Gullar, meu professor de poesia

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Depois de uma semana fora para atividades literárias e de trabalho entre São Paulo e Mato Grosso do Sul, começava esta crônica sobre os muitos assuntos que me perpassaram ao logo desses dias, inclusive o último, decorrente do acúmulo, que é o cansaço físico e mental resultante dessa maratona. Organizava a sequência de ideias em parágrafos temáticos, na ordem cronológica inversa, mas sem hierarquia entre elas para depois mexer à vontade, porque a crônica não é relatório de empresa – já bastam os que me esperam no mundo corporativo ordinário –, e sim uma praça para descanso, com direito a parquinho que permita às palavras brincarem na gangorra.

Mas eis que minha mulher entra no escritório e me diz algo que tornou menos relevantes todos esses acontecimentos: “Morreu o Ferreira Gullar!”

Não que desconfie dela. Pelo contrário: é hoje minha fonte mais segura. Mas quase que instintivamente conferi no site do jornal. Não sabia que ele estivera internado, e nem sei se isso era fato divulgado. Fiquei alheio nesses dias, acompanhando, literalmente de passagem, o fatídico acidente com o time de Chapecó, a mudança bizarra na lei contra a corrupção e, falando no assunto, o Renan Calheiros tornado réu, ainda que presidente do Senado. A noite é veloz.

Quando esta crônica chegar à leitura, creio que já terão sido publicadas vários obituários, perfis, análises, matérias, especiais etc. Prefiro lembrar das ocasiões em que estive com ele e seus livros.

Quando estava na faculdade, conhecia poemas isolados do Gullar, como o “Dois e dois: quatro”, que tem aquele quarteto inescapável “Como dois e dois são quatro / sei que a vida vale a pena / embora no pão seja caro / e a liberdade pequena”. Esse poema é formado pelas populares redondilhas maiores, e acredito que esse tempo de cada verso tenha contribuído para que ele se tornasse tão conhecido, pois é a forma/fôrma mais fácil de se decorar – e me lembro de uma entrevista em que o Gullar disse ter sido abordado na rua por um homem que falou o poema inteiro. O poema segue com dísticos trabalhando o elemento da repetição, nas rimas, tendo no centro, entre as ideias mais líricas, aquele lembrando os anos de chumbo em que foram escritos: “como um tempo de alegria / por trás do terror me acena”.

Tenho um amigo poeta dessa época da faculdade, Célio Diniz, que é também artista plástico, e sempre nos reuníamos na casa dele em Pedra de Guaratiba. Discutíamos muito sobre esses assuntos, com aquela pretensão de genialidade típica de alunos de graduação, e me lembro de ter lido o “Breviário de Estética”, do Croce, e o “Argumentação contra a morte da arte”, do Gullar, apenas para poder debater com o meu camarada, que sabia – e ainda sabe – muito mais do que eu. Tempos depois, quando comecei a assistir ao Gullar falando sobre arte, achei-o um tanto radical demais, e voltei ao poeta.

Anos depois, tive a felicidade de tê-lo como professor em oficina literária, no ótimo programa Escritor Visitante que a universidade mantinha, permitindo que os alunos pudessem acessar os ensinamentos de grandes autores (eu já havia feito com o Sérgio Sant’Anna e o Antônio Torres, e queria fechar a tríade conto, romance e poesia). Por conta da necessidade de sair cedo para trabalhar na videolocadora, não fiz todas as aulas dele. Mas me lembro de uma em que ele se dedicou a trabalhar meu poema. Fez apontamentos técnicos excelentes, e o soneto acabaria entrando no meu primeiro livro, em 2006.

Tempos depois, quando trabalhava na PUC-Rio, ajudei na organização de um evento que o receberia (havia lançado o ótimo “Em alguma parte alguma”). Quem lida com literatura e vive no Rio de Janeiro certamente já assistiu o Gullar palestrando. Entre os causos de sempre que falou uma frase daquelas na longa birra com os paulistas: “a Poesia Concreta deveria se chamar Poesia Abstrata”. Conversando com ele depois, perguntei se aquela coisa com os irmãos Campos era um tipo de mágoa recíproca e eterna. Ele bateu o meu ombro e respondeu, rindo: “é tudo bobagem de uns velhos”.

Ferreira Gullar fará falta entre os vivos. Tenho uma estranha sensação de que esses grandes nomes da literatura – assim como na educação – que marcaram o século XX não estão sendo substituídos, talvez porque a sociedade não julgue essas áreas tão relevantes para fazer relevantes os indivíduos que atuam nelas. Mas isso é assunto para outra crônica.

Por hora fico agradecido pelo convívio com ele. E já que falei de Pedra de Guaratiba, cito os versos finais do poema “Uma pedra é uma pedra”: “ e assim / o homem tenta / livrar-se do fim / que o atormenta // e se inventa”.

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