A greve geral do turno da tarde

 

O novo sempre vem.
Belchior

A leitora que me perdoe o tom mais sério da crônica desta semana. Minhas preferências temáticas para este hebdotexto são, geralmente, coisas menores da vida. Em vez de analisar as consequências políticas da uma explosão de bomba em algum lugar, prefiro comentar sobre um desencontro que causou uma situação engraçada. Em vez de deliberar sobre o supostamente fácil e violento Fla-Flu que se tornou a vida política brasileira, prefiro puxar o fio de um causo bizarro numa cidade pequena. Em vez de tricotar sobre as conquistas de minorias de toda ordem apontando o dedo para a hegemonia dominadora do homem branco europeu pererê parará, opto por analisar morfologicamente um trocadilho.

Faço isso por dois motivos simples. O primeiro é que essa tsunami sobre a seriedade já pode ser encontrada em qualquer lugar, especialmente nas redes sociais, onde todo mundo, em pouco tempo, se transformou em militante visceral especialista em tudo: pelo menos virtualmente. A segunda advém da própria estratégia da crônica, que costuma puxar para o comezinho. A propósito dessa técnica, lembro aqui do parágrafo da crônica “Um pé de milho”, do grande Rubem Braga, publicada na década de 1940:

“Os americanos, através do radar, entraram em contato com a Lua, o que não deixa de ser emocionante. Mas o fato mais importante da semana aconteceu com o meu pé de milho.”

É isso. No entanto, mesmo o mais distraído dos nefelibatas é tragado de volta ao rés-do-chão pela vida ordinária. Foi o caso desta semana. Um dos lentos e longos aprendizados que a vida tem me trazido é não deixar que a indignação em relação ao mundo (sabendo que mudá-lo de maneira radical é uma ilusão adolescente) se converta em amargura ou ódio. Porque essas frustrações são, pelo que tenho observado, um tipo de gordura trans no espírito de muita gente.

Assim como alguns colegas de ofício, lanço mão de uma técnica antiga e simples – e que talvez se relacione à própria perspectiva que adotamos para escrever uma crônica: dividimos o todo em pequenas partes, para em seguida resolver, calmamente, uma a uma. Ou seja, para matar um leão por dia tenta-se trocá-lo por meia dúzia de gatos pingados. Pingados como nós somos.

Dei toda essa volta para dizer que aderi à greve geral da semana passada, junto com meus colegas de setor, pois todos não se conformam com as reformas trabalhistas em pauta, muito menos da forma como estão sendo formuladas e apresentadas à sociedade. Para quem começou a trabalhar aos 15 anos com carteira assinada, fica difícil aceitar esse modelo, mesmo porque não se trata apenas de futuro, mas também de respeito ao passado: quem vai devolver os anos de juventude dedicados à labuta forçada?

Enquanto escrevo a crônica, a notícia é que apenas a minha área, cerca de 20 profissionais de Cultura numa empresa com centenas de pessoas, aderiu. Às nossas chefias, compostas por educadores conhecidos publicamente pela atuação junto ao pensamento tradicional de esquerda, coube repassar o recado superior: greve é direito e a decisão é de cada um, mas venham de Uber se necessário. No mesmo dia, proposição similar havia sido adotada pelo prefeito de São Paulo, o engomado Jorge Dória. Mas ele já havia advertido que cortaria o ponto dos grevistas. No nosso caso, ainda não sei.

A ocasião me fez lembrar de quando organizamos uma paralisação de funcionários do McDonald’s numa sexta-feira, por volta de 1992. Como fosse época de hiperinflação, era comum deixarem dinheiro rendendo no banco de um dia para o outro, o chamado overnight, de maneira que se o pagamento dos funcionários atrasasse por algum motivo renderia mais algum para o patrão. Éramos garotos, já com o filé do nosso tempo vendido barato para a produtividade em escala sanduicheira, e ter a merreca no fim de semana nos permitiria sair após o expediente para dançar. E ter isso retirado mais uma vez com argumentos tolos (“alguém viajou e se esqueceu de assinar o papel do pagamento de novo”) já não convencia ninguém. Ainda em frente a agência daquele banco Nacional que ficava próximo à lanchonete, meu turno decidiu não ir trabalhar naquele dia. Não fomos ler Marx, nem sabíamos o que era isso. Tomamos o rumo da videolocadora, alugamos o filme “Robocop 2” (para pagar na volta, claro) e fomos para a casa de um dos então subversivos assistir. Tempos depois apelidei o episódio de “A greve do MarxDonald’s”.

Chegando no sábado, soubemos que a sexta havia sido tumultuada, pois o pequeno grupo do turno da tarde fez falta durante ao alto movimento. Estranhamente, não sofremos retaliações e o salário nunca mais atrasou.

Essa paralisação aparentemente boba foi minha primeira consciência de força da coletividade e de entendimento do mundo externo tal como ele é.  E foi um acontecimento tão simbólico que é o único fato real que inseri no meu romance “O próximo da fila”, que trata dessas descobertas, com um grupo de jovens lidando com as idas e vindas entre o pessoal e o social.

Na sexta-feira, dia 28/04, o déjà vu foi inevitável, pois a sensação de fazer o correto era a mesma, e me orgulho de ainda fazer parte da meia dúzia de gatos pingados. Meus companheiros (pela etimologia, “os que comem o mesmo pão”) estão taciturnos, mas nutrem grandes esperanças, como já disse o Drummond no seu poema “Mãos dadas”.

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Assunto crônica

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