quais vai fantasiado de dragão. Sucesso absoluto (mas todo sucesso não é relativo? Perdão pela pausa filosófica) em outros eventos, pode não se adequar ao perfil da Flip porque o nosso evento não é tão frequentado por jovens. (Vide nossa pesquisa, segundo a qual essa faixa etária não suporta as muitas horas de viagem a Paraty porque a bateria dos videogames portáteis não dura isso tudo.)

– Soh – performer de Cuiabá. Parecer: o artista de rua ganhou espaço nos últimos anos quando publicou que só tiraria a barba quando fosse convocado para a Flip. A cada ano temos que justificar o motivo do não convite, e as manchetes dão um close do rosto do rapaz, cuja barba já está com tranças. Reiteramos que não podemos ficar reféns da pressão midiática, que cai de pau em qualquer deslize nosso, sempre atrás de polêmicas que vendam jornais. Autoapelidado de O Poeta Flanelinha, que aborda os transeuntes com “Você gosta de poesia”, na verdade nunca mostrou nenhum texto a ninguém, pois se intitula um neo-hermético. “Estou aqui em persona, mas escrevo para o futuro”, berra nas ruas de pedras. Então deixemos ele lá e ano que vem voltaremos a falar no assunto.

– Felícia Mantiqueira – escritora de autoajuda de São Paulo, conhecida pelos livros “Agora é sério”, “Agora é sério II” e “Agora é sério III”. Parecer: É preciso reconhecer que a ex-secretária tem seu público, e talvez parte dele seja frequentador de Paraty. Segundo a biografia da orelha, foram 10 anos observando as loucuras do meio corporativo, transmitidas em frases curtas seguidas de dicas práticas que não são exequíveis para quem quer permanecer no emprego, como “Todo chefe quer ser desafiado. Mande-o às favas quando menos esperar.” Apesar de simpática e de boa fala, tememos que sua fala na Flip gere demissões, causando um possível déficit de público para o ano seguinte.

– Judson Marra – lutador de MMA e frequentador do “Mais você”. Parecer: A autobiografia do brutamontes que será lançada ano que vem não está sendo escrita por ele, mas por jornalista desempregado, todos sabem. Consideramos a necessidade de diversificar temáticas na Flip falando de outros assuntos, e que autores de literatura propriamente dita preenchem a cota de 7%. Mas talvez essa concessão seja demais e questionamos essa participação, com certo medo de ter que responder diretamente ao sujeito. Enfim, não é recomendado. A não ser que vingue aquele patrocínio Whey.

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Assunto crônica

A jornada do escritor

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(Crônica publicada no site Vida Breve)

Estive por esses dias em Paraty, a fim de acompanhar a etapa final de uma residência literária, projeto que estou ajudando a implantar. A ideia era simples: durante três meses, dar casa, comida e uma bolsa para que o artista da palavra exerça sua atividade em condições ideais. Nesse meio tempo, o camarada precisava dar uma oficina para a comunidade local, como contrapartida. Negócio simples e até barato, comparando com outras atividades culturais mais mirabolantes. Como se tratava de um piloto, havia a natural desconfiança da instituição diante da novidade, e de cá a preocupação em algo dar errado. Felizmente, a oficina acendeu a escrita em pelo menos duas dezenas de pessoas e o escritor terminou o romance, livraço cujos originais estou lendo e, acredito, vai ganhar estrada.

Hoje é domingo e não deveria falar de trabalho aqui, pois este espaço é a minha hora do recreio para dos dedos e para a cuca, por isso peço à leitora que perdoe o relatório de atividades. No entanto, esse projeto me trouxe uma reflexão bastante recorrente entre os colegas de ofício, a respeito das variadas condições de vida dos escritores.

Em tempo: o autor é o Ronaldo Bressane e o romance dele se chama Escalpo.

