PERCA TOTAL! — Um jornal com princípio, meio e fim

(crônica publicada no site Vida Breve)

Ilustração: Rafa Camargo

EDITORIAL

Nosso cartaz nas manifestações: PELA IDEALIZAÇÃO DOS PAPÉIS E DESPAPELIZAÇÃO DAS IDEIAS.

OPINIÃO

NÃO ME CHAME DE CHUCHU, ME CHAME DE TOMATE                                                  

Não é de hoje que indivíduos têm o hábito de se referir a outrem por “chuchu”, de forma terna. Ora, o que é o chuchu? Ele não passa de um legume sem personalidade, um maria-vai-com-as-outras, que pega o gosto de qualquer outra coisa que se apresente ao lado. Camarão, cereja, água sanitária, tudo agrada o chuchu. Ele não se impõe enquanto sabor. Sim, há os defensores, argumentando que ele, por ser muito aquoso, ajuda na digestão e é melhor do que comer bebendo água. Mas até nisso a melancia dá de dez. Linguisticamente, soa agradável chamar alguém por duas sílabas iguais (mamãe, papai, titia, Iaiá etc.), daí o sucesso do chuchu como apelido. A questão, no entanto, é o que ele significa, o que pode haver por trás de um vocativo carinhoso. Portanto, cuidado! Ao ser chamado por chuchu, podem muito bem estar dizendo que você não passa de um ser insípido, sem graça e inexpressivo.

CRÍTICA CULTURAL

Performáticos de toda ordem: a maior experiência não é o choque. É o choco.

PROJETOS CULTURAIS RECUSADOS PELA ROUANET

O Projeto Van Gogh, desenvolvido pela ONG Ler-o-lero, era baseado na distribuição de orelhas de livros para semialfabetizados (é como o Governo chama os semianalfabetos). A intenção foi permitir que as orelhas fossem devoradas para estimular a pseudointelectualidade na choldra, visto que os indivíduos bem-sucedidos nunca leem o miolo das obras que alegam conhecer. Equivocado desde o início, o projeto chegou ao fundo do poço quando recebeu comunicado oficial do SUS, incapaz de atender as crianças que chegavam engasgadas com as orelhas de Harry Potter.

COMPORTAMENTO

Pessoas afáveis ao extremo, cuja empatia as impele a falar dando leves toques no interlocutor; indivíduos mui atenciosos que não hesitam em conversar gritando como se o outro estivesse a vários metros; militantes do pernosticismo que falam alto demais para que terceiros ouçam; entusiastas do infinito que beijam mais que duas vezes; amorecos efervescentes de carinho dispostos a tudo para convencer do que quer que seja; criaturas de seda bem intencionadas o suficiente para compartilhar perdigotos; missionários da ternura para quem não há limites entre o próprio corpo e o alheio; gaiatos intermitentes seguidores da veia performática, ainda que para uma comunicação simples; peripatéticos da subjetividade que sobrevivem à revelia do bom senso.

BREAKING NEWS: PROFESSOR DIABÉTICO ATINGE A LIVRE-DOCÊNCIA

“Não foi necessário fazer * doce para alcançar essa vitória”, gaba-se o mestre Glicério, cuja mulher, a também professora Dulcina, vem buscando essa mesma conquista para o próximo Cosme e Damião. A filha do casal, Mel, se emocionou com as fotos do Sebastião Salgado e chorou soro caseiro.

AUTOAJUDA: ALÔ, VOCÊ, QUE VIVE NO OSTRACISMO

Liga não. Mais dia menos dia, quando toda a peixada já estiver moscando nos cascalhos ou definhando inerte no verdão do lodo, você corre sério risco de renascer em pérola e dar uma banana pros que estão boiando. Nem sempre é ruim ficar de molho.

FICÇÃO TWITTER — UM CONTO COM ATÉ 150 TOQUES

INDICADOR ANALÓGICO E DIGITAL — Ao visitar o proctologista pela 149ª vez, Amâncio ouviu do Dr.: “Mais uma e é você que entra para os anais da Medicina”.

HORA DO PROVÉRBIO:

1) Se muito gogó fosse garantia sabiá não virava emplastro.

2) De quiabo em quiabo é que floresce o nabo.

3) Quem nasceu pra rodízio nunca chega à la carte.

ANUNCIANTES:

Não morra na praia. Use NORMANDIA surf wear.

Beba SCHOPENHAUER — o que importa é a vontade. Filosofia de boteco, a gente vê por aqui.

Transportes HERÁCLITO — porque a única coisa constante na vida é a mudança. Desde 500 a.C. entre lá e cá.

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Assunto crônica

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