Clubes de leitura e a solidão compartilhada

FP_Rodrigues_VB_09_agosto_16

ilustra: FP Rodrigues

para Victor Simião e Flávio Rodrigues

Interrompo a série de versões atualizadas dos contos clássicos com pitadas de clichês contemporâneos, cuja escrita tem sido uma grande diversão, para falar de outras coisas um pouco mais sérias. Mas não se acostume, leitora, pois semana que vem estarei de volta com uma revisita à Cinderela. Quem vir ler, lerá.

Semana passada tive duas experiências incrivelmente interessantes no Paraná, essa potência literária de fazer inveja a Rio e São Paulo. E nem digo de Curitiba, cuja vida cultural é intensa que não entendo por que não engata ali uma Bienal do Livro. Estive em Londrina e Maringá, cidades de médio porte que dão um banho pela tranquilidade e organização, especialmente pelo contraste que senti após sair de um Rio de Janeiro em estado de caos por conta das Olimpíadas que estavam para começar.

Pelo IBGE, Londrina já seria de grande porte, uma vez que ultrapassou os 500 mil habitantes. Mas o charme de lá é, pelo menos ainda, de cidade menor. Cheguei à Universidade Estadual, escoltado pelo escritor e camarada Marcos Peres, para conversar com algumas turmas de Letras. Ao entrar no anfiteatro, o professor já lia para a turma o início do meu romance, o que me causou grande acanhamento, reavivando a timidez que tive a vida inteira e contra a qual luto sempre que vou falar em público.

Mas bastaram uns minutos de papo para que surgisse uma identificação mútua e começássemos a trocar ideias. Como fosse à noite numa sexta-feira, falava com um grupo que luta para conciliar o trabalho durante o dia, as aulas e as leituras, que costumam tomar os finais de semana e quaisquer horas livres que surjam. Daí que, convidado para falar sobre criação literária, não me preocupei em dar um aulão teórico, mas, sobretudo, em papear sobre essa condição de estudante com pouca grana e muito sonho. E reencontrei nos olhares da galera o aluno de Letras que fui, e de certa forma ainda sou, procurando conhecimento e espaço para expressar uma voz literária que começa a tomar forma por volta dos vinte anos.

Não é fácil, nunca foi. Primeiramente, porque já se apregoa, mesmo na Academia, uma ideia falsa segundo a qual os cursos de Letras não devem formar autores, mas se restringir ao magistério. Tremenda bobagem. Se o escritor deve ter qualquer origem e formação, sem preconceito, por que negá-la justamente ao espaço onde a literatura é estudada como prato principal? Outro fator é que os acessos à publicação, ainda que tenham melhorado nos últimos anos, continuam bastante restritos ao jovem de interior/periferia não apadrinhado. Escrever literatura no Brasil é uma eterna corrida com barreira. O exercício e a persistência é que podem garantir a continuidade na pista para aqueles que estão dando as primeiras passadas, especialmente depois de cada inevitável tombo. E os tombos continuam vida afora, convém lembrar.

No dia seguinte, em Maringá, estive com o Clube de Leitura Bons Casmurros. Trata-se de uma turma bem diversificada que se reúne a cada três semanas para discutir um livro previamente lido (se está lido só pode ser previamente, ó pá!). E o meu romance foi a bola da vez.

Venho participando de vários eventos literários nos últimos anos. Muitas vezes os encontros com leitores seguem um roteiro parecido, e fica-se sempre com a sensação de que teria sido melhor caso as pessoas tivessem lido algo do autor. Faz toda a diferença. Nos clubes de leitura, a intenção é exatamente entrar no livro e trazer as questões capturadas para que sejam apresentadas e discutidas. O protagonista é a obra literária.

Se num evento com centenas de pessoas é impossível a interação entre todos, no caso dos clubes de leitura a ideia é justamente que todos participem. Como se trata de um grupo pequeno, composto por 20 integrantes, há espaço e tempo para que todos se manifestem. E foi isso que encontrei.

Passei a maior parte do tempo calado, ouvindo as discussões suscitadas pelo livro, algumas bem novas para mim. Geralmente lemos isso em textos teóricos bacanudos, mas nessas situações reais é possível comprovar que a leitura literária é uma troca de experiências singulares, pois cada um traz sua bagagem para dar sentido ao que leu, e assim faz do livro algo novo e único. E no fim das contas o resultado é a formação de leitores cada vez mais acurados, com visão ampla de livros e de mundo. A leitura, assim como a escrita, é um ato muito solitário, mas nesses encontros se descobre que a solidão literária pode ser bela e produtivamente compartilhada.

Não acredito que haja uma solução mágica para que aumentemos da noite para o dia os nossos números tão esmirrados na área da leitura literária. Mas se os clubes de leitura – cujo custo é praticamente zero – fossem estimulados em todos os bairros do país, utilizando livrarias, bibliotecas, escolas, centros comunitários et coetera, acredito que em algum tempo a situação começaria a melhorar.

Porque há uma necessidade de reinvenção do mundo entre as pessoas, e a literatura pode ser um caminho privilegiado para isso. Foi o que aprendi nesses dois dias como aluno e, ainda que por um dia, membro do clube.

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Assunto crônica

Peter P@n e a síndrome do peterpânico

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ilustração: FP Rodrigues

Era uma vez um jovem que, como todos os demais, estava embebido de empoderamento da sua voz como ser social, além de pertencimento da territorialidade mundana e do protagonismo proativo diante da rapaziagem.

Assinava Peter P@n nas redes sociais, assim bem anglófilo mesmo e com direito a arroba, por conta da ampliação da comunicabilidade e porque fica mais da hora. E por isso é que o mancebo tinha bastante seguidores no facebook, insta, twitter, snapchat e outro aplicativo que já saiu de moda entre a escrita dessa crônica e sua publicação. Seu canal no youtube, em que comentava sobre as próprias postagens das outras redes sociais (cujo assunto principal, por sua vez, era a repercussão do canal) começava a bombar e já pensava em fazer livro, caneca e camiseta, a fim de agregar valor no autoimpulsionamento.

Mas Peter, tal como um playmobil, era relativamente articulado. Ainda que mal saísse de casa, participava de todos os abaixo-assinados que chegavam por e-mail, num engajamento de dar gosto. E na segurança virtual (a verdade é que quase não saía de casa) não deixava de atacar maiorias e minorias de acordo com o termômetro do politicamente correto da semana. Assim como o ovo e o café, mudava de postura de acordo com as pesquisas recentes, garantindo likes suficientes para, em poucos meses, começar a se entender como uma celebridade.

O que ninguém desconfiava era que, ambiente doméstico, havia certa preocupação com o fato de o rapaz ter abandonado os estudos para se dedicar à nova profissão. Algo de que o pai desconfiava por não achar aquilo trabalho de verdade, mas a que, por outro lado a mãe dava força – ela mesma começou a surfar na onda virtual que o filho gerava, tendo concedido uma entrevista sobre “a vida pessoal do Peter” para um blog de fofocas.

Os tempos foram passando, passando, as tecnologias evoluindo, evoluindo, até que surgiu um projeto piloto de realidade virtual a que só teriam acesso uns poucos jovens antenados, grupo do qual Peter fazia parte. E nesse mundo novo, chamado de Terra do Sempre, a imersão era um tipo de Matrix, porém mais colorida e cheia de aventuras irresistíveis: luta contra sites piratas, fadinhas, crocodilos e índios. Nessa altura, Pokémon Go era apenas uma referência legal antiga, tipo Atari.

Peter P@n não conseguia sair mais daquela projeção virtual, e o mundo cá de fora, chato pacas e limitado, era apenas tolerável a base de ansiolíticos cada vez mais fortes. Em dado momento, conforme o jovem esperneasse entre frescuras leves e convulsões babantes, a família desistiu de vez e passou a injetar os remédios numa sonda, por onde também começaram a ir os alimentos que o mantinham vivo. O pai, resiliente, parou de reclamar porque o canal Peter na Terr@ do Sempre já trazia rendimentos consideráveis para pagar o whisky 12 anos.

E assim o jovem Peter P@n, atrofiado e plugadão, chegava aos 40 com corpinho e cuca de 15.

Mas a natureza humana tarda mas não falha. Daí que Peter chegou voando em realidade aumentada na casa de uma jovem, por quem ele gamou de cara, fazendo tremer fralda geriátrica que usava no mundo real. A menina, pálida de óculos largos, datilografando poemas concretos numa antiga máquina de escrever, era neo-hipster e abdicava de todas as parafernálias tecnológicas, de modo que ela nem tchum pro adolescente tardio que fazia caras e bocas ali ao lado.

Como os índices de serotonina abaixassem por conta do toco real-virtual, a única solução encontrada foi a família aumentar a dosagem do tarja preta, cujo efeito imediato foi o rapaz converter a rejeição em força produtiva, criando o canal Forevis Young, mais um case de sucesso.

Moral: tem gente que se esforça para ser jovial e mal consegue ser imaturo.

Moral 2: cuidado, update que cresce pra baixo, tipo rabo de cavalo, não te faz um artista underground, mas factualmente pode levar a um montinho de bosta.

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Assunto crônica

Os três porquinhos caçadores de pokémon

FP_Rodrigues_VB_26_julho_16

 

Um conto proativo

Era uma vez três moleques, dois dos quais eram bem gordinhos. Sua adiposidade exagerada não era decorrente do fato de serem jovens suínos, como a leitora pode esperar por conta do título apelativo desta história, mas porque viviam sob a tranquilidade do sedentarismo contumaz. E se eram porquinhos, isso se dava apenas pelo relaxamento com que deixavam pratos, copos e caixas de pizza ao redor, com a preguiça típica dos adolescentes que evitam qualquer esforço físico por conta dos hormônios em profusão galopante.

