Meu coração é o Mercadão de Madureira

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(Crônica publicada no site Vida Breve)

Não vem não, pra cima de Madureira só Cascadura!, dizia sempre, com o dedo em riste, uma tia que já se foi.

Voltar a esse bairro é sempre uma aventura que tento evitar. Não curto muito mergulhar naquela profusão de gente, carros e sacolas, tudo engalfinhado e se atropelando. Nos últimos anos, me parece que surgiu uma glamourização da vida suburbana carioca, mas acho que se deve também a certa crise identitária da Zona Sul, iniciada justamente quando a classe média alta perdeu um pouco da pose, buscando novas perspectivas além-túnel. O que não significa que a maioria da galera da Zona Norte e adjacências tenha deixado de sonhar com o Leblon das novelas. A grana do vizinho é sempre mais verde.

Essa ficha me caiu quando, num bar da modinha, a mauriçada estava cantando o trecho de uma música conhecida: “daqui do morro eu não saio não”, a famosa “Opinião” do Zé Keti. Todos felizes pacas na sua simulação verbal de pobreza. Acho que respondi indignado: pois é, vocês só vão no morro para se abastecer de baseado. Mas acho que tinha bebido umas e outras – álcool, outra droga pesada – e provavelmente estava falando sozinho.

Zé Keti, oriundo de Inhaúma, suburbão do Rio. Apelidado na infância de Zé Quietinho, que deu Zé Quieto e por fim Zé Keti. Viva ele!

Voltar ao subúrbio ou conhecê-lo se tornou uma experiência meio antropológica para a turma mais aquinhoada, com direito a vans e seguranças, para se respirar o legítimo ar do povo. É sair do apartamento para a casa, descer do play e brincar na rua, da quadra à várzea, trocar o vertical pelo horizontal, e outras analogias. As quadras das escolas de samba de Madureira são os oásis onde brotam esse sentimento de raiz.

Lembrança: no calçadão, ali em frente ao Império Serrano, ao lado da estação de Magno, foi onde consegui o primeiro trabalho, numa barraca de cachorros-quentes. Mas lá na quadra mesmo nunca entrei e hoje é um tipo de turismo que não me diz muito. Prefiro o Parque Madureira.

Mas antes que a leitora me acuse de renegar as origens, elucido: sou de Seropédica, mas logo fui desbravar o mundo e minha formação se deu toda entre a Pavuna e Irajá. Quando morei em Madureira, entre 12 a 15 anos, a onda era ser malandro, ou pelo menos parecer. Todavia, era tímido demais (Henri Keti?) e não me enquadrava.

Quando nos mudamos para Jacarepaguá, onde permaneço, não quis mais saber daquela bagunça. “Todo o mundo é composto de mudanças / Tomando sempre novas qualidades”, sonetou o Camões, que nunca foi a Madureira. Mas Madureira sempre esteve lá, me esperando. E apesar de toda a resistência, lá fui por esses dias, a fim de comprar uma churrasqueira. Nesses tempos bicudos, pagar um pouco menos supera qualquer implicância bairrista. E logo me vi mais uma vez perdido no labirinto borgeano do Mercadão.

O Mercadão de Madureira é ao mesmo tempo paraíso e inferno. Nunca um purgatório. E você mergulha e se dilui naquela profusão de gente, itens de festa, doces, temperos, animais para consumo e sacrifício, imagens de demônios bronzeados com quase dois metros, segurando tridentes, que ainda me dão medo e evito encarar, com medo de que deem uma piscada.

E cabe lembrar: Madureira é imune a qualquer raio gourmetizador. Amém, e que continue assim. Assumo rimando que saí de Madureira mas Madureira sempre vai estar em mim.

Por isso é que agora, inaugurando a churrasqueira, olho para a minha mulher com cara de falso malandro e falo a gracinha de domingo em formato de slogan: Meu coração é o Mercadão de Madureira, vem ni mim no varejo que eu te atendo no atacado.

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Assunto crônica

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