Carta à leitora marginal

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Ilustra: FP Rodrigues

Prezada leitora,

Estive por esses dias em Curitiba, essa cidade tão bonita e literária. Acho que é, hoje, a melhor capital do país para a antiga prática da flânerie. Flânerie era essa coisa de andar a pé sem muito compromisso, colhendo elementos da urbanidade que poderiam se converter até em poemas e crônicas. Sim, hoje também há muitas pessoas querendo colher pokémons, mas não sei se a metáfora funciona.

Sei que você vai dizer que elogio a cidade porque não moro nela. Que bastaria um mês vivendo aí para que fosse assolado pelo tédio, as temperaturas que variam abruptamente ao longo do dia e a violência que não para de aumentar, fora os engarrafamentos. Digo algo parecido com quem vem ao Rio de Janeiro e se encanta com a cidade. Agora mesmo nas Olimpíadas propus o clássico “vamos trocar então” para várias pessoas residentes em locais menos caóticos.

Mas é que Curitiba tem um tipo de mistério aberto, um claro enigma que nos (ou pelo menos me) convida para desbravar a cidade. Entre uma ida a restaurantes e outros pontos turísticos, encontramos os irresistíveis sebos de rua. Num deles fiz umas compras legais a preços camaradas. Entre os quais aquela primeira edição do “Quase Memória”, do Carlos Heitor Cony. Sim, aquela que tem um balão na capa. E a memória me levou de volta ao ano em que li o livro, 1997, quando estudava Letras de manhã e trabalhava numa locadora – segurando o exemplar, quase consegui ver uma fita de VHS não rebobinada. O Seu Armando, dono da locadora, era um grande e afiado leitor. Fazíamos nossos debates literários e esse livro rendeu um papo que me acompanhou para sempre.

Mas os livros dos sebos também têm suas memórias, e nesse tem uma dedicatória: “Tão banal, tão ele, tão grande. A meu pai, uma eterna criança.” É difícil não se comover. E também não imaginar todas as histórias ali por trás, que casam inclusive com o conteúdo do romance. Meus literocomparsas já exploraram essas pegadas dos livros: o Marcelo Moutinho fez um conto só com dedicatórias, e o Flávio Izhaki usou esse mote de anotações em livro, inclusive comprado num sebo de Curitiba, para seu primeiro romance, “De cabeça baixa”.

Outra grande surpresa foi encontrar um exemplar do meu primeiro livro, “A musa diluída”, cheio das suas anotações. Ele foi lançado há quase dez anos, e não sei em que período passou pela sua vida. Mas saiba que você deixou rastros nos poemas, sublinhando, riscando e completando com outras ideias. E com o seu texto me parece agora que se trata de outro livro, mais completo – ou menos incompleto – após a uma boa leitura.

“O que é poesia? Poesia é susto. O que faz um poeta? Ficar no que se é! Sobre a desesperança. A vida além do verso. O poeta é uma imitação de si. A noite é branca. Destino = distração”, vai escrevendo nas margens, comentando para si mesma. Acho que você notou que é um livro cheio de alusões líquidas, e vai nadando verso a verso, braçada a braçada, mergulho a mergulho. Mas quem sou eu para saber das suas águas, e o que se esconde na profundidade desses redemoinhos?

Como os envolveu a caneta e fez um comentário ao lado, você parece ter gostado muito do verso “Uso os braços para escrever e para dar adeus”, e mais à frente “Eu canto os meus contemporâneos / Solitários peterpânicos”. Terá se identificado por conta de um fim de namoro, a perda de um familiar, o isolamento numa noite de domingo em pleno inverno curitibano? Ou apenas encontrou relação com algo com que trabalha ou estuda, apontando para essas fragmentações e rupturas teóricas da tal pós-modernidade? Ou apenas passava o tempo enquanto esperava um ônibus desses de tubo?

Antes de ter seus livros publicados, muitos autores pensam que, após essa conquista, irão receber muitas coisas materiais e imateriais, como prêmios, convites para eventos, reconhecimento público ou de crítica e até, veja só, dinheiro. Depois de um tempo, e te digo como esses dez anos foram importantes para que eu conclua isso, parece que é mais o contrário.

Em livro, livramo-nos também de algo que nos inquiete e às vezes consome, e nesse momento as ideias guardadas nas páginas fogem a qualquer suposto controle que tínhamos sobre elas – daí a relativa desimportância de críticas, sejam positivas ou negativas. O importante é estamos livres para as novas distâncias e proximidades, que por sua vez podem se transformar em novas inquietações e livros. E assim segue o barco.

Por isso te agradeço, leitora. Talvez sem saber, seu texto me espelhou novos sentidos para um sentimento que é, em tempo, vida e poesia, bem mais que memória.

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Assunto crônica

Retratos 3X4 da leitura no Brasil

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Acordo num sábado preguiçoso e constato que estamos sem internet. Não há previsão para retorno, o que deixa o meu caçula frustrado porque desejava muito jogar Counter Strike no meu computador enquanto eu ficaria lendo na varanda, como sempre faço aos sábados. Em vez de jogar, fui ler com ele um livro infantil de um amigo. Alternamos as estrofes rimadas, ele ficou feliz, fui ler na varanda e depois vi que o moleque estava no meu computador. É possível jogar contra bots, mesmo sem internet. “Amanhã vamos ler aquele seu livro inclinado?”, ele pergunta enquanto detona os bots com head-shots.