Há quem diga, e defenda com unhas e lápis, que a escrita é uma atividade não merecedora de remuneração, pois se trata de uma arte situada acima das “leis de mercado”. Assim, para não se deixar influenciar por elas, o escritor não deve depender de subsídios externos, como bolsas ou cachês, tampouco contar com os minguados direitos autorais – para quem não sabe, os 10% do preço de capa que vão para o escritor, pingados em prestações de contas trimestrais ou com outra regularidade mais larga. A escrita – e esse papo é mais comum entre poetas – seria então uma arte pura, sobrenadando no lamaçal capitalista do mundo sujo.

(Faço uma bandalha à guisa de pausa digressiva para informar que, apesar do título da crônica, não vou tratar aqui em nenhum momento do livro homônimo do Christopher Vogler, nem de nada do Joseph Campbell, tampouco o esquema Sid Field, de modo que a leitora pode se sentir à vontade para abandonar a crônica e tocar a vida, caso seja essa a intenção ou esperança.)

Aceitar encomendas de textos literários, por exemplo, seria abrir mão da total liberdade desse hobby cristalino e se tornar um vendido ao sistema, ao deus-mercado. E se a obra em questão obtiver algum número maior de vendas que o retire da categoria cult (segundo o Millôr, uma coisa écult quando não possui adeptos suficientes para compor uma minoria), o escriba se torna muito mal visto entre os colegas, e em vez de parabéns recebe um ressentido tsc, tsc. O velho papo do sucesso como ofensa.

Na outra mão, muitos autores vêm buscando uma profissionalização do setor, ainda que não fique muito claro o que isso significa. Essas pauta abrange pontos que vão desde o questionamento à absurda ausência de cachês em eventos milionários, como as bienais de livros e a Flip até a criação de um fundo governamental para promover a circulação de autores. Sobre a primeira, creio que a alegação do não pagamento (“não se paga porque o autor vem para divulgar o trabalho dele”) é tão mequetrefe quanto a oportunidade ímpar dada pelo Metrô recentemente para que músicos se apresentassem de graça. É o mesmo pensamento das redes de escolas para alunos aquinhoados que convidam autores para animar as feiras do livro, podendo até levar os seus para divulgar, e lá chegando se descobre, com certo constrangimento, que só adotam livros do Ziraldo e internacionais.

Já a criação de fundo para circulação de autores, pelo que me lembro, nunca saiu do papel em larga escala e, pelo cenário de vacas macérrimas, não acredito que algo semelhante venha se tornar política pública.

Em meio a isso tudo, há a necessidade do almoço. E me vem a lembrança daquela famosa crônica do João Ubaldo Ribeiro, “O conselheiro come”, na qual o saudoso baiano reclamava do volume de trabalho gratuito que lhe solicitavam, e do quanto as pessoas se sentiam insultadas quando se falava em pagamento. É um quadro que não muda.

E me parece que estamos vivendo um momento mesmo de contenção, com o cancelamento de eventos literários, o bambeamento de prêmios e cortes de orçamento de tudo quanto é lado. Nessas horas, a leitura tão alardeada como atividade fundante para o país vai para o final da fila.

Enquanto isso, as coisas boas continuam acontecendo em outras frentes. Tenho visto jovens lendo e escrevendo como nunca, trocando ideias e textos, ignorando a crise macro e buscando seus leitores em redes sociais e fora delas. Temos escritores de todos os tipos (pop, universitários, experimentalistas, tímidos e extrovertidos) produzindo muito e bem.

E o desafio da jornada de cada autor está em conseguir esse difícil equilíbrio de pagar as contas tranquilamente, não se esquecendo de conselhos simples como este que o Stephen King nos dá no seu livro de dicas aos escribas: “A escrita não é para fazer dinheiro, ficar famoso, transar, ou fazer amigos. No fim das contas, a escrita é para enriquecer a vida daqueles que leem seu trabalho, e também para enriquecer sua vida. A escrita é para despertar, melhorar e superar.”

