Ba dum tss – Defesa do trocadilho (parte 3)

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(ilustra FP Rodrigues)

Previously…

Nas duas últimas semanas, tratei aqui nestas crônicas da necessidade e importância (ou desimportância) do humor na vida cotidiana, bem como a prática dos trocadilhos como potenciais pílulas de transgressão ao costume e a ideias sedimentadas. Confesso à leitora que, ao puxar um assunto que me é tão importante, uma vez que me dediquei a ele em pesquisas durante tantos anos, tive certo receio de escorregar para o acadêmico chato, o rebarbativo do argumento, o adiposo das ideias. O Vida Breve não é pra isso.

Aliás, para quem não sabe, o título deste site de crônicas não é inspirado na música do Cazuza, pelo menos primeiramente. A referência é um aforismo atribuído ao médico e arquiteto grego Hipócrates, mas que nos chegou via latim: vita brevis, ars longa. A vida é breve, a arte é longa. E a crônica é, sem pretensão, como quem não quer nada, um lance voltado para a primeira parte. E não por acaso a crônica, sendo também um texto breve, é um espaço muito adequado para o riso, que é também, pela sua natureza, rápido e rasteiro.

O tempo, matéria de chrónos, é também o material do trocadilho, do humor em geral. O pensamento ágil, comprimido, que dá saltos abruptos de sentido e de entendimento da realidade, otiming, são típicos do humor.

Por isso é que, a meu ver, é possível defender até uma poética do trocadilho. Sei que a leitora, assim como muitas pessoas, tem a reação inicial de torcer o nariz diante de uma piada involuntária e inesperada, especialmente se ela surge no meio de um contexto “sério” – e coloquem aspas nesse termo. “Oh, não, lá vem o mané dos trocadilhos de novo”, reagem rapidamente com a mão sobre o fígado. Mal sabem que essa forma de resposta indica o sucesso de uma zombaria, que o recado foi dado, porque internamente houve, em meio àquela situação cheia de ideias denotativas e rígidas, um deslocamento morfológico, sintático ou, melhor ainda, semântico. A reação ao se ouvir um trocadilho é uma pequena vitória do humor sobre a ditadura da seriedade.

Há uns tempos decidi fazer alguns experimentos no dia a dia. A primeira foi publicar um livro para crianças só com trocadilhos. Nasceu o “Alho por alho, dente por dente”, escrito com o camarada André Moura. Trabalhávamos juntos na universidade e, entre os e-mails ordinários, trocávamos poemas com piadas rimadas, como essa do título. Quando visito escolas onde o livro é trabalhado, comprovo uma tese: as crianças adoram trocadilhos (assim como gostam de poesia) e os adultos, com algum constrangimento, tentam esconder que também curtem. Então parti para observar mais acuradamente a reação dos adultos diante do fenômeno.

Recentemente, criei uma fan page chamada Trocadilhos de Quinta. Isso porque notei que, em conversas de Facebook com meu amigo Leo Cunha, que também escreve livros infantis e também não resiste a uma transgressão pelo riso, iniciávamos um tipo de peleja. Todas as quintas postamos uma foto ou notícia geradora de duplos, triplos ou quádruplos sentidos, abrindo os comentários para que os leitores façam seus trocadilhos, que muitas vezes passam dos cem num mesmo dia. Acredito que haja uma demanda reprimida pelo riso entre todos os adultos, talvez uma pequena revolta contra a estupidez do mundo.

Lembro de uma citação do filósofo francês Henri Bergson, que escreveu “O riso”, um dos principais livros sobre o assunto: numa sociedade só de inteligências puras talvez não houvesse pessoas chorando, mas talvez rindo. Acredito que, quem oprime o riso, situando-o num lugar inferior, na verdade está se borrando de medo de ver a sua estrutura ruir com a fragilidade de um castelo de areia.

Para pagar o feijão com arroz, trabalho numa empresa grande, bato ponto em horário comercial, lido com papéis a todo tipo de seriedade, ainda que meu setor específico seja relacionado a ações culturais. Assim como os demais colegas, tento manter algum equilíbrio entre lidar com a densa estrutura administrativa que nos sustenta e o conteúdo transgressor e, muitas vezes, corrosivo dos projetos. Por esses dias, numa reunião que estava pesada demais, mencionaram uma pessoa de outro setor, cujo sobrenome, Singer, me fez perguntar se ela costurava propostas da instituição, ou se havia cantado a pedra para determinado fato. Já conhecia a pessoa em questão, muito simpática, aliás, mas não resisti em fazer o comentário jocoso. Após algumas risadas, voltamos para a reunião, um tanto mais leves.

E assim encerro essa sequência de crônicas sobre a importância do trocadilho na nossa sociedade. O humor é uma arma que não atira para matar, mas corrói pelas bordas. Ao permitir que as cucas se tornem mais flexíveis para as ideias e coisas, pode ainda ter um grande papel nesses tempos tão estranhos, como teve em tantos momentos ao longo da história.

Vita brevis, humor aeternum.

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Assunto crônica

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