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Um primo mais novo, que nunca vi com livro algum, posta no Facebook várias fotos da capa de “Cinquenta tons de cinza”, acompanhadas de uns trechos mais picantes. Acho engraçado, cogito se não é a mulher dele quem está lendo e postando, mas não curto nem compartilho. Não quero saber o motivo, por fim imagino se não é o primeiro livro que ele lê fora da escola e qual foi o trajeto até um encontrar o outro.

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Uma senhora, acompanhada de uma jovem, toca a campainha de casa e me oferece a revista “A Sentinela – anunciando o Reino de Jeová”. Diz que é uma campanha especial do mês para o assunto da edição: “Quem pode nos dar verdadeiro consolo?”. Sinto-me com uma pitada de culpa pelo quase inevitável duplo sentido que atribuo ao termo, o mesmo que tive ao reler outro dia o belo poema “Consolo na praia”, do Drummond. Olho para a rua e vejo que há outras duplas atendendo nas casas vizinhas, num pequeno mutirão. A senhora abre as páginas da revista e me explica que todos os textos são fundamentados na Bíblia, com as devidas indicações. Lembro-me de uma frase que acho ser do Millôr, como todas as boas frases devem ser: “Se Jeová fosse isso tudo não precisava de testemunha”. Diferente de outros que nos batem à porta, a senhora não pede nada e se despede. Antes de ir, dou um beijo na sua mão.

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Uma amiga escritora comenta nas redes sociais uma notícia da Superinteressante, na qual são listados os livros mais vendidos no Brasil e Estados Unidos nos últimos anos. Aponta para o fato de que, dos anos 1990 para cá, nenhum livro de literatura brasileira figura na lista. Nos comentários, várias teses surgem para esse fato, inclusive algumas minhas. Volto uma semana no tempo, quando falava na Bienal sobre prêmios literários (os grandes prêmios, ui, ui) e seu (difícil) papel para formar leitores. Éramos interrompidos a todo tempo pelos gritos de jovens no evento do espaço ao lado. Gritavam feliz e histericamente porque estava lá um youtuber famoso, que estava lá para lançar um livro. “Nossa função deveria ser o de construir uma ponte entre esses dois mundos”, falei, meio sem eco porque talvez haja um oceano no meio.

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Meu moleque mais velho lê o meu exemplar de “O Hobbit”, que agora é nosso desde que ele conserve. Enquanto almoçamos os hambúrgueres que fritei na pressa, comenta que o Gollum não é um cara ruim, coitado. No jogo da leitura, ele parece fingir que não viu os filmes, esperando que as próximas páginas tragam surpresas.

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Jogo sinuca com dois camaradas que também atuam atrás do balcão da literatura, cada um num segmento diferente. Falamos, com a sinceridade única que apenas um ambiente de bar permite, de todos os assuntos intra, inter e extraliterários. Não jogo sinuca direito mas, depois de umas e outras, por algum motivo, começo a acertar melhor as caçapas. Enquanto isso, descobrimos e detalhamos todas as soluções para melhorar a leitura no Brasil. Agora que as esqueci totalmente, não sei por que tomamos apenas cervejas e não notas.

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Ecos da Bienal do Livro

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Ilustra: FP Rodrigues

Semana passada estive por quase uma semana acompanhando a Bienal do Livro de São Paulo, um dos maiores eventos da área aqui na América Latina. Não sei se por bairrismo ou por outro motivo de ordem pessoal, ainda gosto mais da Bienal do Rio de Janeiro – caos por caos, prefiro o da minha cidade. Mas no geral são eventos muito parecidos, caracterizados, sobretudo, pelo volume imenso de público. E onde tem muita gente reunida existe coisa boa pra se ouvir. Se na semana passada falei do agradável papo que tive com outros passageiros de Uber, agora vale retratar uns pontos que pesquei lá dentro do pavilhão do Anhembi, ou a caminho de lá. Mas já alerto que são, em sua maioria, desimportâncias.

Ouço ecos da multidão de adolescentes que, não é de hoje, mas cada vez mais, ocupa esse tipo de evento. Há pouco mais de duas décadas, os adultos, assustados e alarmistas, diziam que a tal internet ia acabar com os livros, ainda mais com aqueles adolescentes (eu incluso) que não paravam de jogar videogames. Taí, coroas (eu incluso ou a caminho de), a molecada que nasceu de lá pra cá está lendo mais que as anteriores. Os adultos (eu incluso?) é que não têm mais tempo de ler, pois os raros tempos livres dessa vida corrida são ocupados pelas séries de Netflix e, claro, os videogames.

Mas também ouço ecos de grupos de adolescentes que evocavam grupos de outras escolas, e em uníssono milhares gritavam sua palavra de ordem: BIRLLL!

Ouço os ecos dos amigos paulistas que não consegui rever, seja fora do horário da Bienal num chope, seja lá dentro por eu não estar no momento, nesses desencontros tão comuns para uma metrópole como Sampa.

Ouço ecos dos que consegui encontrar, seja em contatos profissionais ou mesmo para atualizações sem compromisso de assuntos diversificados – vulto jogar conversa fora. Aliás, como se come e se bebe bem em São Paulo.