“Não lavam um copo”, reclamava o terceiro irmão, com Índice de Massa Corporal dentro dos limites e adepto da culinária vegana. Mas a mãe protetora não criticava os outros dois balofos, redistribuindo igualmente eventuais esporros pelos três, mas sem resolver a causa do problema, numa vista grossa que irritava ainda mais o irmão esguio.

Até que um dia a pensão do ex-marido deixou de cair na conta, em virtude de uma onda de desemprego que varreu todo o ecossistema local. Daí que a mãe caiu em si e reparou que era hora de colocar os filhos para contribuírem na composição da renda familiar. Digo, os três não, apenas o mais prestativo, pois os outros dois, coitadinhos, não podiam sair muito de casa.

Sabendo que muito em breve iria se tornar arrimo de família, e ciente da vida molezinha que os irmãos levavam, o filho fitness resolveu se igualar a eles. Simulava indisposição, passou a comer gordura trans em quantidades absurdas e, em pouco tempo, estava prostrado com os outros, numa tríade descomunal e improdutiva.

“Assim não dá”, disse a mãe, que na hora matriculou os três filhos num curso do Sebrae para jovens empreendedores. Com muito esforço, os três se moveram e decidiram criar, via incubadora de empresa júnior, um projeto de micro-habitações para que cada pessoa pudesse se afastar do mundo e apenas ficar morgado. O nome gourmetizado OINC (Observatório Individual de Noções Criativas) vendia melhor para futuros investidores, que esperavam um protótipo para, na sequência, despejarem grana a fim de lucrar com aplicações em escala.

Mas os irmãos não entravam num consenso sobre como desenvolver o primeiro OINC. Dos três gordinhos, o mais devagar queria construir uma cabine de palha:

“Tipo uma oca dos índios, só de boas com a natureza, poxa.”

O segundo, descansado porém malandro, queria mostrar serviço, se preocupando em apresentar algo que estivesse na moda com o ecologicamente correto, mesmo sabendo que não seria capaz de pôr em prática:

“Proponho uma solução sustentável a base de garrafa pet e telhado verde com captação de energia solar, eólica e de água das chuvas. E também um sistema pra reaproveitamento de urina. A fan page do projeto está no ar e tem mil curtidas!”

Já o terceiro, agora adequado ao modo de trabalhar dos dois irmãos, ficou apenas no feijão com arroz:

“Um puxadinho resolve.”

Os investidores, vendo que não havia alinhamento nenhum entre os brothers, decidiram dar corda aos três projetos, para ao fim decidir pelo melhor, num sistema meritocrático e motivador.

Um mês depois, no dia da apresentação, bateu uma chuva de vento que destruiu logo a casinha de palha, que tinha sido construída às pressas na véspera. O segundo não fez a casa, mas mandou uma apresentação em Prezi e outra em Power Point cheia de gráficos coloridos. Já a meia-água do terceiro, apesar de tosca, estava lá, firme e forte. Para provar que funcionava, o novo gordinho ficou dentro da construção, e com o barulhinho da chuva pegou no sono. E assim teve o projeto descartado por ser, segundo a banca, simplista, nada inovador e sem o protagonismo, empoderamento ou pertencimento mínimos numa sociedade plural contemporânea.

Por fim, o projeto escolhido foi o das apresentações coloridas, que bombou em replicações na internet. O porquinho até hoje faz palestras corporativas com títulos como “The OINC Project – um case de sucesso”, sem nunca ter precisado construir uma casa sequer.

Moral: Ter focinho de porco não garante uma tomada de posição.

Moral 2: Você só clicou no texto por causa da palavra pokemón do título? Então eu é que te capturei.

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João e Maria Empowered Youth

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Era uma vez uma periferia urbana no meio da floresta.[1] Nela vivia uma família feliz na maior parte do tempo, exceto quando chovia, ocasião na qual as goteiras tipo chão de estrelas[2] se mesclavam às enchentes[3]. Mas contanto que não cortasse o wi-fi, todo contratempo era passível de superação imediata.

Pai, mãe e dois filhos, que se chamavam João e Maria[4], compartilhavam a rede tranquilamente, sem nenhum comprometer a largura de banda para o outro, até que veio a crise. Que crise?, perguntavam-se, até que sentiram na própria carne quando foi necessário diminuir a quantidade de MB da conexão.

À noite, os pais conversavam enquanto faziam contas e gráficos de risco SWOT:

– Já não são grandinhos demais para ficar em casa? Não é hora de saírem em busca de um sistema meritocrático?, argumentou a mãe empreendedora.

– Sim, essa geração quer moleza. Com a idade deles eu mesmo já tinha o meu 3G próprio!, sustentou o pai, com autoestima elevada.

– Peraí, mas na sua idade o advento da revolução digital nem existia ainda!, lembrou-se a mãe, acusando o pai de superestimar um reles pager que, de fato, o patriarca teve à época[5].

Mal sabia o casal que os dois jovens, apesar de cada um com seu fone de ouvido e aparentemente focado nos canais de vídeo que assinavam, na verdade lançavam mão das propriedades multitarefas da qual a geração Z[6] era dotada. Daí que os moleques ouviram tudo e resolveram problematizar:

– Esses velhos querem roubar o nosso empoderamento!, Maria enviou zap.

