Ecos da Bienal do Livro

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Ilustra: FP Rodrigues

Semana passada estive por quase uma semana acompanhando a Bienal do Livro de São Paulo, um dos maiores eventos da área aqui na América Latina. Não sei se por bairrismo ou por outro motivo de ordem pessoal, ainda gosto mais da Bienal do Rio de Janeiro – caos por caos, prefiro o da minha cidade. Mas no geral são eventos muito parecidos, caracterizados, sobretudo, pelo volume imenso de público. E onde tem muita gente reunida existe coisa boa pra se ouvir. Se na semana passada falei do agradável papo que tive com outros passageiros de Uber, agora vale retratar uns pontos que pesquei lá dentro do pavilhão do Anhembi, ou a caminho de lá. Mas já alerto que são, em sua maioria, desimportâncias.

Ouço ecos da multidão de adolescentes que, não é de hoje, mas cada vez mais, ocupa esse tipo de evento. Há pouco mais de duas décadas, os adultos, assustados e alarmistas, diziam que a tal internet ia acabar com os livros, ainda mais com aqueles adolescentes (eu incluso) que não paravam de jogar videogames. Taí, coroas (eu incluso ou a caminho de), a molecada que nasceu de lá pra cá está lendo mais que as anteriores. Os adultos (eu incluso?) é que não têm mais tempo de ler, pois os raros tempos livres dessa vida corrida são ocupados pelas séries de Netflix e, claro, os videogames.

Mas também ouço ecos de grupos de adolescentes que evocavam grupos de outras escolas, e em uníssono milhares gritavam sua palavra de ordem: BIRLLL!

Ouço os ecos dos amigos paulistas que não consegui rever, seja fora do horário da Bienal num chope, seja lá dentro por eu não estar no momento, nesses desencontros tão comuns para uma metrópole como Sampa.

Ouço ecos dos que consegui encontrar, seja em contatos profissionais ou mesmo para atualizações sem compromisso de assuntos diversificados – vulto jogar conversa fora. Aliás, como se come e se bebe bem em São Paulo.

Ouço ecos dos jovens, sempre eles, gritando porque uma youtuber famosa iria aparecer lá, mesmo não tendo muito o que dizer – ou escrever, porque os livros dela têm a consistência de biscoitos de polvilho. E ouço também uma uma senhora, mãe de algum deles, que voltava daquela comoção coletiva, nos olhou e disse “só Jesus pra entender”. E na hora me perguntei se, caso reencarnasse hoje, ele viria como um youtuber. Ou já veio?

Ouço ecos, ainda, de leitores fãs que berravam emocionados ao lado da sala onde eu falava sobre prêmios literários com curadores de projetos sérios e importantes, cujos livros descobertos ou agraciados, infelizmente, não geram essa gritaria. Como fazer essa ponte entre os dois mundos?, perguntei a todos nós lá, sabendo que para isso não há resposta fácil.

E ouço o eco da felicidade por compartilhar uma mesa com a professora Marisa Lajolo. Como estudante de Letras, li muitos livros dela, que depois da sessão, no almoço, apelidei metonimicamente de “minha bibliografia”. Ao me despedir, ela disse “vem cá dar um beijo na Bibliografia”.

Sim, ouço eco de um virundum ouvido por um camarada que limpava o banheiro enquanto cantava: “Eh, meu amigo canibal” e não parecia saber que era Charlie Brown. Achei benito, digo, bonito aquele calembur involuntário dele, eu que guardo trocadilhos como quem captura pokémons.

E por fim ainda ouço o eco de uns fogos bizarros que explodiram nos céus quando a presidente sofreu impeachment. Esses ainda vão ecoar por um bom tempo, zumbindo aguda e dolorosamente nos tímpanos de todos nós.

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Assunto crônica

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