Ouço ecos dos jovens, sempre eles, gritando porque uma youtuber famosa iria aparecer lá, mesmo não tendo muito o que dizer – ou escrever, porque os livros dela têm a consistência de biscoitos de polvilho. E ouço também uma uma senhora, mãe de algum deles, que voltava daquela comoção coletiva, nos olhou e disse “só Jesus pra entender”. E na hora me perguntei se, caso reencarnasse hoje, ele viria como um youtuber. Ou já veio?

Ouço ecos, ainda, de leitores fãs que berravam emocionados ao lado da sala onde eu falava sobre prêmios literários com curadores de projetos sérios e importantes, cujos livros descobertos ou agraciados, infelizmente, não geram essa gritaria. Como fazer essa ponte entre os dois mundos?, perguntei a todos nós lá, sabendo que para isso não há resposta fácil.

E ouço o eco da felicidade por compartilhar uma mesa com a professora Marisa Lajolo. Como estudante de Letras, li muitos livros dela, que depois da sessão, no almoço, apelidei metonimicamente de “minha bibliografia”. Ao me despedir, ela disse “vem cá dar um beijo na Bibliografia”.

Sim, ouço eco de um virundum ouvido por um camarada que limpava o banheiro enquanto cantava: “Eh, meu amigo canibal” e não parecia saber que era Charlie Brown. Achei benito, digo, bonito aquele calembur involuntário dele, eu que guardo trocadilhos como quem captura pokémons.

E por fim ainda ouço o eco de uns fogos bizarros que explodiram nos céus quando a presidente sofreu impeachment. Esses ainda vão ecoar por um bom tempo, zumbindo aguda e dolorosamente nos tímpanos de todos nós.

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Assunto crônica

No uber com leitores

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Ontem saí da Bienal do Livro de São Paulo, depois de participar de ótimo debate sobre a importância dos prêmios literários, e peguei um Uber daquele compartilhado, que sai mais barato.

Sou muito fã desse serviço (e adianto à leitora que esta não é uma crônica patrocinada!), e acredito que, pela praticidade e flexibilidade, possa ser o futuro dos táxis tal como os conhecemos. Mesmo porque fiquei abismado ao saber que uma autonomia de táxi custa 100 mil pratas no Rio de Janeiro. Isso me lembra um pouco a época em que uma linha de telefone fixo, serviço que na minha casa chegou apenas no ano 2000, custava o preço de um carro popular.

Mas sou fã também porque os motoristas em geral me parecem pessoas comuns, talvez por estarem começando a trabalhar na área, muitas vezes dispostas a trocar ideias com os clientes. Pode ser que no futuro fiquem como alguns taxistas da velha guarda, sábios das generalidades que nos empurram ouvido adentro suas certezas sobre tudo e preferências musicais das mais diversificadas.

Não me esqueço da outra vez em que, voltando de um evento literário, um motorista de Uber quis saber sobre o meu trabalho e quis me comprar um livro autografado para a filha. E ontem, para minha surpresa, o Uber pool foi partilhado com duas pessoas muito interessadas em leitura.

O primeiro era o Vicente, estudante de medicina de 21 anos, que voltava de uma rara balada, pois não é de sair muito para essas coisas. O rapaz tímido gosta muito de ler as aventuras do Percy Jackson.

Depois entrou a Ivana. Não perguntei com o que ela trabalha mas me pareceu muito esperta sobre todos os assuntos – jornalista? – e não sei a idade porque seria uma indelicadeza perguntar. Mas pelo que vi na penumbra do carro devia ter os seus 50 anos. Sim, nosso motorista era o Fabio, que devia ter a minha idade – ou seja, seminovo.

A Ivana adora biografias e história. Leu todos os livros do Laurentino Gomes, mas não ainda os da Mary Del Piori e Lilia Schwarcz, que indiquei e ela anotou. Gosta de ler coisas que retratem a realidade, contando fatos que aconteceram, ou pelo menos supostamente, visto que toda escrita, literária ou não, possui escolhas e recortes que relativizam o dito.

A Ivana nos mostrou, toda orgulhosa, o seu leitor digital, onde cabem centenas de livros. Ela raramente compra os impressos, pesados e mais caros. Já o Vicente rebateu dizendo que já lê muita coisa em tela o tempo todo, seja em celular ou computador, e não imagina ler os livros do Percy Jackson em outra forma que não no papel. Comentei que o meu moleque de 14 anos, que passa boa parte do tempo no celular e nos games, acabou de ler “Os três mosqueteiros”, edição integral e impressa, e está num entusiasmo só para outros livros.

O Fabio tomou outro caminho porque uma festa de rua interditou o caminho indicado pelo Waze, e concordou com o Vicente, pois livro bom mesmo é o impresso. Ivana, pelo que percebi, se sentiu surpresa e moderna com a perspectiva do jovem. Acredito que todos estavam contemplados.

Por conta da corrida mais longa, o papo continuou e fiquei feliz por compartilhar espaço e tempo com três figuras tão interessantes. A Bienal do Livro segue, acaba do fim de semana e voltaremos à programação nornal, mas espero que nesses pequenos espaços de coletividade as trocas continuem. Na leitura de livro e de mundo, temos muita estrada ainda para percorrer.

