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Em Paquetá com Dona Therezinha

Já se foram exatas três décadas desde que fui a Paquetá. A pequena ilha ao fundo da Baía de Guanabara oscila entre um rápido destino idílico para uns e um tremendo programa furado para outros. Como fui ainda bem garoto com meu pai, irmão e um primo que desde então não vi mais, minhas lembranças são compostas por charretes, pedalinhos, uma praia com água escura e uma bicicleta alugada, cujo guidão estava torto e me obrigava a virar para esquerda caso quisesse andar para frente, num simbolismo literalmente sinistro que me acompanhou por toda a vida.

Há uns anos, publiquei o primeiro livro infantil, quer era composto por poemas a partir de pinturas do Rio de Janeiro de antigamente. Uma delas, um óleo sobre tela de Giovanni Battista Castagneto, era de uma Paquetá de 1898, que gerou esses versinhos:

Na ilha de Paquetá,
Onde hoje se vai de barca,
Ficou registrada a marca
Do que então havia lá.
O local, quase deserto,
Com raras casas por perto,
Deixa um recado certo:
Convida a visitar.

Apesar do convite para a criançada, eu mesmo não voltei mais lá, mais por falta de tempo que de vontade. Mas eis que a avó da minha mulher se mudou para lá recentemente. Esperava há umas semanas a visita dos bisnetos, e aproveitei para ir também.

Tentei esquecer por hora um daqueles ensinamentos do Millôr Fernandes: rever é perder o encanto. E não perdeu. As charretes foram substituídas por aqueles carrinhos elétricos, e os pedalinhos, veículo que voltou à tona (opa!) com o episódio do Lula, continuam como uma das principais atrações naquelas praias de águas escuras.

Tive um dia tranquilo de turista abobado com a paisagem, o papo com pescadores e o fato de estar num bairro carioca onde não existe engarrafamento, visto que não existem carros lá. No entanto, o que mais me surpreendeu foi a minha anfitriã. Não sei como se chama a mãe da sogra nas nomenclaturas de parentes, mas a Dona Therezinha é uma figuraça.

Aos 80 anos, não parece ter mais de 60. Gosta de demonstrar as séries de exercícios que faz antes de dormir e ao acordar. Tentei imitar mas não cheguei à metade.

Já foi cantora de rádio, e fez questão de me mostrar a carteira da Ordem dos Músicos do Brasil, emitida em 1962. A foto mostra com olhar questionador, instigante e ousado, e pelos causos era realmente avançada para a época. Depois que o primeiro casamento acabou, foi namorada de pessoas como Darcy Ribeiro e Cauby Peixoto, que causou um tremendo alvoroço ao chegar à casa da família no Grajaú para pedi-la em namoro. Na época, ter uma relação estável com uma mulher separada e com duas filhas era algo polêmico.

Depois entrou para a política, filiada ao MDB, trabalhou com o então governador Negrão de Lima, viajou pelo mundo inteiro. Mas nunca deixou uma atividade: a umbanda. Desde 1951, Dona Therezinha organizava um centro em Padre Miguel, Zona Oeste da cidade. Foi lá que organizava festas beneficentes para a população pobre da região. E mesmo se aposentando da umbanda (sim, ela conseguiu essa proeza) no ano 2000, mantém o trabalho voluntário regularmente. Mal chegou a Paquetá e já tem turmas de tapeçaria em tecido, cuja produção ajuda os alunos a vender para que complementem renda.

Dona Therezinha não olha para o passado com choramingos saudosistas, mas como quem apenas guarda a alegria do vivido. Acha que já viveu o bastante, não precisa de mais nada – a não ser uma viagem que pretende fazer ao Canadá, dos poucos países que não conheceu. Afirma, rindo, ter um kit velório, com as roupas já escolhidas e orientações a todos: “Não quero ninguém chorando; mas podem bater palmas, porque eu fiz tudo o que queria”. Com toda aquela disposição, esse tal kit não deve ter usado tão cedo.

A energia e a sabedoria dessa senhora me contagiaram de tal forma que tomei coragem e aluguei bicicletas com os meus moleques. Apesar de me sentir enferrujado, consegui dar uma volta inteira da ilha com eles, parando uma uma vez para apostar corrida, a qual perdi por pouco. (O guidão não estava torto, mas eu é venho ficando.) E por isso vou desde já fazer os exercícios da Dona Therezinha, que é toda fitness de corpo, mente e espírito.

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Assunto crônica

As férias e o micro system perdido

Voltar de férias é um exercício anual de estranhamento. Para a maioria – que sai nesse período não por conta do alto verão, mas pelo intervalo escolar –, trata-se de uma amostra desgracenta de que a vida não era nada daquilo que os primeiros dias do ano mostraram. Sorte dos que podem sair em baixa temporada, quando tudo é mais calmo e barato, quando se pretende dar uns passeios.