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Assunto crônica

Pescaria, Passo Fundo e o crime da Lagoa

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(Crônica publicada no site Vida Breve)

Ontem foi dia de pescar. Como sempre faço com o meu irmão, acordamos por volta das 4 da matina, vamos até o ponto de saída combinado e embarcamos na pequena traineira alugada. É uma tradição familiar da qual não queremos nos desvincular nunca.

Um ano mais velho, ele lida com outras coisas, não é desse mundo da leitura, mas sempre se empolga com livros ligados a esse tema, e ficou feliz pacas quando dei de presente “O velho e o mar”, do Hemingway, “Moby Dick”, do Melville (tanto a ótima adaptação do Cony quanto a edição completa) e, recentemente, “A caneta e o anzol”, coletânea de histórias de pescaria, do nosso Domingos Pellegrini. Na fila estão o “Mar morto”, do Jorge Amado quando jovem, e um “Os trabalhadores do mar”, do Hugo e, de repente, uma “Odisseia”. O lance é ir jogando as iscas. Vai que fisgo.

De dentro da baía de Guanabara, entre uma mancha de óleo e outra, vemos um Rio de Janeiro lindo, que parece em paz. Outro dia o secretário de Meio Ambiente mergulhou ali para mostrar a todo mundo que o local é propício para as provas de vela das Olimpíadas, mas ele fez isso na hora da maré subindo, quando entra a corrente limpa do oceano pelo meio da baía. Mais uma conversa fiada de político.

A cidade está longe, muito longe de qualquer limpeza dentro e mesmo na borda das suas águas. Todos ficaram alarmados com a morte de um médico, esfaqueado brutalmente após ter sido assaltado na Lagoa Rodrigo de Freitas, um dos cartões postais cariocas. A mancha de sangue ficou mais feia naquelas margens porque o assaltante é um garoto de 16 anos, com uma longa ficha de crimes, e por cruel ironia a família é beneficiária do Minha Casa Minha Vida e Bolsa-Família, programas tecnicamente bem-sucedidos de alimentação e moradia do governo. E é claro que no dia seguinte a Lagoa estaria cercada de carros de polícia, numa estratégia tão certeira quanto as visões da Mãe Dinah, que previa os fatos sempre depois que eles aconteciam. Tem algo errado nisso tudo.

E não deixo de, corporativista da leitura que sou, associar essa mancha toda à falta de leitura. Outro crime, que não levará ninguém à cadeia mas deveria, foi o anúncio do cancelamento da Jornada Literária de Passo Fundo, ao mais efetivo evento de formação de leitores do país. Fui a duas edições de lá e, comparando com a Flip (em que fui a todas), é algo realmente de mais profundidade, que talvez tenha conseguido mais resultados porque acontece há mais tempo (desde 1981, bienal) numa cidade não turística, no interior do Rio Grande do Sul. Vá lá, a Flip é um barato também e talvez seja injusto comparar.

A Jornada foi interrompida por falta de patrocínio. Não falta grana para muita coisa, mas quando parece que o cinto vai apertar sempre são limadas as iniciativas que dão resultado mais efetivo, ainda que de longo prazo, e, talvez, seja justamente por isso. As empresas querem associar suas marcas a ídolos do momento, que ajudem a vender seus produtos a massas de consumidores pouco críticos e chatos, não a gente de cuca mais aberta e questionadora.

Em Passo Fundo se leem 6,5 livros por ano. A média do país é de 3 a 4, considerando a leitura obrigatória. Espontaneamente é um livro só. Acho que em todas as cidades acontecesse uma jornada como a de Passo Fundo, crimes como o da Lagoa talvez acontecessem com menor frequência. Como saber? Sei que temos uma baía e uma lagoa, tudo muito bonito, mas ainda passamos raso.

Depois de um dia inteiro numa pequena embarcação, acho que o labirinto de dentro do ouvido continua adaptado ao movimento do mar, de modo que o corpo permanece balançando involuntariamente.

Espero que a lembrança do que aconteceu nesses 30 anos em Passo Fundo continue também embalando os leitores daquela cidade. Disseram que vão repensar o formato para 2017. Enquanto isso, torço para que cada pessoa que contava com o evento cultive a sua própria jornada, oferecendo a boa experiência da literatura para si e para os próximos. Mesmo porque isso independe de governos e patrocínios.