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Assunto crônica

Pinóquio e a verdade relativa

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Com a crise da mídia impressa e o consequente fechamento de bancas de jornais que se recusassem a vender todo tipo de quinquilharia, um velho jornaleiro italiano, que atendia por Gepeto, decretou estado de calamidade pública, como está na moda. Mas como não recebeu nenhum auxílio financeiro do governo federal, o idoso se viu cada vez mais na penúria. Antes que morresse de fome, recorreu a um curso no Sebrae e aprendeu técnicas de marcenaria.

Começou vendendo miniaturas do Cristo Redentor para turistas, e como tivesse experiência em dar informações na banca de jornal a todo tipo de gente perdida, foi ganhando a simpatia da clientela e logo montou a lojinha. Mas o sucesso trouxe a solidão junto, e só então se deu conta de que gostaria de ter um filho. Gepeto gostava muito de crianças, mas não tinha paciência alguma com adultos. Adotar um moleque não pegaria bem para um velho solitário, então lhe restou criar um filho de madeira para conseguir a companhia infantil que tanto buscava. Como fez com restos de pinus, deu o nome de Pinóquio.

– Agora sim, regazzo, serás meu guri – disse com um tapa na cabeça do manequim.

Os clientes achavam estranho quando chegavam na loja e viam Gepeto falando com o boneco de madeira, que a muitos lembrava Chucky, o Brinquedo Assassino, ou aquele outro do Jogos Mortais – nunca o do Toy Story, pois a choldra puxa sempre para o mais pesado.

Enquanto todos pensavam que o pobre velho já estava caducando em esquizofrenia galopante, a loja foi visitada por um grupo de uma startup a quem Gepeto deu dicas turísticas meses antes. Ao reencontrarem o velho italiano e tomarem conhecimento do caso do boneco, ofereceram para Gepeto uma versão beta do novo sistema de inteligência artificial que vinham construindo. Adaptaram toda a parafernália e programas dentro do boneco de madeira e em pouco tempo Pinóquio andava, falava e aprendia com seu pai.

– Caso ainda é um modelo de teste, o nariz vai indicar qualquer eventual falha de software – alertou o gerente de produto, um jovem adulto pálido, com cara de quem sempre soltou pipa no ventilador.

Quando Gepeto iria perguntar mais detalhes sobre como resolver esses itens, o grupo saiu correndo para caçar pokémons nas cercanias, deixando-o só com o seu filho, ou aquilo que mais podia parecer com um.

E como Pinóquio agisse basicamente como um menino normal, foi para a escola, gostava de brincar de pega-varetas e com palitos de picolé como se fossem Playmobil, além de outras distrações temáticas. Sempre que amigos perguntavam se desejava ser um menino de verdade, respondia que não se considerava de mentira. E assim os deixava confusos e admirados.

– O que é ser um menino? Zumbis têm carne e osso, e são mais humanos do que eu? Quem somos nós para definirmos a natureza da alma? – perguntava cheio de metafísica.

Daí que o jovem amadeirado sacou que o lance era deixar as pessoas pensarem – ou, pelo menos, fazê-las pensar que estavam pensando. Em pouco tempo, Pinóquio já fazia pequenos vídeos motivacionais sobre diversidade, pertencimento, protagonismo, territorialidade e superação, angariando milhões de fãs nas redes sociais. Criou um canal no Youtube chamado Karadepaw, que se transformou em livro de autoajuda disputado por grandes editoras. Abandonou o pobre Gepeto, que, desconsolado, adotou um bonsai e passou a falar com plantas.

– Boneco não, sou um action figure empoderado! – bradava em programa de entrevista.

Celebridade, Pinóquio estava em todas: linha de cosméticos, roupas, brinquedos, games, desenho animado e utensílios variados. E como todos estavam hipnotizados por tanta papagaiada de márketim, ninguém nunca reparou que em tudo o Pinóquio sempre saía com um nariz de vantagem.

Moral: Se liga, mermão, que o cabo do machado é feito de madeira.

Moral 2: O Grilo Falante nesta história é você.

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Assunto crônica

Cinderela empoderada

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Reza a lenda que havia por estas plagas uma novinha chamada Cinderela. Filha de pai comerciante do tipo novo-rico, aqueles da burguesia emergente da Barra da Tijuca, a menina tinha de um tudo ao simples estalar dos dedos. Uma vez que o pai só se dedicava aos negócios e a mãe havia se mandado para a Europa com o personal trainer, restava à pobre menina rica destilar sua existência entre shoppings e baladas para moças de fino trato. Mesmo porque ficar em casa significava ter de aturar a madrasta e suas duas filhas. Se a primeira era uma madame daquelas feias por dentro e por fora, as outras não ficavam para trás, igualmente fracas de feição e destituídas de dotes físicos de encanto ou graça.

Até que um dia veio a crise (crise, que crise?, pergunta-se a leitora desavisada, a quem se recomenda uma ida rápida ao supermercado), cujo resultado imediato foi um piripaque devastador que fez o pai bater as botas.

E assim restou à madrasta continuar criando a pobre (agora sim) Cinderela. Os cartões de crédito e celular foram retirados da moça, que foi obrigada ainda a trabalhar no Bob’s para ajudar em casa, onde ainda tinha que lavar, passar e cozinhar para as três dondocas. Que crueldade, poxa!

