Pinóquio e a verdade relativa

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Com a crise da mídia impressa e o consequente fechamento de bancas de jornais que se recusassem a vender todo tipo de quinquilharia, um velho jornaleiro italiano, que atendia por Gepeto, decretou estado de calamidade pública, como está na moda. Mas como não recebeu nenhum auxílio financeiro do governo federal, o idoso se viu cada vez mais na penúria. Antes que morresse de fome, recorreu a um curso no Sebrae e aprendeu técnicas de marcenaria.

Começou vendendo miniaturas do Cristo Redentor para turistas, e como tivesse experiência em dar informações na banca de jornal a todo tipo de gente perdida, foi ganhando a simpatia da clientela e logo montou a lojinha. Mas o sucesso trouxe a solidão junto, e só então se deu conta de que gostaria de ter um filho. Gepeto gostava muito de crianças, mas não tinha paciência alguma com adultos. Adotar um moleque não pegaria bem para um velho solitário, então lhe restou criar um filho de madeira para conseguir a companhia infantil que tanto buscava. Como fez com restos de pinus, deu o nome de Pinóquio.

– Agora sim, regazzo, serás meu guri – disse com um tapa na cabeça do manequim.

Os clientes achavam estranho quando chegavam na loja e viam Gepeto falando com o boneco de madeira, que a muitos lembrava Chucky, o Brinquedo Assassino, ou aquele outro do Jogos Mortais – nunca o do Toy Story, pois a choldra puxa sempre para o mais pesado.

Enquanto todos pensavam que o pobre velho já estava caducando em esquizofrenia galopante, a loja foi visitada por um grupo de uma startup a quem Gepeto deu dicas turísticas meses antes. Ao reencontrarem o velho italiano e tomarem conhecimento do caso do boneco, ofereceram para Gepeto uma versão beta do novo sistema de inteligência artificial que vinham construindo. Adaptaram toda a parafernália e programas dentro do boneco de madeira e em pouco tempo Pinóquio andava, falava e aprendia com seu pai.

– Caso ainda é um modelo de teste, o nariz vai indicar qualquer eventual falha de software – alertou o gerente de produto, um jovem adulto pálido, com cara de quem sempre soltou pipa no ventilador.

Quando Gepeto iria perguntar mais detalhes sobre como resolver esses itens, o grupo saiu correndo para caçar pokémons nas cercanias, deixando-o só com o seu filho, ou aquilo que mais podia parecer com um.

E como Pinóquio agisse basicamente como um menino normal, foi para a escola, gostava de brincar de pega-varetas e com palitos de picolé como se fossem Playmobil, além de outras distrações temáticas. Sempre que amigos perguntavam se desejava ser um menino de verdade, respondia que não se considerava de mentira. E assim os deixava confusos e admirados.

– O que é ser um menino? Zumbis têm carne e osso, e são mais humanos do que eu? Quem somos nós para definirmos a natureza da alma? – perguntava cheio de metafísica.

Daí que o jovem amadeirado sacou que o lance era deixar as pessoas pensarem – ou, pelo menos, fazê-las pensar que estavam pensando. Em pouco tempo, Pinóquio já fazia pequenos vídeos motivacionais sobre diversidade, pertencimento, protagonismo, territorialidade e superação, angariando milhões de fãs nas redes sociais. Criou um canal no Youtube chamado Karadepaw, que se transformou em livro de autoajuda disputado por grandes editoras. Abandonou o pobre Gepeto, que, desconsolado, adotou um bonsai e passou a falar com plantas.

– Boneco não, sou um action figure empoderado! – bradava em programa de entrevista.

Celebridade, Pinóquio estava em todas: linha de cosméticos, roupas, brinquedos, games, desenho animado e utensílios variados. E como todos estavam hipnotizados por tanta papagaiada de márketim, ninguém nunca reparou que em tudo o Pinóquio sempre saía com um nariz de vantagem.

Moral: Se liga, mermão, que o cabo do machado é feito de madeira.

Moral 2: O Grilo Falante nesta história é você.

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Assunto crônica

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