A festa literária do Delfin

(crônica publicada no site Vida Breve)

Estive em todas as edições da Festa Literária de Paraty. Na maioria, vim por compromissos de trabalho, e em algumas para participar de programações paralelas como autor. Mas desta vez, depois de dez anos, meu objetivo retornou ao privilégio único e leve da primeira edição: não fazer nada. Graças a Deus.

O evento sempre teve esse aspecto, devido ao cenário histórico da cidade, uma ilha tranquila situada entre duas metrópoles engarrafadas. Muito já foi dito sobre isso, e cada um que esteve aqui várias vezes guarda lembranças e causos únicos, num amontoado de micro-histórias de todos os tipos e sabores. Tenho minhas cenas preferidas. No primeiro ano, com o Eric Hobsbawn tentando se equilibrar nas ruas de pedras, outra em que o Salman Rushdie desandou a sambar numa festa, Adélia Prado fazendo todo o evento chorar com seus poemas, os depoimentos belíssimos dos saudosos Millôr Fernandes e Moacyr Scliar, além das aulas cheias de clareza e encanto de Antonio Candido e Cleonice Berardinelli. Além disso tudo, foi interessante ver escritores amigos que surgiram nesse período e se estabeleceram na cena literária, hoje publicados em outros países e com suas carreiras a todo vapor.

De certa forma, as pausas do meio do ano para vir aqui também funcionam como um ponto de costura para mim. Foi tomando um café que conheci alguns editores que arriscaram me publicar. Escrevi uns poemas do primeiro livro — A musa diluída — numa mesa de poesia, a partir de algo que a Claudia Roquette-Pinto falava, e outros numa mesa do restaurante em Cunha. (As mesas dos bares acabam sendo as mais produtivas: na primeira Flip, estava com os amigos Marcelo Moutinho e Rosana Lobo no Coupé, cujas portas foram fechadas e os funcionários se mandaram, nos abandonando do lado de fora sem nem cobrarem a conta.) Voltando aos poemas: ontem, anos depois disso, fui abordado por um jovem estudante de Letras da USP que fez monografia sobre esse livro, e senti que um ciclo bastante feliz se completou.

Mas acima de tudo, a Flip é o lugar dos encontros e reencontros entre a turma das letras. Tenho alguns amigos que conheci e praticamente só encontro aqui, e é sempre como se os tivesse visto na semana passada. Parece que nessa espécie de suspensão da descrença se cria um tempo que é interrompido quando acaba o evento e volta a correr normalmente um ano depois. Na primeira ou segunda vez conheci o Delfin, escritor e designer gráfico de Sampa, que anunciava ali na praça os livros das Edições K, pequeno selo que acabara de ser lançado por ele. Comprei alguns títulos, um dos quais até resenhei para o saudoso Jornal do Brasil. A editora não existe mais, o Delfin seguiu em frente com outros projetos, mas se tornou uma figura emblemática (alguns diriam até folclórica) da Flip, com seu sorriso franco e sempre antenado com tudo o que acontece na festa, além de um camarada divertido pacas. Acho que o Delfin, com a suprema liberdade com que se costura por entre as ruas de pedras, resume bem essa rede de afetos — mais que de apenas contatos — que se tece naturalmente por aqui.

De uns anos para cá, tenho me interessado menos pelos chamados grandes nomes do quadro oficial e mais pelas programações paralelas da Flip. Talvez porque privilegiam autores nacionais em vez de estrangeiros com muitas consoantes nos nomes. Mas também pode ser uma sintonia desregulada com o evento em si: posso ser equivocadamente ufanista e não estar acompanhando direito quem está em voga do mercado de fora, e que precisam ser sempre o foco do evento e justificar o internacional do nome, assim como não compreendo o sorvete da praça, que custa sete reais uma bola e quinze duas. Deve haver uma lógica que me escapa.

Daí a importância da grande margem. Nessa via paralela e acessível, prevejo o dia em que o Delfin, o nosso rei histriônico da Flip, vai assumir a frente do evento. Vejamos em 2014.

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Assunto crônica

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