Acontece que em dado momento foi anunciado um grande baile, com muita gente bonita, clima de paquera e damas grátis até meia-noite. (Esse último item seria retirado da divulgação porque muitos galalaus equivocados poderiam chegar ao local dizendo “ok, eu quero a minha para viagem”.) E o DJ convocou geral para o evento, queria todas as meninas da região, a fim de escolher a rainha da parada. Como a madrasta feiosa soubesse que Cinderela iria chegar divando no baile, proibiu-a de participar, pois a jovem não tinha trajes adequados para tal festividade.

Triste que só, Cinderela seguiu a dica de umas amigas e passou num brechó, onde adquiriu a preço de areia (banana prata a 9 mangos o quilo nos impede de usar a expressão correta) um kit basicão de shortinho e top. A vendedora, no entanto, alertou que as roupas precisavam ser lavadas antes do reuso, pois não se sabia a procedência. Mas na pressa Cinderela se trocou e tomou a carreira para o baile.

E então a madrasta e as duas filhas estavam lá, torcendo para serem clicadas com seus vestidos de casamento dourados e excesso de maquiagem que já endurecia seus rostos em máscara, até que Cinderela fez uma entrada triunfal justamente quando tocava um funk melody clássico da década de 1990. “Essa manda bem no passinho”, disse o DJ lá do alto, já apontando para sua escolha. Mas quando ele desceu para pegar sua selecionada como quem captura um pokémon, algo inusitado aconteceu.

Conforme Cinderela ia dançando, seu suor se misturou ao da antiga dona da roupa, gerando um bodum sinistro e matador, que fez a jovem se pirulitar do baile numa carreira de fazer inveja ao Usain Bolt. Na pressa, um dos pés do seu tênis ficou para trás. E o DJ ficou apenas com essa lembrança da sua musa daquela noite.

Nos dias seguintes, correu por toda a região atrás de uma moça que tivesse perdido um pé do tênis. Estava obcecado, com ideia fixa na coisa. E várias garotas diziam ser delas o calçado perdido, mas em algumas nem entrava no pé, e outras o DJ nem queria que tentassem calçar, como foi o caso das duas irmãs brucutus. Já desconsolado, viu que na rua havia uma moça entrando numa lanchonete, e ela estava com apenas um pé calçado com o tênis, no outro um  chinelo. E como a moça fosse toda certinha, viu que valia a pena confirmar.

“Minha princesa”, disse a Cindelera, mostrando o tênis, que só então descobriu ser parte do uniforme do Bob’s.

“Aff, dá isso aqui. Agora vaza”, respondeu a moça, em tom de estresse.

“Mas como? Você é a minha escolhida do baile. Vem ser minha poderosa!”, implorou o DJ balançando os cordões e as pulseiras de ouro.

“Jamais! Sai pra lá!”, replicou a moça.

“Mas você não foi ao baile para ser a rainha?”

“Quem te disse isso? Eu fui só pra dançar mesmo, tio”, finalizou Cinderela, que pegou o tênis e saiu correndo para bater o ponto. E, quem sabe, ser Destaque do Mês.

Moral: a crise afeta todos e tudos

Moral 2: nem toda madeira que boia é jangada

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Assunto crônica

Clubes de leitura e a solidão compartilhada

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ilustra: FP Rodrigues

para Victor Simião e Flávio Rodrigues

Interrompo a série de versões atualizadas dos contos clássicos com pitadas de clichês contemporâneos, cuja escrita tem sido uma grande diversão, para falar de outras coisas um pouco mais sérias. Mas não se acostume, leitora, pois semana que vem estarei de volta com uma revisita à Cinderela. Quem vir ler, lerá.

Semana passada tive duas experiências incrivelmente interessantes no Paraná, essa potência literária de fazer inveja a Rio e São Paulo. E nem digo de Curitiba, cuja vida cultural é intensa que não entendo por que não engata ali uma Bienal do Livro. Estive em Londrina e Maringá, cidades de médio porte que dão um banho pela tranquilidade e organização, especialmente pelo contraste que senti após sair de um Rio de Janeiro em estado de caos por conta das Olimpíadas que estavam para começar.

Pelo IBGE, Londrina já seria de grande porte, uma vez que ultrapassou os 500 mil habitantes. Mas o charme de lá é, pelo menos ainda, de cidade menor. Cheguei à Universidade Estadual, escoltado pelo escritor e camarada Marcos Peres, para conversar com algumas turmas de Letras. Ao entrar no anfiteatro, o professor já lia para a turma o início do meu romance, o que me causou grande acanhamento, reavivando a timidez que tive a vida inteira e contra a qual luto sempre que vou falar em público.

Mas bastaram uns minutos de papo para que surgisse uma identificação mútua e começássemos a trocar ideias. Como fosse à noite numa sexta-feira, falava com um grupo que luta para conciliar o trabalho durante o dia, as aulas e as leituras, que costumam tomar os finais de semana e quaisquer horas livres que surjam. Daí que, convidado para falar sobre criação literária, não me preocupei em dar um aulão teórico, mas, sobretudo, em papear sobre essa condição de estudante com pouca grana e muito sonho. E reencontrei nos olhares da galera o aluno de Letras que fui, e de certa forma ainda sou, procurando conhecimento e espaço para expressar uma voz literária que começa a tomar forma por volta dos vinte anos.