Naturalmente, pior que voltar das férias é nunca voltar delas, algo que ocorre frequentemente nos Estados Unidos. Com leis trabalhistas diferentes e mais pragmáticas, ausentar-se por trinta dias da empresa é um grande risco de emitir um atestado de inutilidade. Por isso, muitos temem ficar longe da cadeira por muito tempo, a fim de não ter o posto ocupado pelo colega concorrente.

Como mencionei escola, solidarizo-me com a criançada que precisa fazer aquela famigerada redação inicial cujo título é “Minhas férias”. O que se espera é um relato simples em duas dezenas de linhas, que servirá de base para que o novo professor trace um panorama do nível de escrita da turma. Mas ao pobre aluno, ainda se adaptando (como se o jovem já não estivesse se adaptando o tempo todo à vida) a novos horários de dormir e acordar, rostos e pesos de mochilas, se torna uma pequena tortura.

Isso porque, tirando um ou outro grande passeio que pode se converter num registro de felicidade familiar, na maioria do tempo de descanso fazemos apenas isso: descansar. Daí que o professor deve bocejar enquanto lê dezenas ou centenas de textos com as sequências “fomos passear no shopping por causa do ar-condicionado, estava cheio e meu irmão idiota derramou o milk-shake de novo”, “vi uma série nova toda de uma vez, e depois descansei”, “fiquei emborcado no sofá jogando o game X, mas não consegui passar daquela fase e isso me deixou triste”, “meus pais me largaram de novo na casa da minha avó e foram viajar; fiquei vendo televisão o tempo todo”, “não fiz nada de importante e não sei o sentido de escrever isso”.

Lembro-me dessa época quando aluno. Na época havia ainda menos coisas para se contar, fora as visitas a primos ou a algum parente com situação financeira um pouco melhor, mas que logo se tornavam pequenas deprês ao voltarmos para a realidade. Daí que eu achava melhor não escrever as férias que existiram, mas as que poderiam ter existido, de modo que em vez de relatos eu escrevia pequenas narrativas, mas os professores não ligavam. A ficção ainda me serve para reinventar o real.

De volta ao trabalho, nesse estranho jet lag, tudo parece estranho e novo. Enquanto estou me inteirando de processos, documentos, e-mails e tento fazer uma lista do que é mais urgente, o pessoal da área de patrimônio passa por mim três vezes no mesmo dia: procuram um micro system desaparecido. E não deixo de voltar no tempo e pensar como era estranho ver aquelas pessoas que colocavam um rádio imenso no ombro para sair na rua dançando. Se eu já achava o batidão alto demais, como não seria para elas, que tinham as caixas de som explodindo no ouvido?

Em meio a tantas coisas sérias acontecendo no trabalho e no mundo (a repercussão nas redes sociais da morte da ex-primeira dama D. Marisa, por exemplo), minha mente se ocupou do micro system, como um caso policial. Até o fim do dia, soube que haviam encontrado num canto do almoxarifado apenas um pedaço do aparelho, mas as investigações continuariam até que o mistério fosse totalmente solucionado. Eles riscaram algo em folhas, como listas de suspeitos, e seguiram impávidos pelos corredores.

E assim, dessas desimportâncias, é tocada a vida fora das férias. Mas assim como meus colegas estão empenhados em achar o restante do micro system, hei de continuar investigando o que vale a pena dentro dessa realidade tão ordinária.

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Assunto crônica

As cartas das nossas ferrugens

Aproveito o fim das férias lá do meu emprego ordinário para realizar uma das atividades mais cansativas e prazerosas de que se tem notícia: arrumar estantes de livros e escrivaninha de trabalho. Diferente dos pequenos afazeres domésticos e das missões que cumprimos às carreiras – nesses dias consertei dois ventiladores de teto, o computador dos meninos e, parcialmente, a máquina de lavar roupas –, arrumar livros e tralhas antigas requer concentração, silêncio e tempo de sobra. Por isso é que deixo esse feito para quando posso me dedicar, de maneira que batizei o evento de GABE – Grande Arrumação Bienal do Escritório.

Enquanto mexo (uso o verbo no presente porque não terminei a tarefa; o local está lá com vários itens espalhados aguardando análise, limpeza e nova organização, sob o olhar inefável da minha mulher, que parece observar um cômodo recém-explodido por uma granada) nas caixas, o convite às inevitáveis paradas me traz várias reflexões de acordo com o que encontro. Fotografias de família, de viagens, de eventos. Alguns ali já se foram, e permanecem tanto que um tipo de trapaça neurológica provoca pequenas viagens sinestésicas, nas quais consigo ouvir o parabéns cantado, o cheiro da comida e o abraço retratado no clique de um filme daqueles de 12 poses.

