Notas sobre a suspensão da descrença

Tiago_Silva_VB_07_julho_15

(Crônica publicada no site Vida Breve)

Prometo à leitora que esta será a última crônica sobre a Festa Literária de Paraty neste ano. Tendo passado a semana numa complexa imersão laboriosa, fazendo as vezes de curador, office boy, mediador, auxiliar de serviços gerais, escritor, assistente de produção, palestrante, boêmio e concierge, não sobrou muito tempo para pescar outros assuntos que pudessem ser explorados neste petardo hebdomadário.

Desta feita, resta-me colher, entre os quilos de livros e roupas sujas que trouxe, algumas impressões de mais uma Flip. A memória já deixa os lampejos tão irregulares, fragmentados e escorregadios quanto o chão das ruas de Paraty. Por isso, alerto à leitora que não caminhe os olhos aqui usando salto alto, a fim de não levar um tombo. Na Flip e na crônica, é preciso andar de tênis. No caso da crônica, o ideal seria descalço.

1 – Em treze passagens pelo evento, foi a primeira vez em que não esbarrei com o escritor e designer Delfin. É um amigo que vejo apenas nessa ocasião, pois vive em Campinas, e parece que sempre continuamos uma conversa que ficou pausada durante um ano. Acabo de saber o motivo: tendo acabado de perder um ente familiar, ele não pôde ir. A Flip, pelo menos a minha, não é a mesma sem encontrar esse camarada e ano que vem ele precisa estar lá para dar prosseguimento ao nosso papo.

2 – Também fez falta o amigo Marcelo Moutinho, com quem fiquei bebendo na primeira Flip até as tantas, e os funcionários do bar se mandaram pela porta lateral, deixando a gente na mesinha do lado de fora sem nem cobrar a conta. Era a Flip várzea, a Flip moleque…

3 – O senhor cheio de borboletas que fica parado na rua do Centro Histórico, misto de Inri Cristo e Nosso Lar, estava deveras estressado neste ano. Provocava os passantes, implicando até com a cor da bolsa de uma mulher.

4 – Pela primeira vez não vi nada das mesas principais. E não senti falta. Ouvi nas ruas que as programações paralelas estavam mais legais. Confirmei a tese da semana passada. Segundo uns depoimentos, autores da Flipona que eram muito esperados nas casas menores em que também falariam, onde seria possível ter um contato mais próximo.

5 – A pergunta dos poetas de rua deixou de ser “você gosta de poesia?” e passou a ser “aprecias poesias?”. Assim, rimadim.

6 – Foi a segunda Flip sem frio. Só fez nos dois últimos dias, mas não foi o suficiente. Por outro lado, a chuva prevista também não causou grandes estragos.

7 – Comentou-se que o público diminuiu. Não tive essa impressão, mas creio que seria algo bom. Depois da terceira edição, se bem me lembro, o evento se tornou grande demais, com gente em excesso para uma cidade que não comportava tanta muvuca. Almoçar ainda é um tipo de gincana que requer muita paciência.

8 – A alma encantadora das ruas de pedras continua sendo o melhor da Flip. É nelas que se encontram os colegas de profissão, gente que partilha das mesmas angústias e esperanças. As ruas de Paraty são o verdadeiro ambiente de trocas.

9 – Ganhei muitos livros de autores que só conhecia por redes sociais. Espero lê-los antes da próxima. Nesses anos descobri grandes leituras em Flips e festivais similares, mais que nas bienais, claro.

10 – Foram-se os tempos das grandes festas da Flip durante a noite. A pergunta “onde é a festa?” ficava sempre sem respostas, seguida de um muxoxo triste e decepcionado. Sem a Lei Seca, também me senti órfão no fim do expediente.

11 – O raio gourmetizador bateu na Flip que nem maré, como diria o Jorge Vercilo, que foi confirmado para fazer o próximo show de abertura. SQN.

12 – A Flipinha e Flipzona, voltadas para crianças e jovens, fazem um trabalho que aparece pouco e rende muito. Merecem mais holofotes pois elas é que atendem mais a garotada da cidade e pode transformar Paraty numa Passo Fundo. O que seria bom, contanto que não se cancele o evento depois disso tudo, como aconteceu com a Jornada.

13 – O escritor italiano Roberto Saviano, maior nome desta Flip e jurado de morte pela máfia (de lá, não daqui), cancelou a vinda às vésperas, por questões de segurança. Há pouco tempo o prefeito de Paraty levou um tiro na cuca e só não morreu porque foi de raspão. Não tá fácil pra ninguém.

14 – Apesar dos pesares, do cansaço imenso, da crise e das crases, é um privilégio estar em Paraty durante uns dias lidando com leitura.

15 – E sim, nossa camiseta boba e divertida, escrito LITERATURA É A MINHA CACHAÇA, fez sucesso entre o pessoal. Acho que se tivéssemos levado umas para vender, renderia até um cascalho.

 

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Assunto crônica

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