Nissim Ourfali e a teoria da incongruência

http://www.youtube.com/watch?v=h3bywyknDT0

A investigação do fenômeno humorístico em épocas digitais exige uma abordagem que deve considerar uma série de diferenciais característicos dos nossos dias. Se pensarmos que a revolução digital vem provocando contínuas alterações na sociedade e na forma de se observá-la, e que o humor é uma necessidade humana e, portanto, faz parte desse caldo cultural, teremos um novo e amplo campo de análise.

Em todos os períodos da nossa história cultural, o humor lançou mão de todas as tecnologias disponíveis. O acesso a um grande número de pessoas e a velocidade com que a informação se propaga, somado os inúmeros recursos das novas mídias, fizeram com que um verdadeiro banquete do riso esteja servido para as massas. Dentre as muitas formas de manifestação humorísticas recentes, os chamados virais têm sido uma grande forma de riso instantâneo e amplamente difundido. O conceito do humor viral é derivado do campo publicitário, cujo objetivo é disparar peças com grande capacidade de replicação entre os consumidores, não muito diferente do tradicional boca a boca. No entanto, um diferencial de uma ação de marketing para um vídeo de humor viral é que, neste caso, não se busca vender um produto ou marca, e sim compartilhar aquilo que se ache engraçado. É o caso do “Nissim Ourfali Bar Mitzvá”, vídeo que entre agosto e setembro de 2012 vem sendo replicado ad nauseam, tendo sido assistido mais de dois milhões de vezes.

Como muitas vezes acontece nesse tipo de fenômeno, o vídeo não foi produzido para se tornar um viral. Trata-se de um vídeo produzido pela família do jovem Nissim para celebrar o bar mitzvá, cerimônia da cultura judaica que marca a maioridade dos meninos ao completarem treze anos. Segundo a produtora, o conteúdo do vídeo foi gerado a partir de um questionário respondido pela família, sendo que o próprio rapaz escolheu a música na qual sua história de vida seria baseada (“What makes you beautiful”, da banda pop inglesa One Direction). A família postou o vídeo no Youtube e retirou quando se deu conta de que a replicação saía do controle. Mas outros sites já haviam replicado e não havia mais como controlar a disseminação. Sendo viral, não há controle. Mas o que nos interessa aqui é: o que torna um vídeo feito para um rito de passagem de um adolescente tão engraçado a ponto de se tornar um dos assuntos mais recorrentes no cotidiano de tantas pessoas?

Alguns aspectos do vídeo tornam ele tão simples quanto provocador do riso. O primeiro é que o vídeo é construído sobre uma paródia de uma música pop. Aliás, talvez não se aplique o termo paródia (para + ode, uma ode cantada ao lado da outra), cujo objetivo é geralmente zombar da referência, e sim uma paráfrase, que lança mão de uma mesma estrutura preenchendo-a com outro conteúdo. Baseada numa canção de ritmo popular, essa nova se tornou o que se costuma denominar “chiclete”, aquele tipo de música, ritmo ou refrão que o indivíduo repete incessantemente, mesmo, num certo nível, contra sua vontade. No entanto, a nosso ver esse não é o principal motivo de o vídeo ter se tornado um meme (recurso cômico para designar uma imagem instantaneamente difundida pela internet), e sim porque foram aplicadas novas perspectivas sobre ele.

O humor encontrado ali é involuntário, ou seja, surgiu porque alguém encontrou num vídeo que tinha outro objetivo – geralmente mais sério – determinado traço que, quando observado de outro ângulo, se torna risível. O verso “e o melhor é quando vamos pra Baleia” vem sendo mote de uma série de paródias (agora, sim, com a acepção correta) na internet, especialmente porque muitos não sabiam que se trata de um local no litoral de São Paulo, o que gerou interpretações ainda mais arbitrárias e engraçadas. Processo similar de retirada de um trecho do seu contexto se deu com o meme “menos a Luíza, que foi pro Canadá”, trecho de uma propaganda imobiliária que se tornou um hit da internet há pouco tempo.

Esse caráter desviante faz com que uma vontade inicial de aplicar um sentido seja manipulada e, de sujeito, torna-se um objeto. O formalista russo Vladímir Propp, na sua referencial obra Comicidade e riso, explica esse tipo de fenômeno: “O riso nasce quando a vontade passa a ser de repente menosprezada e derrotada e quando essa derrota se torna visível a todos através de sua projeção exterior.” Cabe lembrar que não se trata de uma derrota no sentido pejorativo. No caso, é uma intenção que distorce e reverbera – de forma maciçamente ampliada – em outro rumo. Desse modo, a curva arbitrária entre a situação a (celebração da biografia do jovem) e b (criação de um meme pela reinterpretação pública do vídeo) geraram uma situação nova. Ou uma série de situações novas.

Nos estudos teóricos sobre o riso, prevalecem basicamente três teorias. A da superioridade, defendida por Platão, Aristóteles e Hobbes, apregoa o riso decorre de uma necessidade de se sentir superior aos outros ou a si mesmo. Já a teoria do alívio, aplicada na obra Spencer e Freud, ri-se se para descarregar um excesso de energia. A terceira, chamada teoria da incongruência, encontrada em filósofos como Kant, Schopenhauer, Kierkegaard, é a mais popular corrente. Basicamente, rimos diante de uma situação que representa uma incongruência e causa divertimento. A causa desencadeadora desse processo seria uma perda do controle e, consequentemente, a quebra de uma expectativa.

Ora, o divertimento a que o vídeo do jovem Nissim Ourfali buscava era controlado pela intenção fechada, restrita ao riso familiar de uma festividade associada a um rito de passagem. Outros modos de observar o vídeo, tirando-o desse contexto, evidenciaram alguns pontos causadores dessa incongruência. Sob esse aspecto, mais do que o aspecto pop do vídeo, a incongruência se dá em dois níveis: o de conteúdo, em que a maior e mais abrupta quebra de expectativa se dá na distância entre esse ritmo esfuziante da canção e a evidente timidez de Nissim enquanto a dubla; e no âmbito social, com a revelação pública dessa intimidade.

Tal incongruência permite ainda outras leituras. A trajetória do menino, descrita no vídeo, revela uma típica família bem sucedida financeiramente. Consumidores de bens materiais e emocionais – e no consumo de ambos há uma relação de interdependência – que a sociedade contemporânea valoriza. De certo modo, um modelo de comportamento também está sendo criticado no bojo da popularização do vídeo. O filósofo francês Henri Bergson afirma, no seu livro O riso, que o sentido cômico surge quando a sociedade se vê imersa numa rede de aparências, revelando algo que estaria errado. A teoria bergsoniana define o riso como uma manifestação coletiva – no nosso caso exercida pela coletividade anônima dos replicadores invisíveis da web -, cuja finalidade está relacionada à vida comum em situações cotidianas. Pela zombaria, o homem reconhece que algo precisa ser mudado dentro do corpo social, seja para corrigir, seja pra transgredir uma situação que está mecanizada ou fora dos eixos, e para isso, oferece um novo sentido para esse objeto.

A forma de “sanção social” pela qual o jovem tímido foi lançado publicamente, cantado em ritmo pop a sua jornada até a cerimônia, converteu-se num fenômeno risível, cuja gargalhada é amplificada pelos megafones da internet, ecoando com tal alcance e velocidade nunca vistos. Até, pelo menos que surja a próxima.

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