Recortes de jornal falando de nossos lançamentos antigos, filipetas de projetos antigos ou propagandas que, à época, julguei erroneamente úteis, apenas se misturam com cartas de crianças de uma escola pública no Rio das Pedras que visitei há tantos anos. Ainda que tivessem escrito por orientação da professora, são agradecimentos sinceros, que me trazem a última cena de quando fui lá. Falava ao microfone no pátio, onde os responsáveis chegavam para pegar as crianças, e reforçava o recado para que elas nunca deixassem de contar histórias para os seus pais.

Fico bastante comovido ao abrir um caderno da faculdade, e descubro por que o afeto me impede de jogá-lo fora: dentro estão cartas de amigos, rabiscos de poemas, paródias de clássicos (a gente se divertia cantando o “Rap do Fernando Pessoa”). Releio as cartas e vejo que essa geração que tinha seus vinte e poucos anos no fim da década de 1990 foi de transição: os primeiros trabalhos de faculdade eram feitos nas máquinas de escrever, e os últimos já digitados em Word. Mas a prática tão comum de enviar missivas pelos correios para pessoas que víamos todos os dias, algo que pode parecer ridículo em tempos de Whatsapp, tinha um sentido que só agora floresce de verdade: permaneceram.

O fanzine que escrevia com amigos apenas revela um fato que percebo hoje nos autores que têm os seus vinte anos e é algo bastante comum: com essa idade, aspirantes entusiasmados se julgam geniais e estão prestes a revolucionar a cultura do mundo. Um resumo desse pensamento, essa Síndrome de Rimbaud, está numa carta que o Fernando Sabino escreveu para a Clarice Lispector: “Vomitar o que, se não comemos?”.

Li por esses dias o último romance do Daniel Galera, “Meia-noite e vinte”. Trata de um grupo de amigos que fazia uma revista online nessa época. Eles se reencontram décadas depois, após a morte de um deles, o único que havia seguido firme na literatura. Aqueles jovens que surfavam nas primeiras ondas da web tomaram um grande caixote da vida.

Falando em livros, meu amigo Marcelo Moutinho lança hoje seu novo livro de contos, que se chama “Ferrugem”. Em literatura, o meu camarada se expressa unicamente em dois formatos: a crônica e o conto. Ambos dialogam, se abraçam, dançam às vezes, e a primeira muitas vezes ensaia uma atemporalidade do segundo. Isso quando o conto também não olha para a janela e põe seu foco nos detalhes das coisas que apenas passam. O Marcelo sabe muito bem fazer esse jogo de mão dupla e, assim, consegue justamente capturar o tempo perdido para a maioria das pessoas. E acredito que, por conta da aceleração do efêmero, nunca se perdeu tanto tempo como nesta época em que vivemos.

Por isso não perco tempo aqui no GABE, uma faxina lenta, oriental, quase terapêutica. Estou ganhando, recuperando, recordando o que realmente importa em meio à poeira dos nossos dias.

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Churchill e o pintor

 

Tal como boa parte da população, estou de férias em janeiro. E assim como tanta gente, vejo-me encurralado entre as despesas de fim de ano e aquelas que surgem nesta época, com o agravante da temperatura carioca. Os que conseguem dormir com ar-condicionado, muitas vezes, têm pesadelos com as contas de luz, de maneira que é quase possível ouvir durante o sono, a cada dez minutos, aquele barulhinho característico do Super Mario quando pega uma moeda.

Desta feita, e considerando que pôr o pé fora de casa significa uma despesa quase sempre inevitável, recorro às soluções como o Netflix. Entre Star Treks, filmes geeks (não nerds!) e pipocões, não resisti a “The Crown”. Essas séries britânicas são inescapáveis. Não sei se é porque estamos acostumados ao sotaque norte-americano na maioria das produções e o inglês parece novidade, ou mesmo porque são de fato realizações esmeradas na qualidade. Mas é coisa de primeira mesmo.

A coroa britânica exerce fascínio no mundo inteiro. Enquanto na maior parte do mundo há uma defesa da separação clara entre religião e política – na cidade do Rio vivemos um alerta –, no Reino Unido esses dois pilares sustentam toda a estrutura do país. E como Elizabeth II está com a coroa desde 1952, esses primeiros anos rendem uma série de época excelente.

De todos os personagens da série, o seu Primeiro Ministro Winston Churchill é um dos meus preferidos. O nacionalismo conservador e a sanha por se manter no poder renderam uma grande figura. Apesar de inicialmente parecer estranho, a escalação de um autor de comédia para o papel (John Litgow) foi certeira. Mesmo porque o famoso humour inglês, do qual Churchill era um dos grandes mestres, requisitaria alguém que pudesse transitar facilmente entre o humorístico e o dramático. O primeiro contém o segundo. Ou, já disse o Millôr: entre o riso e o choro só existe o nariz.