– Sim, o nosso protagonismo!, respondeu João pela mesma comunicação expressa.

Em sistema cooperativo, imbuídos de pertencimento e perspectiva de reconstrução do real enquanto sujeitos num mundo pós-moderno e fragmentado, os dois acordaram mais cedo e decidiram, eles mesmos, tomar uma atitude antes proativa do que reativa: preencheram formulário online de intercâmbio numa startup e partiram rumo ao business do negócio[7] que é o mundo corporativo. Quando os pais acordaram, já não havia nenhum feedback da prole e ficaram em dúvida se a iniciativa dos jovens configurava um statement.

Na floresta, João e Maria se guiavam pelo roteiro de captura de pokémons no aplicativo de realidade aumentada que haviam instalado recentemente. Entre pikachus e bubassauros, eis que João avistou logo perto um monstrinho raro:

– Olha, Maria, um guéri-guéri[8] lendário!

O spot em que a trilha os indicava era nada menos que uma lan house totalmente coberta de roteadores wi-fi, mas de sinal fechado, cuja senha era conhecida apenas pela proprietária, uma senhorinha cheia de pertencimento com legging de academia. Ao avistar os dois jovens que já tentava hackear o sistema, a mulher na melhor idade bradou:

– Parem já com isso, que eu domino esse gap geracional!

– Corre, João, que ela é toda vitage!, ordenou Maria, já em dúvida se o choque se tratava de uma vivência ou experiência[9].

Uma vez que não foram bem-sucedidos na empreitada de curto prazo, os dois concluíram que o melhor por hora era voltar para a segurança dos pais, até que outra janela de possibilidades se lhes fosse aberta rumo à conquista da autonomia e liberdade individual enquanto sujeitos subjetivos cientes e conscientes da sua existência em si mesmos e no auto-horizonte de perspectivas e releituras de mundo.

Mas como tivessem capturado todos os pokémons da trilha, não era mais possível encontrar o caminho para casa. E João e Maria foram freelas para sempre.

Moral: A única coisa analógica e digital ao mesmo tempo ainda é o exame de próstata.

Moral 2: Se você é jovem ainda, jovem ainda, amanhã velho será, será.

__________
[1] Não pode seee, bradaria um urbanista tradicional, que postaria logo um textão com indiretas, mas ignorando que as noções de espaço e território transbordam de uma geografia limítrofe e classista em prol de uma noção subjetiva do locus identitário.

[2] Tu pisavas no meu calo, sua distraída!

[3] Note aí, no esquema água de cima e água de baixo, uma aplicação tipo práxis do conceito de modernidade líquida.

[4] Criatividade nos nomes não era o forte dos pais.

[5] O pai fazia estágio na Teletrim e havia sugerido contratar o Papa-Léguas como pássaro propaganda fazendo beep-beep, ideia logo descartada por copyrights e bom senso.

[6] Os mais velhos trollam tal geração como Z de zumbi, na verdade para ocultar o desespero para nomear a geração seguinte, uma vez que acabaram as letras do alfabeto.

[7] Ou o negócio do business?

[8] A evolução do lero-lero.

[9] Cf “Tratado Geral do Oco Exterior”, de Walter Celli.

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Chapeuzinhx Vermelhx

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Outro dia, observando umas discussões acirradas e virulentas nas redes sociais por algo que, no mundo de carne e osso, se resolveria com uma interjeição ou frase nominal, me lembrei de uma série chamada “Contos de fadas politicamente corretos”, do norte-americano James Finn Garner. Nesses meados dos anos 1990, o termo começava se popularizar mundialmente, e os livros se tornaram um grande sucesso.

Essa onda do que hoje se chama “reconto”, categoria específica na literatura para crianças, não é novidade. O nosso grande Millôr Fernandes já fazia isso desde a década de 1940, quando reescreveu, genial como sempre, Chapeuzinho Vermelho simulando a voz de outros escritores, como Rachel de Queiroz e Guimarães Rosa. O próprio Rosa tem sua versão no conto “Fita verde no cabelo”, e o Chico Buarque com o infantil “Chapeuzinho Amarelo”. Poucos leram (e fica a dica) a paródia da Hilda Hilst, no poema “A chapéu”, do livro politicamente incorretíssimo “Bufólicas”.

Todas as narrativas que atravessaram os tempos via oralidade sofreram alterações, contos com pontos aumentados, mas os pastiches intencionais são outro parangolé e ficam mais divertidos. Enfim, mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, como disse o vate caolho, e por isso fica aqui a minha marota contribuição do conto:

Chapeuzinhx começava a compartilhar um post estilo textão sobre a dissolução das representações de gênero além do discurso acerca do pertencimento e territorialidade quando a mãe lhe transmitiu a demanda:

– Leva esses tupperware tudo pra tua vó que ela comprou.

Como não tivesse havido qualquer feedback, foco na telinha, a mãe descansou a mão no pé do ouvido dx filhx com ênfase, ratificando o job:

– Desgruda desse celular, que vou te enfiar orelha adentro pra ver se me escuta. Estopô!

