Recusados pela Flip

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(Crônica publicada no site Vida Breve)

Como vem acontecendo em todo meado de ano, por esses dias a grande notícia que causa comoção não é o balanço de vendas do Dia dos Namorados, mas a lista de autores selecionados para a Festa Literária de Paraty. O festival literário regado a pinga, tertúlias e tropeções, realizado na cidade histórica situada no Sul Fluminense, se consolidou no calendário brasileiro, e é certamente o evento cultural mais legal de São Paulo.

Tive a oportunidade de ir a todas as edições. Mas calma lá, a maioria a trabalho, pois não disponho de fundos suficientes para um pacote de hospedagem nesse período, em que um dormitório compartilhado de albergue precisa ser parcelado em várias vezes no cartão, à la Casas Bahia. E o dormitório é realmente compartilhado, pois na Flip se dorme de coxinha. (Ainda que o menu seja caríssimo, e a fila para comprar um pastel de 30cm recheado de um sinistro caviar seja deveras longa e lenta.)

Chegou às minhas mãos, em superoff, a lista dos piores candidatos às disputadas mesas principais, acompanhada de pareceres com as justificativas pelas quais os escribas não puderam ser contemplados na grade. Divulgo, com exclusividade, parte do material recebido:

– Silvio Black – escritor daltônico de Campinas, autor de “Persplexivas: livro de colorir”. Parecer: A obra de Black, apesar de vir obtendo relativo sucesso de vendas, não pode ser considerada de qualidade, pois além de não ser um livro, o volume tem desenhos que parecem ter sido feitos por crianças de 6 anos. Comenta-se que o autor enviou, por engano, o caderno de atividades do filho, e os editores viram ali uma renovação nesse segmento que já demonstra sinais de saturação, sem trocadilho. Não recomendamos, portanto, essa participação, a não ser que vingue aquele patrocínio da Faber-Castell.

– Katarynna Joinha – e-writer feminista de Novo Hamburgo. Parecer: Joinha é extremamente popular, lida e replicada, mas nunca publicou nada a não ser postagens no Facebook. Insufladora de polêmicas, transforma qualquer notícia em ofensa às mulheres, e rapidamente seus comentários se virilizam… Digo, viralizam. Um porém, constatado na sua timeline: homens são proibidos de comentar qualquer coisa, de modo que, na resposta ao nosso convite, apresentou como condição do aceite a participação exclusiva de mulheres na tenda dos autores, na sua mesa e em todas as demais. Recomenda-se cortar a gaúcha, sem trocaudilho.

– Dragoberto O’Connor – autor de livros de fantasia do Rio de Janeiro, como “Draga como eu Drago”. Parecer: nascido Dagoberto Oliveira, teve o insight de escrever histórias inspiradas nos games e filmes que tanto curtia na adolescência – “que ainda não acabou”, afirma nos lançamentos sempre lotados, nos quais vai fantasiado de dragão. Sucesso absoluto (mas todo sucesso não é relativo? Perdão pela pausa filosófica) em outros eventos, pode não se adequar ao perfil da Flip porque o nosso evento não é tão frequentado por jovens. (Vide nossa pesquisa, segundo a qual essa faixa etária não suporta as muitas horas de viagem a Paraty porque a bateria dos videogames portáteis não dura isso tudo.)

– Soh – performer de Cuiabá. Parecer: o artista de rua ganhou espaço nos últimos anos quando publicou que só tiraria a barba quando fosse convocado para a Flip. A cada ano temos que justificar o motivo do não convite, e as manchetes dão um close do rosto do rapaz, cuja barba já está com tranças. Reiteramos que não podemos ficar reféns da pressão midiática, que cai de pau em qualquer deslize nosso, sempre atrás de polêmicas que vendam jornais. Autoapelidado de O Poeta Flanelinha, que aborda os transeuntes com “Você gosta de poesia”, na verdade nunca mostrou nenhum texto a ninguém, pois se intitula um neo-hermético. “Estou aqui em persona, mas escrevo para o futuro”, berra nas ruas de pedras. Então deixemos ele lá e ano que vem voltaremos a falar no assunto.

– Felícia Mantiqueira – escritora de autoajuda de São Paulo, conhecida pelos livros “Agora é sério”, “Agora é sério II” e “Agora é sério III”. Parecer: É preciso reconhecer que a ex-secretária tem seu público, e talvez parte dele seja frequentador de Paraty. Segundo a biografia da orelha, foram 10 anos observando as loucuras do meio corporativo, transmitidas em frases curtas seguidas de dicas práticas que não são exequíveis para quem quer permanecer no emprego, como “Todo chefe quer ser desafiado. Mande-o às favas quando menos esperar.” Apesar de simpática e de boa fala, tememos que sua fala na Flip gere demissões, causando um possível déficit de público para o ano seguinte.

– Judson Marra – lutador de MMA e frequentador do “Mais você”. Parecer: A autobiografia do brutamontes que será lançada ano que vem não está sendo escrita por ele, mas por jornalista desempregado, todos sabem. Consideramos a necessidade de diversificar temáticas na Flip falando de outros assuntos, e que autores de literatura propriamente dita preenchem a cota de 7%. Mas talvez essa concessão seja demais e questionamos essa participação, com certo medo de ter que responder diretamente ao sujeito. Enfim, não é recomendado. A não ser que vingue aquele patrocínio Whey.

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