Ao completar 80 anos, os membros do Parlamento encomendaram uma pintura do Primeiro Ministro. O artista contratado, Graham Sutherland, retratou exatamente o que via: um senhor cujo peso da idade e bagagem de vida não poderiam ser escondidos. A cena em que os dois conversam enquanto tentam entender o motivo pelo qual Churchill sempre pintava o lago de sua residência é primorosa, pois colocou em cheque as ideias de novo e velho, passado e futuro, de certas dores submersas que, por conta da estampa de força e resistência a que nos submetemos ao longo da vida, preferimos omitir. Eis a arte, para revelar essas zonas de sombra, mesmo quando não as esperamos.

Churchill esperava que seu retrato fizesse jus ao grande estadista que liderou a Inglaterra durante a Segunda Guerra, o político influente a quem o público prestava reverência, tão famoso quanto os próprios reis. Mas o que viu foi um idoso, decrépito e caturro. Ao mostrar a obra ao público durante a cerimônia, disse que se tratava de um “notável exemplo de arte moderna”, em tom irônico, arrancando risadas da plateia.

Dois anos depois, o quadro seria destruído pela sua esposa, Clementine Churchill. Ao revelar o que de fato existia ali, a obra foi velada outra vez. Que inconveniente, a arte! Para o pintor, foi um ato de vandalismo.

Tudo isso para vermos hoje, em pleno 2017, o prefeito de São Paulo apagar com um obtuso tom de cinza os grafites da avenida 23 de maio.

E João Doria, sabemos, está muito longe de ser um Winston Churchill.

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Previsões literárias comentadas para 2017 (parte 2)

Semana passada foi apresentado o início dessa série sobre as previsões literárias de 2017, que me chegaram de assalto após eu ter uma crise de ansiedade e pânico provocada pela leitura do trecho de um livro de autoajuda escrito por um educador-motivacional-influencer. Para não dizerem que sou preconceituoso com os grandes sucessos da cadeia produtiva dos livros, fui conferir a obra, que está  na lista dos mais vendidos porque a editora comprou espaço nas grandes livrarias, que por conta disso divulgam melhor o livro e vende mais, e por sua vez não sai da lista.

E descobri então que a obra foi de fato resultado de um autor que estava obrando: os barbarismos e solecismos me atingiram de tal maneira que minha mente entrou em tela azul, vislumbrando um céu onde brotavam imagens de um futuro não muito distante. Tal como um Nostradamus da Zona Oeste carioca, organizei as informações por meses, a fim de compartilhá-las (não que eu as tenha curtido) com você, leitora.

Segue então a segunda parte da minha experiência demiúrgica:

Julho – Flip recebe não só menos público, mas também menos escritores. Na linha da diversificação, foram convidados arquitetos, manicures, cobradores de ônibus, master chefs, pipoqueiros, analistas financeiros, analistas políticos, analistas de Bagé, personal trainers, internet influencers e a organização dirá: “tudo trabalha com a língua, a linguagem, viva a liberdade, literatudos!” Porque esse negócio restrito ao mundo das palavra e encadeamento de frases não tá com nada mesmo. Coisa mais antiquada, sô!

Agosto – Ator da Globo que foi para a Record se lança na literatura. “Como uma onda no mar” é um livro sobre suas aventuras e desventuras indo à praia e a boates. Na entrevista, revela que nem gosta de ler e essa parte da escrita foi feita por um jornalista que topou não levar os créditos no livro, apenas na conta corrente. Livro vai para a lista dos mais vendidos porque editora pagou pelos espaços nas grandes livrarias blá blá blá… Ah, literatudos!

Setembro – Bienal do Livro do Rio bate recorde de público com a idade média de 12,6 anos. Se a edição passada foi marcada por jovens carregando malas, agora levam carrinhos de supermercado, e acidentes são inevitáveis por conta das malditas rodinhas. Editoras desistem de vez de qualquer literatura que não seja para esse público. Pela primeira vez na história pessoas estão lendo livros mais pesados que elas próprias. E olha que tivemos as tísicas do séc. XIX…

Outubro – Nobel de Literatura é concedido mais uma vez para um não literato, mas pela primeira vez a um brasileiro: Inri Cristo. No discurso de posse é apresentada pelas inricretes uma versão parodiada do funk “Bumbum Granada”. Inri tá tipo hóstia / e as mina água benta taca/ vai, taca, taca, taca…

Novembro – Livro de qualidade indubitável vende 5 mil exemplares mesmo sem divulgação e autor é rechaçado no meio literário. Nas redes sociais, colegas com quem compartilhava seus sucessivos fracassos jogam indiretas.  Vendido para o sistema, para o deus-mercado, neocoxinha, neopetralha, neo-isentão! Se chegar a 10 mil precisará pedir asilo em outro país.