Não é fácil, nunca foi. Primeiramente, porque já se apregoa, mesmo na Academia, uma ideia falsa segundo a qual os cursos de Letras não devem formar autores, mas se restringir ao magistério. Tremenda bobagem. Se o escritor deve ter qualquer origem e formação, sem preconceito, por que negá-la justamente ao espaço onde a literatura é estudada como prato principal? Outro fator é que os acessos à publicação, ainda que tenham melhorado nos últimos anos, continuam bastante restritos ao jovem de interior/periferia não apadrinhado. Escrever literatura no Brasil é uma eterna corrida com barreira. O exercício e a persistência é que podem garantir a continuidade na pista para aqueles que estão dando as primeiras passadas, especialmente depois de cada inevitável tombo. E os tombos continuam vida afora, convém lembrar.

No dia seguinte, em Maringá, estive com o Clube de Leitura Bons Casmurros. Trata-se de uma turma bem diversificada que se reúne a cada três semanas para discutir um livro previamente lido (se está lido só pode ser previamente, ó pá!). E o meu romance foi a bola da vez.

Venho participando de vários eventos literários nos últimos anos. Muitas vezes os encontros com leitores seguem um roteiro parecido, e fica-se sempre com a sensação de que teria sido melhor caso as pessoas tivessem lido algo do autor. Faz toda a diferença. Nos clubes de leitura, a intenção é exatamente entrar no livro e trazer as questões capturadas para que sejam apresentadas e discutidas. O protagonista é a obra literária.

Se num evento com centenas de pessoas é impossível a interação entre todos, no caso dos clubes de leitura a ideia é justamente que todos participem. Como se trata de um grupo pequeno, composto por 20 integrantes, há espaço e tempo para que todos se manifestem. E foi isso que encontrei.

Passei a maior parte do tempo calado, ouvindo as discussões suscitadas pelo livro, algumas bem novas para mim. Geralmente lemos isso em textos teóricos bacanudos, mas nessas situações reais é possível comprovar que a leitura literária é uma troca de experiências singulares, pois cada um traz sua bagagem para dar sentido ao que leu, e assim faz do livro algo novo e único. E no fim das contas o resultado é a formação de leitores cada vez mais acurados, com visão ampla de livros e de mundo. A leitura, assim como a escrita, é um ato muito solitário, mas nesses encontros se descobre que a solidão literária pode ser bela e produtivamente compartilhada.

Não acredito que haja uma solução mágica para que aumentemos da noite para o dia os nossos números tão esmirrados na área da leitura literária. Mas se os clubes de leitura – cujo custo é praticamente zero – fossem estimulados em todos os bairros do país, utilizando livrarias, bibliotecas, escolas, centros comunitários et coetera, acredito que em algum tempo a situação começaria a melhorar.

Porque há uma necessidade de reinvenção do mundo entre as pessoas, e a literatura pode ser um caminho privilegiado para isso. Foi o que aprendi nesses dois dias como aluno e, ainda que por um dia, membro do clube.

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Assunto crônica

Peter P@n e a síndrome do peterpânico

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ilustração: FP Rodrigues

Era uma vez um jovem que, como todos os demais, estava embebido de empoderamento da sua voz como ser social, além de pertencimento da territorialidade mundana e do protagonismo proativo diante da rapaziagem.

Assinava Peter P@n nas redes sociais, assim bem anglófilo mesmo e com direito a arroba, por conta da ampliação da comunicabilidade e porque fica mais da hora. E por isso é que o mancebo tinha bastante seguidores no facebook, insta, twitter, snapchat e outro aplicativo que já saiu de moda entre a escrita dessa crônica e sua publicação. Seu canal no youtube, em que comentava sobre as próprias postagens das outras redes sociais (cujo assunto principal, por sua vez, era a repercussão do canal) começava a bombar e já pensava em fazer livro, caneca e camiseta, a fim de agregar valor no autoimpulsionamento.

Mas Peter, tal como um playmobil, era relativamente articulado. Ainda que mal saísse de casa, participava de todos os abaixo-assinados que chegavam por e-mail, num engajamento de dar gosto. E na segurança virtual (a verdade é que quase não saía de casa) não deixava de atacar maiorias e minorias de acordo com o termômetro do politicamente correto da semana. Assim como o ovo e o café, mudava de postura de acordo com as pesquisas recentes, garantindo likes suficientes para, em poucos meses, começar a se entender como uma celebridade.

O que ninguém desconfiava era que, ambiente doméstico, havia certa preocupação com o fato de o rapaz ter abandonado os estudos para se dedicar à nova profissão. Algo de que o pai desconfiava por não achar aquilo trabalho de verdade, mas a que, por outro lado a mãe dava força – ela mesma começou a surfar na onda virtual que o filho gerava, tendo concedido uma entrevista sobre “a vida pessoal do Peter” para um blog de fofocas.

Os tempos foram passando, passando, as tecnologias evoluindo, evoluindo, até que surgiu um projeto piloto de realidade virtual a que só teriam acesso uns poucos jovens antenados, grupo do qual Peter fazia parte. E nesse mundo novo, chamado de Terra do Sempre, a imersão era um tipo de Matrix, porém mais colorida e cheia de aventuras irresistíveis: luta contra sites piratas, fadinhas, crocodilos e índios. Nessa altura, Pokémon Go era apenas uma referência legal antiga, tipo Atari.