Que a leitora me perdoe pelo clichê: mesmo quando a maré não está pra peixe, o lance é continuar jogando umas iscas. Vai que…

 

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Assunto crônica

Meu coração é o Mercadão de Madureira

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(Crônica publicada no site Vida Breve)

Não vem não, pra cima de Madureira só Cascadura!, dizia sempre, com o dedo em riste, uma tia que já se foi.

Voltar a esse bairro é sempre uma aventura que tento evitar. Não curto muito mergulhar naquela profusão de gente, carros e sacolas, tudo engalfinhado e se atropelando. Nos últimos anos, me parece que surgiu uma glamourização da vida suburbana carioca, mas acho que se deve também a certa crise identitária da Zona Sul, iniciada justamente quando a classe média alta perdeu um pouco da pose, buscando novas perspectivas além-túnel. O que não significa que a maioria da galera da Zona Norte e adjacências tenha deixado de sonhar com o Leblon das novelas. A grana do vizinho é sempre mais verde.

Essa ficha me caiu quando, num bar da modinha, a mauriçada estava cantando o trecho de uma música conhecida: “daqui do morro eu não saio não”, a famosa “Opinião” do Zé Keti. Todos felizes pacas na sua simulação verbal de pobreza. Acho que respondi indignado: pois é, vocês só vão no morro para se abastecer de baseado. Mas acho que tinha bebido umas e outras – álcool, outra droga pesada – e provavelmente estava falando sozinho.

Zé Keti, oriundo de Inhaúma, suburbão do Rio. Apelidado na infância de Zé Quietinho, que deu Zé Quieto e por fim Zé Keti. Viva ele!

Voltar ao subúrbio ou conhecê-lo se tornou uma experiência meio antropológica para a turma mais aquinhoada, com direito a vans e seguranças, para se respirar o legítimo ar do povo. É sair do apartamento para a casa, descer do play e brincar na rua, da quadra à várzea, trocar o vertical pelo horizontal, e outras analogias. As quadras das escolas de samba de Madureira são os oásis onde brotam esse sentimento de raiz.

Lembrança: no calçadão, ali em frente ao Império Serrano, ao lado da estação de Magno, foi onde consegui o primeiro trabalho, numa barraca de cachorros-quentes. Mas lá na quadra mesmo nunca entrei e hoje é um tipo de turismo que não me diz muito. Prefiro o Parque Madureira.

Mas antes que a leitora me acuse de renegar as origens, elucido: sou de Seropédica, mas logo fui desbravar o mundo e minha formação se deu toda entre a Pavuna e Irajá. Quando morei em Madureira, entre 12 a 15 anos, a onda era ser malandro, ou pelo menos parecer. Todavia, era tímido demais (Henri Keti?) e não me enquadrava.

Quando nos mudamos para Jacarepaguá, onde permaneço, não quis mais saber daquela bagunça. “Todo o mundo é composto de mudanças / Tomando sempre novas qualidades”, sonetou o Camões, que nunca foi a Madureira. Mas Madureira sempre esteve lá, me esperando. E apesar de toda a resistência, lá fui por esses dias, a fim de comprar uma churrasqueira. Nesses tempos bicudos, pagar um pouco menos supera qualquer implicância bairrista. E logo me vi mais uma vez perdido no labirinto borgeano do Mercadão.

O Mercadão de Madureira é ao mesmo tempo paraíso e inferno. Nunca um purgatório. E você mergulha e se dilui naquela profusão de gente, itens de festa, doces, temperos, animais para consumo e sacrifício, imagens de demônios bronzeados com quase dois metros, segurando tridentes, que ainda me dão medo e evito encarar, com medo de que deem uma piscada.

E cabe lembrar: Madureira é imune a qualquer raio gourmetizador. Amém, e que continue assim. Assumo rimando que saí de Madureira mas Madureira sempre vai estar em mim.

