Escritor de contraturno

— Cidade?

— Rio de Janeiro.

— Estado?

— Idem.

— Profissão?

— Escritor.

— Que legal, senhor. Tipo escritor de novela?

— Feliz, ou infelizmente, não. Escritor de livro, essas coisas.

— Ah, sim. Mas no caso escritor é profissão mesmo?

— Bem, para poucos é, mas é um trabalho, mesmo pagando tão pouco. Mas quase nenhum escritor gosta de dizer que é profissional. Talvez nenhum seja.

— Entendi… É que nem músico? Meu marido toca em bar, mas de dia trabalha em hospital. Vive dizendo que um dia vai viver da música. Mas sei lá.

— Sei bem como é. Mas se ele deixa o emprego não vai ter cabeça para tocar porque fica sem o feijão com arroz, certo?

— Sim, isso mesmo. Ele fez isso uma vez. Disse “vou viver da minha arte” e desistiu da ideia quando mais ninguém da família emprestava dinheiro pra pagar as contas. E ficou tudo nas minhas costas. A gente brigou e quase foi cada um pro seu lado.

— Imagino. Mas todo mundo da família pelo menos foi lá ver o show dele? Pra dar uma força…

— Ah, pra quê? Gastar dinheiro pra ver parente cantando? Se ainda fosse famoso… Mas nem isso. O pessoal até diz que ele se acha melhor que os outros porque é artista.

— Bom, mas se os mais chegados não ajudam, imagina os desconhecidos.

— Ah, moço. Cada um com seus problemas. Eu, por exemplo, não tenho paciência pra ler. Já tentei mas não consigo prestar atenção. Muita coisa na cabeça, sabe como é?

— Sim. Realmente exige concentração demais.

— O senhor está debochando de mim?

— Não, não. Jamais. É que fiquei pensando no seu marido. A gente tem coisa em comum, porque também preciso trabalhar de dia e ler e escrever só de noite e quando arrumo tempo. Sou o que chamam escritor de contraturno.

— Como é isso? Que nem na escola?

— Exatamente. O oficial, com todas as matérias importantes e que vão servir para o futuro, é o que acontece no turno de aula. As coisas do contraturno são quase sempre consideradas supérfluo. É aí que a gente entra, só no paralelo.

— Ah, sim. Meu marido diz que às vezes fica meio pra baixo porque parece que canta pras paredes. Ninguém nem olha pra ele. E pensa seriamente em desistir e trabalhar até morrer lá no hospital mesmo. Mas daí aparece um ou outro que gosta muito da voz dele, aí se anima de novo, respira e volta a cantar. Aposto que com o senhor é assim também.

— Pois é. Exatamente isso… Bem, tudo preenchido. Agora vou subir para o quarto. Amanhã vou dar palestra no evento literário. Se der aparece lá com o seu marido.

— Ok, aqui a sua chave e senha do wifi. Se der a gente vai, mas não prometo nada, tá? Muita coisa, sabe como é…

Comente

Assunto crônica

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *