Pescaria, Passo Fundo e o crime da Lagoa

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(Crônica publicada no site Vida Breve)

Ontem foi dia de pescar. Como sempre faço com o meu irmão, acordamos por volta das 4 da matina, vamos até o ponto de saída combinado e embarcamos na pequena traineira alugada. É uma tradição familiar da qual não queremos nos desvincular nunca.

Um ano mais velho, ele lida com outras coisas, não é desse mundo da leitura, mas sempre se empolga com livros ligados a esse tema, e ficou feliz pacas quando dei de presente “O velho e o mar”, do Hemingway, “Moby Dick”, do Melville (tanto a ótima adaptação do Cony quanto a edição completa) e, recentemente, “A caneta e o anzol”, coletânea de histórias de pescaria, do nosso Domingos Pellegrini. Na fila estão o “Mar morto”, do Jorge Amado quando jovem, e um “Os trabalhadores do mar”, do Hugo e, de repente, uma “Odisseia”. O lance é ir jogando as iscas. Vai que fisgo.

De dentro da baía de Guanabara, entre uma mancha de óleo e outra, vemos um Rio de Janeiro lindo, que parece em paz. Outro dia o secretário de Meio Ambiente mergulhou ali para mostrar a todo mundo que o local é propício para as provas de vela das Olimpíadas, mas ele fez isso na hora da maré subindo, quando entra a corrente limpa do oceano pelo meio da baía. Mais uma conversa fiada de político.

A cidade está longe, muito longe de qualquer limpeza dentro e mesmo na borda das suas águas. Todos ficaram alarmados com a morte de um médico, esfaqueado brutalmente após ter sido assaltado na Lagoa Rodrigo de Freitas, um dos cartões postais cariocas. A mancha de sangue ficou mais feia naquelas margens porque o assaltante é um garoto de 16 anos, com uma longa ficha de crimes, e por cruel ironia a família é beneficiária do Minha Casa Minha Vida e Bolsa-Família, programas tecnicamente bem-sucedidos de alimentação e moradia do governo. E é claro que no dia seguinte a Lagoa estaria cercada de carros de polícia, numa estratégia tão certeira quanto as visões da Mãe Dinah, que previa os fatos sempre depois que eles aconteciam. Tem algo errado nisso tudo.

E não deixo de, corporativista da leitura que sou, associar essa mancha toda à falta de leitura. Outro crime, que não levará ninguém à cadeia mas deveria, foi o anúncio do cancelamento da Jornada Literária de Passo Fundo, ao mais efetivo evento de formação de leitores do país. Fui a duas edições de lá e, comparando com a Flip (em que fui a todas), é algo realmente de mais profundidade, que talvez tenha conseguido mais resultados porque acontece há mais tempo (desde 1981, bienal) numa cidade não turística, no interior do Rio Grande do Sul. Vá lá, a Flip é um barato também e talvez seja injusto comparar.

A Jornada foi interrompida por falta de patrocínio. Não falta grana para muita coisa, mas quando parece que o cinto vai apertar sempre são limadas as iniciativas que dão resultado mais efetivo, ainda que de longo prazo, e, talvez, seja justamente por isso. As empresas querem associar suas marcas a ídolos do momento, que ajudem a vender seus produtos a massas de consumidores pouco críticos e chatos, não a gente de cuca mais aberta e questionadora.

Em Passo Fundo se leem 6,5 livros por ano. A média do país é de 3 a 4, considerando a leitura obrigatória. Espontaneamente é um livro só. Acho que em todas as cidades acontecesse uma jornada como a de Passo Fundo, crimes como o da Lagoa talvez acontecessem com menor frequência. Como saber? Sei que temos uma baía e uma lagoa, tudo muito bonito, mas ainda passamos raso.

Depois de um dia inteiro numa pequena embarcação, acho que o labirinto de dentro do ouvido continua adaptado ao movimento do mar, de modo que o corpo permanece balançando involuntariamente.

Espero que a lembrança do que aconteceu nesses 30 anos em Passo Fundo continue também embalando os leitores daquela cidade. Disseram que vão repensar o formato para 2017. Enquanto isso, torço para que cada pessoa que contava com o evento cultive a sua própria jornada, oferecendo a boa experiência da literatura para si e para os próximos. Mesmo porque isso independe de governos e patrocínios.

Que a leitora me perdoe pelo clichê: mesmo quando a maré não está pra peixe, o lance é continuar jogando umas iscas. Vai que…

 

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Assunto crônica

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