As cartas das nossas ferrugens

Aproveito o fim das férias lá do meu emprego ordinário para realizar uma das atividades mais cansativas e prazerosas de que se tem notícia: arrumar estantes de livros e escrivaninha de trabalho. Diferente dos pequenos afazeres domésticos e das missões que cumprimos às carreiras – nesses dias consertei dois ventiladores de teto, o computador dos meninos e, parcialmente, a máquina de lavar roupas –, arrumar livros e tralhas antigas requer concentração, silêncio e tempo de sobra. Por isso é que deixo esse feito para quando posso me dedicar, de maneira que batizei o evento de GABE – Grande Arrumação Bienal do Escritório.

Enquanto mexo (uso o verbo no presente porque não terminei a tarefa; o local está lá com vários itens espalhados aguardando análise, limpeza e nova organização, sob o olhar inefável da minha mulher, que parece observar um cômodo recém-explodido por uma granada) nas caixas, o convite às inevitáveis paradas me traz várias reflexões de acordo com o que encontro. Fotografias de família, de viagens, de eventos. Alguns ali já se foram, e permanecem tanto que um tipo de trapaça neurológica provoca pequenas viagens sinestésicas, nas quais consigo ouvir o parabéns cantado, o cheiro da comida e o abraço retratado no clique de um filme daqueles de 12 poses.

Recortes de jornal falando de nossos lançamentos antigos, filipetas de projetos antigos ou propagandas que, à época, julguei erroneamente úteis, apenas se misturam com cartas de crianças de uma escola pública no Rio das Pedras que visitei há tantos anos. Ainda que tivessem escrito por orientação da professora, são agradecimentos sinceros, que me trazem a última cena de quando fui lá. Falava ao microfone no pátio, onde os responsáveis chegavam para pegar as crianças, e reforçava o recado para que elas nunca deixassem de contar histórias para os seus pais.

Fico bastante comovido ao abrir um caderno da faculdade, e descubro por que o afeto me impede de jogá-lo fora: dentro estão cartas de amigos, rabiscos de poemas, paródias de clássicos (a gente se divertia cantando o “Rap do Fernando Pessoa”). Releio as cartas e vejo que essa geração que tinha seus vinte e poucos anos no fim da década de 1990 foi de transição: os primeiros trabalhos de faculdade eram feitos nas máquinas de escrever, e os últimos já digitados em Word. Mas a prática tão comum de enviar missivas pelos correios para pessoas que víamos todos os dias, algo que pode parecer ridículo em tempos de Whatsapp, tinha um sentido que só agora floresce de verdade: permaneceram.

O fanzine que escrevia com amigos apenas revela um fato que percebo hoje nos autores que têm os seus vinte anos e é algo bastante comum: com essa idade, aspirantes entusiasmados se julgam geniais e estão prestes a revolucionar a cultura do mundo. Um resumo desse pensamento, essa Síndrome de Rimbaud, está numa carta que o Fernando Sabino escreveu para a Clarice Lispector: “Vomitar o que, se não comemos?”.

Li por esses dias o último romance do Daniel Galera, “Meia-noite e vinte”. Trata de um grupo de amigos que fazia uma revista online nessa época. Eles se reencontram décadas depois, após a morte de um deles, o único que havia seguido firme na literatura. Aqueles jovens que surfavam nas primeiras ondas da web tomaram um grande caixote da vida.

Falando em livros, meu amigo Marcelo Moutinho lança hoje seu novo livro de contos, que se chama “Ferrugem”. Em literatura, o meu camarada se expressa unicamente em dois formatos: a crônica e o conto. Ambos dialogam, se abraçam, dançam às vezes, e a primeira muitas vezes ensaia uma atemporalidade do segundo. Isso quando o conto também não olha para a janela e põe seu foco nos detalhes das coisas que apenas passam. O Marcelo sabe muito bem fazer esse jogo de mão dupla e, assim, consegue justamente capturar o tempo perdido para a maioria das pessoas. E acredito que, por conta da aceleração do efêmero, nunca se perdeu tanto tempo como nesta época em que vivemos.

Por isso não perco tempo aqui no GABE, uma faxina lenta, oriental, quase terapêutica. Estou ganhando, recuperando, recordando o que realmente importa em meio à poeira dos nossos dias.

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