Peter P@n não conseguia sair mais daquela projeção virtual, e o mundo cá de fora, chato pacas e limitado, era apenas tolerável a base de ansiolíticos cada vez mais fortes. Em dado momento, conforme o jovem esperneasse entre frescuras leves e convulsões babantes, a família desistiu de vez e passou a injetar os remédios numa sonda, por onde também começaram a ir os alimentos que o mantinham vivo. O pai, resiliente, parou de reclamar porque o canal Peter na Terr@ do Sempre já trazia rendimentos consideráveis para pagar o whisky 12 anos.

E assim o jovem Peter P@n, atrofiado e plugadão, chegava aos 40 com corpinho e cuca de 15.

Mas a natureza humana tarda mas não falha. Daí que Peter chegou voando em realidade aumentada na casa de uma jovem, por quem ele gamou de cara, fazendo tremer fralda geriátrica que usava no mundo real. A menina, pálida de óculos largos, datilografando poemas concretos numa antiga máquina de escrever, era neo-hipster e abdicava de todas as parafernálias tecnológicas, de modo que ela nem tchum pro adolescente tardio que fazia caras e bocas ali ao lado.

Como os índices de serotonina abaixassem por conta do toco real-virtual, a única solução encontrada foi a família aumentar a dosagem do tarja preta, cujo efeito imediato foi o rapaz converter a rejeição em força produtiva, criando o canal Forevis Young, mais um case de sucesso.

Moral: tem gente que se esforça para ser jovial e mal consegue ser imaturo.

Moral 2: cuidado, update que cresce pra baixo, tipo rabo de cavalo, não te faz um artista underground, mas factualmente pode levar a um montinho de bosta.

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Assunto crônica

Os três porquinhos caçadores de pokémon

FP_Rodrigues_VB_26_julho_16

 

Um conto proativo

Era uma vez três moleques, dois dos quais eram bem gordinhos. Sua adiposidade exagerada não era decorrente do fato de serem jovens suínos, como a leitora pode esperar por conta do título apelativo desta história, mas porque viviam sob a tranquilidade do sedentarismo contumaz. E se eram porquinhos, isso se dava apenas pelo relaxamento com que deixavam pratos, copos e caixas de pizza ao redor, com a preguiça típica dos adolescentes que evitam qualquer esforço físico por conta dos hormônios em profusão galopante.

“Não lavam um copo”, reclamava o terceiro irmão, com Índice de Massa Corporal dentro dos limites e adepto da culinária vegana. Mas a mãe protetora não criticava os outros dois balofos, redistribuindo igualmente eventuais esporros pelos três, mas sem resolver a causa do problema, numa vista grossa que irritava ainda mais o irmão esguio.

Até que um dia a pensão do ex-marido deixou de cair na conta, em virtude de uma onda de desemprego que varreu todo o ecossistema local. Daí que a mãe caiu em si e reparou que era hora de colocar os filhos para contribuírem na composição da renda familiar. Digo, os três não, apenas o mais prestativo, pois os outros dois, coitadinhos, não podiam sair muito de casa.

Sabendo que muito em breve iria se tornar arrimo de família, e ciente da vida molezinha que os irmãos levavam, o filho fitness resolveu se igualar a eles. Simulava indisposição, passou a comer gordura trans em quantidades absurdas e, em pouco tempo, estava prostrado com os outros, numa tríade descomunal e improdutiva.

“Assim não dá”, disse a mãe, que na hora matriculou os três filhos num curso do Sebrae para jovens empreendedores. Com muito esforço, os três se moveram e decidiram criar, via incubadora de empresa júnior, um projeto de micro-habitações para que cada pessoa pudesse se afastar do mundo e apenas ficar morgado. O nome gourmetizado OINC (Observatório Individual de Noções Criativas) vendia melhor para futuros investidores, que esperavam um protótipo para, na sequência, despejarem grana a fim de lucrar com aplicações em escala.

Mas os irmãos não entravam num consenso sobre como desenvolver o primeiro OINC. Dos três gordinhos, o mais devagar queria construir uma cabine de palha:

“Tipo uma oca dos índios, só de boas com a natureza, poxa.”

O segundo, descansado porém malandro, queria mostrar serviço, se preocupando em apresentar algo que estivesse na moda com o ecologicamente correto, mesmo sabendo que não seria capaz de pôr em prática:

“Proponho uma solução sustentável a base de garrafa pet e telhado verde com captação de energia solar, eólica e de água das chuvas. E também um sistema pra reaproveitamento de urina. A fan page do projeto está no ar e tem mil curtidas!”

Já o terceiro, agora adequado ao modo de trabalhar dos dois irmãos, ficou apenas no feijão com arroz:

“Um puxadinho resolve.”

Os investidores, vendo que não havia alinhamento nenhum entre os brothers, decidiram dar corda aos três projetos, para ao fim decidir pelo melhor, num sistema meritocrático e motivador.

Um mês depois, no dia da apresentação, bateu uma chuva de vento que destruiu logo a casinha de palha, que tinha sido construída às pressas na véspera. O segundo não fez a casa, mas mandou uma apresentação em Prezi e outra em Power Point cheia de gráficos coloridos. Já a meia-água do terceiro, apesar de tosca, estava lá, firme e forte. Para provar que funcionava, o novo gordinho ficou dentro da construção, e com o barulhinho da chuva pegou no sono. E assim teve o projeto descartado por ser, segundo a banca, simplista, nada inovador e sem o protagonismo, empoderamento ou pertencimento mínimos numa sociedade plural contemporânea.

