Reality show literário

(crônica publicada no site Vida Breve)

Ilustração: Tiago Silva

Ilustração: Tiago Silva

Após insistentes tentativas do departamento de márquetim (a casa fez pesquisa e descobriu que os leitores gostam das coisas em bom português, daí verteram tudo para a última flor do Lácio, como recebi um fidibequefulano tá no estafe mitim e olha o eslaide do banchimarque) da editora X, o escritor P. V. Cirilo, uma das grandes revelações literárias dos longínquos anos 00 e hoje em franca e previsível decadência do alto dos seus 34 anos, topou participar de um reality show. “Não cedo a pressões do mercado: eu controlo e sou o mercado”, afirmou humildemente em entrevista. “Acredito que a exposição da minha persona literária satisfaça a curiosidade dos leitores, com quem não me importo, mas que também, é bom lembrar, estão sob o meu controle”, encerrou, esboçando um sorriso enquanto ajeitava os imensos óculos escuros, embora estivesse chovendo e em local fechado – e não conta que portasse conjuntivite. Ainda em fase de testes, tivemos acesso ao piloto do projeto, e decidimos revelar em primeira mão o que aconteceu ao longo de um dia naquilo que recebeu o nome provisório de Cirilo dei bai dei.

9h23

Cirilo acorda, senta-se na cama, parece estar com ressaca por ter bebido demais na noite anterior, bebe um copo d’água e volta a dormir.

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10h47

O jovem dá um pulo da cama gritando “Não, primeiro eu!”. Recobrado do recorrente pesadelo no qual concierges de grandes eventos o abandonavam numa sala escura, decide se levantar. Vai para o banheiro.

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11h18

Após as abluções, Cirilo lê os jornais do dia e uma revista em quadrinhos enquanto bebe café.

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12h07

O escritor decide que é hora de trabalhar. Lê e responde e-mails, posta umas frases tiradas aleatoriamente do Dicionário Universal de Citações, e por fim vai para o Word.

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13h31

Empacado numa das primeiras frases, vira o monitor para o lado, imaginando que as câmeras não pegariam, entra num game de matar zumbis. “Preciso de inspiração”, justifica-se.

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15h47

Depois de morrer várias vezes numa fase e xingar demasiadamente, recebe uma ligação do editor perguntando se está tudo bem. Responde que sim, dá um ALT+TAB e volta para o texto.

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16h14

O zoom revela que há uma frase parada perto do fim, aguardando um advérbio.

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16h57

Transtornado, Cirilo dá um soco na mesa porque não encontra um advérbio.

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17h01

Sai do computador e almoça, enquanto assiste a “Teorema”. Larga o prato, corre para o computador e posta “Revendo um Pasolinizinho”. Assim que acaba de comer, cochila.

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17h14

Acorda assustado quando, enfim, alguém fala algo no filme. Instintivamente, muda de canal e assiste a um episódio de série sobre zumbis. “Preciso me inspirar”, diz novamente.

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17h53

“Carai, que roteiro! Que curva dramática! Que coisa humana!”, afirma ao final do episódio. Tomado de entusiasmo, retorna ao texto e escreve duas laudas de uma tacada só.

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20h17

Cirilo apaga metade do que escreveu, dá um soco na mesa e começa a chorar. Toma um remédio de tarja preta.

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20h31

Um amigo o chama no bate-papo. Cirilo vira a tela para o outro lado, certo de que dessa vez não será filmado. Mas é revelado que conversam sobre fofocas literárias, discos voadores e, por fim, o amigo envia um link de um site de gostosas. Cirilo corre para o banheiro.

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20h36

Após prestar tributo a Onan, P.V. Cirilo toma um banho e sai do banheiro relaxado, vestindo um hobby, como se tivesse acabado de nascer. “Estou esgotado, por hoje chega”, fala para a câmera. Pega uma cerveja no frigobar, uns snacks e dá uma zapeada na programação.

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01h48

Cirilo desperta num átimo ao derrubar uma das muitas garrafas vazias. Enquanto vai cambaleando para o quarto, fala que teve uma ideia genial para o novo romance, envolvendo anões, lasers e uma jovem órfã. Dorme.

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Assunto crônica

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