Dezembro – Saem sucessivas listas de melhores do ano, excluindo naturalmente o livro do item anterior. Todos os prêmios literários vão para autor que também foi jornalista e editor, tendo recebido várias resenhas positivas dos coleguinhas. ExTerritório de mim trata de um escritor que entra em crise e decide passar uma temporada entre Praga, Budapeste e Amsterdam, onde se tranca no quarto e chora a fim de ruminar a própria ruína, matando-se no fim. O próprio autor foi para esses países (custeado pelos pais, claro) e a hipótese de autoficção não é descartada. Não entendi ao certo se o autor se mata, mas de todo modo vou dar minha contribuição não lendo o livro. 

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Previsões literárias comentadas para 2017 (parte 1)

 

Tempvs fvdit. A leitora mal acabou de postar a lista dos melhores livros de 2016 e já está fazendo suas projeções para o ano que já está correndo. Enquanto sofria fazendo as contas para saber se pagaria o IPTU de uma vez ou em cotas – considerando que no fim opto pela última -, tive uma crise de pânico. Por engano e na pressa, tomei um laxante em vez de ansiolítico, de maneira que tive um insight (ou seria outside?) no qual consegui ver o futuro do pretérito (todo futuro não é de um pretérito, ó pá?) de tudo o que ocorrerá no nosso pequeno grande universo literário.

Na correria, organizei por meses os principais acontecimentos de 2017. E como tenho meu distanciamento analítico, teci meus próprios comentários acerca de cada item. A margem de erro é de um ou dois superegos.

Janeiro – Divulgadas as listas de livros mais vendidos em 2016. Youtubers lideram. Quando falei que iria abrir um canal minha mãe achou que tinha a ver com dentista e tive ciência da minha anacronia com o mundo.

Fevereiro – Escritora cult com carência de Vitamina D divulga oficina literária de férias, para turma com no máximo 4 alunos: “Odeio Carnaval, praia e gente burra. Só parei as (re)leituras para (re)ver ‘Teorema’, do Pasolini.” Essas turmas geralmente fecham com metade, porque lotar oficina é muito mainstream, coisa do deus-mercado.

Março – Editoras descobrem novos baús e lançam livros inéditos de Tolkien, Fernando Pessoa e Renato Russo. Este último contém um apanhado de receitas de miojo, bilhetes de geladeira e canhotos de ingressos de cinema. Fico imaginando quando aparecerem os livros psicografados, porque esses caras devem estar num tremendo constrangimento além-túmulo de tanto aquém-bom senso.

Abril – Lançadas biografias não autorizada e autorizada de famoso youtuber de 9 anos. Aposto que logo em seguida ele vai fechar o canal e dizer que precisa se reinventar.

Maio – Grande rede de livrarias descobre que literatura brasileira vende quase nada não pelo conteúdo, mas porque os clientes preferem nomes estrangeiros. Editoras estudam assinar contratos apenas com nomes esquisitos, como P. V. Cirilo. Como meu último sobrenome é Pinto (sim, por parte de pai), vou mudar para algo internacional, como H. R. Pinterest, H. Pointclick ou coisa que o valha. Numa dessas podem me confundir com o Harold Pinter, cujos livros teriam sido descobertos num baú etc.

Junho – Divulgada a lista de convidados para a Flip. Mas apenas a de nomes internacionais, pois a brasileira será montada na última hora num tipo de sistema de cotas, considerando que 70% são da mesma grande editora de sempre. Pousadas esperam público menor por conta da crise e aumentam preços para compensar. E como acontece todo ano, vem no release: “essa será a melhor edição do evento”. Tá beleza.

(Não saiam daí, pois continua semana que vem. Mentira, saiam sim, de preferência para onde tenha ar-condicionado de graça!)

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Os melhores livros que não li em 2016

 

Agora que passou o período das listas, das retrospectivas, dos balanços, dos já-vai-tardes que se acumulam no final do ano, e aquela sensação de que todas as mazelas acumuladas numa época são resultado de uma conspiração obscura refletida no calendário, é hora de respirar. Dentro de ar-condicionado, de preferência, pelo menos para os que vivem em cidades como este Rio de Janeiro, metrópole na qual se você jogar um ovo para cima ele cai já cozido, estrelado com gema dura – ou para ser mais lírico, já em forma de pintinho.

Ainda não! A leitora deve saber que este cronista está escrevendo ainda em 2016, no último dia do ano, com o peso inexpugnável dos doze meses caindo sobre cada teclada. Desta feita, a ideia de que 2017 será um carrinho de mercado cheio de possibilidades ainda me é estranha, ainda que eu saiba que, desses itens, muitos não passam no caixa. E agora, já carregando as compras, olho para o que pretendi levar mas, por vários motivos, ficaram na cestinha das devoluções.

