Fiz um trocadilho e me lembrei de você

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Nas três últimas semanas, fiz aqui uma sequência de crônicas a respeito da importância do humor em geral e dos trocadilhos para a vida em sociedade. É, de fato, um assunto sério. Ou, pelo menos, que se coloca como oposto ao sério, e talvez daí se torne relevante. Essa volta ao pensamento teórico e prático do trocadilho me fez revisitar o assunto. E por isso quero dedicar esta crônica aos que não resistem em trocadilhar.

Não adianta tentar mudar os fatos. Quem faz trocadilhos possui um tipo de compulsão que se torna uma característica indelével. Naturalmente, não devemos tratar todos os trocadilhistas como indivíduos que sofrem de um transtorno. Existe uma patologia chamada de witzelsucht, causada por um problema neurológico, em que a pessoa não consegue parar de falar piadas ruins durante um tempão. Mas isso é exceção, não a regra. Os adeptos do trocadilho são em geral pessoas sociáveis, trazem alegria para as conversas e rejuvenescem os grupos de que fazem parte. São moderados e não atiram pra matar.

De vez em quando reencontro pessoas de empregos antigos, faculdade ou vida literária. E em dado momento da conversa alguém sempre diz “ah, Henrique, nesses dias fiz um trocadilho e me lembrei de você”. Há um tempo eu achava isso esquisito: pô, a gente estuda e trabalha pacas, escreve livros e a maior referência que deixamos para trás entre os nossos camaradas são os trocadilhos? Será esse o legado maldito de quem apenas é adepto do calembur suave, só porque não hesita em juntar lé com cré?

Pensando bem acho que já seria sim uma boa. Veja só. Deveria haver grupos de autoajuda para pessoas que falam piadas, deixam a seriedade pra lá e mergulham na prática de falar todo tipo de bobagem sobre quaisquer assuntos, sem superego ou gueriguéri. Pensando bem, esse lugar já existe e se chama bar. Então se as pessoas se lembram de nós por conta dos trocadilhos, tá de muito bom tamanho.

Porque seria estranho mesmo se dissessem “fiz uma planilha de custos e me lembrei de você”.

“Fiz um power point e me lembrei de você. Fritei um ovo e me lembrei de você. Ofendi Fulano e me lembrei de você.”

Daí que se torne relevante a presença e função social de pelo menos um trocadilhista em cada. A realidade tem sido chapada e denotativa demais, inflexível demais. Então você aí, quando fizer um daqueles bem infames, e do seu lado soltarem um daqueles “não, não acredito que você disse isso”, não esmoreça. Mantenha-se firme na sua capacidade de troça e siga em frente, pois essa é, na verdade, uma crítica positiva, porque o trocadilho, cachaça que é, precisa descer queimando.

PS: Minha intenção como romancista não era de produzir essa frase, mas é legal quando me dizem com olhar sacana “Não li seu livro ainda, mas ele é o próximo da fila” Ba dum tss.

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Assunto crônica

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