Por fim, o projeto escolhido foi o das apresentações coloridas, que bombou em replicações na internet. O porquinho até hoje faz palestras corporativas com títulos como “The OINC Project – um case de sucesso”, sem nunca ter precisado construir uma casa sequer.

Moral: Ter focinho de porco não garante uma tomada de posição.

Moral 2: Você só clicou no texto por causa da palavra pokemón do título? Então eu é que te capturei.

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João e Maria Empowered Youth

FP_Rodrigues_VB_19_julho_16

 

Era uma vez uma periferia urbana no meio da floresta.[1] Nela vivia uma família feliz na maior parte do tempo, exceto quando chovia, ocasião na qual as goteiras tipo chão de estrelas[2] se mesclavam às enchentes[3]. Mas contanto que não cortasse o wi-fi, todo contratempo era passível de superação imediata.

Pai, mãe e dois filhos, que se chamavam João e Maria[4], compartilhavam a rede tranquilamente, sem nenhum comprometer a largura de banda para o outro, até que veio a crise. Que crise?, perguntavam-se, até que sentiram na própria carne quando foi necessário diminuir a quantidade de MB da conexão.

À noite, os pais conversavam enquanto faziam contas e gráficos de risco SWOT:

– Já não são grandinhos demais para ficar em casa? Não é hora de saírem em busca de um sistema meritocrático?, argumentou a mãe empreendedora.

– Sim, essa geração quer moleza. Com a idade deles eu mesmo já tinha o meu 3G próprio!, sustentou o pai, com autoestima elevada.

– Peraí, mas na sua idade o advento da revolução digital nem existia ainda!, lembrou-se a mãe, acusando o pai de superestimar um reles pager que, de fato, o patriarca teve à época[5].

Mal sabia o casal que os dois jovens, apesar de cada um com seu fone de ouvido e aparentemente focado nos canais de vídeo que assinavam, na verdade lançavam mão das propriedades multitarefas da qual a geração Z[6] era dotada. Daí que os moleques ouviram tudo e resolveram problematizar:

– Esses velhos querem roubar o nosso empoderamento!, Maria enviou zap.

– Sim, o nosso protagonismo!, respondeu João pela mesma comunicação expressa.

Em sistema cooperativo, imbuídos de pertencimento e perspectiva de reconstrução do real enquanto sujeitos num mundo pós-moderno e fragmentado, os dois acordaram mais cedo e decidiram, eles mesmos, tomar uma atitude antes proativa do que reativa: preencheram formulário online de intercâmbio numa startup e partiram rumo ao business do negócio[7] que é o mundo corporativo. Quando os pais acordaram, já não havia nenhum feedback da prole e ficaram em dúvida se a iniciativa dos jovens configurava um statement.

Na floresta, João e Maria se guiavam pelo roteiro de captura de pokémons no aplicativo de realidade aumentada que haviam instalado recentemente. Entre pikachus e bubassauros, eis que João avistou logo perto um monstrinho raro:

– Olha, Maria, um guéri-guéri[8] lendário!

O spot em que a trilha os indicava era nada menos que uma lan house totalmente coberta de roteadores wi-fi, mas de sinal fechado, cuja senha era conhecida apenas pela proprietária, uma senhorinha cheia de pertencimento com legging de academia. Ao avistar os dois jovens que já tentava hackear o sistema, a mulher na melhor idade bradou:

– Parem já com isso, que eu domino esse gap geracional!

– Corre, João, que ela é toda vitage!, ordenou Maria, já em dúvida se o choque se tratava de uma vivência ou experiência[9].

Uma vez que não foram bem-sucedidos na empreitada de curto prazo, os dois concluíram que o melhor por hora era voltar para a segurança dos pais, até que outra janela de possibilidades se lhes fosse aberta rumo à conquista da autonomia e liberdade individual enquanto sujeitos subjetivos cientes e conscientes da sua existência em si mesmos e no auto-horizonte de perspectivas e releituras de mundo.

Mas como tivessem capturado todos os pokémons da trilha, não era mais possível encontrar o caminho para casa. E João e Maria foram freelas para sempre.

Moral: A única coisa analógica e digital ao mesmo tempo ainda é o exame de próstata.

Moral 2: Se você é jovem ainda, jovem ainda, amanhã velho será, será.

__________
[1] Não pode seee, bradaria um urbanista tradicional, que postaria logo um textão com indiretas, mas ignorando que as noções de espaço e território transbordam de uma geografia limítrofe e classista em prol de uma noção subjetiva do locus identitário.

[2] Tu pisavas no meu calo, sua distraída!

[3] Note aí, no esquema água de cima e água de baixo, uma aplicação tipo práxis do conceito de modernidade líquida.

[4] Criatividade nos nomes não era o forte dos pais.

[5] O pai fazia estágio na Teletrim e havia sugerido contratar o Papa-Léguas como pássaro propaganda fazendo beep-beep, ideia logo descartada por copyrights e bom senso.

[6] Os mais velhos trollam tal geração como Z de zumbi, na verdade para ocultar o desespero para nomear a geração seguinte, uma vez que acabaram as letras do alfabeto.

[7] Ou o negócio do business?

[8] A evolução do lero-lero.

[9] Cf “Tratado Geral do Oco Exterior”, de Walter Celli.

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