Contrariadx nas suas prioridades individuais, Chapeuzinhx saiu num resmungo a fim de cumprir a campanha. No ponto de ônibus, ficou na dúvida se pegava o expresso, que cortava no zoom pela comunidade do pipoco, ou o parador, que demorava mas dava a volta por fora do risco. Mal sabia que era observadx pelo sujeito peludo e grotesco, cuja camisa tinha uma estampa “vid@ bandid@”.

Como quisesse voltar logo para casa, Peuzim, como era chamadx pela galera, optou pelo trajeto mais rápido, seguidx de pronto pelo outro coletivo adentro.

Entediadx sem o celular e longe do seu mundo, x jovem levantou o capuz vermelho do casaco para não ter que encarar os demais, ainda que a maioria estivesse concentrada no respectivos zaps. Nisso o peludo lhe chega junto:

– Que tem dentro desse monte de pote aí, garotinhx?

– Não é pote, é tupperware, seu desavisado, respondeu Peuzim, notando logo que falava com alguém de extrema direita por conta de tanta ignorância. – E tá tudo vazio. Minha avó, que mora lá pro outro lado, encomendou na revista. Mas isso não é da sua conta.

Hmm, tá beleza, disse o tonyramesco, se afastando e começando a pensar que uma depilação a base de cera talvez o ajudasse.

Desceram no mesmo ponto e cada um seguiu para um lado.

Ao chegar na casa da avó, Peuzim jogou o fardo sobre a mesa e viu que a idosa estava estranha sobre a cama. Ao se chegar perto, indagou:

– O que tá rolando, vó? Caiu o wi-fi? Tá magra, hein. E essas butuca aí?

– Ah, criança, é o Estado que não paga o benefício…

– E esse buço aí, vó? Nunca tinha notado…

– Ah, coisa pequena de vó, é que tenho parente em Portugal…

– Tanto faz. Mas peraí, que dente grande é esse, pô?

– Ah, inocência, fiz dentadura nova. Ainda tô me acostumando com essa canjicada… Mas desde quando você liga pra superficialidade da aparência?

Mas Peuzim deu um salto pra trás, desmascarando a farsa:

– Não rola. Minha avó não liga pra essas frescuras, ela é toda empreendedora. Eu sei quem você é, seu sexista limitado, neocoxinha que não curte nem compartilha! Quer roubar o meu protagonismo, o meu empoderamento!

– Ahh, eu só queria os tupperwares, gritou o Lobão, todo materialista mas nada dialético. Pegou o conjunto de potes de grife e desapareceu feliz correndo pelas ruas.

A avó chegou da excursão a Conservartória e, vendo x netx cabisbaixx, consolou:

– Chapeuzinhx, desapega. Vai arrumar namoradx.

– Vovó, eu gosto é de pessoas, sou todx alteridade… Mas a revista vai virar o mês e eu é que vou ter que pagar. O negócio tá osso.

E saiu atrás de uma lan house onde pudesse postar o ocorrido, visto que ficaria sem o celular por semanas.

Moral: o meio não é mais a mensagem.

Moral 2: olha bem: / a esquerda de quem vai / é a direita de quem vem.

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Correndo na Flip

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Há quem não curta a Festa Literária de Paraty, por diversos motivos que não vou listar aqui, mas que a leitora pode encontrar facilmente no google, caso queira perder tempo com isso. Eu não perderia. Mesmo porque quase sempre que ouço ou leio críticas ao evento observo nas entrelinhas um tipo de efeito plunct-plact-zum: o que eu queria mesmo era ir com vocês… Inclusive é curioso ver autores que tanto criticavam a “micareta de intelectuais” de repente circulando pela cidade e registrando a presença com as inevitáveis selfies. Acho que todo mundo que tem alguma ligação com livros, no fundo, gostaria de estar por lá.

Não há como negar que a Flip apenas trouxe contribuições para a cultura brasileira ao longo desses 14 anos. Inspirou dezenas, talvez centenas de eventos de menor porte no país, tendo como marca a ideia de festa, como diz o nome, e colocando o autor como protagonista. Creio que contribuiu para alterar inclusive as mastodônticas bienais do livro, tradicionalmente compostas pelo enfileiramento de estandes, e que hoje exigem cada vez mais uma programação que permita o encontro entre autores e leitores.

Mas isto aqui é uma crônica, oras. E quando o cronista passa vários parágrafos falando de coisas gerais, entrega que está praticando um tipo de psitacismo enquanto não chegam as particulares, assuntos que realmente nos interessam aqui. Estatísticas e estudos muito intelecutalizados sobre o assunto a leitora pode encontrar nas melhores casas do ramo.

