eras aros e eu era eros

Publiquei semana passada esta crônica no site Vida breve.

Três pedaços de espelhos dos longínquos anos 00

1 – Apresuntei o terceiro cabra só nessa semana. Se a chapa esquenta na comunidade, normal eis que nos tamos. Sou rei aqui, mas sou família: traço a mãe tranço a filha. E da precaridade arrente vamo nos atalhos. Só tem atalho na comunidade, por onde escorre a farinha nossa de todo dia. O mundo dá muita volta: agora nóis é que vive do branco. É até legal ouvir o fragmentário toc toc pelas cercanias. Tomba um dois três, logo mais é minha vez? Meu cumpadi: se não for mano logo logo aponto o cano. Soltei pipa, andei de rolimã, mas nunca me contentei em não poder jogar bola de gude na comunidade, que rolavam todas ladeira abaixo. Peguei doce todo ano, hoje eu é que mando bala. Vou pro baile, é só o que arrente tem, pulo nas tchutchucas tudos meu neném. Mas não gosto das letras das músicas, falta poesia. Sou meio poeta. Foi a professora que falou, mas depois pediu demissão porque a galera não cooperava. Vou te tocar uma real: vai chegar o dia em que o asfalto vai virar morro e o morro vai virar asfalto. A propósito, mão pro alto… Ih, tenho que ir embora que a minha mãe tá me chamando; na base da porrada ela é a chefe do meu bando.

2 – Agora veja você no que deu pintar sobre o meu quarto aquelas flores imaginadas por não sei bem quem. Talvez eu, alheio à própria capacidade de reciclar os sóis que adentravam pelas janelas mais que abertas, não dispusesse de tamanho regozijo como aquele oferecido por ti. Certa vez, colérico, mais-que-perfeito para cometer aquilo que você jamais saberia, possivelmente tenha dado o tiro de misericórdia nas palavras e tenha me encerrado nos porões do peito apenas te dizendo, de soslaio, como um vulcão adormecido para quem assiste mas com as vísceras inflamadas: “Me dá aquele futuro que prometeste, seu babaquara”. No que então você, sem a devida parcimônia mas ainda assim cercado de suficiente austeridade, tenha apenas me oferecido algum dinheiro para meia hora de lan house, para onde fui incontinenti e lá fiquei — provavelmente ainda estou lá —, sob os auspícios da alteridade, procurando a compaixão necessária antes de matar alguém com minha metralhadora de brinquedo tão prematuramente viril.

3 – entretudo, te sexo sem mais no que. eras garanhosa, toda de repente. e fui te lendo, ao léu, te lambo lembrando. toda não-se, tu. eu te falo, não me falhes. na pegada forte, olhar permeado de dislexias: piscava todas. fui murmuroso, te fiz dormir fetal com os acalantos, a base dos lendários contos de foda. ah, florálias frondosas, meus ais. revirávamos rasgantes, fluviais, sob o jugo extático das meias-luzes, tu-lasciva mexendo e remexendo no meu queijo. papa-fina, te papava e apalpava nas pupunhas. eras aros e eu era eros. queimas como quem com calma come a cama a caminho de camus. e então eu te ligava o meu atari só para brincar de come-come.

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Assunto crônica

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