Velocidade de dobra

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(Crônica publicada no site Vida Breve)

Como a leitora está cansada de saber, a vida tem sido corrida pacas.

E por isso mesmo é que ganham mais relevo aquelas ocasiões que desafiam essa locomotiva do cotidiano, como se fossem alertas que o próprio tempo faz questão de nos lembrar. Tem aquele livro do filósofo francês Gaston Bachelard, chamado a “A intuição do instante”, segundo o qual a percepção cronológica se dá pelo que percebemos dos momentos significativos, como se o tempo em si (chamado de duração) fosse um tapete longo e abstrato sobre o qual conferimos sentido pelas singularidades descontínuas.

E nisso palavras e ideias seguem umas sobre as outras, em desdobramentos.

Um deles foi o lançamento do livro de crônicas “Na dobra do dia”, do meu amigo e colega aqui de Vida Breve Marcelo Moutinho. No meio das pinceladas líricas sobre o cotidiano, estão ali registros de instantes, fotografias (instantâneos) que o olhar e a cuca teimam em capturar. E a dobra do dia, como diz a primeira crônica, é justamente esse momento em que não é dia nem noite, nem manhã nem tarde: é quando nossa percepção do tempo vira uma esquina.

E não serão todos os livros uma forma de se capturar esse outro tempo num invólucro? Há muito que ouço a frase que baliza campanhas de incentivo à leitura: ler é uma viagem. No entanto, mais que o transporte num outro espaço, qualquer livro abre um tipo de portal do tempo. E não digo somente uma viagem para o tempo de uma narrativa, recortado pelo autor para comportar uma história, pois se trata de um dos recursos técnicos básicos para escrever prosa. Mesmo a crônica, etimologicamente ligada ao datado, pode se aproximar do mesmo tipo de transporte provocado por um cheiro que se sentia na infância, por exemplo. Penso que o próprio correr de olhos numa sequência de palavras nos suspende dos compromissos assumidos com a nossa cronologia para dentro desse outro tempo.

O tempo da leitura é uma autopermissão de transcendência.

Li nesta semana que físicos estão realizando testes, e parece que a viagem em velocidade próxima à da luz deve se tornar possível em breve. A velocidade de dobra, para quem não faz parte do universo de Star Trek, consiste no entendimento do espaço como um plano que pode ser deformado, fazendo com que o que está à frente se comprima e que já passou se expanda, criando um tipo de onda. E como espaço e tempo são a mesma coisa, um motor de dobra permitiria que a nave, envolvida numa bolha, surfasse até mais rápido que a luz.

Que viagem.

Acho que, mesmo tropeçando aqui e ali, a evolução humana caminha rumo aos sonhos da espécie. Não duvido que, em algumas décadas, uma nave como a USS Enterprise seja realmente construída, com todas as suas propriedades e capacidades técnicas. Tablets, celulares e outros aparelhos foram desenvolvidos sob a inspiração da ficção científica. E, pegando de paráfrase o poema “O homem, as viagens”, do Drummond, acho que em vez de encontrar vulcanos e klingons, talvez seja possível que a raça humana descubra um pouco mais a si mesma, nesse incrível negódi conviver.

O filósofo francês Gilles Deleuze (peço perdão por citar dois filósofos franceses numa mesma crônica, assumindo o risco de tornar o texto besta) desenvolveu uma teoria tão complicada quando importante sobre a dobra, que em muitos momentos faz contato com a possibilidade da viagem. Diz ele que “o universo é como que comprimido por uma força ativa que dá à matéria um movimento curvilíneo e de turbilhão, segundo uma curva sem tangente no limite”. Mas convém dizer que ele está se referindo ao Barroco, não às aventuras do capitão Kirk e sua galera.

E por fim, volto à grandeza da poesia, na sua capacidade clara de desenhar o tempo. Por isso, termino a primeira crônica deste mês com trecho do poema intitulado “Maio”, da jovem camarada Alice Sant’Anna: “mas maio se mantém meio / bambo na corda, se espirra / cambaleia, em maio dá vontade / de dormir até mais tarde.”

Está no livro chamado “Dobradura”.

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Assunto crônica

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