O escritor sem livro

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Aproxima-se a Flip, o evento cultural mais legal de São Paulo. Epa! A Festa Literária de Paraty acontece geograficamente no estado do Rio, na pontinha sul fluminense, mas quem já foi sabe que se trata de um evento fundamentalmente paulista. O que é até bom. As trocas só se dão com o diferente.

Fui a todas as edições, seja para flanar e encontrar amigos, como nas primeiras, participar de programações, como outras, ou a trabalho. As últimas têm sido a junção dos três itens, motivo pelo qual tenho saído de lá esgotado. Mas vale cada tropeço naquelas pedras de pé de moleque.

Lembro-me de certa vez, quando escritores de literatura ainda eram a maioria na programação principal, que determinado convidado nunca havia publicado um livro. Não contavam participações em antologias, tampouco os blogs literários, que estavam em alta na época como espaço democrático para se chegar ao leitor e mesmo para que os autores se conhecessem. O importante era ter livro publicado.

Faz todo sentido pensarmos que o escritor se legitima ao ver seu trabalho impresso, costurado ou colado em cadernos cercados por uma capa bonita, com ISBN no verso, texto da orelha com pequena biografia e uma logo de editora, carimbando um selo de qualidade no título e autor. Assim como cineasta aquele que fez e exibiu um filme, artista plástico quem expôs suas produções, músico quem apresentou um espetáculo com suas composições ou de outros, e por aí vai. Coordeno um projeto que descobre autores inéditos, protegidos por pseudônimo, e os coloca numa grande editora. A ideia é que, publicados, iniciem uma carreira literária. Mas a literatura, líquida e etérea, tem algo a mais que foge desse sistema.

Há uns anos, quando frequentava oficina literária, conheci o escritor e jornalista (hoje amigo, felizmente) José Castello. Li de uma tacada o seu livro “Inventário das sombras”, no qual relata a sua experiência com escritores como Hilda Hilst, Raduan Nassar, Bioy Casares e Clarice Lispector. Mas um capítulo me chamou a atenção: “João Rath – o escritor que não escreveu”. Tratava do jornalista com quem Castello convivera, e que possuía uma imaginação muito fértil, como se do seu entorno brotassem narrativas das mais variadas: personagem de um livro jamais escrito. Daí que um conceito de literatura tenha aparecido e me acompanhado desde então, o de que o livro é apenas parte de algo maior. De todas as artes, considero a literatura a mais abstrata, pois ela se dá fundamentalmente no campo das ideias, um mundo silencioso e abstrato que cada indivíduo possui. Assim, o escritor cria como se fosse uma mistura de fonte e mensageiro, meio de campo que faz um lançamento para o seu atacante (o leitor) lá na frente, na esperança de que a jogada termine com um gol.

Estou escrevendo esta crônica em Ribeirão Preto, antes de dar uma palestra na feira do livro local. Há uns dias, uma escritora iniciante reclamou que havia participado de um evento desses e, ao terminar, não havia seu livro para venda aos interessados. Esse paradoxo é bastante comum nos eventos literários de todo porte e incomoda muitos autores, que saem de suas cidades para divulgar algo que não existe para o público presente. Isso renderia outra crônica – ou talvez uma reportagem mais séria e pretensiosa, e fica a dica aos jornalistas da área. No entanto, nossa literatura também está presente nas perguntas, nas conversas e nos abraços partilhamos com os leitores: mesmo nas selfies que adolescentes tiram conosco, para depois nos levar para suas redes sociais. São diferentes jogadas nesse futebol complexo e difícil que é ser escritor no Brasil.

“Livros são papéis pintados com tinta”, já disse o Fernando Pessoa no seu conhecido poema “Liberdade”. Não sei ainda se haverá livros meus para venda ou mesmo se haverá quem se interesse por eles. Trouxe uma meia dúzia na mochila, os quais geralmente não voltam, mas o importante mesmo é a possibilidade da troca de ideias, levar e deixar algo do campo. E se ao fim dessa jogada não houver gol, bater na trave já terá sido um grande lucro.

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Assunto crônica

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