Leituras de Parnaíba

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Semana passada estive em Parnaíba, onde fica um pedaço do já pequeno litoral piauiense. Trabalhei num centro cultural, protegido pela comodidade do ar-condicionado, mas o que gostei mesmo foi de sair, no almoço e depois do expediente, para olhar as ruas, praças e interagir com a gente de lá. Nessas viagens, o paradidático é tão importante quanto o didático.

Não foi minha primeira vez na cidade. Estive lá no ano passado, mas foi mais corrido e fiquei feliz de poder voltar para acompanhar os frutos que havíamos plantado. Também já estive noutro canto do estado, Valença, para participar de um evento literário há uns anos. Aliás, parece que nas cidades menores esses acontecimentos em torno do livro se tornam relativamente maiores, pois a população aparece em peso. Nas capitais, talvez pela correria e oferta desses serviços, o público é muitas vezes bem escasso.

Mas voltemos a Parnaíba. Diferente do calor absurdamente inumano de Teresina, essa pequena cidade do Delta recebe um constante vento litorâneo que diminui a sensação térmica, tornando agradável e possível uma suave flânerie.

(Em tempo: durante a mesma semana o escritor Carlos Henrique Schroeder chegava para ministrar uma oficina literária em Teresina. Eu o havia advertido sobre o calor intenso, pois se trata de um sujeito brancão de quase dois metros e careca. A surpresa foi ter caído um temporal com direito a granizo naquela capital, algo raríssimo. E o último romance dele se chama “História da chuva”. Coisas que só a literatura faz.)

Andando nas ruas parnaibanas descobre-se que o povo da cidade tem um orgulho tremendo das suas histórias, da sua urbanidade mais tranquila, do seu sotaque. Isso eu descobri porque zombaram do meu (pois quem tem sotaque é sempre o outro) ao dizerem que não tenho o sotaque típico carioca. Acho que a referência é o modo de falar praiano-zona-sul das telenovelas. Eu já adoro o uso e abuso que os nordestinos fazem da segunda pessoa. É bom demais, como dizem.

Bom demais mesmo é comer uma corda de caranguejo na beira do rio. O chamado caranguejo toc-toc leva o nome porque vem com um martelinho e uma pedra para quebrar o bicho e escarafunchar os pedaços em busca da carne deliciosa, acompanhado de baião de dois, farofa e molho. Após uma hora comendo as cordas (medida para quatro unidades), o caranguejo toc-toc é um prato que deixa o cliente todo respingado de caldo, com a boca e língua feridas, prostrado como se tivesse acabado de sair de uma batalha. Diz-se que o caranguejo é um alimento pouco calórico, mas acredito que isso se dê porque, depois dessa luta toda, o volume de carne que se retira de cada um é bem pequeno.

Apesar de cidade pequena, existe uma cena cultural bem efervescente em Parnaíba. Muita poesia e prosa sendo lida, escrita e discutida. A maioria dos brasileiros desconhece a vida cultural fora dos grandes centros urbanos, mas isso é assunto para outra crônica. Ou melhor, para outro tipo de texto. (Mas fico me perguntado quantos leitores da intelectualizada revista Piauí já foram àquele estado ou mesmo procuram conhecer a vida intelectual de lá.)

Porque em Parnaíba, em vez de nos afastar do nosso caminho, parece que o vento vai o tempo todo nos conduzindo para frente.

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Assunto crônica

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