A jornada do escritor

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(Crônica publicada no site Vida Breve)

Estive por esses dias em Paraty, a fim de acompanhar a etapa final de uma residência literária, projeto que estou ajudando a implantar. A ideia era simples: durante três meses, dar casa, comida e uma bolsa para que o artista da palavra exerça sua atividade em condições ideais. Nesse meio tempo, o camarada precisava dar uma oficina para a comunidade local, como contrapartida. Negócio simples e até barato, comparando com outras atividades culturais mais mirabolantes. Como se tratava de um piloto, havia a natural desconfiança da instituição diante da novidade, e de cá a preocupação em algo dar errado. Felizmente, a oficina acendeu a escrita em pelo menos duas dezenas de pessoas e o escritor terminou o romance, livraço cujos originais estou lendo e, acredito, vai ganhar estrada.

Hoje é domingo e não deveria falar de trabalho aqui, pois este espaço é a minha hora do recreio para dos dedos e para a cuca, por isso peço à leitora que perdoe o relatório de atividades. No entanto, esse projeto me trouxe uma reflexão bastante recorrente entre os colegas de ofício, a respeito das variadas condições de vida dos escritores.

Em tempo: o autor é o Ronaldo Bressane e o romance dele se chama Escalpo.

Há quem diga, e defenda com unhas e lápis, que a escrita é uma atividade não merecedora de remuneração, pois se trata de uma arte situada acima das “leis de mercado”. Assim, para não se deixar influenciar por elas, o escritor não deve depender de subsídios externos, como bolsas ou cachês, tampouco contar com os minguados direitos autorais – para quem não sabe, os 10% do preço de capa que vão para o escritor, pingados em prestações de contas trimestrais ou com outra regularidade mais larga. A escrita – e esse papo é mais comum entre poetas – seria então uma arte pura, sobrenadando no lamaçal capitalista do mundo sujo.

(Faço uma bandalha à guisa de pausa digressiva para informar que, apesar do título da crônica, não vou tratar aqui em nenhum momento do livro homônimo do Christopher Vogler, nem de nada do Joseph Campbell, tampouco o esquema Sid Field, de modo que a leitora pode se sentir à vontade para abandonar a crônica e tocar a vida, caso seja essa a intenção ou esperança.)

Aceitar encomendas de textos literários, por exemplo, seria abrir mão da total liberdade desse hobby cristalino e se tornar um vendido ao sistema, ao deus-mercado. E se a obra em questão obtiver algum número maior de vendas que o retire da categoria cult (segundo o Millôr, uma coisa écult quando não possui adeptos suficientes para compor uma minoria), o escriba se torna muito mal visto entre os colegas, e em vez de parabéns recebe um ressentido tsc, tsc. O velho papo do sucesso como ofensa.

Na outra mão, muitos autores vêm buscando uma profissionalização do setor, ainda que não fique muito claro o que isso significa. Essas pauta abrange pontos que vão desde o questionamento à absurda ausência de cachês em eventos milionários, como as bienais de livros e a Flip até a criação de um fundo governamental para promover a circulação de autores. Sobre a primeira, creio que a alegação do não pagamento (“não se paga porque o autor vem para divulgar o trabalho dele”) é tão mequetrefe quanto a oportunidade ímpar dada pelo Metrô recentemente para que músicos se apresentassem de graça. É o mesmo pensamento das redes de escolas para alunos aquinhoados que convidam autores para animar as feiras do livro, podendo até levar os seus para divulgar, e lá chegando se descobre, com certo constrangimento, que só adotam livros do Ziraldo e internacionais.

Já a criação de fundo para circulação de autores, pelo que me lembro, nunca saiu do papel em larga escala e, pelo cenário de vacas macérrimas, não acredito que algo semelhante venha se tornar política pública.

Em meio a isso tudo, há a necessidade do almoço. E me vem a lembrança daquela famosa crônica do João Ubaldo Ribeiro, “O conselheiro come”, na qual o saudoso baiano reclamava do volume de trabalho gratuito que lhe solicitavam, e do quanto as pessoas se sentiam insultadas quando se falava em pagamento. É um quadro que não muda.

E me parece que estamos vivendo um momento mesmo de contenção, com o cancelamento de eventos literários, o bambeamento de prêmios e cortes de orçamento de tudo quanto é lado. Nessas horas, a leitura tão alardeada como atividade fundante para o país vai para o final da fila.

Enquanto isso, as coisas boas continuam acontecendo em outras frentes. Tenho visto jovens lendo e escrevendo como nunca, trocando ideias e textos, ignorando a crise macro e buscando seus leitores em redes sociais e fora delas. Temos escritores de todos os tipos (pop, universitários, experimentalistas, tímidos e extrovertidos) produzindo muito e bem.

E o desafio da jornada de cada autor está em conseguir esse difícil equilíbrio de pagar as contas tranquilamente, não se esquecendo de conselhos simples como este que o Stephen King nos dá no seu livro de dicas aos escribas: “A escrita não é para fazer dinheiro, ficar famoso, transar, ou fazer amigos. No fim das contas, a escrita é para enriquecer a vida daqueles que leem seu trabalho, e também para enriquecer sua vida. A escrita é para despertar, melhorar e superar.”

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Assunto crônica

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