Rio de nós mesmos

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(crônica publicada no site Vida Breve)

Há uns anos – e a leitora agora já fica na dúvida se estou pescando algo da memória mesmo ou se é coisa inventada, uma vez que não faz muita diferença, pois raramente alguém sai a campo para averiguar a veracidade de fatos descritos numa crônica –, um texto do Millôr Fernandes abria o salão de humor na Casa de Cultura Laura Alvim, dizendo “o Rio de Janeiro continua rindo”.

Nesses 450 anos da cidade, vale lembrar de um aspecto importante, ora positivo ora negativo, que marca a chamada carioquice: o humor. Aquoso por ser litorâneo, sardônico porque é – embora já tenha sido mais – contra o poder, flexível porque precisou se adaptar a uma geografia de sobe-e-desce, o riso no Rio de Janeiro é marca tão inconfundível que alguns chegam a definir a crônica como uma categoria encontrou na cidade o solo mais fértil desde que começou a ser escrita no país. Desconte-se o fato de que, por ter sido capital, onde a imprensa nacional se centralizava, escritores em geral migraram para cá, entre eles os de humor, como o Barão de Itararé (Apparício Torelly). Eles se somaram aos nativos, como Stanislaw Ponte Preta, pseudônimo de Sério Porto que, assim como o Barão, de tão relevante, fez a criatura se tornar mais conhecida que o criador.

O chamado jeitinho brasileiro continua impregnado no comportamento carioca, atualizando-se a cada modismo e tecnologia, mantendo ainda a ideia de que, por aqui, a transgressão é a norma e vice-versa. E vice-verso, pois as inversões de papéis e sentidos são a argamassa da construção literária do humor. A maneira escorregadia de pensar, a sociabilização pela via anedótica, a adoção quase automática de uma postura irreverente criaram um ambiente propício para se olhar a vida com esse olhar irônico e contestador, mesmo quando a importância da capital foi levada para longe e se instaurou o regime ditatorial. Tá lá o Pasquim, que burlou isso tudo e mudou a imprensa.

Mas não sei, do outro lado ficou um estereótipo. Uma coisa é ser um malandro carioca à la Chico Buarque, erudito, zona-sulesco sem a prepotência elitista, uma unanimidade não burra. De outro, o contraponto que se fez com os paulistas, mais sérios e profissionais, cuja pressa é tão grande que muitas vezes não sobra tempo para o segundo beijo ou o S dos plurais. Recorro às aspas de Lívia Barbosa, no seu livro O jeitinho brasileiro, no qual ela retrata a contraface das cidades irmãs:

“Enquanto o primeiro ou é bem-humorado, simpático, boa vida, piadista, preguiçoso, gosta de samba, chopp, praia, mulher e carnaval, desenvolveu uma particular ojeriza pelo trabalho e não é uma potência econômica, o segundo representa os valores opostos. Em primeiro lugar, é trabalhador, bem-sucedido economicamente, seguidor das leis e das normas, mora numa cidade sem sol e sem mar, fria e cinza, onde tudo funciona eficientemente e ainda por cima carrega o Brasil nas costas.”

Por falar em livro, me lembro do ótimo romance Barba ensopada de sangue, do gaúcho (mas que passou boa parte da vida em São Paulo) Daniel Galera. O livro é recente, de 2012, e a história se passa em Garopaba, litoral catarinense, alguns anos antes. Em certo momento, aparece um personagem que nem chega a ser secundário, quando há um passeio de bote para turistas, e o guia explica que há alguns anos as baleias eram caçadas ali com arpões contendo dinamites, chamados de bombilanças. Os passageiros admiram a beleza e a graça de uma que passa sob eles, e um típico carioca faz a gracinha típica: “Ih rapaz, esqueci a bombilança em casa”. Não se trata de um estereótipo, pois a situação seria bem plausível e não duvido que Galera tenha ouvido coisa parecida quando viveu em Garopaba alguns anos antes de escrever o livro.

Volto aos 450 anos da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro e avanço mais cinquenta, imaginando se, ao completar meio século de existência, teremos encontrado algum equilíbrio. Seria muito ruim encontrar uma cidade na qual o jeitinho se retroalimenta exagerada e incessantemente, transformada numa distopia cyberpunk esculhambada. Mas também não posso imaginar a extinção do humor carioca, resistente no politicamente incorreto de cada dia, avesso à rigidez de pensamento cada vez mais preocupante, como se vê, por exemplo, nas frequentes manifestações de saudades de ditaduras e mesmo nas dificuldades de se entenderem ironias nas redes sociais. Espero que encontremos um meio termo nisso tudo.

Parabéns ao Rio de Janeiro, cidade onde nasceu o homo ludens.

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