Sobre as religiões

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(crônica publicada no site Vida Breve)

Por esses dias, a menina Kailane Santos, de 11 anos, levou uma pedrada quando saía de um ritual de candomblé. Por uma coincidência infeliz, o líder de um famoso centro espírita, o Lar de Frei Luiz, que fica aqui no meu bairro, foi assassinado brutalmente. No rádio e Twitter, um divertido e preocupante bate-boca entre o jornalista Boechat e o controverso Malafaia. Em qualquer debate sobre o assunto, semelhante a política e futebol, parece que todos estão tanto cheios de certeza quanto de fúria.

Abro a nova edição, bem bonita, do clássico “As religiões do Rio”, que ganhei recentemente. O João do Rio fez uma longa reportagem sobre o assunto, e no início do século XX já percebia que a cidade era um celeiro da salada religiosa: “O Rio, como todas as cidades nestes tempos de irreverência, tem em cada rua um templo e em cada homem uma crença diversa.” E destrincha a convivência de católicos, pagãos, fisiólatras, judeus, satanistas, evangélicos, espíritas e por aí vai. Mas um dado interessante é que não parece que uma se impunha contra as outras, por conta da nossa origem plural: “O Brasil sempre foi um centro de reunião de colônias diversas praticando as suas crenças com a mais inteira liberdade”, diz o grande cronista.

Sempre achei que a fé é algo da ordem do indivíduo, não de uma coletividade. É um lance mais subjetivo, íntimo, que apenas cada um sabe mensurar, como a paixão. Por isso sempre desconfiei, dentro das minhas limitações, de multidões religiosas, cuja perspectiva de mundo, em muitos casos, tende a se fechar em dogmas. Quando me perguntam, digo que não tenho religião, mas acho que todas têm uma importância fundamental, e no fundo quem diz que não tem é porque não tem ou não quer dar um nome para a sua crença particular. A realidade é mais complexa do que a nossa capacidade de compreendê-la, então somos levados a voltar para uma origem comum (o tal re-ligare). Por isso acho que todas têm um mesmo sentido.

Lembro-me de umas experiências (re)ligadas a religiões diferentes.

Uma tia era da umbanda e, quando me levava, eu morria de medo dos cultos, caboclos, mas adorava a feijoada, de quem me tornei devoto. Em Cosme e Damião, os melhores saquinhos de doce vinham “da macumba”. Que saudade… Uma regra de respeito era, ao passar por um despacho na rua, pedirmos licença para o número de pessoas do grupo. E todos respeitávamos.

Outra tia, católica e depois kardecista, me levou ao Lar de Frei Luiz, e acho que era meio médium. Dizia que eu tinha um espírito irrequieto. Foi na casa dela que descobri uns livros de certo autor espírita chamado prof. Henrique Rodrigues, e eu brincava dizendo que tinha escrito aqueles volumes. A ideia de ter o nome na capa de livro permaneceu comigo e sou profundamente grato a essa tia. Aliás, acho fantástico o trabalho de caridade que eles fazem.

Depois, em alguns carnavais, fui com amigos da Igreja Batista para retiro espiritual. No meio da turma tinha um franciscano, com aquele cordão de madeira em formato de T, que apelidei de Frei Dimão. As gincanas eram divertidas pacas e eu gostava de fazer paródias de músicas conhecidas, que a galera tocava com os instrumentos da igreja. O pastor, gente finíssima, mas que infelizmente faleceu posteriormente em acidente de carro, dizia que eu estava em retiro espirituoso.

Na época do 11 de setembro, eu estava nos EUA fazendo intercâmbio, e deixei um cavanhaque crescer, pois gostava de cofiá-lo enquanto estudava. Quando identificaram o Bin Laden como culpado pelos atentados e começaram a bater nos muçulmanos nas ruas, notei que passaram a me olhar feio, pois eu parecia um árabe. Tratei logo de raspar, voltando a ter a cara de mexicano de sempre. E me deixaram em paz.

Por isso ler “As religiões do Rio” faz tanto sentido para mim, especialmente hoje. E esta crônica é, sobretudo, uma dica de leitura.  O livro do João do Rio é literatura de primeira e, para as nossas cabeças, a boa leitura é o extremo oposto de uma pedrada.

 

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Assunto crônica

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