Retratos VGA de uns amigos Full HD – parte 3

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(crônica publicada no site Vida Breve)

Angela Dutra de Menezes – em termos de palavrarias, ela é toda trabalhada em redações de jornais e revistas ao longo de décadas. Angela escreve sem gueriguéri, seja na provocação do riso, seja na investida lírica na sua prosa, quando não os dois ao mesmo tempo. Escreveu romance sobre a suposta cura da chatice e da feiura, que desmantelaria toda a indústria da aparência que move o mundo – e os fundos. Ela sabe que, como disse o outro, entre o riso e o choro só existe o nariz. Então lá vai a Angela, cruzando o oceano rumo ao portuga que nos pariu, para dizer bem alto aos lusitanos, sem cerimônia: o Tejo, cara pálida, não é mais belo que o rio da minha aldeia.

Raphael Montes – desde cedo o Raphael aprendeu a correr atrás do sucesso literário. Hoje, ambos frequentam os mesmos lugares e se cumprimentam como velhos conhecidos. Sádico na medida, prodigioso nas tramoias, escreve como quem se diverte e o contrário também, porque compreendeu logo cedo a máxima da sobrevivência: nada em excesso, inclusive a moderação. Certa vez nos esbarramos na Rio Branco e lá estava o Montes, todo sutil, observando a turba, à caça de um perfil que inspirasse uma próxima vítima das suas histórias. Porque ele escreve livros policiais assim, dulcíssimo e semitímido, sem levantar a menor suspeita de ser um gênio do crime.

Suzana Vargas – poeta e ativista na formação de leitores e autores, Suzana sabe que o nó está na falta de caminhos. Para mostrar que são possíveis, ela mesma é um trem, e coordena uma estação por onde todo bom leitor deveria passar. Sem malabarismos e números equestres de quem está só atrás de patrocínio e matrocínio, fala devagar, didática e criteriosa, que o importante é ler e escrever bem, o resto vem depois. Ciente de que não é preciso inventar a roda, mas criar trilhos para elas girarem, Suzana vai promover uma grande oficina literária e mecânica para tentar consertar o país, letra por letra. Demanda há.

André Sant’Anna – e viva os maluco! O André sabe que dirigentes fazem na vida pública o mesmo que na privada. Observa, entre a indignação e a ironia, todos os tropeços da nação. Filho de um grande escritor, não se intimida com a sombra do pai e criou ele mesmo sua voz. E taí, para quem quiser ouvir. Entre um livro e outro, o André atua na publicidade, vez por outra atendendo campanhas políticas. E lá colhe material de sobra para seus escritos, tanto que os esboços saem pelo ladrão, por assim dizer. Bebe coca zero logo de manhã e assim vai ao longo do dia, numa dieta que só seu corpo, cada vez mais esguio e saudável, consegue entender.

Flávia Savary – se existisse uma menina maluquinha, seria a Flávia Savary. Moleca desde sempre, brinca com as palavras como quem tem todo o tempo do mundo para isso.  E ela tem. Por isso é que já recebeu mais de 80 prêmios literários mundo afora, e parece que nem chegou na metade ainda. Seja infantil, teatro, livros para adultos, a Flávia vai em prosa e verso como uma metralhadora giratória em cima do leitor, que pede, com todo o prazer, para ser alvejado. E ainda desenha. Pau pra toda obra, essa mulher é um tipo de ser humano que está em vias de extinção: o artista completo. Por definição, é aquele que não para de se aprimorar, ciente da própria incompletude.

Rafael Gallo – De Bauru, Gallo deixou todos chocados com sua escrita. Premiado, foi ovacionado com o primeiro livro e saiu para cantar de galo (também é músico) em outras freguesias, que são o mundo todo. Sem querer estar na crista, vai construindo a duras penas a própria trajetória, porque o talento não eclode da noite para o dia e é resultado de um trabalho constante. Para o Gallo, escrever é pinto, basta uma olhada na sua literatura, trabalhada ela mesma para traduzir enredos complexos em tramas que, para o leitor, fiquem às claras. Gentleman, sabe lidar bem com o texto e com as pessoas. Em suma, um galante.

Felipe Pena – (sem trocadilhos com o item anterior; não foi intencional, pelo menos conscientemente) o Felipe joga nas 11, está no banco e ainda é o técnico de si mesmo. Escritor, jornalista, roteirista, professor e comentarista de culturas, o Pena está em todas, e ainda há espaço na agenda dele. Crítico e afiado, vai no ponto e fala, com toda a educação e polidez que um doutorado em Clarice Lispector lhe deu: não é que o rei esteja nu, estamos todos. E nessa onda é que o Felipe atinge o âmago, sem nunca ser amargo, como ocorre com tantos na área. Mas com toda essa bagagem, bastam três frases de conversa para se constatar que estamos falando com um sujeito movido pelo motor da curiosidade. E assim, sem velar, ele revela.

 

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Assunto crônica

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