Nave mãe

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(crônica publicada no site Vida Breve)

Escrevo esta crônica ora nas manhãs de sábado, quando o descompromisso com o cotidiano ordinário traz o lampejo tão aguardado, ora numa hora qualquer dos domingos, quase sempre entre os afazeres regados pela certeza inexpugnável de que a semana já acabou e, eterno retorno, vai nos sisifando com as nossas pedras para o topo da montanha. Esta aqui foi escrita nos intercursos de mais um dia das mães.

Durante muito tempo, em especial na infância, a presença da mãe é algo fundamentalmente protetor – hoje acho que é formativo, dado que muitas funções tradicionalmente masculinas também estão sendo exercidas pela mulher –, e me parece que, pelo menos para elas, parte desse instinto permanece durante a vida inteira. Mas também, quando se cresce, estar com elas significa quase sempre dialogar com o que há de mais essencial nas nossas origens.

(E não posso deixar de me lembrar daquela frase do Woody Allen, que é mais ou menos assim porque estou catando de orelhada: “Descobri que meu problema é esse desejo de retornar ao útero, qualquer útero.” Que nietzschiano esse judeu!)

Mas antes do parágrafo digressivo picaresco, dizia que o retorno às nossas origens é tão importante que não consigo pensar a vida sem a referência, real ou imaginada, de um tipo de nave mãe de onde todos brotaram se seguiram suas trajetórias, construindo ou desbravando o próprio universo.

Comemos peixe hoje. Meu irmão, um ano mais velho, gosta muito, e eu também estou longe de recusar. Imediatamente, entre uma garfada e outra, voltamos para as pescarias com o pai, que já embarcou para o oceano infinito. As últimas, nós já adultos, eram em traineiras alugadas, pela costa, na baía de Sepetiba ou em alto mar. Mas as primeiras foram no rio Guandu, cujas margens frequentamos até os meus dez anos. Saíamos para pescar e minha mãe aguardava em casa para, resoluta e apaixonada, limpar os peixes, que nem naquele poema da Adélia Prado.

Falar em poesia, abro sem muito compromisso – que é o melhor jeito de ler – um livro do Manoel de Barros, o da Terceira Infância: “Minha mãe me deu um rio.”

Certa vez assisti a uma palestra no trabalho, daquelas de motivação profissional, codinome de autoajuda. (As empresas ainda não se deram conta de que funcionários não se motivam ouvindo papagaiadas, especialmente quando descobrem que o cachê recebido pelo palestrante por uma hora de conversa fiada é maior que o salário médio da corporação.) Entre as inúmeras obviedades que o pensador corporativo disse, só uma teve valor. Dizia que, diante de uma dúvida, convém pensar se a decisão deixaria a mãe orgulhosa. Talvez fosse uma saída se o superego de políticos e outros poderosos soasse o alerta: “Se você fizer isso vou contar pra tua mãe!”

Não é assim que rola. Por isso o cuidado, o critério nas escolhas e a orientação para o certo vão se perdendo na certeza dos adultos. O indivíduo pronto e acabado, coroado de certezas, corre o sério risco de se tornar algo muito distante do que a mãe esperava. Talvez, mesmo que se torne uma pessoa bem-sucedida financeiramente ou em outro aspecto, em algum momento da vida vai parar e se dar conta: eu falhei.

A sabedoria popular diz que coração de mãe não se engana. Por isso hoje eu e meu irmão retornamos à nave mãe. Precisamos sempre cuidar para que o rio que ela nos deu seja piscoso, porque toda mãe é o milagre da multiplicação. E sobretudo para que, ao cruzar com outros e produzir novas correntes, nossos rios sejam de águas claras, limpas e navegáveis.

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Assunto crônica

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