Retratos 3X4 da leitura no Brasil

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Acordo num sábado preguiçoso e constato que estamos sem internet. Não há previsão para retorno, o que deixa o meu caçula frustrado porque desejava muito jogar Counter Strike no meu computador enquanto eu ficaria lendo na varanda, como sempre faço aos sábados. Em vez de jogar, fui ler com ele um livro infantil de um amigo. Alternamos as estrofes rimadas, ele ficou feliz, fui ler na varanda e depois vi que o moleque estava no meu computador. É possível jogar contra bots, mesmo sem internet. “Amanhã vamos ler aquele seu livro inclinado?”, ele pergunta enquanto detona os bots com head-shots.

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Um primo mais novo, que nunca vi com livro algum, posta no Facebook várias fotos da capa de “Cinquenta tons de cinza”, acompanhadas de uns trechos mais picantes. Acho engraçado, cogito se não é a mulher dele quem está lendo e postando, mas não curto nem compartilho. Não quero saber o motivo, por fim imagino se não é o primeiro livro que ele lê fora da escola e qual foi o trajeto até um encontrar o outro.

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Uma senhora, acompanhada de uma jovem, toca a campainha de casa e me oferece a revista “A Sentinela – anunciando o Reino de Jeová”. Diz que é uma campanha especial do mês para o assunto da edição: “Quem pode nos dar verdadeiro consolo?”. Sinto-me com uma pitada de culpa pelo quase inevitável duplo sentido que atribuo ao termo, o mesmo que tive ao reler outro dia o belo poema “Consolo na praia”, do Drummond. Olho para a rua e vejo que há outras duplas atendendo nas casas vizinhas, num pequeno mutirão. A senhora abre as páginas da revista e me explica que todos os textos são fundamentados na Bíblia, com as devidas indicações. Lembro-me de uma frase que acho ser do Millôr, como todas as boas frases devem ser: “Se Jeová fosse isso tudo não precisava de testemunha”. Diferente de outros que nos batem à porta, a senhora não pede nada e se despede. Antes de ir, dou um beijo na sua mão.

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Uma amiga escritora comenta nas redes sociais uma notícia da Superinteressante, na qual são listados os livros mais vendidos no Brasil e Estados Unidos nos últimos anos. Aponta para o fato de que, dos anos 1990 para cá, nenhum livro de literatura brasileira figura na lista. Nos comentários, várias teses surgem para esse fato, inclusive algumas minhas. Volto uma semana no tempo, quando falava na Bienal sobre prêmios literários (os grandes prêmios, ui, ui) e seu (difícil) papel para formar leitores. Éramos interrompidos a todo tempo pelos gritos de jovens no evento do espaço ao lado. Gritavam feliz e histericamente porque estava lá um youtuber famoso, que estava lá para lançar um livro. “Nossa função deveria ser o de construir uma ponte entre esses dois mundos”, falei, meio sem eco porque talvez haja um oceano no meio.

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Meu moleque mais velho lê o meu exemplar de “O Hobbit”, que agora é nosso desde que ele conserve. Enquanto almoçamos os hambúrgueres que fritei na pressa, comenta que o Gollum não é um cara ruim, coitado. No jogo da leitura, ele parece fingir que não viu os filmes, esperando que as próximas páginas tragam surpresas.

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Jogo sinuca com dois camaradas que também atuam atrás do balcão da literatura, cada um num segmento diferente. Falamos, com a sinceridade única que apenas um ambiente de bar permite, de todos os assuntos intra, inter e extraliterários. Não jogo sinuca direito mas, depois de umas e outras, por algum motivo, começo a acertar melhor as caçapas. Enquanto isso, descobrimos e detalhamos todas as soluções para melhorar a leitura no Brasil. Agora que as esqueci totalmente, não sei por que tomamos apenas cervejas e não notas.

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