Liquidando o casamento

(crônica publicada no site Vida Breve)

Ilustração: Tiago Silva

Ilustração: Tiago Silva

 

“Há pessoas que se casam em comunhão de males.”
Verissimo

 Foi uma vez e já faz tempo. Em nenhuma das vezes em que o meu ônibus passava em frente ao cartório eu costumava reparar nele. Talvez por ser aquele lugar um antro de burocracia, coisa da qual a minha mente procurava distância após o trabalho. No entanto, devido a um acidente ocorrido mais a diante, o trânsito deixou de transitar por uns minutos, e pude então fixar os olhos no que se passava lá fora (olhando da janela do ônibus, temos aquela sensação de Deus só porque ficamos um pouco acima, feito passivos observadores). Não sei se aconteceu somente naquele dia ou se era uma prática rotineira, mas pareceu-me esquisito o cartaz na frente do cartório em que dizia

Promoção da semana: casamento

de R$ 279,00 por R$ 99,90

Era espantoso. Não o fato de o desconto ser imenso, mas a extensa fila que se formava. Agentes matrimoniais — que àquela hora passavam a ser também patrimoniais, por assim dizer — instalaram pequenas bancas na calçada oferecendo seus serviços. Pessoas vinham de todas as partes, acompanhadas ou não, de todos os sexos e opções possíveis, interessadas em aproveitar o preço, já que hoje em dia não se pode perder uma liquidação. Os que vinham sozinhos faziam acordo com outros igualmente solitários, formando casais de aparência, que iriam apenas assinar a papelada e depois seguir cada um para seu lado, felizes por terem aproveitado a oferta. A ocasião faz a promoção.

Quando a fila do cartório superou a da lanchonete fast-food que funcionava ao lado, os funcionários (do cartório, obviamente) se deram conta de que atuavam no segmento do fast-marriage. E o tabelião sorria satisfeito enquanto maquinalmente carimbava sua assinatura nas certidões, que formavam pilhas, enquanto o supervisor dava gritos de incentivo à equipe: “Vamos matar essa fila, galera! Atende o próximo! Vamos bater a metaaaaaaaa!”. Uma menina adiantava os processos na fila e anotava os pedidos: 1) comunhão universal de bens, 2) declaração de união estável, 3) separação parcial de bens ou 4) participação final nos aquestros. E já colocavam uma cartolina com as opções, sobre as quais constava “Peça pelo número!” Um casal recém-formado ali na fila perguntou se era possível montarem um combo especial tirando a sogra, que seria o picles da relação.

Ouvi uma mulher dizendo que já era a terceira vez que voltava ali naquela semana, e outro comentando que iria jogar no cartão em dez vezes. Não sei, creio que esse pessoal estava acumulando um tipo de gordura trans. Mas na calçada também havia umas quatro pessoas que se manifestavam contra esse sistema, e creio que deveriam ser meio abstêmios, pois gritavam o que estava escrito nos cartazes: “Casar é desumano, negócio é ser vegano!”. Misturaram tudo, numa confusão só.

Eu estava no ônibus, só de passagem, com a minha então solteirice convicta e ratificada. Para aproveitar o preço baixo de valeria a pena abrir mão das benesses de uma vida desregrada? Como bom estrategista, fiz incontinenti umas contas e concluí que sairia no prejuízo em médio e longo prazos, e preferi não optar pelo saldão. Tão logo o trânsito estivesse limpo e novamente correndo, um dos casais subiu no ônibus, sentando-se no banco à frente do meu. Alguns minutos depois começavam a discutir e até pipocaram tapas, vindos de ambas as partes.

Mas quando o trânsito parou na outra esquina, vi como funcionam as leis de mercado. Uns advogados corriam descalços (mas com ternos) entre os carros, distribuindo seus cartões e gritando “Desquite, separação, divórcio, pensão! É pra acabar e eu ir pra casa!”. E afinal não sei se eram também funcionários do cartório, fazendo — com o perdão do trocadilho — venda casada.

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