Embora 2016 tenha sido um ano de grandes bizarrices públicas, perdas imensas e indignação geral, foi também de muito trabalho e pequenas ilhas de vitórias. O cansaço de sucessivas viagens de trabalho ou de atividades literárias – as quais, ainda que muita gente não considere, são também trabalho – tomou boa parte do tempo.

E assim listo os livros mais importantes que me interessaram pacas mas que, por motivos dos mais variados, não li:

A resistência, de Julián Fuks – esse romance arrebatou um monte de prêmios, mas já gostava dessa prosa desde o “Procura do romance”, quando gerenciei a criação dos 60 booktrailers finalistas do Portugal Telecom. Espero não resistir à leitura.

Não, de Bruna Mitrano – essa jovem poeta tem uma carga lírica (ou antilírica, dependendo da perspectiva) bem forte nos poucos textos que li de forma esparsa. Quero vê-los no conjunto, ainda.

Descobri que estava morto, de J. P. Cuenca – o mote do livro é interessante – o autor descobriu um registro do próprio óbito na delegacia – e, pelo que conheço do autor, deve usar e abusar da autoironia.

Enclausurado, de Ian McEwan – li as primeiras páginas na livraria e me interessei muito pelo narrador (um feto ainda na barriga da mãe) e pelo tom. Mas quando comprei já estava numa correria imensa e já pensava que ele seria guardado para as férias.

Meia-noite e vinte, de Daniel Galera – a prosa firme e equilibrada do Galera é garantia de coisa boa, ainda mais com a temática de balanço geracional. Naturalmente, tem a inevitável sombra do romanção anterior, Barba ensopada de sangue, mas vamos ver. Também está na lista das férias.

O sucesso, de Adriana Lisboa – a Adriana é autora de um dos melhores livros que li na vida, o Sinfonia em branco, e tudo dela é acima da média. Um dos contos desse livro (Aquele ano em Rishikesh) havia sido escrito para uma antologia que organizei inspirada nas músicas dos Beatles, mas acabou ficando fora por questões burocráticas.

O tribunal da quinta-feira, de Michel Laub – quando vi que o enredo tratava de uma mulher que descobriu os e-mails trocados entre o ex e um amigo, fiquei logo pensando se tinha referência com um episódio ocorrido na vida editorial paulista há uns anos. Mas de todo modo parece ser um livrão, que saiu quando eu já estava funcionando na luz de emergência.

Vozes de Tchernóbil, de Svetlana Aleksiévitch – O principal nome internacional da Flip me passou batido, pois mais uma vez passei todos os dias do evento correndo insanamente e resolvendo coisas, quase a ponto de chegar ao karoshi, nome dado aos japoneses que se suicidam por excesso de trabalho.

– Os 6 livros da série “The Witcher”, de Andrzej Sapkowski – meu lado geek lamenta eu não ter nem começado a ler esses romances de fantasia que geraram esse grande game – que contém mais drama que a maioria das novelas. Aliás, como as narrativas de games andam sofisticadas, felizmente. Nas férias vou ler o primeiro, prometo-me.

E que em 2017 sejam de muitas leituras! Mais do que possamos dar conta, porque, diferente daquelas camisetas com datas que ninguém usa depois, livro bom não envelhece fácil. Fica até melhor.

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Natal de fim de semana

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Ilustra: FP Rodrigues

 

O Natal passou que ninguém viu. Na semana passada, muitos correram durante a noite para as compras e os shoppings ficaram lotados com pessoas se atropelando como acontece em todos os anos. E como acontece em todos os anos alguém mais crítico parou no meio do corredor, pôs as sacolas no chão para descansar da maratona, olhou em volta e perguntou, imbuído de certo olhar analista: cadê a crise?

O Natal passou e todo mundo viu, porque me parece ser a data mais importante do ano para a maioria católica, e me parece que católica ainda é a maioria. Em termos subjetivos, só perde para o próprio aniversário, mas olhando para o mundo com um sentido de coletividade não tem concorrência.

E teve especial de Natal do Roberto Carlos se atualizando com os cantores do ano para agradar os idosos e os mais novos, a musiquinha da Leader Magazine só não deve irritar mais os funcionários da loja porque eles imaginam o quão ruim seria não ter sequer aquele emprego (meu irmão já trabalhou lá, e foi demitido sumariamente), teve um monte de Papais Noéis que conseguem trabalho emulando as temperaturas do hemisfério Norte, mas ninguém reclama dessa falta de lógica porque no fundo todo mundo sabe que o mito do Natal tem na verdade pouquíssima lógica como um todo.

