De Volta ao Vida Breve

Tiago_Silva_VB_24_fevereiro_15ilustração: Tiago Silva

Crônica publicada no site Vida Breve.

TEMPVS FVDIT

Sed fugit interea fugit irreparabile tempus
(Mas ele foge: irreversivelmente o tempo foge.)
Virgílio

Bom dia, leitora. Digo leitora porque, assim como acontecia com nossos cronistas e folhetinistas do século 19, parece que as mulheres ainda são maioria entre os leitores. Isso se dá por razões diferentes que nem a pau (opa) vou discutir aqui. O importante é que as moças leem mais e, por isso mesmo, melhor. Ainda bem. E mesmo dando conta dos afazeres cotidianos, responsabilidades com trabalho e família, o cuidado natural com cabelos, unhas et coetera, elas ainda encontram tempo para se dedicar à antiga e serena prática da leitura silenciosa.

Todo esse nariz de cera batidamente sexista foi uma distração, leitora. Não posso falar muito de você, que é um múltiplo mistério a quem essas letras encadeadas aqui prestam sincera vassalagem. A ideia foi puxar a brasa para outra abstração que é a matéria básica de todos os textos publicados neste site todos os dias: o tempo. Porque se a vida é breve, a crônica é mais ainda.

Tempo é a vida de morte: imperfeição. Essa é do Guimarães Rosa, creio. Seria de Drummond, Clarice, apenas apócrifo, mas o Facebook diz que é do Jabor? Diga aí. Sei que retorno à crônica semanal já caindo no — batido, mas poxa, como se renova — exercício da metalinguagem de Chronos. Contudo, ele parece que tem se encurtado tanto nos últimos anos que, a meu ver, deixa cada vez mais de ser o trilho por onde seguimos e passa a ser o próprio trem que desejamos construir.

Ouvi outro dia um poema, acho que da Viviane Mosé, no qual se falava: “quem anda me comendo é o tempo”. Tempus fudit? E logo me lembrei de um soneto do Laurindo Rabelo — poeta do século 19, magro, desengonçado e afiado na sátira, que era chamado de Poeta Lagartixa e merece crônica à parte —, cujos tercetos dizem:

Oh! vós que tendes tempo sem ter conta,
não gasteis esse tempo em passatempo:
cuidai enquanto é tempo em fazer conta.

Mas, oh! Se os que contam com seu tempo
fizessem desse tempo alguma conta,
não choravam como eu o não ter tempo.

É fácil concluir que a falta de tempo se tornou um grande problema, justo quando a expectativa de vida aumentou pacas e surgiram mil tecnologias que prometeram facilitar as nossas vidas. Tem algo errado nessa equação irônica, mas não sou matemático ou físico para resolvê-la. Só nos resta palavrar a correria e alertar, para os outros e nós mesmos: segura a onda, moçada, que só existe o amanhã de ontem.

Mas sem física ou matemática, fica a poesia. Volto aos meus tempos de faculdade, quando lia sonolento aqueles manuais teóricos, e vem uma frase: o lírico é atemporal. Talvez, algum dia, quando a realidade prática e produtivista for tão ditatorial que o tempo será buscado como uma relíquia, encontrem na literatura uma forma reordenada, preservada no gelo dos livros, de se encarar a vida.

E aí, cara leitora, em vez de se buscar afoitamente uma locomotiva mais possante (é caro), ou se conseguir ainda mais trilhos (impossível se você não for Ponce de Leon), talvez a saída mais simples seja queimar menos carvão, diminuir o ritmo e abrir uma cerveja.

 

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Assunto crônica

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