Os três porquinhos caçadores de pokémon

FP_Rodrigues_VB_26_julho_16

 

Um conto proativo

Era uma vez três moleques, dois dos quais eram bem gordinhos. Sua adiposidade exagerada não era decorrente do fato de serem jovens suínos, como a leitora pode esperar por conta do título apelativo desta história, mas porque viviam sob a tranquilidade do sedentarismo contumaz. E se eram porquinhos, isso se dava apenas pelo relaxamento com que deixavam pratos, copos e caixas de pizza ao redor, com a preguiça típica dos adolescentes que evitam qualquer esforço físico por conta dos hormônios em profusão galopante.

“Não lavam um copo”, reclamava o terceiro irmão, com Índice de Massa Corporal dentro dos limites e adepto da culinária vegana. Mas a mãe protetora não criticava os outros dois balofos, redistribuindo igualmente eventuais esporros pelos três, mas sem resolver a causa do problema, numa vista grossa que irritava ainda mais o irmão esguio.

Até que um dia a pensão do ex-marido deixou de cair na conta, em virtude de uma onda de desemprego que varreu todo o ecossistema local. Daí que a mãe caiu em si e reparou que era hora de colocar os filhos para contribuírem na composição da renda familiar. Digo, os três não, apenas o mais prestativo, pois os outros dois, coitadinhos, não podiam sair muito de casa.

Sabendo que muito em breve iria se tornar arrimo de família, e ciente da vida molezinha que os irmãos levavam, o filho fitness resolveu se igualar a eles. Simulava indisposição, passou a comer gordura trans em quantidades absurdas e, em pouco tempo, estava prostrado com os outros, numa tríade descomunal e improdutiva.

“Assim não dá”, disse a mãe, que na hora matriculou os três filhos num curso do Sebrae para jovens empreendedores. Com muito esforço, os três se moveram e decidiram criar, via incubadora de empresa júnior, um projeto de micro-habitações para que cada pessoa pudesse se afastar do mundo e apenas ficar morgado. O nome gourmetizado OINC (Observatório Individual de Noções Criativas) vendia melhor para futuros investidores, que esperavam um protótipo para, na sequência, despejarem grana a fim de lucrar com aplicações em escala.

Mas os irmãos não entravam num consenso sobre como desenvolver o primeiro OINC. Dos três gordinhos, o mais devagar queria construir uma cabine de palha:

“Tipo uma oca dos índios, só de boas com a natureza, poxa.”

O segundo, descansado porém malandro, queria mostrar serviço, se preocupando em apresentar algo que estivesse na moda com o ecologicamente correto, mesmo sabendo que não seria capaz de pôr em prática:

“Proponho uma solução sustentável a base de garrafa pet e telhado verde com captação de energia solar, eólica e de água das chuvas. E também um sistema pra reaproveitamento de urina. A fan page do projeto está no ar e tem mil curtidas!”

Já o terceiro, agora adequado ao modo de trabalhar dos dois irmãos, ficou apenas no feijão com arroz:

“Um puxadinho resolve.”

Os investidores, vendo que não havia alinhamento nenhum entre os brothers, decidiram dar corda aos três projetos, para ao fim decidir pelo melhor, num sistema meritocrático e motivador.

Um mês depois, no dia da apresentação, bateu uma chuva de vento que destruiu logo a casinha de palha, que tinha sido construída às pressas na véspera. O segundo não fez a casa, mas mandou uma apresentação em Prezi e outra em Power Point cheia de gráficos coloridos. Já a meia-água do terceiro, apesar de tosca, estava lá, firme e forte. Para provar que funcionava, o novo gordinho ficou dentro da construção, e com o barulhinho da chuva pegou no sono. E assim teve o projeto descartado por ser, segundo a banca, simplista, nada inovador e sem o protagonismo, empoderamento ou pertencimento mínimos numa sociedade plural contemporânea.

Por fim, o projeto escolhido foi o das apresentações coloridas, que bombou em replicações na internet. O porquinho até hoje faz palestras corporativas com títulos como “The OINC Project – um case de sucesso”, sem nunca ter precisado construir uma casa sequer.

Moral: Ter focinho de porco não garante uma tomada de posição.

Moral 2: Você só clicou no texto por causa da palavra pokemón do título? Então eu é que te capturei.

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