Previsões literárias comentadas para 2017 (parte 2)

Semana passada foi apresentado o início dessa série sobre as previsões literárias de 2017, que me chegaram de assalto após eu ter uma crise de ansiedade e pânico provocada pela leitura do trecho de um livro de autoajuda escrito por um educador-motivacional-influencer. Para não dizerem que sou preconceituoso com os grandes sucessos da cadeia produtiva dos livros, fui conferir a obra, que está  na lista dos mais vendidos porque a editora comprou espaço nas grandes livrarias, que por conta disso divulgam melhor o livro e vende mais, e por sua vez não sai da lista.

E descobri então que a obra foi de fato resultado de um autor que estava obrando: os barbarismos e solecismos me atingiram de tal maneira que minha mente entrou em tela azul, vislumbrando um céu onde brotavam imagens de um futuro não muito distante. Tal como um Nostradamus da Zona Oeste carioca, organizei as informações por meses, a fim de compartilhá-las (não que eu as tenha curtido) com você, leitora.

Segue então a segunda parte da minha experiência demiúrgica:

Julho – Flip recebe não só menos público, mas também menos escritores. Na linha da diversificação, foram convidados arquitetos, manicures, cobradores de ônibus, master chefs, pipoqueiros, analistas financeiros, analistas políticos, analistas de Bagé, personal trainers, internet influencers e a organização dirá: “tudo trabalha com a língua, a linguagem, viva a liberdade, literatudos!” Porque esse negócio restrito ao mundo das palavra e encadeamento de frases não tá com nada mesmo. Coisa mais antiquada, sô!

Agosto – Ator da Globo que foi para a Record se lança na literatura. “Como uma onda no mar” é um livro sobre suas aventuras e desventuras indo à praia e a boates. Na entrevista, revela que nem gosta de ler e essa parte da escrita foi feita por um jornalista que topou não levar os créditos no livro, apenas na conta corrente. Livro vai para a lista dos mais vendidos porque editora pagou pelos espaços nas grandes livrarias blá blá blá… Ah, literatudos!

Setembro – Bienal do Livro do Rio bate recorde de público com a idade média de 12,6 anos. Se a edição passada foi marcada por jovens carregando malas, agora levam carrinhos de supermercado, e acidentes são inevitáveis por conta das malditas rodinhas. Editoras desistem de vez de qualquer literatura que não seja para esse público. Pela primeira vez na história pessoas estão lendo livros mais pesados que elas próprias. E olha que tivemos as tísicas do séc. XIX…

Outubro – Nobel de Literatura é concedido mais uma vez para um não literato, mas pela primeira vez a um brasileiro: Inri Cristo. No discurso de posse é apresentada pelas inricretes uma versão parodiada do funk “Bumbum Granada”. Inri tá tipo hóstia / e as mina água benta taca/ vai, taca, taca, taca…

Novembro – Livro de qualidade indubitável vende 5 mil exemplares mesmo sem divulgação e autor é rechaçado no meio literário. Nas redes sociais, colegas com quem compartilhava seus sucessivos fracassos jogam indiretas.  Vendido para o sistema, para o deus-mercado, neocoxinha, neopetralha, neo-isentão! Se chegar a 10 mil precisará pedir asilo em outro país.

Dezembro – Saem sucessivas listas de melhores do ano, excluindo naturalmente o livro do item anterior. Todos os prêmios literários vão para autor que também foi jornalista e editor, tendo recebido várias resenhas positivas dos coleguinhas. ExTerritório de mim trata de um escritor que entra em crise e decide passar uma temporada entre Praga, Budapeste e Amsterdam, onde se tranca no quarto e chora a fim de ruminar a própria ruína, matando-se no fim. O próprio autor foi para esses países (custeado pelos pais, claro) e a hipótese de autoficção não é descartada. Não entendi ao certo se o autor se mata, mas de todo modo vou dar minha contribuição não lendo o livro. 

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Assunto crônica

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