Por isso, enquanto ainda retomo o fôlego depois da minha 14ª visita ao evento, solto um rol de breves registros do que foi a minha Flip em 2016:

1 – Enquanto entrava na mesa de abertura, a única que consegui assistir, encontrei o cronista Humberto Werneck. Ele me olhou e perguntou: “Você não é o Josenildo?” Só um grande cronista começaria um papo com esse nome. Após me identificar como colega de Vida Breve (“sou o das terças, você das sextas; não me reconheceu de imediato por conta dos dois dias do meio”), sentamos juntos e papeamos. Quando o curador da Flip entrou no palco para abrir o evento, ele disse todo orgulhoso ao ver o filho: olha lá, meu parceirão.

2 – No restante dos dias fiquei praticamente de 10 às 22h no espaço do Sesc, onde fiz parte da curadoria, termo que está na moda e parece legal para quem está de fora, mas que na prática significa estar sorrindo todo o tempo para público e artistas enquanto a mente se preocupa incansavelmente com inúmeros detalhes de bastidores.

3 – Ou seja, mal consegui sorver a própria programação que ajudei a organizar. Do céu não se vê o céu, como dizia, se não me engano, o Paulo Mendes Campos. Mas reclamar disso seria uma grande injustiça.

4 – Participei de um papo na programação paralela com o meu amigo e também vida-brevesco Marcelo Moutinho, que a leitora encontra aqui aos sábados. Foi emocionante lembrar em público da nossa primeira Flip, quando só dividíamos mesa de bar. E foi numa mesa de bar, o Coupé, onde fomos comemorar depois. Tradição não se discute.

5 – Ouvi que a Flip diminuiu, mas a minha parece que apenas aumentou.

6 – O evento, mais que uma sequência de palestras, é uma sucessão de encontros. É mais um acontecimento das ruas do que de palcos.

7 – Por isso é que entre ir do ponto A ao ponto B paramos várias vezes ao esbarrar com um conhecido, que nos apresenta outros, comenta-se tal assunto e está iniciada uma pequena reunião, da qual devemos sair correndo tão logo nos lembremos do ponto B. E um trajeto de 300 metros pode levar 20 minutos e 5 rodas de conversa para ser percorrido.

8 – E ao fim de cada encontro dizemos: “vamos marcar um café com calma amanhã”, na vã esperança de que isso aconteça.

9 – Senti falta de encontrar o meu amigo Delfin, escritor e designer paulista que encontro todos os anos por lá. Escrevi uma crônica sobre ele aqui (http://www.henriquerodrigues.net/archives/429). A Flip sem o Delfin pode ser o fim de uma era.

10 – Fala-se em crise. E ela vemos aqui no mundo real. E talvez por isso mesmo é que a Flip e a literatura como um todo são cada vez mais fundamentais para mantermos a sanidade. Ou a insanidade necessária para sobreviver neste mundo doido. Até 2017!

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As palavras pequenas

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Semana passada visitei uma ONG aqui em Jacarepaguá, a fim de fazer uma leitura para as crianças que ela atende. Eram coisa de 30 pessoinhas entre 4 e 6 anos, residentes ali na Cidade de Deus. A minha Bianca estudou com duas das professoras de lá, e sempre dizia que as amigas queriam que eu fosse conhecer a garotada.

Aproveitei o lançamento do novo livro infantil, “Palavras pequenas”, que foi pensado justamente para essa galera, e fomos lá. A Bianca me deu a ideia do livro há uns anos, quando estudava a obra da psicolinguista argentina Emilia Ferreiro. Lembro-me bem: estava dirigindo e a minha mulher – então namorada – me falava sobre essa questão das crianças sentirem dificuldade de representar um elefante, que é uma coisa imensa, com poucas letras, enquanto uma formiga é bem diminuta e tem quase a mesma quantidade de caracteres. Não consigo conversar direito enquanto dirijo, e chego a interromper uma frase no meio quando faço uma curva de 90 graus, retornando a ela apenas quando sigo novamente em linha reta, o que já se tornou motivo de trollagem geral – à qual respondo com o argumento bobo de que homens são focados etc. Mas ainda assim a ideia estacionou num canto da minha cuca e engrenou depois sob a forma desse livro.

Mesmo usando meus moleques aqui em casa como cobaias dos meus escritos para crianças e jovens – espero não estar causando nenhum trauma com os experimentos que não dão certo –, não havia feito ainda um test-drive com um grupo maior de crianças, pois o livro sequer foi lançado. Ele é mais enxuto de texto e maior em termos de ilustrações, feitas pela também argentina Anabella López e, sobretudo, de ideias. Nesses casos, a figura do autor se resume a passar o recado e esperar que elas, as ideias, cutuquem de alguma forma a cabeça dos leitores.

(Peraí, mas não seria essa a função da literatura como um todo, recado e esperança? Bem, por essas e outras que, a meu ver, os livros para crianças trazem sempre algo de fundamental que, muitas vezes, fica em segundo plano no mundo literário dos adultos.)

Em dado momento, quando disse que o protagonista do livro, chamado Leo, descobre que palavras pequenas representam coisas grandes, como “céu”, comentei que se trata de algo muito vasto e distante. “Ninguém consegue tocar no céu, mesmo subindo ali no alto daquele morro, porque fica muito longe”, e apontei para o ponto mais alto nas proximidades, onde fica a Igreja do Loreto.