Porque teve o inescapável e absurdamente figuraça Inri Cristo nos lembrando: o aniversário de Jesus é em março. A partir do ano 274, os romanos começaram a comemorar 24 de dezembro como “o dia do sol invicto”, porque era um tipo de vitória nasceu o sol depois da noite mais longa do ano. E com o tempo juntaram tudo numa festa só, e corrigir isso agora é algo que fica para as calendas gregas.

E teve um dos meus melhores amigos, irmão de vida inteira, que perdeu a mãe num acidente sem o menor sentido às vésperas do Natal, fazendo-nos questionar o sentido disso tudo – e o sentido disso tudo me foi revelado numa foto dele erguendo a filha na praia, com um céu azul imenso ao fundo.

E foi o Natal da falta de tempo num ano que se arrasta e vai arrastando tudo que encontra pela frente. As famigeradas Retrospectivas serão de lascar, por conta de tanta bagaceira que assolou tudo ao longo do ano – as pessoas, o Rio de Janeiro, o país e o mundo.

E nós aqui tocando o barco, olhando aflitos esse fim do segundo tempo e torcendo para  que não tenha prorrogação.

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Livros que me leram em 2016

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Tive um ano bem agitado como autor e leitor. Corri bastante estrada por conta do primeiro romance, o que me fez entender na prática em como esse tipo de livro tem um grande peso na balança literária. Mesmo porque no meio disso lancei um novo infantil, que me trouxe e traz muitas alegrias, mas no fim das contas o epíteto que fica para o sujeito é Fulano, autor do romance X. Mas isso é assunto para ensaios, críticas e teorias literárias, categorias que me trazem certa preguiça quando estou a escrever crônica.

Por essas e outras que prefiro fazer um balanço do ano como leitor de literatura. Todos repetimos que é preciso ter mais leitores, e parece que o fluxo de ideias está cada vez mais corrido no mundo. Estão aí as redes sociais com suas realidades instantâneas que surgem e desaparecem a cada momento, o que dificultaria o lance da leitura, atividade que, pela sua natureza, requer um ritmo mais lento. E por isso mesmo é que talvez ler literatura seja uma das grandes (re)descobertas dos novos tempos.

Sem mais delongas, segue a lista de uns livros que me disseram coisas ao longo do ano. Não sei dizer se são os melhores livros, mas são aqueles que li em contextos favoráveis para tê-los guardado. E, por isso mesmo, foram os livros que melhor leram a mim mesmo em 2016:

Céus e terra, de Franklin Carvalho – esse romance que li eletronicamente por trabalho me pescou de início. O narrador é um moleque, que é decapitado logo no início e, como um tipo de Brás Cubinhas do sertão, vai retratar os costumes da sua cidade. Logo que morre não vai procurar o paraíso, e sim o pai que nunca teve. O final é de uma beleza comovente.

Sem vista para o mar, de Carol Rodrigues – Só agora consegui ler esse livro, cujo estilo que bebe na oralidade dá uma potência tremenda aos contos. O manejo técnico na prosa curta (não sei se daria certo numa prosa longa) faz com que a narração exponha determinadas crueldades na hora certa. Lembro de ter lido de dia, com luz natural, e cada conto parecia gritar para o céu.

Os contos completos, de Alberto Mussa – O Mussa é um dos melhores contadores de histórias em atividade. E tudo o que ele publica é acima da média. Seus mergulhos na carioquice ancestral e as narrativas orientais são grandes leituras para qualquer hora.

Receita para se fazer um monstro, de Mário Rodrigues – também li primeiro no leitor eletrônico. É um livro de contos de uma crueldade imensa, porque bebe na infância de um mesmo narrador que, já adulto, seria um criminoso. O autor é um estilista, usando recursos interessantes – por exemplo, não tem vírgula no livro todo. Pode ser lido até como um romance.

Liturgia do sangue, de ReNato Bittencourt Gomes – outro livro de contos que pode ser lido como romance. E que também mergulha na violência com uma prosa exata e direta. É dos livros que deveriam aparecer mais.

Onça preta, de Lucrecia Zappi – a autora também está ligada às artes visuais, por isso não sei se ela capricha tanto nas descrições de lugares. A paisagem é tão personagem quanto a protagonista, e isso faz do livro uma viagem dupla para fora e para dentro da trama.

Tentativas de capturar o ar, de Flávio Izhaki – toda vez que digo não ter mais paciência para livros que tratem de livros, aparece um que me derruba. O romance novo do Flávio nos conduz para um interessante jogo de sombras, mas do meio para a frente vamos sentindo que há uma carga emotiva por trás.

Entropia, de Alexandre Marques Rodrigues – o esse primeiro romance é uma sinfonia complexa do autor que, acredito, melhor vem trabalhando a questão do sexo na literatura. O Alexandre é outro mestre do estilo que merece ser estudado cuidadosa e longamente pela crítica.