Por isso é que agora, inaugurando a churrasqueira, olho para a minha mulher com cara de falso malandro e falo a gracinha de domingo em formato de slogan: Meu coração é o Mercadão de Madureira, vem ni mim no varejo que eu te atendo no atacado.

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Nave mãe

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(crônica publicada no site Vida Breve)

Escrevo esta crônica ora nas manhãs de sábado, quando o descompromisso com o cotidiano ordinário traz o lampejo tão aguardado, ora numa hora qualquer dos domingos, quase sempre entre os afazeres regados pela certeza inexpugnável de que a semana já acabou e, eterno retorno, vai nos sisifando com as nossas pedras para o topo da montanha. Esta aqui foi escrita nos intercursos de mais um dia das mães.

Durante muito tempo, em especial na infância, a presença da mãe é algo fundamentalmente protetor – hoje acho que é formativo, dado que muitas funções tradicionalmente masculinas também estão sendo exercidas pela mulher –, e me parece que, pelo menos para elas, parte desse instinto permanece durante a vida inteira. Mas também, quando se cresce, estar com elas significa quase sempre dialogar com o que há de mais essencial nas nossas origens.

(E não posso deixar de me lembrar daquela frase do Woody Allen, que é mais ou menos assim porque estou catando de orelhada: “Descobri que meu problema é esse desejo de retornar ao útero, qualquer útero.” Que nietzschiano esse judeu!)

Mas antes do parágrafo digressivo picaresco, dizia que o retorno às nossas origens é tão importante que não consigo pensar a vida sem a referência, real ou imaginada, de um tipo de nave mãe de onde todos brotaram se seguiram suas trajetórias, construindo ou desbravando o próprio universo.

Comemos peixe hoje. Meu irmão, um ano mais velho, gosta muito, e eu também estou longe de recusar. Imediatamente, entre uma garfada e outra, voltamos para as pescarias com o pai, que já embarcou para o oceano infinito. As últimas, nós já adultos, eram em traineiras alugadas, pela costa, na baía de Sepetiba ou em alto mar. Mas as primeiras foram no rio Guandu, cujas margens frequentamos até os meus dez anos. Saíamos para pescar e minha mãe aguardava em casa para, resoluta e apaixonada, limpar os peixes, que nem naquele poema da Adélia Prado.

Falar em poesia, abro sem muito compromisso – que é o melhor jeito de ler – um livro do Manoel de Barros, o da Terceira Infância: “Minha mãe me deu um rio.”

Certa vez assisti a uma palestra no trabalho, daquelas de motivação profissional, codinome de autoajuda. (As empresas ainda não se deram conta de que funcionários não se motivam ouvindo papagaiadas, especialmente quando descobrem que o cachê recebido pelo palestrante por uma hora de conversa fiada é maior que o salário médio da corporação.) Entre as inúmeras obviedades que o pensador corporativo disse, só uma teve valor. Dizia que, diante de uma dúvida, convém pensar se a decisão deixaria a mãe orgulhosa. Talvez fosse uma saída se o superego de políticos e outros poderosos soasse o alerta: “Se você fizer isso vou contar pra tua mãe!”

Não é assim que rola. Por isso o cuidado, o critério nas escolhas e a orientação para o certo vão se perdendo na certeza dos adultos. O indivíduo pronto e acabado, coroado de certezas, corre o sério risco de se tornar algo muito distante do que a mãe esperava. Talvez, mesmo que se torne uma pessoa bem-sucedida financeiramente ou em outro aspecto, em algum momento da vida vai parar e se dar conta: eu falhei.

A sabedoria popular diz que coração de mãe não se engana. Por isso hoje eu e meu irmão retornamos à nave mãe. Precisamos sempre cuidar para que o rio que ela nos deu seja piscoso, porque toda mãe é o milagre da multiplicação. E sobretudo para que, ao cruzar com outros e produzir novas correntes, nossos rios sejam de águas claras, limpas e navegáveis.

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