Histórias da FLUPP

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Ilustra: FP Rodrigues

Na última semana, estive pela Festa Literária das Periferias – Flupp. O evento aconteceu aqui na Cidade de Deus, perto da minha casa. A Zona Oeste carioca não recebe tantos investimentos culturais – não pega o capital concentrado na Zona Sul nem tem a mística suburbana na Zona Norte –, daí foi um privilégio esse tipo de acontecimento nestas plagas.

Neste ano, a Flupp recebeu o prêmio de melhor festival literário do mundo, batendo a própria Flip que lhe dera a inspiração para o nome e o conceito inicial de colocar o escritor em evidência. Se um lado a Flip modificou profundamente os formatos de eventos literários no país inteiro, sendo matriz para dezenas de projetos com as iniciais F e L, a Flupp foi a que mais conseguiu dar um salto de ousadia. Isso porque a literatura, seja na produção como no seu consumo, está historicamente associada a um tipo de público mais iniciado, que se concentra nas localidades acessíveis aos ricos (não aos maiores ricos que, em geral, são estúpidos e não leem nada). Então a turma decidiu fazer a festa literária justamente dentro das comunidades, inicialmente associadas às Unidades de Polícia Pacificadoras. Pelo que a leitora deve acompanhar pelo noticiário, as UPPs não deram certo, mas a Flupp sim.

Participei da primeira edição do evento, em 2012, no Morro dos Prazeres, comunidade carioca colada ao bairro de Santa Teresa. O homenageado, convém lembrar, era o escritor carioca Lima Barreto. Segundo acaba de ser divulgado, será o homenageado da Flip em 2017.

Uma vez que frequento projetos literários de todos os portes, fico sempre preparado para encarar qualquer tipo e volume de público. Chovia naquele sábado e tive uma grande surpresa ao me deparar não só com uma estrutura imensa para os padrões cariocas, como também ao ver que o espaço estava lotado. Era dentro da Flupp Parque, braço do evento mais voltado para o público juvenil, mas havia famílias inteiras lá, e tivemos uma tarde maravilhosa. Aqueles moradores não precisariam mais ir aos lugares chiques para tentar entrar nos eventos culturais onde, tradicionalmente, não se sentiriam bem-vindos. Agora havia um festival literário de primeira feito para eles.

Desde então, em todo evento de que participo, seja como autor ou do lado de dentro do balcão, penso sempre na metodologia e visão da Flupp. Reclamamos sempre da falta de leitores, de consumidores de bens culturais que não sejam aqueles mais populescos. Mas numa olhada rápida, por exemplo, nos projetos aprovados pelas leis de incentivo, como a Rouanet ou a de ISS, para vermos que os proponentes são, em sua maioria, as elites de sempre. E para justificar o uso de dinheiro público inserem umas cotas de distribuição de ingressos ou livros ou quaisquer produtos para escolas públicas ou “crianças carentes” que nunca irão conhecer. A Flupp faz exatamente o inverso: a periferia é o centro da coisa.

Neste ano, me escalaram para entrevistar jovens que participaram de um game de perguntas e respostas para celular envolvendo o autor homenageado, Caio Fernando Abreu, além de questões sobre literatura carioca de periferia. Novamente fiquei surpreso, pois descobri serem alunos da escola pública onde estudei no Ensino Médio (quando ainda era Segundo Grau, ó tempus fugit).

Diferente da minha época (que dor nas costas!), esses alunos têm mais contato com os livros, ainda que se orgulhando de ler mais autores estrangeiros do que nacionais. A ideia de leitura não é mais associada a coisa de nerd ou de alguém deslocado. Lembro-me de uma vez em que, como não queria jogar futebol ou qualquer outra coisa no tempo vago, fui para a biblioteca e me aplicaram um belo bullying (o termo não existia, mas a prática sim) porque estava lendo “Eram os deuses astronautas?”, do Erick non Däniken. Tempos depois descobri que de fato as teorias desse autor são uma grande picaretagem, mas duvido que foi por causa disso que os colegas me trollavam.

De todo modo, já marquei de visitar a minha escola e conversar com os jovens alunos sobre leituras. Só um projeto como a Flupp, aqui nas periferias cariocas, permite que a gente (re)encontre e dialogue com quem somos em essência.

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Assunto crônica

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