Depois que terminamos a leitura, a professora conduziu uma oração junto com as crianças, seguida por um mega abraçaço que vai me aquecer para o resto da vida. Não sou religioso stricto sensu, mas no sentido lato foi impossível não segurar as lágrimas com aquela retribuição.

Quando me recuperava, uma menina bem pequenininha se aproximou e disse uma das frases mais agudas e fortes que já li ou ouvi: “Tio, o meu pai tocou o céu”.

E ficou me olhando para ver se eu entendia a sua metáfora, que está além dos livros e, com um poder imenso, inverteu nossa posição, pois agora ela era a escritora que passava recado e esperança para o seu leitor. Surpreendido e atônito, pensei “o meu também, minha amiga, mas você é ainda tão jovem para esse enredo”.

E não formei palavra: na limitação do meu silêncio, como se estivesse fazendo mais uma curva na estrada dos meus dias, consegui apenas dar mais um abraço nela.

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Assunto crônica

Na Flip

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Nesta semana sigo para a minha 14ª Flip. Seguem as participações em Paraty:

Casa Rocco – Quinta-feira (30/06) 17h – “Palavras de cidades, cidades de palavras”. Vou falar com o camarada Marcelo Moutinho. Mediação do Bruno Fiuza.

Casa Sesc – Sexta-feira (01/07) 20h – Vou mediar o papo com os vencedores do Prêmio Sesc de Literatura 2016, os talentosos Franklin Carvalho e Mário Rodrigues.

Off Flip das Letras – Praça da Matriz – Sábado (02/07) 12h – “Fronteiras e sombras: o jogo entre a ficção e o real”. Vou conversar com Taylor Diniz. Mediação de Flávio de Araújo e Stéphane Chao. E logo em seguida, às 13h, vou autografar meu romance “O próximo da fila”.

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Assunto Gerais

O escritor sem livro

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Aproxima-se a Flip, o evento cultural mais legal de São Paulo. Epa! A Festa Literária de Paraty acontece geograficamente no estado do Rio, na pontinha sul fluminense, mas quem já foi sabe que se trata de um evento fundamentalmente paulista. O que é até bom. As trocas só se dão com o diferente.

Fui a todas as edições, seja para flanar e encontrar amigos, como nas primeiras, participar de programações, como outras, ou a trabalho. As últimas têm sido a junção dos três itens, motivo pelo qual tenho saído de lá esgotado. Mas vale cada tropeço naquelas pedras de pé de moleque.

Lembro-me de certa vez, quando escritores de literatura ainda eram a maioria na programação principal, que determinado convidado nunca havia publicado um livro. Não contavam participações em antologias, tampouco os blogs literários, que estavam em alta na época como espaço democrático para se chegar ao leitor e mesmo para que os autores se conhecessem. O importante era ter livro publicado.

Faz todo sentido pensarmos que o escritor se legitima ao ver seu trabalho impresso, costurado ou colado em cadernos cercados por uma capa bonita, com ISBN no verso, texto da orelha com pequena biografia e uma logo de editora, carimbando um selo de qualidade no título e autor. Assim como cineasta aquele que fez e exibiu um filme, artista plástico quem expôs suas produções, músico quem apresentou um espetáculo com suas composições ou de outros, e por aí vai. Coordeno um projeto que descobre autores inéditos, protegidos por pseudônimo, e os coloca numa grande editora. A ideia é que, publicados, iniciem uma carreira literária. Mas a literatura, líquida e etérea, tem algo a mais que foge desse sistema.

Há uns anos, quando frequentava oficina literária, conheci o escritor e jornalista (hoje amigo, felizmente) José Castello. Li de uma tacada o seu livro “Inventário das sombras”, no qual relata a sua experiência com escritores como Hilda Hilst, Raduan Nassar, Bioy Casares e Clarice Lispector. Mas um capítulo me chamou a atenção: “João Rath – o escritor que não escreveu”. Tratava do jornalista com quem Castello convivera, e que possuía uma imaginação muito fértil, como se do seu entorno brotassem narrativas das mais variadas: personagem de um livro jamais escrito. Daí que um conceito de literatura tenha aparecido e me acompanhado desde então, o de que o livro é apenas parte de algo maior. De todas as artes, considero a literatura a mais abstrata, pois ela se dá fundamentalmente no campo das ideias, um mundo silencioso e abstrato que cada indivíduo possui. Assim, o escritor cria como se fosse uma mistura de fonte e mensageiro, meio de campo que faz um lançamento para o seu atacante (o leitor) lá na frente, na esperança de que a jogada termine com um gol.