Poemas do povo da noite, de Pedro Tierra – O único livro de poemas da lista mostra que li menos poesia do que nos outros anos. (Será a influência do romance?) Mas do pouco que li, o livro esse tocantinense me tocou (sem trocadilho) mais. O livro foi escrito durante a ditadura, dentro de uma cela, e o verso “vivo num país de silêncio e gritos” me ficou para sempre.

O metal de que somos feitos, de Walther Moreira Santos – outro bom livro de contos que retrata a infância e a adolescência. Será tendência ou a temática me interessou por eu ter passado o ano falando do assunto, decorrente do romance? (já me assombrando?) De todo modo, imagino um papo entre o autor e o Mário Rodrigues, ambos pernambucanos e afiados.

Outros cantos, de Maria Valéria Rezende – de início fiquei espantado com a precisão com a qual são usados os adjetivos. A jornada para o sertão da protagonista coloca a ditadura numa perspectiva que ainda não tinha visto na literatura, onde quase sempre a ação acontece nos grandes centros urbanos. Um livraço.

Uma selfie com Lênin, do Fernando Molica – o tom epistolar e confessional desse romance mergulha na corrupção e na intimidade do narrador. Muito boa a alegoria da ruína, que é costurada entre o eu e o mundo.

Nihonjin, de Oscar Nakasato – li num voo esse romance, e a concentração permitiu saborear cada frase bem colocada, de forma metódica e cruel, simbolicamente representando a postura nipônica do narrador. A imigração japonesa com todas as suas dores e superações está ali.

A imensidão íntima dos carneiros, de Marcelo Maluf – no voo de volta li esse, e por isso aconteceu o mesmo: a tradição árabe de narrar uma história com toques do maravilhoso fez desse livro uma belezura que não canso de indicar aos amigos, e é com ela que encerro a lista.

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Quase-crônicas de fim de ano

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Nesta época, sou daqueles que começam a ter uma ponta de melancolia ao ouvir as musiquinhas natalinas, com destaques para aquela da Leader Magazine e a constante ameaça da Simone. Isso me faz lembrar do.

Talvez se some o fato de eu fazer aniversário próximo ao Natal, o que me faz lembrar de uma vida inteira ganhando apenas um presente, economia que os mais próximos tendem a manter até hoje, sempre com o argumento irrefreável da crise. Quando não estivemos em crise, ora bolas? Sempre fingi irritação com isso, transformando em piada, ainda mais que.

E como gira o mundo, tenho uma sobrinha pequena que também nasceu por esses dias, e agora é minha vez de ensinar à nova geração os princípios básicos da austeridade. Malu, você precisa entender que nós.

Vão chegando também os balanços de fim de ano e o volume de promessas não cumpridas, quase sempre de maior peso na nossa balança psicológica do que as realizações. Poderia listar aqui somente os originais e livros impressos de amigos e conhecidos que não tive tempo de ler – o que, aliás.

Velhinho, Gripado, Helicóptero, Caju, Missa, Caranguejo, Campari, Boca Mole, Todo Feio. Os apelidos dos políticos na lista da Odrebrecht são hilários, num tempo em que rir para não chorar parece ser a única saída para o povão, já que sair para as ruas num tipo tardio de tomada da Bastilha está fora de cogitação. Repare no.

Porque deveria haver uma campanha: Mais Brecht, menos Odebrecht. Em vez de Bastilha, temos Bangu, onde a maioria não quer ir, e as figuras que estão indo para lá e Curitiba mereciam ser.

Porque, assim como muita gente no país, comecei a contribuir para a Previdência cedo, aos 15 anos. Segundo as novas regras, preciso contribuir exatos 15 anos a mais. Não entendo de contas públicas, mas sei calcular o meu tempo, especialmente o que, por necessidade, parece tempo perdido. Isso só vai mudar quando.

Ganhei presente antecipado. Meu irmão me deu um teclado gamer, pois sabe que esse é um dos meus passatempos preferidos, ainda que não tenha tempo para nada. Digitar nele ainda é um desafio, uma vez que as letrinhas ficam mais altas, fazem barulho diferente, condindo a erros, deslizes, falhas morfológicas involuntárias que geram vocábulos bizarros e apressados. Penso que.

Daí que, nesse estranhamento (Brecht?), no teclado gamer que volto a usar máquina de escrever. Olhando esse periférico que acende, robusto para matar com mais eficácia inimigos digitais, penso em cada palavra, reflito um pouco mais mais antes de.

Claro, leitora, esta não é a primeira crônica que escrevem assim, abortando as frases e encerrando o parágrafo antes de a ideia ser concluída. Roubei essa ideia do grande.

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