Chapeuzinhx Vermelhx

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Outro dia, observando umas discussões acirradas e virulentas nas redes sociais por algo que, no mundo de carne e osso, se resolveria com uma interjeição ou frase nominal, me lembrei de uma série chamada “Contos de fadas politicamente corretos”, do norte-americano James Finn Garner. Nesses meados dos anos 1990, o termo começava se popularizar mundialmente, e os livros se tornaram um grande sucesso.

Essa onda do que hoje se chama “reconto”, categoria específica na literatura para crianças, não é novidade. O nosso grande Millôr Fernandes já fazia isso desde a década de 1940, quando reescreveu, genial como sempre, Chapeuzinho Vermelho simulando a voz de outros escritores, como Rachel de Queiroz e Guimarães Rosa. O próprio Rosa tem sua versão no conto “Fita verde no cabelo”, e o Chico Buarque com o infantil “Chapeuzinho Amarelo”. Poucos leram (e fica a dica) a paródia da Hilda Hilst, no poema “A chapéu”, do livro politicamente incorretíssimo “Bufólicas”.

Todas as narrativas que atravessaram os tempos via oralidade sofreram alterações, contos com pontos aumentados, mas os pastiches intencionais são outro parangolé e ficam mais divertidos. Enfim, mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, como disse o vate caolho, e por isso fica aqui a minha marota contribuição do conto:

Chapeuzinhx começava a compartilhar um post estilo textão sobre a dissolução das representações de gênero além do discurso acerca do pertencimento e territorialidade quando a mãe lhe transmitiu a demanda:

– Leva esses tupperware tudo pra tua vó que ela comprou.

Como não tivesse havido qualquer feedback, foco na telinha, a mãe descansou a mão no pé do ouvido dx filhx com ênfase, ratificando o job:

– Desgruda desse celular, que vou te enfiar orelha adentro pra ver se me escuta. Estopô!

Contrariadx nas suas prioridades individuais, Chapeuzinhx saiu num resmungo a fim de cumprir a campanha. No ponto de ônibus, ficou na dúvida se pegava o expresso, que cortava no zoom pela comunidade do pipoco, ou o parador, que demorava mas dava a volta por fora do risco. Mal sabia que era observadx pelo sujeito peludo e grotesco, cuja camisa tinha uma estampa “vid@ bandid@”.

Como quisesse voltar logo para casa, Peuzim, como era chamadx pela galera, optou pelo trajeto mais rápido, seguidx de pronto pelo outro coletivo adentro.

Entediadx sem o celular e longe do seu mundo, x jovem levantou o capuz vermelho do casaco para não ter que encarar os demais, ainda que a maioria estivesse concentrada no respectivos zaps. Nisso o peludo lhe chega junto:

– Que tem dentro desse monte de pote aí, garotinhx?

– Não é pote, é tupperware, seu desavisado, respondeu Peuzim, notando logo que falava com alguém de extrema direita por conta de tanta ignorância. – E tá tudo vazio. Minha avó, que mora lá pro outro lado, encomendou na revista. Mas isso não é da sua conta.

Hmm, tá beleza, disse o tonyramesco, se afastando e começando a pensar que uma depilação a base de cera talvez o ajudasse.

Desceram no mesmo ponto e cada um seguiu para um lado.

Ao chegar na casa da avó, Peuzim jogou o fardo sobre a mesa e viu que a idosa estava estranha sobre a cama. Ao se chegar perto, indagou:

– O que tá rolando, vó? Caiu o wi-fi? Tá magra, hein. E essas butuca aí?

– Ah, criança, é o Estado que não paga o benefício…

– E esse buço aí, vó? Nunca tinha notado…

– Ah, coisa pequena de vó, é que tenho parente em Portugal…

– Tanto faz. Mas peraí, que dente grande é esse, pô?

– Ah, inocência, fiz dentadura nova. Ainda tô me acostumando com essa canjicada… Mas desde quando você liga pra superficialidade da aparência?

Mas Peuzim deu um salto pra trás, desmascarando a farsa:

– Não rola. Minha avó não liga pra essas frescuras, ela é toda empreendedora. Eu sei quem você é, seu sexista limitado, neocoxinha que não curte nem compartilha! Quer roubar o meu protagonismo, o meu empoderamento!

– Ahh, eu só queria os tupperwares, gritou o Lobão, todo materialista mas nada dialético. Pegou o conjunto de potes de grife e desapareceu feliz correndo pelas ruas.

A avó chegou da excursão a Conservartória e, vendo x netx cabisbaixx, consolou:

– Chapeuzinhx, desapega. Vai arrumar namoradx.

– Vovó, eu gosto é de pessoas, sou todx alteridade… Mas a revista vai virar o mês e eu é que vou ter que pagar. O negócio tá osso.

E saiu atrás de uma lan house onde pudesse postar o ocorrido, visto que ficaria sem o celular por semanas.

Moral: o meio não é mais a mensagem.

Moral 2: olha bem: / a esquerda de quem vai / é a direita de quem vem.

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