Estou escrevendo esta crônica em Ribeirão Preto, antes de dar uma palestra na feira do livro local. Há uns dias, uma escritora iniciante reclamou que havia participado de um evento desses e, ao terminar, não havia seu livro para venda aos interessados. Esse paradoxo é bastante comum nos eventos literários de todo porte e incomoda muitos autores, que saem de suas cidades para divulgar algo que não existe para o público presente. Isso renderia outra crônica – ou talvez uma reportagem mais séria e pretensiosa, e fica a dica aos jornalistas da área. No entanto, nossa literatura também está presente nas perguntas, nas conversas e nos abraços partilhamos com os leitores: mesmo nas selfies que adolescentes tiram conosco, para depois nos levar para suas redes sociais. São diferentes jogadas nesse futebol complexo e difícil que é ser escritor no Brasil.

“Livros são papéis pintados com tinta”, já disse o Fernando Pessoa no seu conhecido poema “Liberdade”. Não sei ainda se haverá livros meus para venda ou mesmo se haverá quem se interesse por eles. Trouxe uma meia dúzia na mochila, os quais geralmente não voltam, mas o importante mesmo é a possibilidade da troca de ideias, levar e deixar algo do campo. E se ao fim dessa jogada não houver gol, bater na trave já terá sido um grande lucro.

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POEMAÇO contra o olvido

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Semana passada estive no Ciep que havia sido invadido e depredado. Conforme ameacei na crônica anterior, reuni um grupo de escritores de primeira e fomos lá conversar, ler poesia, gritar, rir e chorar com alunos e professores. Apelidamos o evento de POEMAÇO (assim, em maiúsculas mesmo) e fomos lá no famoso CDA, como é conhecido o Centro Integrado de Educação Pública Carlos Drummond de Andrade.

Fui aluno dessa escola em 1989, ano importantíssimo da nossa história – tanto que usei como ponto de partida para o primeiro romance: queria revisitar a época transportado com o olhar da ficção. Antes, meu irmão e eu tínhamos sido alunos de outro Ciep, na Av. Brasil, onde também retornei há uns anos para conversar com umas turmas. Sempre que passo em frente a essas escolas, um pequeno filme é exibido na cuca, tanto das coisas boas quanto das ruins que aconteceram nesses espaços.

Nosso pingue-pongue sobre a tampa da caixa d’água, vez por outra, era interrompido por um tiroteio que nos fazia correr para dentro do prédio. Nesse período fazemos amigos de quem temos saudade a vida inteira. Reencontrá-los nas redes sociais ameniza um pouco, mas a vida adulta mostra naquelas fotos apenas umas frestas da lembrança, uns vestígios dos garotos que um dia fomos, num sentimento mezzo doce mezzo triste.

Veio agora uma frase do Millôr Fernandes: rever é perder o encanto. Mas revisitar a escola onde se estudou é outro lance. Voltar para o Ciep CDA teve agora um sentido maior que um reencontro – mesmo porque tenho ido lá nos últimos anos, regularmente, inclusive uma aluna me mostrou no celular uma foto nossa do ano passado. Agora a escola tinha sido invadida, quebrada e roubada, como se já não bastasse o abandono pelo qual vem passando ao longo de tantos anos, de tantos governos.

Assim como vários escritores, tenho um carinho especial por escolas. Mesmo não sendo um autor de editoras didáticas – essas que fazem um trabalho mais incisivo nas redes públicas e particulares, algumas colocando a visita do autor condicionada à adoção dos seus livros –, raramente recuso um convite, dando um jeito de encaixar no meu pouco tempo livre. Fui professor de sala de aula por apenas um ano, depois mais um em cursinho, e abandonei uma matrícula da rede estadual mesmo antes de assumir o cargo. Creio que a presença na condição de autor permita um tipo de didática diferente sobre ideias e livros, que se soma ao trabalho da escola – ou talvez só sirva para isso mesmo. Há uns anos, aceitei o convite da Secretaria de Educação do Estado para um cargo de gestor, confiante na possibilidade de fazer mais pela rede pública. Nas reuniões com as outras chefias, via mais especialistas em Power Point e anglicismos da moda do que gente preocupada com os muitos problemas por que passam as escolas. Tratar de questões diretamente ligadas ao ensino era, muitas vezes, motivo de piada, num tipo perverso de bullying. Minha indignação só aumentou.

Assim como política, religião e futebol, é comum encontrarmos a todo tempo especialistas falando bonito sobre educação. De candidatos bem-intencionados a tubarões que fornecem serviços e produtos salvadores, soa estranho quando vemos o que de fato chega à garotada, o que realmente se converte em ensino.

Daí a importância do POEMAÇO. Foi nessa escola que li pela primeira vez o poema “Memória”, do Drummond. O verso “nada pode o olvido” foi estranho porque não conhecia essa palavra – parecia “ouvido” escrito errado. E aprendi, para nunca olvidar, que significava esquecimento.       Semana passada tivemos mais um dia de aula. Écio Salles, Flávia Côrtes, Otávio César Jr. e Letícia Brito, meus atuais colegas de ofício, foram lá comigo e me ajudaram a misturar a vida da escola com a escola da vida, dizendo para aqueles jovens que nunca se esqueçam daquele tempo precioso. Conforme aprendi num livro de literatura, a poesia é atemporal, e por meio dela é que podemos aprender sobre passado e futuro, como se fosse nosso dever de casa.

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