O menino criptografado

Durante duas semanas estive entre Paris, Bruxelas e Lisboa, entre compromissos de trabalho e outros literários. Durante o período, acumulei pequenas histórias, retive breves acontecimentos, guardei na cuca interessantes motes que me rendessem crônicas para as semanas que viriam. Porque a maior angústia do cronista semanal é se ver diante do prazo de entrega do texto e não ter encontrado ainda na vida ordinária nada que valesse a pena puxar como assunto.

Só que não, como diz a molecada. Nenhum fato ou notícia atiçou mais o imaginário das pessoas nesta semana do que o jovem acreano que desapareceu após deixar 14 livros escritos criptografados, temperado com uma sequência de acontecimentos mirabolantes. As teorias literárias pululam.

Enquanto escrevo, neste sábado chuvoso com clima de mistério, o caso ainda traz inquietações e não foi solucionado. Não sei se até a publicação haverá updates, mas o sumiço ainda levanta todo tipo de teoria. O garoto se chama Bruno Borges, estudante de psicologia de 22 anos, filho da psicóloga Denise Borges e do empresário Athos Borges. Tem um irmão gêmeo chamado Rodrigo e uma irmã, Gabriela.

Ora, só com o sobrenome Borges já nos colocamos numa instância labiríntica de fatos, ainda mais depois de olhar as fotos dos caracteres escritos nas paredes e chão do cômodo. Durante mais de um ano, o quarto permaneceu trancado, inacessível a quaisquer outros membros da família, o que nos faz imaginar que o próprio Bruno o limpava, e isso já o torna digno de admiração por conta do relaxamento tão comum na faixa etária.

Não quero entrar aqui nos memes surgidos pelo caso, inclusive aqueles que trollam o Acre, estado que já visitei há uns anos e que possuía casas de leitura interessantíssimas, tocadas pelo guru Francisco Gregório Filho. Mas uma delas diz que a Legião Urbana previu: “estátuas e cofres / e paredes pintadas / ninguém sabe o que aconteceu”.

Acredita-se que o jovem seja a reencarnação do filósofo italiano Giordano Bruno, que foi queimado pela Igreja em 1600 por acreditar que havia outros planetas no universo, e que o universo não gira em torno do nosso umbigo – essa ideia voltou com força segundo muitos ególatras publicam no Facebook. No quarto de Bruno, havia uma estátua do filósofo, feita por um artista chamado Jorge Rivasplata, de 83 anos. Jorge, que nem o Borges?

Uma pausa. Há que se concordar, de fato, que os nomes dos envolvidos parecem típicos dos best-sellers de Dan Brown. O nome do pai, Athos, é conhecido por ter sido o mais velho dentre os protagonistas de ‘Os três mosqueteiros”, de Alexandre Dumas (pai). Consta, aliás, que Dumas havia se inspirado numa pessoa que de fato existiu. A irmã, Gabriela, vem do nosso Jorge Amado. O irmão gêmeo Rodrigo (não quero levantar a hipótese simples de que o irmão é que desapareceu Bruno tomou o lugar dele) vem do Érico Veríssimo. Só o nome da mãe (Denise) não é uma personagem conhecida – mas deve ter sido para tentar disfarçar.

Uma nova teoria da internet sugere que as criptografias teriam se baseado no Manual do Escoteiro Mirim, publicação da Disney muito famosa na década de 1970. Esse livro, divertido e com muitas atividades sugeridas ao ar livre, marcou uma geração. Com a notícia é capaz de muitos se interessarem em apresentá-lo às novas gerações. E isso também pode ser positivo, fazendo com que a garotada deixe, pelo menos um pouco, os youtubers.

Enquanto muitos já associam o sumiço a abduções por extraterrestres, a polícia acredita que Bruno tenha apenas dado um tempo disso tudo. A verdade é que sabemos apenas desse volume de informações fantásticas em torno do caso. Mas sabe-se lá da solidão, da angústia, da ansiedade, enfim, da encheção de saco pela qual esse menino passa na vida e que o motivaram a isso tudo. Essas criptografias são únicas e cada um é que pode, do seu jeito, tentar decifrar.

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Assunto crônica

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